Peter Pan

J. M. Barrie · Capítulo 21 de 48

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Peter Pan

XXI. William Paterson

XXI

 

WILLIAM PATERSON

Estávamos juntos, nós três, em minha casa. David me contava sobre a

linguagem das fadas e Porthos estava deitado no sofá ouvindo, digamos

assim. Este é o lugar preferido dele em um dia monótono, e embaixo dele

havia algumas folhas de jornal, que eu espalhava ali às vezes para enganar a

empregada, que acha que cachorros devem ficar no chão.

Chazinho mágico é o que devem dizer para as fadas quando querem

que elas deem a vocês uma xícara de chá, mas não é tão difícil falar isso

quanto parece, pois o “z” e “g” precisam ser pronunciados com som de “ch”

e eu me esqueço disso com tanta frequência que David acha que eu vou

encontrar dificuldade em me fazer entender.

— O que você diria — perguntou ele — se quisesse que elas o

transformassem em uma malva-rosa?

Ele acha que a facilidade com que elas transformam você em coisas é

sua qualidade mais atraente.

A resposta seria “plantinha mágica”, mas embora ele já tenha me dito

isso várias vezes, eu sempre me esquecia da palavra “plantinha”.

— Eu nunca sonharia — disse eu (para disfarçar meu desconforto) —

em pedir para que elas me transformassem em nada. Se eu fosse uma

malva-rosa eu logo murcharia, David.

Ele mesmo havia me oferecido esta objeção há pouco tempo, mas

agora ele parecia pensar que aquilo era simplesmente uma bobagem.

— Quando você for murchar — disse ele, aéreo —, diga a elas “volta

mágica”.

Volta mágica significa “me transforme de volta”, e a descoberta de

David me deixou desconfortável, pois eu sabia que até agora ele havia

mantido distância das fadas principalmente porque ele achava que as

transformações que elas faziam eram permanentes.

Então eu o mandei de volta para casa. Ele foi da minha casa para a

casa dele sob os cuidados de Porthos. Posso andar do outro lado sem eles

saberem, mas eles não precisam de mim, pois naqueles momentos nada

faria Porthos se afastar dos cuidados de David. Se alguém se dirige a eles

ele rosna suavemente e mostra os dentes que esmigalham ossos como se

eles fossem biscoitos. E assim, de maneira amigável, os dois chegam à casa

de Mary, onde Porthos late até que a porta seja aberta. Às vezes ele entra

com David, mas nesta ocasião ele se despediu no degrau. Nada demais

nisso, mas ele não voltou para mim, não naquele dia nem no outro dia, nem nas próximas semanas e meses. Eu era um homem perturbado; e David

estava sempre esfregando os olhos. Imaginamos que tínhamos perdido

nosso querido Porthos, pelo menos… Bem, algo preocupante acontecera.

Não sei o que pensar sobre isso até hoje. Eu sei o que David pensa. Mas

você pode pensar o que quiser.

Minha primeira esperança era que Porthos tivesse ido para o Gardens e

ficara trancado lá durante a noite, e assim que os portões foram abertos eu

estava lá fazendo perguntas às pessoas. Mas não havia notícias de Porthos,

embora eu soubesse que acreditavam que alguém passara a noite no

Gardens, um jovem que saiu andando rapidamente no momento em que os

portões foram abertos. Ele não havia dito nada, porém, sobre ter visto um

cachorro. Agora eu temia um acidente, pois eu não conhecia nenhum ladrão

que pudesse roubá-lo, ainda assim até mesmo um acidente parecia ser

inacreditável, ele era sempre tão cauteloso ao atravessar as ruas; e além

disso não poderia ter acontecido um acidente com Porthos sem que

houvesse um acidente com mais alguma coisa.

David no meio de seus jogos de repente se lembrava do grande amigo

e saía para o lado para chorar. Essa era uma das qualidades dele: quando ele

sabia que estava prestes a chorar se afastava para fazer isso e eu sempre

respeitava sua privacidade e esperava até ele voltar. É claro que, como ele

era um garotinho, logo voltava a brincar, mas suas súbitas inundações de

sentimentos, sobre os quais nunca falamos, eram caras para mim naqueles

dias desolados.

