Peter Pan
XVIII. A Cabra de Peter
XVIII
A CABRA DE PETER
Maimie ficou um tanto tímida, mas Peter não sabia o que significava ficar tímido. — Espero que você tenha dormido bem — disse ele, sério.
— Obrigada — falou ela —, eu fiquei bem aconchegada e aquecida. Mas você… — e olhou, sem jeito, para a nudez do menino. — Você não sente frio?
Ora, “frio” era mais uma palavra que Peter esquecera, e ele respondeu:
— Acho que não, mas posso estar errado: sou um tanto ignorante, sabe? Não sou exatamente um menino; Solomon diz que sou um nem-isso-nem-aquilo.
— Esse é o nome, então… — disse Maimie, pensativa.
— Esse não é o meu nome — explicou ele —, meu nome é Peter Pan.
— Sim, é claro — disse ela —, eu sei, todo mundo sabe.
Vocês não imaginam o quanto Peter ficou contente de saber que todas as pessoas o conheciam fora dos portões. Ele pediu a Maimie que lhe contasse o que sabiam e o que diziam, e ela contou. Os dois estavam sentados em uma árvore caída a essa altura. Peter removera um pouco de neve para que Maimie se sentasse; quanto a ele, sentara-se na neve mesmo.
— Fique mais junto de mim — disse Maimie.
— Como assim? — perguntou ele.
Maimie explicou, e ele se aproximou dela. Os dois começaram a conversar, e Peter descobriu que as pessoas sabiam muitas coisas a respeito dele, mas não tudo, não que ele havia voltado para sua mãe e que tinha encontrado a janela vedada, e não contou nada disso para Maimie, pois ainda se sentia humilhado.
— As pessoas sabem que eu brinco e jogo exatamente como os meninos de verdade? — perguntou ele, transbordante de orgulho. — Maimie, conte para elas, por favor!
Porém, quando Peter contou como brincava, como fazia sua argola navegar no Round Pond e assim por diante, ela ficou simplesmente horrorizada.
— O seu jeito de brincar, em todos os jogos — afirmou ela, com olhos arregalados — é totalmente, totalmente errado, não é assim que os meninos brincam, nem um pouco!
O pobre Peter soltou um pequeno gemido diante disso e chorou, pela primeira vez em não sei quanto tempo. Maimie se compadeceu muitíssimo dele, e lhe emprestou seu lenço, mas Peter não sabia o que fazer com aquilo, e ela lhe mostrou, ou seja, ela limpou os olhos, e então devolveu o lenço para ele, dizendo “Faça você agora”, mas em vez de limpar os próprios olhos ele limpou os dela, e ela achou melhor dar a entender que Peter tinha feito a coisa certa.
Maimie disse, por compaixão:
— Posso lhe dar um beijo, se você quiser.
Houve um tempo em que Peter sabia o que era um beijo, mas já esquecera por completo; ele respondeu:
— Obrigado — e estendeu a mão, achando que ganharia um objeto.
Isso foi um grande choque para Maimie, mas ela sentiu que envergonharia o menino se contrariasse sua expectativa; com encantadora delicadeza, ofereceu para Peter um dedal que, por acaso, encontrou no bolso, dando a entender que o dedal era um beijo. Pobre menininho! Acreditou nela, e até hoje usa o objeto em seu dedo, embora não haja ninguém no mundo que precise menos de um dedal do que ele. Embora Peter fosse ainda uma criança pequena, já haviam se passado anos e anos desde que vira sua mãe, e ouso dizer que o bebê que o suplantara era agora um homem com bigode.
Não pensem, porém, que Peter Pan merecesse mais compaixão do que admiração; Maimie se compadecera dele no começo, mas logo concluíra que não havia motivo para sentir pena. Os olhos da menina reluziram de admiração quando Peter falou de suas aventuras, principalmente quando ele contou como se deslocava entre a ilha e o Gardens no ninho do tordo.
— Que romântico! — exclamou Maimie.
Mas essa era mais uma palavra desconhecida, e ele baixou a cabeça, sentindo-se depreciado.
— Creio que Tony jamais faria isso, não? — perguntou, humilde.
— Nunca, nunca! — respondeu ela, convicta. — Ele teria muito medo.
— O que significa ter medo? — perguntou Peter, sôfrego; achou que devia ser algo esplêndido. — Queria muito que você me ensinasse a ter medo, Maimie — pediu.
— Acho que ninguém seria capaz de ensinar isso a você — respondeu ela, com veneração.
Mas Peter pensou que ela o achava tolo. Maimie lhe falara sobre Tony, sobre a maldade que ela cometia no escuro para assustar o irmão (ela sabia muito bem que aquilo era maldade). Peter, no entanto, não captara o sentido da história, e disse:
— Ah, como eu queria ter a coragem que Tony tem!
Maimie ficou irritada:
— Você é vinte mil vezes mais corajoso do que ele, você é de longe o menino mais corajoso que eu já conheci!
Peter mal pôde acreditar que ela falava sério; quando acreditou, gritou de alegria.
— E se você quiser muito me dar um beijo — disse Maimie —, vá em frente.
