Peter Pan

J. M. Barrie · Capítulo 23 de 48

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Peter Pan

XXIII. Pilkington

XXIII

 

PILKINGTON

Quando atingem os oito anos de idade, ou algo próximo disso, as crianças

voam para fora do Gardens e nunca mais voltam. Quando vocês as

encontram novamente, elas são damas e cavalheiros segurando seus guarda-

chuvas e chamando por um carro de aluguel.

Não sei para onde vão as garotas, devem ir para algum lugar em

particular, eu acho, para arrumar seus cabelos, mas os garotos vão para a

casa do Pilkington. Ele é um homem com uma bengala. Você não vai para a

casa do Pilkington usando as calças curtas feitas pela sua mãe, com tanto

cuidado. Elas precisam ser calças de verdade. Essa é a regra. Daí a terrível

fascinação de Pilkington.

Ele pode ser visto colocando suas iscas no anzol e usando calças curtas

de verdade, e passa o dia todo pescando no Gardens, que para ele é apenas

um lago cheio de peixinhos.

Sombra abominável! Não sei que tipo de homem és na carne, senhor,

mas imagine-se barbudo e com cabelo preto, e com um corpo esguio e

tortuoso, que está sempre assobiando. Todas as manhãs, eu juro, ele lê

avidamente a lista de nascimentos de meninos em seu jornal, e então suas

mãos são esfregadas vivamente uma na outra. É o medo dele, da roupa dele

e da bengala dele, que são parte dele, que faz com que as fadas se escondam

durante o dia; caso apenas uma vez fosse atormentá-las entre as horas de

fechamento e abertura dos portões, não sobraria nenhum lugar agradável em

todo o Gardens. As pequenas sairiam voando. Elas são muito mais espertas

do que os garotos que nadam glamourosos atrás de seu engenhoso anzol.

Você, devastador do Gardens, eu conheço você, Pilkington.

Ouvi falar sobre Pilkington pela primeira vez através de David, que

ouvia falar dele por Oliver Bailey.

Este Oliver Bailey era uma das figuras mais arrojadas do Gardens, e

sem esforço aparente se aproximava diariamente do fim de seu sétimo ano

de idade enquanto David parecia ser incapaz de passar dos cinco anos e

meio. Preciso falar sobre ele no passado, pois Oliver foi embora do Gardens

(foi embora para a casa de Pilkington), mas ele ainda é um nome entre nós,

e algumas de suas atitudes nobres ainda são lembradas, como o fato de seu

pai se barbear duas vezes ao dia. O próprio Oliver estava nessa escala.

Sua ambição não desprezível parece sempre ter naufragado em uma

ilha, na verdade me disseram que ele mencionou isso de maneira insinuante

em suas orações, e talvez fosse inevitável que um menino com tal ponto de vista fascinasse David. Tenho orgulho, portanto, de poder afirmar que foi

Oliver quem fez a proposta inicial.

Ao ouvir pela primeira vez, de algum satélite de Oliver, sobre as Ilhas

das Ruínas, como são chamadas no Gardens, David disse melancolicamente

que achava que você precisa ser muito bom antes de ter qualquer condição

de ser arruinado, e a observação foi transmitida a Oliver, que ficou um

pouco desconfortável com aquilo. Durante algum tempo ele tentou evitá-lo,

mas por fim David foi apresentado a ele e foi convidado a repetir o que

havia dito. O resultado foi que Oliver anunciou ao Gardens sua intenção de

ser bom até completar oito anos de idade, e se ele não estivesse arruinado

ao chegar nesta idade, ele seria tão mau quanto um menino poderia ser. Ele

era naturalmente tão mau que no jardim de infância, quando a diretora

ordenava que quem houvesse feito a última travessura desse um passo à

frente, o costume de Oliver era dar o passo à frente, não necessariamente

por ter sido ele quem fez a travessura, mas porque presumia que era muito

provável tê-la feito.

A amizade dos dois começou nesta época e, a princípio, achei que

Oliver havia descoberto a generosidade ao tratar David como um igual; ele

também andava de mãos dadas com ele, e até chamava sua atenção por

algumas delinquências como um adorável irmão mais velho. Mas o mundo

é cruel até mesmo no Gardens, pois descobri que uma nova combinação

havia sido feita, que reduzia Oliver ao tamanho de uma vida. Ele se cansou

de fazer o bem e passou isso, por assim dizer, para seu amigo. Em outras

palavras, agora pesava em David a missão de ser bom até os oito anos de

idade, enquanto Oliver se agarrava a ele com tanta força que era impossível

um não ser destruído sem levar o outro junto.

