Peter Pan

J. M. Barrie · Capítulo 35 de 48

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Peter Pan

V. A Ilha Se Torna Realidade

V

 

A ILHA SE TORNA REALIDADE

Ao perceber que Peter estava voltando, a Terra do Nunca despertou para a

vida mais uma vez. Eu deveria usar o pretérito-mais-que-perfeito e dizer

despertara, mas despertou é melhor e é o que Peter sempre usa.

Em sua ausência, a ilha em geral fica tranquila. As fadas dormem uma

hora a mais pela manhã, as feras cuidam de seus filhotes, os peles-

vermelhas fazem um banquete por seis dias e noites, e quando piratas e

garotos perdidos se encontram eles simplesmente mordem os dedos uns dos

outros. Mas, com a chegada de Peter, que odeia a preguiça, todos voltam a

se animar. Se colocasse o ouvido no chão agora, você conseguiria ouvir

toda a ilha cheia de vida.

Nesta noite as principais forças da ilha estavam dispostas assim: os

garotos perdidos estavam procurando por Peter, os piratas estavam

procurando pelos garotos perdidos, os peles-vermelhas estavam procurando

pelos piratas, e as feras estavam procurando pelos peles-vermelhas. Eles

andavam em círculos na ilha, mas não se encontravam porque caminhavam

todos na mesma velocidade.

Todos queriam sangue menos os garotos, que normalmente gostavam

de sangue, mas nesta noite haviam saído para receber seu capitão. O

número de garotos na ilha varia, claro, quando alguns morrem e tal; e então

quando eles parecem estar começando a crescer, o que é contra as regras,

Peter desaparece com eles. Desta vez havia seis deles, contando os gêmeos

como dois. Vamos fingir que estamos deitados aqui no meio desse canavial

e observá-los se esgueirando em fila indiana, cada um com a mão em seu

punhal.

Peter os proíbe de se parecerem com ele, e eles usam pele de ursos que

matam para se cobrirem, e com essas roupas eles ficam tão roliços e

peludos que quando caem, saem rolando. Por isso, todos aprenderam a ficar

em pé e poucos caem.

O primeiro a passar é Tootles, não o menos corajoso, mas o mais

azarado de todos os integrantes deste valente bando. Ele participara de

menos aventuras do que os outros porque as coisas grandes normalmente

acontecem sempre quando ele vai ali na esquina; tudo estava tranquilo, ele

decidia aproveitar a oportunidade para pegar um pouco de lenha para a

fogueira, e então quando voltava os outros estavam limpando o sangue

espalhado. Esta má sorte lhe dera um ar de melancolia, mas, em vez de

deixá-lo amargo, sua natureza tornou-se doce, então ele era o mais humilde

dos garotos. Pobre e gentil Tootles, existe um grande perigo no ar nesta

noite. Cuide-se ou você ganhará uma aventura que, se aceita, fará você

mergulhar na mais profunda tristeza. Tootles, a fada Sininho quer fazer uma

maldade nesta noite e está procurando por algo e ela acha que você é o mais

fácil de todos de se enganar. Tome cuidado com a Sininho!

Gostaria que ele pudesse nos ouvir, mas não estamos na ilha, e ele

passa por nós, mordendo os dedos.

Em seguida veio Nibs, feliz e gentil, seguido por Slightly, que faz

flautas com pedaços de árvores e dança freneticamente ao ritmo de sua

própria música. Slightly é o mais convencido dos garotos. Ele acha que se

lembra dos dias antes de se perder, por causa de suas maneiras e costumes,

e isso faz com que ande sempre com o nariz empinado. Curly é o quarto, e

sempre se mete em confusão, e ele sempre tem que se entregar quando

Peter diz em tom severo: “dê um passo à frente aquele que fez isso”. Agora

ele já fica um passo à frente sempre que algo acontece, tendo sido ele o

responsável por isso ou não. Por último vieram os Twins, que são gêmeos e

que não consigo descrever por que certamente descreveria o gêmeo errado.