Tínhamos um refúgio favorito, chamado de “banco da história”, e

voltamos até ele, não com a intenção de procurar na grama perto dali, onde

Porthos costumava se esparramar, mas não conseguimos evitar de procurar

por todos os lados e para nossa decepção havia um homem sentado no lugar

conhecido. Ele se levantou quando nos aproximamos e deu dois passos em

nossa direção, tão rapidamente que mais pareciam pulos, e então quando ele

viu que passamos por ele indignados achei ter ouvido ele chamar baixinho.

Eu o considerei como sendo uma daquelas pessoas tagarelas que

tentam puxar papo com estranhos, mas no dia seguinte, quando o

encontramos sentado no próprio banco da história, eu o examinei por mais

tempo. Ele estava muito bem vestido, parecia ter menos de vinte anos e um

rosto bonito e melancólico no topo de uma figura pesada, desajeitada e

quase corpulenta, que por outro lado não indicava inatividade; pois o

chapéu roxo de David (uma vaidade de sua mãe da qual ambos sentíamos muita vergonha) voou quando nos aproximamos dele e ele pulou a cerca

sem tocá-la e voltou com ele em três segundos; a única coisa foi que, em

vez de devolver o chapéu para David imediatamente, ele pareceu ficar

esperando que o garoto o fosse buscar.

Você se apresenta a David no momento em que pula a cerca sem tocá-

la, e William Paterson (descobrimos ser este o seu nome) logo se tornou

nosso amigo. Sempre o encontrávamos esperando por nós no “banco da

história”, e o grande e robusto camarada ria e chorava com nossas histórias

como se tivesse três anos de idade. Ele sempre dizia, com um grande

orgulho: “Você está contando a história para mim quase tanto quanto conta

para David, não está?”. Ele tinha uma inocência bastante rara de se

encontrar, e acreditava em histórias das quais até mesmo David

desconfiava. Ele sempre olhava para mim alarmado se David dissesse que

era claro que aquelas coisas não aconteciam de verdade, e sem conseguir

resistir àquele apelo eu respondia que elas aconteciam, sim. Nunca o vi

ficar bravo, exceto quando David ainda estava cético, mas então ele dizia,

advertindo:

— Ele está dizendo que é verdade, então deve ser verdade.

Isso me leva a uma de suas qualidades, que logo me deixou feliz, mas

que também me causou dor, a admiração que ele tinha por mim. Seus olhos,

que às vezes tinham um tom avermelhado, estavam sempre fixos em mim

com carinho, exceto quando eu contava para ele sobre Porthos e dizia que

apenas a morte poderia mantê-lo tanto tempo longe de mim. E então a

simpatia de Paterson por mim era tão grande que ele precisava olhar para o

outro lado. Ele tinha vergonha de falar sobre si e por isso eu não fazia

perguntas pessoais para ele, mas concluí que ele cresceu solitário, por causa

de sua ignorância sobre os assuntos, e sem amor, pois senão ele não teria

sentido tanto carinho por mim.

Eu me lembro muito bem do dia em que a estranha, e certamente

monstruosa, suspeita surgiu em minha cabeça. Havíamos sido levados, nós

três, para minha casa por uma chuva repentina; foi também, eu acho, a

primeira vez que Paterson havia entrado lá.

— Sente-se no sofá, Sr. Paterson — disse eu enquanto puxava uma

cadeira para perto da lareira, e naquele momento tirei os olhos dele. Então

eu vi que, antes de se sentar no sofá, ele estava espalhando o jornal sobre

ele.

— Por que você está fazendo isso? — perguntei, e ele ficou perplexo

com a pergunta. Depois ficou pálido e empurrou o jornal para o lado.

David não havia percebido nada, mas eu estava estranhamente

desconfortável e, apesar de meus esforços para falar, sempre acabava

ficando em silêncio e era tirado dele pela sensação de que Paterson estava

me olhando escondido. Puf! Que imaginação era essa. Afastei aqueles

pensamentos de mim e para provar, digamos assim, que eles tinham ido

embora, pedi a ele que levasse David para casa. Assim que fiquei sozinho,

eu me joguei no chão gargalhando, e então rapidamente dei um pulo e fui

atrás deles, bastante sensato também, pois de repente me veio um estranho

pensamento de que Paterson havia saído com David sem perguntar onde ele

morava.