Quando tomei conhecimento disso já era tarde demais para quebrar o

encanto de Oliver. David tinha muito orgulho dele e acreditava muito nele.

Comecei a me ver deixado de lado, pois Oliver deixava claro que se

entediava com a minha presença e até David parecia achar que seria mais

conveniente que eu fosse me sentar com Irene. Vocês vão rir de mim?

Fiquei realmente incomodado, e solitário, e bastante amargo; e como me

tornei humilde. Às vezes quando Joey, o cachorro, não consegue convencer

Porthos a brincar com ele, ele fica em pé em suas patas traseiras e implora

pela sua atenção, e eu acredito que em alguns momentos eu fui tão humilde

quanto Joey. Então David insistia para que eu ficasse com eles por causa de

meu sofrimento, mas era claro que ele não tinha nenhuma vontade de me ter

por perto.

Não era um problema importante e eu me desprezava por isso. Durante

anos briguei com Mary para ter a companhia de David, e não fracassei

totalmente embora ela tenha a vantagem por ter um relacionamento mais

próximo com ele; será que agora eu seria deixado de lado com tanta

facilidade por causa de um menino de sete anos de idade? Reconsiderei

minhas armas e lutei contra Oliver e venci. Guardem para vocês a ideia de

que aqueles dois garotos se tornaram tão próximos de mim quanto meu

casaco quando o visto.

Fiz isso com as ilhas das ruínas. Comecei da maneira mais

despretensiosa contando para eles uma história que poderia durar uma hora

e, favorecido por um vento bastante inesperado ela durou dezoito meses.

Começou com a ruína de uma família suíça simples, que olhou para cima e

viu uma árvore, mas logo uma inspiração gloriosa que tive durante a noite

transformou a história da ruína de David A----- e Oliver Bailey. Primeiro foi

sobre o que eles estavam a ponto de fazer quando foram arruinados, mas

imperceptivelmente se transformou no que eles tinham feito. Passei

bastante tempo encarando pensativo os títulos das histórias de garotos nas

vitrines das livrarias, procurando por inspiração, digamos assim, e então

descobri que os títulos eram até mais úteis do que as próprias histórias.

Destruímos todo o mundo digno de nota, incluindo os personagens mais

emocionantes de Homero e o heróis de Paraíso Perdido. Mas permitimos

que eles não atracassem. Tiramos deles o que quisemos e os deixamos a

navegar pelos altos mares sem aventuras. E tudo isso era apenas o começo.

Neste momento eu já estava na ilha. Não era minha proposta, mas

David conhecia meus desejos, e já tinha combinado com Oliver. Eles me encontraram entre as ondas com um cachorro grande, que havia me mantido

flutuando naquela noite horrorosa. Eu era o único sobrevivente do

malfadado Anna Pink. Eu estava tão exausto que eles precisaram me

carregar para sua cabana, e fiquei muito agradecido quando abri meus olhos

e me vi naquela construção romântica e não no depósito de Davy Jones.

Enquanto caminhávamos no Gardens contei a eles sobre a cabana que

haviam construído; e eles ficaram orgulhosos, mas não se mostraram

surpresos. Por outro lado, procuravam por alguma surpresa em meu olhar.

— Contamos para você sobre a tartaruga que colocamos de cabeça

para baixo? — perguntou Oliver, remetendo-se a feitos deles, sobre os quais

eu já havia contado a eles.

— Sim, contaram.

— Quem virou? — perguntou David, não como alguém que precisa da

informação, mas como se fosse um professor.

— Foi virada — disse eu — por Davi A-----, o mais novo dos dois

jovens.

— Quem fez os macacos jogarem cocos nele? — perguntou o mais

velho dos dois.

— Oliver Bailey — respondi eu.

— Foi Oliver — perguntou David animado — que encontrou o

coqueiro primeiro?

— Pelo contrário — respondi —, quem viu a árvore primeiro foi

David, que imediatamente subiu nela, observando: “é certamente um

coqueiro, pois, veja, caro Oliver, as colunas delgadas que sustentam a coroa

de folhas que caem com uma graça que nenhuma arte pode imitar”.

— Foi isso mesmo o que eu disse — observou David, balançando a

mão.

— Eu também disse coisas desse tipo — insistiu Oliver.

— Não, você não falou isso naquela hora — disse David.

— Falei, sim.

— Não falou, não.

— Cala a boca.

— Bom, então vamos ouvir o que você disse.

Oliver parecia estar me fazendo um apelo.