Peter nunca sabia muito bem o que significava a palavra gêmeos, e seu

bando não podia saber nada mais do que ele, então estes dois eram sempre

vagos sobre si mesmos e faziam seu melhor para não incomodar ninguém e

ficavam sempre juntos com cara de quem está pedindo desculpas.

Os garotos desapareceram na escuridão e, depois de um tempo, mas

não depois de muito tempo, pois as coisas acontecem rapidamente na ilha,

vieram os piratas atrás deles. Nós podemos ouvi-los antes de vê-los, e é

sempre a mesma canção terrível:

Amarre alto, yo-ho, velas ao ar,

Piratas ao mar,

E se um tiro levar

Um dia vamos nos encontrar!

 

Nem no corredor da morte se vê um grupo tão estranho. Aqui, um

pouco à frente, sempre encostando o ouvido no chão para escutar, com os

grandes braços nus, moedas de prata penduradas nas orelhas imitando

brincos, vem o belo italiano Cecco, que talhou seu nome com uma faca nas

costas do diretor da prisão de Gao. O negro gigantesco atrás dele já teve

vários nomes desde que deixou de usar aquele que as mães africanas ainda

usam para aterrorizar suas crianças às margens do Guadjo-mo. Logo depois

vem Bill Jukes, com tatuagens por todo o corpo, o mesmo Bill Jukes que

levou seis dúzias de chibatadas do Capitão Flint no navio Walrus antes de

largar o saco de cruzados de ouro. Depois vem Cookson, que dizem ser

irmão do Black Murphy (mas isso nunca foi provado); e o Gentleman

Starkey, que já foi inspetor de uma escola e ainda mata com frescura; e

Skylights (Skylights do Morgan); e o irlandês Smee, um homem estranhamente simpático que esfaqueava, digamos assim, sem querer

ofender, e era o único membro da tripulação de Gancho que não pertencia à

Igreja Anglicana; e Noodler, cujas mãos eram viradas para trás; e Robert

Mullins e Alf Mason e muitos outros rufiões famosos e temidos nas

colônias espanholas.

No meio deles estava reclinado o maior e mais assustador de todos

naquele ambiente sombrio, James Gancho, ou como ele mesmo assinava,

Jas. Gancho, que diziam ser o único homem que botava medo no grande

Sea-Cook. Ele estava deitado à vontade em uma carruagem tosca carregada

por seus homens e, no lugar da mão direita, tinha o gancho de ferro com o

qual estava sempre os incentivando a andar mais depressa. Eles eram

tratados como cães por este homem terrível, e como cães eles lhe

obedeciam. O Capitão Gancho era moreno e cadavérico, e seu cabelo era

cheio de cachos que, a uma certa distância, pareciam velas negras, e davam

um ar ameaçador ao seu belo rosto. Seus olhos eram azuis como o miosótis

e tinham uma expressão de profunda melancolia, exceto quando ele estava

enfiando o gancho em alguém, pois aí manchas vermelhas apareciam neles

e os deixavam terrivelmente incandescentes. Graças a seus costumes,

Gancho ainda lembrava um pouco um fidalgo, e até para derrotar seu

inimigo ele fazia uso de ares de grandeza. Já me disseram que ele era um

grande contador de histórias. Ficava mais sinistro quando se comportava

com mais polidez, o que provavelmente é a verdadeira marca registrada dos

aristocratas; e a elegância de sua dicção, até quando falava palavrões, assim

como a superioridade de seu comportamento mostravam que ele não era da

laia de sua tripulação. Era um homem de coragem indomável, e dizem que

só se assustava ao ver o próprio sangue, que era grosso e de uma cor

diferente. No vestir, Gancho imitava um pouco as roupas associadas ao rei

Carlos II da Inglaterra, tendo ouvido, em um período anterior de sua

carreira, que era muito parecido com os azarados membros da dinastia

Stuart. Na boca, Gancho tinha uma piteira que ele próprio fabricara e que

lhe permitia fumar dois charutos ao mesmo tempo. Mas, sem dúvida, a

parte mais aterradora de sua aparência era sua garra de ferro.