Com muita relutância, Peter começou a tirar o dedal do dedo. Achou que ela o queria de volta.
— Eu não quis dizer “beijo” — ela logo disse. — Quis dizer “dedal”.
— O que é isso? — perguntou Peter.
— É assim — disse ela, e o beijou.
— Eu adoraria lhe dar um dedal — disse Peter, com ar grave, e deu.
Ele lhe deu uma boa quantidade de dedais; e em seguida teve uma ideia maravilhosa!
— Maimie — disse Peter —, você quer se casar comigo?
É estranho dizer: a mesma ideia ocorrera a Maimie, exatamente ao mesmo tempo.
— Eu gostaria muito — respondeu ela —, mas haverá espaço para dois no seu barco?
— Se você ficar bem junto de mim… — disse ele, animado.
— Pode ser que os pássaros se aborreçam.
Ele assegurou que os pássaros adorariam tê-la entre eles; eu, no entanto, não teria tanta certeza. E além disso os pássaros eram poucos no inverno.
— Eles provavelmente tentariam pegar as suas roupas — admitiu Peter, com a voz fraca.
Maimie ficou um pouco revoltada com isso.
— Eles pensam o tempo inteiro em seus ninhos — disse ele, em defesa dos pássaros. — E ficariam muito entusiasmados com você, de certa forma — acrescentou, acariciando a peliça fofa de Maimie.
— Eles não vão pegar a minha peliça de jeito nenhum — disse ela, inflamada.
— Não, não! — exclamou ele, ainda acariciando a peliça. — Ah, Maimie — continuou, enlevado —, eu amo você, sabe por quê? É porque você é como um ninho perfeito.
Isso a aturdiu, de certa forma.
— Acho que agora você está falando mais como pássaro do que como menino — disse ela, recuando.
De fato, Peter parecia um pássaro agora, até mesmo na aparência.
— Afinal de contas — Maimie falou —, você não passa de um nem-isso-nem-aquilo.
A afirmação o magoou tanto que ela logo acrescentou:
— Deve ser maravilhoso ser um nem-isso-nem-aquilo.
— Venha comigo, então, e você será como eu — implorou ele.
E eles se encaminharam para o barco, porque a hora da abertura dos portões estava chegando.
— E você não se parece nem um pouco com um ninho — sussurrou Peter, para agradá-la.
— Mas acho que é incrível ser como um ninho — disse ela, em uma afirmação contraditória, tipicamente feminina. — Ah, Peter, querido, não vou dar meu casaco para os pássaros, mas não acharia ruim se eles construíssem um ninho nele. Imagine só um ninho no meu pescoço, com ovinhos manchados dentro! Peter, seria simplesmente uma graça!
Quando chegaram mais perto do Serpentine, porém, ela sentiu um calafrio e disse:
— É claro que vou viajar para ver minha mãe muitas vezes, muitas vezes. Não é que eu esteja dando adeus à minha mãe para sempre, não, nem um pouco.
— É claro — falou ele.
No fundo do coração, contudo, ele sabia que era, sim, para sempre, e teria dito isso a Maimie, se não estivesse sentindo um tenebroso medo de perdê-la. Gostava tanto dela, não conseguiria viver sem ela. “Ela vai esquecer a mãe com o tempo, e vai viver feliz comigo”, ficava dizendo para si mesmo, e a apressava, dando dedais para ela no caminho.
No entanto, mesmo depois de ter chegado ao Serpentine e de ter exaltado, em êxtase, a graciosidade do barco, Maimie ainda falava sobre a mãe, trêmula.
— Você sabe muito bem, Peter, que eu não iria com você se não tivesse certeza de poder voltar para a minha mãe sempre que quisesse, não é? Diga, Peter!
Ele disse, mas já não conseguia olhá-la no rosto.
— Se tem certeza de que sua mãe sempre vai querer a sua volta — acrescentou, amargo.
— Que ideia! Mamãe não querer a minha volta! — exclamou Maimie, e seu rosto corou.
— Se ela não barrar você — disse Peter, áspero.
— A porta — retrucou Maimie — estará sempre, sempre aberta, e mamãe estará sempre me esperando.
— Então — disse Peter, não sem crueldade — entre no barco, se tem tanta confiança nela — e ajudou Maimie a subir no ninho do tordo.
— Por que você não olha para mim? — perguntou Maimie, pegando no braço dele.
Peter fez muito esforço para não olhar, tentou se soltar dela, e então engoliu em seco e saltou para a margem e se sentou, miserável, na neve.
Maimie foi até ele.
— O que foi, querido? — ela quis saber, preocupada.
— Ah, Maimie — choramingou ele —, não é justo levá-la se você acha que vai poder voltar. A sua mãe… — ele engoliu em seco de novo. — Você não conhece as mães tão bem quanto eu.
E então ele contou a pesarosa história de como tinha sido barrado pela mãe, e Maimie ficou sem ar todo o tempo enquanto isso.
— Mas a minha mãe — disse ela —, a minha mãe…
— Sim, ela faria a mesma coisa — disse Peter. — São todas iguais. Arrisco dizer que ela já está em busca de outro bebê.