Ao vê-los à minha frente, atravessei a rua e os segui. Eles andavam um

ao lado do outro, de maneira bastante solene, e talvez nada de muito

importante tenha acontecido até eles chegarem à porta da casa de David.

Digo talvez, pois alguma coisa aconteceu. Uma dama, que tinha vários

lindos motivos para frequentar o Gardens, reconheceu David na rua, e

estava se inclinando para falar com ele quando Paterson fez algo que a

assustou. Eu estava longe demais para ver o que era, mas ele gritara:

— Tire as mãos!

Ela fugiu o mais rápido que pôde. Ele então marchou com os pés

pesados até a porta onde, com firmeza, fez algo estranho. Em vez de bater

na porta ou tocar a campainha, ele ficou no degrau e gritou alto:

— Hei, hei, hei! — até que a porta fosse aberta.

A extravagância, pois não podia ser nada diferente disso, me deixou

sem dormir naquela noite; vocês podem me imaginar experimentando os

dois lados do travesseiro.

Eu me lembrei de outras coisas estranhas de Paterson, e elas voltaram

para mim carregadas de novos significados. Havia a sua maneira de apertar

as mãos. Agora ele fazia aquilo do jeito comum, mas quando nos

conhecemos seus braços descreviam um círculo, e sua mão às vezes não

alcançava a minha e batia com força em meu peito. Seu andar, também,

mais parecia um gingado.

Seu agradecimento também. Ele raramente ia embora sem me

agradecer com uma intensidade que era fora de proporção ao pouco que eu

havia feito por ele. No Gardens ele parecia sempre preferir a grama ao

assento, talvez uma escolha sábia, mas ele tinha uma maneira incomum de se sentar. Só consigo descrevê-la dizendo que ele soltava o corpo e se

esparramava no chão.

Eu me lembrei da ocasião em que ele almoçou comigo no Clube.

Comemos costela e notei que ele comia seu prato de maneira um tanto

delicada, mas deixei a mesa por um momento para olhar o carrinho de

doces e vi, quando voltei, que não havia nenhum osso em seu prato. Os

garçons estavam olhando para ele de maneira curiosa.

David era bastante parcial com relação a ele, mas demonstrava isso de

maneira singular, costumava acariciar sua cabeça, por exemplo. Eu me

lembro também que, enquanto David gritava comigo ou com Irene para

chamar nossa atenção, ele normalmente assobiava para Paterson, e não

sabia explicar o porquê.

Esses fantasmas me faziam suar na cama, não somente naquela noite,

mas sempre quando algum novo choque me trazia de volta com força,

embora durante o dia me incomodassem pouco. O dia, porém, tinha suas

reflexões, e elas surgiam quando eu me barbeava, naqueles dez minutos

quando, colocado face a face com as duras realidades da vida, vemos as

coisas com mais clareza. Então a linda natureza de Paterson aparecia

ofensivamente, e seus olhos honestos me insultavam. Ninguém que

chegasse aos vinte anos de idade tinha o direito de ter tamanha fé em seus

semelhantes. Ele não conseguia caluniar, nem invejar, nem prevaricar, nem

pular nos motivos mesquinhos de atos generosos. Ele não tinha nem uma

história para contar sobre mulheres. Tudo parecia inumano.

Que criaturas somos nós! Eu tinha um pouco de vergonha da confiança

de Paterson em mim, mas quando vi que ela estava começando a diminuir

eu lutei por ela. Uma tarefa fácil, pode-se dizer, mas não foi fácil, pois

gradualmente uma mudança se sobrepunha à juventude. Cheguei agora em

uma época em que o bom coração escapara dele; ele havia perdido seu

gosto pela diversão, e havia uma dubiedade tão certa em seus olhos. Ele não

duvidava de mim, ainda não, mas da natureza humana em geral; aquela

construção nobre estava cambaleando. Ele se misturava aos garotos no

Gardens; ah, mães, é difícil dizer isso, mas como ele poderia conservar sua

inocência ao se misturar com os garotos? Ele ouvia suas conversas sobre

vocês mesmas e então, senhoras, aquela parte da construção desmoronou.