Vamos agora matar um pirata para mostrar o método de Gancho. Pode

ser o Skylights. Ao passar, Skylights esbarra desajeitadamente no capitão,

amassando sua gola de renda; o gancho dispara e ouve-se o barulho de algo

sendo rasgado e um grito de dor, então o corpo é chutado para o lado e os

piratas seguem em frente. Ele nem chega a tirar a piteira da boca.

Este é o terrível homem contra quem Peter Pan vai lutar. Qual dos dois

vencerá?

Na trilha dos piratas, se esgueirando em completo silêncio pela estrada

a caminho da batalha, que não é visível para os olhos inexperientes, surgem

os peles-vermelhas, todos de olhos bem abertos. Carregam machadinhas e

facas, e seus corpos nus brilham, cobertos de pintura e óleo. Trazem fileiras

de escalpos penduradas em volta de si – escalpos não só de piratas, mas de

meninos também, pois essa é a temível tribo dos Piccaninny, e não deve ser

confundida com os Delawares ou Hurons, que são mais bonzinhos. Na

vanguarda, de quatro, vem o Great Big Little Panther, um corajoso que já

arrancou tantos escalpos que, nesse momento, impedem que ele continue.

No final, que é o lugar mais perigoso, está a Tiger Lily, ereta e orgulhosa,

uma princesa por direito. Ela é a mais linda das Dianas caçadoras e a mais

bela da tribo dos Piccaninnies, vaidosa, sabe ser fria ou doce quando quer.

Todos os bravos da tribo gostariam de se casar com essa menina teimosa,

mas ela foge do altar com uma machadinha. Observe como eles passam

pisando nos galhos caídos no chão sem fazer o menor barulho. O único som

que se ouve é o de sua respiração um tanto pesada. A verdade é que eles

estão todos um pouco gordos agora, depois de terem se empanturrado, mas

com o tempo vão acabar perdendo peso. No momento, porém, este é o

maior perigo para eles.

Os peles-vermelhas desaparecem como surgiram, como sombras, e

logo seu lugar é ocupado pelas feras, um bando enorme e todo misturado:

leões, tigres, ursos e os inúmeros animais selvagens menores que fogem

deles, pois todo tipo de fera e, mais particularmente, todos aqueles que se

alimentam de homens, vivem próximos nesta ilha da qual tanto gostam.

Suas línguas estão penduradas para fora, pois eles estão com bastante fome

nesta noite.

Assim que as feras passam vem o último de todos, um crocodilo

gigante. Logo saberemos por quem ele está procurando.

O crocodilo passa também, mas logo os meninos aparecem de novo,

pois a procissão tem que continuar sem parar até que um grupo pare de

andar ou diminua ou aumente o passo. Então, em pouco tempo, todos vão

chegar à frente do grupo.

Todos estão olhando bem atentos para a frente, mas nenhum deles

suspeita que o perigo pode estar vindo atrás deles. Isso mostra como a ilha é

real.

Os primeiros a saírem do círculo são os garotos. Eles desabaram sobre

a grama, perto do local onde ficava sua casa subterrânea.

— Queria muito que Peter voltasse — diziam todos eles nervosos,

embora em voz, altura e, principalmente, largura, todos fossem maiores que

seu capitão.

— Eu sou o único que não tem medo de piratas — disse Slightly,

naquele tom que o impedia de ser o preferido do grupo.

Mas talvez algum som distante o tenha incomodado, pois ele

acrescentou bem depressa:

— Mas eu queria que ele voltasse, e nos dissesse se descobriu mais

alguma coisa sobre a Cinderela.

Eles conversaram sobre Cinderela, e Tootles acreditava que sua mãe

era muito parecida com ela. Só quando Peter não estava presente é que eles

podiam falar sobre suas mães, o assunto era proibido por ele, pois ele o

considerava uma bobagem.