— Você disse o seguinte — anunciei —; Oliver disse: “é verdade,

camarada, e embora os perigos desses acontecimentos sejam grandes e

nossas privações calculadas para partir o mais forte dos corações, para ser recompensado por tais belas visões eu suportaria provações ainda maiores e

ainda me regozijaria, tal como o pássaro em seu galho longínquo”.

— Foi isso mesmo o que eu disse! — gritou Oliver.

— Eu atirei no pássaro — disse David, instantaneamente.

— Que pássaro?

— O pássaro que estava no galho.

— Não atirou, não.

— Eu não atirei no pássaro?

— Foi David quem atirou no pássaro — disse eu — mas foi Oliver

quem viu graças à sua plumagem muito colorida que era um Psittacidae, um

excelente substituto para a perdiz.

— Você não percebeu isso — disse Oliver, bastante vaidoso.

— Percebi, sim.

— O que mais você percebeu?

— Percebi aquilo.

— Aquilo o quê?

— Cala a boca.

— David atirou nele — retomei — e Oliver sabia seu nome, mas eu o

comi. Vocês se lembram como eu estava com fome?

— Com muita fome! — disse David.

— Fui eu quem cozinhei — disse Oliver.

— Foi servido com torrada — eu os lembrei.

— Fui eu quem preparei a torrada — disse David.

— Torradas da árvore de macadâmia — disse eu —, que (como os dois

comentaram ao mesmo tempo) têm duas e às vezes até três safras ao ano, e

também produzem uma goma muito boa para lançar canoas.

— Eu lancei a minha melhor — disse Oliver.

— Eu lancei a minha mais longe — disse David.

— E quando eu terminei de comer — disse eu —, vocês me

surpreenderam ao me entregar um cigarro que fizeram a partir de uma

planta de tabaco.

— Eu entreguei para você — disse Oliver.

— Eu preparei a ponta — disse David.

— E então — disse eu — você me deu o fogo.

— Qual de nós? — gritaram os dois ao mesmo tempo.

— Os dois — disse eu. — Nunca vou me esquecer de como fiquei

impressionado quando vi vocês providenciarem fogo esfregando dois pauzinhos.

Ao ouvirem isso, os dois balançaram a cabeça.

— Você não teria conseguido fazer isso! — disse David.

— Não, David — admiti —, eu não sei fazer isso, mas é claro que sei

que todos os garotos que sofrem um naufrágio sabem fazer isso com

facilidade. Me mostre como vocês fizeram.

Mas depois de conversarem longe de mim os dois decidiram não me

mostrar. Eles não me mostravam tudo.

David agora estava bastante convencido que ele já havia sofrido um

naufrágio e fora para uma ilha, enquanto Oliver passou seus dias em

dúvida. Eles costumavam conversar sobre isso um com o outro e entre seus

amigos. Quando eu contava a história, Oliver a escutava com uma faca na

mão, e David, que não tinha permissão para ter uma faca, usava uma

bandana de pirata em volta da cintura. Irene, que costumava interferir, foi

contra a história toda e disparou comentários sobre ilhas arruinadas que

merecem pouco crédito. Eu queria afrontá-la, mas David, que tinha um jeito

com mulheres, conhecia uma melhor maneira de lidar com ela. Ele

astuciosamente propôs que a “deixássemos entrar”, em suma, deveríamos

arruiná-la, e embora eu me opusesse a isso, ela se mostrou ser um grande

sucesso e reconheceu a yucca filamentosa graças a suas folhas longas e

estreitas no dia em que se juntou a nós. Depois disso não zombamos mais

de Irene, que ouvia a história com o mesmo entusiasmo do que qualquer

outra pessoa.

Isso nos encorajou na época a deixar que o pai e a mãe de David se

juntassem a nós, apesar de que eles nunca saberiam dela se nós não a

contássemos, e não tenho dúvidas de que ele o fez. Eles foram admitidos

para agradar a David, que tinha um coração muito bom e sabia que

enquanto estivesse na ilha os dois deveriam estar sentindo muito a sua falta

em casa. Então nós os deixamos entrar, e não havia nenhuma outra parte da

história que ele gostava tanto quanto aquela que contava a alegria que fora

este encontro. De qualquer maneira, precisávamos de uma outra mulher,

alguém mais romântico do que Irene, e Mary, posso garantir a ela agora,

tinha muito trabalho. Ela era sempre levada por canibais, e David tornou-se

bastante adepto a arrancá-la da panela e pular de penhasco em penhasco

com seu adorável fardo nos braços. Raramente havia um sábado em que

David não matasse seu homem.