Não tenho coragem de acompanhá-lo em suas descobertas. Às vezes ele

ficava inflamado com elas, mas na maioria das vezes ele ficava olhando,

abismado e mudo, como alguém gemendo por dentro.

Ele via tudo como um mundo novo; antes ele tinha tempo de respirar

sobre o vidro. Assim como aconteceria com sua criança, senhora, se

nascesse com os poderes de um homem, e quando ficasse desiludida com

todo o resto, ela voltaria atrás de um momento maior com você, a mulher

sobre quem, antes de vê-la, ela ouvira tanto falar. Como você tentaria

enganá-la, assim como eu tento esconder meu verdadeiro ser de Paterson, e

você ainda iria tentar, assim como eu tento, depois que soubesse que o jogo

acabou.

Os olhos tristes de Paterson me desnudavam. Havia dias em que eu

não suportava olhar para ele, embora certamente eu tenha deixado de ser

um homem vaidoso há bastante tempo. Ele ainda se encontrava conosco no

Gardens, mas durante horas ele e eu ficávamos juntos sem conversar. Foi

assim no último dia, um daqueles muitos dias em que David, depois de ter

passado a noite espirrando, fora mantido em casa, e eu me sentei sozinho

com Paterson no banco da história. Por fim eu me dirigi a ele. Nunca

havíamos conversado sobre o que prendia nossas línguas, e eu só queria

dizer agora que precisávamos ir, pois logo os portões se fechariam, mas

quando olhei para ele vi que havia mais tristeza do que antes; ele fechou os

olhos com tanta força que uma gota de sangue caiu deles.

— Estava tudo terminado, Paterson, há muito tempo — disse eu,

severamente —; por que insistimos?

Ele juntou as mãos com tristeza e ainda assim me lançou olhares

apelativos com muita afeição por mim.

— Você esperava muito de mim — disse a ele, e ele abaixou a cabeça.

— Não sei de onde você tirou suas grandes ideias sobre homens e mulheres.

Não quero saber — acrescentei, com seriedade.

— Mas deve ter sido de um mundo mais bonito do que este.

Disse eu:

— Você tem certeza de que foi sábio em passar por isso?

Ele se levantou e sentou-se de novo.

— Eu queria saber — respondeu ele, devagar —, eu queria ser como

você.

— E agora você me conhece — disse eu. — Você ainda quer ser como

eu? Sou uma pessoa curiosa com quem se relacionar, Paterson; você não vê

que até mesmo David sempre ri de mim quando acha que não está sendo

observado? Luto bastante para manter o amor daquele garotinho; mas eu

devo perdê-lo logo; até mesmo agora eu não sou o que já fui um dia para ele; em um ou dois anos no máximo, Paterson, David vai crescer longe de

mim.

O pobre camarada esticou a mão para mim, mas:

— Não — disse eu. — Você descobriu como eu sou. Todos descobrem

como eu sou exceto meu cachorro, e é por isso que a perda dele faz tanta

diferença para mim. Podemos ir, Paterson?

Ele não quis vir comigo e por isso eu o deixei no banco; quando eu já

estava bem distante dali olhei para trás e ele ainda estava sentado lá,

desesperado.

Durante muito tempo não consegui fechar meus ouvidos naquela noite.

Fiquei deitado ouvindo, não sei o quê. Eu tinha um medo dentro de mim

que me deixava incomodado com o escuro e acendi a luz e finalmente

dormi. Fui acordado por uma grande algazarra bem cedo, com os criados

animados, e minha porta se abriu, e o querido Porthos de quem eu sentira

tanta falta entrou. Eles o haviam ouvido latir, mas ninguém sabia de onde

ele veio.

Ele estava em excelentes condições e depois de ter pulado em todas as

partes do meu corpo eu o joguei no chão com um truque que eu conhecia, e

me deitei ao lado dele, e ele colocou seus braços protetores em volta de

mim e olhou para mim com aqueles velhos e adoráveis olhos.

Mas nunca vimos Paterson novamente. Vocês podem pensar o que

quiserem.

 

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