— Tudo o que lembro sobre minha mãe — disse Nibs a eles — é que

ela sempre dizia para o meu pai: “Ah, como eu queria ter o meu próprio

talão de cheques!”. Não sei o que é um talão de cheques, mas eu ia adorar

dar um para minha mãe.

Enquanto eles conversavam ouviram um som ao longe. Você e eu,

como não somos seres selvagens da floresta, não teríamos ouvido nada, mas

eles ouviram, e era essa terrível canção:

Yo-ho, yo-ho, vida de pirata,

A bandeira do esqueleto na água,

Um momento feliz, a corda amarrar,

E um viva a Davy Jones para lhe saudar.

 

Na mesma hora os garotos – mas onde eles estão? Eles não estão mais

lá. Coelhos não teriam conseguido desaparecer mais rapidamente.

Vou contar a vocês onde eles estão. Com exceção de Nibs, que saiu em

disparada para fazer o reconhecimento do terreno, eles já estão em sua casa

debaixo da terra, uma residência bastante agradável que vamos conhecer

muito bem daqui a pouco. Mas como chegaram lá? Pois não existe

nenhuma entrada à vista, nem mesmo uma pilha de gravetos que, se

removidos, mostrariam a entrada de uma caverna. Olhe mais de perto,

porém, e talvez você perceba que há aqui sete grandes árvores, e cada uma

tem no tronco um buraco do tamanho de um menino. Essas são as sete

entradas para a casa debaixo da terra, pelas quais Gancho vem procurando

sem sucesso há tantas luas. Será que ele encontrará as entradas nesta noite?

Conforme os piratas foram avançando, os olhos rápidos de Starkey

viram Nibs desaparecer no meio da floresta, e logo sacou sua pistola. Mas

uma garra de ferro agarrou seu ombro.

— Capitão, me solte! — gritou ele, tentando se livrar.

Agora, pela primeira vez, vamos ouvir a voz de Gancho. Era uma voz

sombria.

— Primeiro guarde essa pistola — disse ele, em tom ameaçador.

— Era um daqueles meninos que o senhor detesta. Eu poderia ter

matado o danado.

— Sim, e o barulho teria feito com que os peles-vermelhas da Tiger

Lily viessem atrás de nós. Você quer perder seu escalpo?

— Devo ir atrás dele, Capitão? — perguntou Smee, patético. — Posso

fazer cosquinha nele com Johnny Saca-rolhas. Smee tinha nomes

agradáveis para tudo e seu cutelo era Johnny Saca-rolhas, porque ele o

contorcia na ferida.

 

Era possível nomear várias características adoráveis em Smee. Por

exemplo, depois de matar alguém, ele limpava seus óculos e não sua arma.

— Johnny é um camarada silencioso — ele lembrou Gancho.

— Agora não, Smee — disse Gancho, sombrio mais uma vez. — Ele é

só um, e quero pegar todos os sete. Separem-se e procurem por eles.

Os piratas desapareceram entre as árvores, e em um minuto seu capitão

e Smee estavam sozinhos. Gancho deu um profundo suspiro; e eu não sei

por que, talvez seja por causa da suave beleza da noite, mas ele foi tomado

por um desejo de relatar a seu fiel e imediato a história de sua vida. Ele

falou bastante e com muita sinceridade, mas sobre o que ele estava falando

Smee, que é bastante burro, não entendeu nada.

De repente ele entendeu o nome Peter.

— O que eu mais quero — disse Gancho, com raiva — é o capitão

deles, Peter Pan. Pois ele cortou meu braço fora — continuou ele,

brandindo ameaçadoramente o gancho de ferro. — Espero há muito tempo

para apertar a mão dele com isso aqui. Ah, vou acabar com ele.

— E ainda assim — disse Smee —, já ouvi o senhor dizer muitas

vezes que esse gancho vale mais do que mil mãos para pentear o cabelo e

para outros afazeres domésticos.