Agora vou mostrar a vocês a prova de que David acredita que tudo

aquilo era verdade. Quem me contou isso foi Oliver, que ouviu isso de

nosso próprio herói. Eu havia descrito para eles como os selvagens tatuaram

o pai de David, e Oliver me contou que uma noite, logo depois disso, David

foi pego levantando suavemente o cobertor das pernas de seu pai para olhar

os pássaros e répteis gravados nele.

E então muitos meses tinham se passado sem ouvirmos nada a respeito

de Pilkington, e vocês podem estar se perguntando onde ele estava durante

esse tempo todo. Ah, meus amigos, ele estava ocupado pescando, embora

eu ainda não tivesse conhecimento de sua existência. De repente ouvi o

rugido de sua maldita bobina quando ele pegou um peixe. Eu me lembro

daquele dia sombrio com uma vivacidade dolorosa, era um dia úmido, na

verdade acho que sempre tem chovido desde então. Assim que eles se

juntaram a mim eu vi, pelas maneiras dos dois garotos, que eles tinham algo

para me dizer. Oliver cutucou David e deu alguns passos para trás, enquanto

David disse para mim com ar solene:

— Oliver vai para Pilkington.

Imediatamente achei que era alguma escola, mas eu sabia tão pouco

sobre a importância do que David me contara que gritei, brincando: “Espero

que você não leve umas chicotadas, Oliver”.

Era evidente que eu magoara os dois, pois eles trocaram olhares e se

retiraram para conversar atrás de uma árvore, e então David voltou e disse,

com ênfase:

— Ele vai levar duas jaquetas, duas camisas e duas calças curtas, todas

de verdade.

— Muito bem, Oliver! — disse eu, mas eu estava falando a coisa

errada novamente. E mais uma vez os dois desapareceram atrás da árvore.

Era claro que os dois decidiram que chegara a hora de falar claramente

comigo, pois agora David soltou:

— Ele não quer mais que você o chame de Oliver.

— E como eu devo chamá-lo?

— Bailey.

— Mas, por quê?

— Ele vai para Pilkington. E ele não pode mais brincar com a gente

depois do próximo sábado.

— Por que não?

— Ele vai para Pilkington.

Então eu entendi a regra da coisa, e nós seguimos juntos, Oliver se

esforçando e até David, eu pensei, tentava parecer calmo.

— David — disse eu em voz baixa —, você vai para Pilkington?

— Quando eu tiver oito anos — respondeu ele.

— E então eu não vou poder mais te chamar de David e você não vai

mais brincar comigo no Gardens?

Ele olhou para Bailey, e Bailey sinalizou para ele se manter firme.

— Ah, não — disse David, alegremente.

Assim descobri rapidamente quanto tempo mais eu ainda teria com ele.

É estranho que um garotinho possa causar tanta dor. Soltei sua mão e

caminhei em silêncio, e logo cometi a maior de minhas grosserias ao

terminar a história abruptamente, de maneira bastante cruel.

— Dez anos se passaram — disse eu — desde que falei pela última

vez com eles, e nossos dois heróis, agora jovens homens felizes, estão

revisitando a ilha em ruínas de sua infância. “Nós estávamos arruinados?”,

perguntou um deles, “ou havia alguém lá para nos ajudar?”. E o outro que

era o mais jovem respondeu: “Acho que havia alguém para nos ajudar, um

homem com um cachorro. Acho que ele costumava me contar histórias no

Kensington Gardens, mas eu esqueci tudo sobre ele; não me lembro nem de

seu nome”.

Esse final da história incomodou Bailey, e ele se afastou de nós, mas

David ainda andava ao meu lado, e estava tão quieto que eu sabia que uma

tempestade estava se armando. De repente despejou sobre mim:

— Não é verdade — gritou ele —, isso é mentira!

Ele segurou minha mão.

— Eu não vou me esquecer de você, pai.

É estranho o fato de um garotinho poder proporcionar tanto prazer.

Ainda assim, continuei:

— Você vai se esquecer, David, mas já existiu um garoto que teria se

lembrado.

— Timothy? — disse ele, imediatamente.

Ele acha que Timothy era um garoto de verdade, e tem muito ciúme

dele. Ele se virou de costas para mim, e ficou sozinho, chorando, enquanto

eu esperava por ele. Vocês podem ter certeza de que pedi perdão e fiz as

pazes com ele, e o fiz rir, deixei-o feliz novamente antes que ele fosse

embora. Mas, de qualquer maneira, o que eu disse era verdade. David não é

meu garoto e ele vai se esquecer. Mas Timothy teria se lembrado.

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