— Sim — respondeu o capitão. — Se eu fosse uma mãe, ia rezar para

que meus filhos nascessem com isto em vez disso — e olhou orgulhoso

para sua mão de ferro e com desprezo para a outra.

Depois, voltou a franzir o cenho.

— Peter jogou meu braço para um crocodilo que estava passando por

lá — disse ele, com raiva.

— Já percebi o estranho medo que o senhor tem dos crocodilos.

— Não tenho medo de crocodilos — Gancho o corrigiu. — Mas tenho

medo daquele crocodilo.

Ele abaixou a voz:

— Ele gostou tanto do meu braço, Smee, que me segue desde então, de

mar a mar, de terra a terra, lambendo os beiços com vontade de comer o que

sobrou de mim.

— De certa forma — disse Smee —, não deixa de ser um elogio.

— Não quero um elogio desses — soltou Gancho, petulante. — Quero

Peter Pan, que deu um gostinho meu para a fera.

Ele se sentou em um grande cogumelo e então sua voz ficou trêmula.

— Smee — disse ele, com a voz rouca —, aquele crocodilo já teria

conseguido me comer, se não fosse a sorte de ele ter engolido um relógio

que faz tique-taque dentro da barriga dele. Assim, antes de ele conseguir chegar perto de mim, ouço o tique-taque e saio correndo — riu ele, mas

sem alegria.

— Um dia — disse Smee — o relógio vai parar de funcionar, e ele vai

pegar o senhor.

Gancho molhou os lábios ressecados.

— Sim — disse ele. — Esse é o medo que me persegue.

Desde que se sentou, ele vinha sentindo um calor curioso.

— Smee, esse lugar está quente.

Ele deu um pulo.

— Raios e trovões! Mil barbatanas! Estou pegando fogo.

Eles examinaram o cogumelo, que era de um tamanho e solidez

desconhecido na terra; tentaram puxá-lo e ele saiu de uma vez em suas

mãos, pois não tinha raiz. E o mais estranho é que uma fumaça começou a

subir. Os piratas se entreolharam.

— Uma chaminé! — exclamaram os dois.

Eles tinham, realmente, descoberto a chaminé da casa subterrânea. Os

garotos costumavam escondê-la com um cogumelo quando os inimigos

estavam na redondeza.

Não saía apenas fumaça dali. Vinham também vozes de crianças, pois

os meninos se sentiam tão seguros em seu esconderijo que tagarelavam

alegremente. Os piratas ouviram com ar perverso e então colocaram o

cogumelo de volta no lugar. Olharam ao redor e notaram os buracos nas

sete árvores.

— Você ouviu os meninos dizendo que Peter Pan não está em casa? —

sussurrou Smee, mexendo no Johnny Saca-rolhas.

Gancho assentiu. Ele ficou durante um longo tempo perdido em seus

pensamentos, e finalmente um sorriso cruel surgiu em seu rosto moreno.

Smee estava esperando por isso.

— Revele seu plano, capitão! — exclamou ele, ansiosamente.

— Vamos voltar para o navio — respondeu Gancho, devagar com os

dentes cerrados — e fazer um bolo enorme, bem gostoso e com bastante

cobertura. Só pode haver um cômodo aí embaixo, pois tem apenas uma

chaminé. As toupeiras não tiveram o senso de deduzir que não precisavam

de uma porta para cada um. Isso mostra que eles não têm mãe. Deixaremos

o bolo na margem da lagoa das sereias. Esses garotos estão sempre nadando

por lá, brincando com as sereias. Vão encontrar o bolo e devorá-lo, pois, como não têm mãe, eles não sabem que é perigoso comer um bolo tão cheio

de cobertura.

Ele caiu na risada, não uma risada sem alegria agora, mas uma risada

bastante sincera.

— Ahá! Eles vão morrer.

Smee estava escutando, cada vez mais admirado.

— Este é o plano mais terrível e mais maravilhoso que já ouvi —

exclamou ele e, exultantes, os dois começaram a dançar e cantar:

 

Amarre alto, quando eu aparecer

Eles certamente irão temer

Nada restará de seu ser

Quando com o Gancho você se meter.

Não chegaram a terminar os versos, pois um outro barulho surgiu e os

deixou paralisados. Primeiro foi um barulho bem baixinho, que se uma

folha caísse no chão certamente faria um barulho maior, mas com o tempo

foi ficando mais distinto.

 

Tique-taque, tique-taque, tique-taque.

Gancho começou a tremer, com um pé no ar.

— O crocodilo! — exclamou ele e saiu correndo, seguido por seu

imediato.

Era realmente o crocodilo. Ele havia ultrapassado os peles-vermelhas,

que agora estavam na trilha dos outros piratas. Ele rastejava atrás de

Gancho.

Mais uma vez os garotos saíram de casa; mas os perigos da noite ainda

não haviam terminado, pois Nibs chegou correndo e sem conseguir respirar,

perseguido por uma alcateia de lobos. As línguas dos perseguidores

estavam de fora, e seus rosnados eram horríveis.

— Socorro, socorro! — gritou Nibs, caindo no chão.

— Mas o que podemos fazer? O que podemos fazer?

Foi um grande elogio para Peter que, nessa hora tão difícil, eles

pensaram nele.

— O que Peter faria? — perguntaram todos ao mesmo tempo.

Quase ao mesmo tempo também, todos responderam:

— Peter olharia para eles com a cabeça no meio das pernas.

E continuaram:

— Vamos fazer o que Peter faria.

É realmente a maneira mais eficaz de enfrentar os lobos e, no mesmo

segundo, os garotos se inclinaram para a frente, enfiaram a cabeça no meio

das pernas e olharam para os animais. O momento seguinte é aquele que

demora para passar, mas a vitória veio rapidamente, pois os garotos

avançaram sobre eles nessa posição terrível, e os lobos enfiaram seus rabos

entre as pernas e fugiram.

Nibs então levantou-se do chão e os outros pensaram que seus olhos

arregalados ainda viam os lobos. Mas não era os lobos que ele via.

— Vi algo maravilhoso — exclamou enquanto os outros se juntavam

ao lado dele. — Vi um grande pássaro branco. Ele está voando para esta

direção.

— Que tipo de pássaro você acha que é?

— Eu não sei — disse Nibs, maravilhado. — Mas parece estar tão

cansado, e enquanto voa ele murmura “pobre Wendy”.

— Pobre Wendy?

— Eu me lembro — disse Slightly no mesmo instante — que existem

pássaros que se chamam Wendy.

— Olhem, ele está chegado — gritou Curly, apontando para Wendy no

céu.

Wendy estava agora quase acima deles, que podiam ouvir seu lamento

com clareza. Mas, mais distinto ainda era o som agudo da voz da Sininho.

A fada ciumenta agora não tentava mais fingir ser amiga da garota e se

lançava contra sua vítima vindo de todas as direções, beliscando-a

cruelmente sempre que a tocava.

— Oi, Sininho! — exclamaram os garotos.

Sininho respondeu em voz alta:

— O Peter quer que vocês atirem na Wendy.

Não era da natureza deles questionar as ordens de Peter.

— Vamos fazer o que Peter mandou! — exclamaram os garotos. —

Rápido, peguem os arcos e as flechas.

Todos, com exceção de Tootles, pularam nos buracos de suas árvores.

Ele tinha um arco e uma flecha com ele, e Sininho percebeu isso e esfregou

suas mãozinhas.

— Rápido, Tootles, rápido — gritou ela. — O Peter vai ficar tão feliz.

Tootles, animado, colocou a flecha no arco.

— Saia da frente, Sininho! — gritou ele.

E então ele atirou. Wendy caiu no chão com uma flecha em seu peito.

 

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