Maimie falou, horrorizada:
— Não posso acreditar. Veja, Peter, quando você foi embora a sua mãe só tinha você, mas a minha mãe tem Tony, e tenho certeza de que as mães ficam satisfeitas em ter pelo menos um filho.
Peter retrucou, com amargura:
— Você precisa ver as cartas que Solomon recebe, de mulheres que já têm seis.
Bem nesse momento eles ouviram um rangido metálico, seguido por mais um ranger e por mais outro, ruídos vindos de todos os cantos do Gardens. Era a abertura dos portões, e Peter saltou para dentro do barco, nervoso; sabia que Maimie não viria mais com ele, e tentava, com bravura, não chorar. Mas Maimie soluçava dolorosamente.
— Se eu não conseguir sair — exclamou ela, em agonia —, ah, Peter, se ela já tiver outro bebê!
Peter pulou para a margem de novo, como se ela o tivesse chamado de volta.
— Vou procurar por você no parque hoje à noite — disse ele, chegando bem junto dela. — Mas se você se apressar, acho que chegará a tempo.
E então ele depositou um último dedal nos doces lábios de Maimie, e cobriu o rosto com as mãos para não a ver indo embora.
— Querido Peter! — exclamou ela.
— Querida Maimie! — exclamou o trágico menino.
Ela se jogou nos braços dele, como em um casamento de fada, e então saiu correndo. Como ela disparou em direção aos portões! Peter, tenha certeza, voltou ao Gardens, naquela noite, assim que soou o fechamento dos portões, mas não encontrou Maimie nenhuma, e assim soube que ela conseguira sair. Por muito tempo, teve esperança de que em uma noite qualquer ela voltaria para ele; em várias ocasiões, chegando ao parque com sua barca, via a menina na margem do Serpentine, à espera dele, mas Maimie nunca voltou. Ela quis voltar, mas temeu que, se visse outra vez o seu amado nem-isso-nem-aquilo, acabaria se demorando demais com ele, e além disso a aia a vigiava com severidade agora. Mas ela sempre falava de Peter com adoração, e tricotou um descanso de chaleira para ele, e um dia, quando estava tentando pensar em um presente de Páscoa para o menino, sua mãe fez uma sugestão.
— Nada seria tão útil para ele quanto uma cabra — disse ela, pensativa.
— Ele poderia montar nela — exclamou Maimie — e tocar sua flauta ao mesmo tempo!
— Você não quer dar sua cabra para ele, a cabra com a qual você assusta Tony à noite?
— Mas não é uma cabra de verdade — disse Maimie.
— Para Tony ela é de verdade — respondeu sua mãe.
— Ela é totalmente de verdade para mim também — admitiu Maimie —, mas como eu poderia entregá-la para Peter?
Sua mãe sabia como, e no dia seguinte, acompanhadas por Tony (que era na verdade um ótimo menino, embora não se pudesse compará-lo com Peter, é claro), elas foram ao Gardens, e Maimie se posicionou sozinha dentro de uma arena de fadas, e então sua mãe, que era uma dama muito sábia, perguntou:
Minha filha, diga, por favor,
O que é que Peter Pan vai ganhar de seu amor?
E Maimie respondeu:
Uma cabra, para montar,
Veja como pretendo a criatura lançar.
A menina estendeu os braços para todos os lados, como se estivesse jogando sementes, e girou sobre si mesma três vezes.
Tony, por sua vez, disse:
Se P. encontrar a fera,
nunca mais precisarei ter medo dela?
E Maimie respondeu:
Seja na luz, seja no escuro,
Cabra nenhuma jamais haverá, eu juro.
Ela também deixou uma carta para Peter, em lugar visível; explicava nela o que fizera e orientava Peter a pedir às fadas que transformassem a cabra imaginária em uma cabra que pudesse ser montada. Bem, tudo se concretizou como ela quis, pois Peter encontrou a carta, e nada podia ser mais fácil para as fadas do que transformar a cabra de Maimie em uma cabra real, é claro, e portanto foi assim que Peter ganhou a cabra que ele cavalga todas as noites pelo Gardens, tocando melodias sublimes com sua flauta. E Maimie manteve sua promessa e nunca mais assustou Tony com cabras, mas ouvi falar que ela inventou outro animal. Até se tornar uma garota bem grande, continuou deixando presentes para Peter no Gardens (com cartas que explicavam como os humanos brincavam com eles), e ela não é a única a fazer isso. David, por exemplo, também deixa presentes para Peter, e ele e eu conhecemos o lugar mais adequado para deixá-los, e podemos contar para vocês onde ele fica, se vocês quiserem, mas não nos perguntem na presença de Porthos, por misericórdia; se o cão descobrisse o lugar, roubaria todos os presentes.
Embora Peter ainda se lembre de Maimie, ele fica mais alegre a cada dia, e muitas vezes, no auge da felicidade, ele salta de sua cabra e se deita na relva, dando chutes festivos no ar. O menino se diverte tanto! Mas conserva uma vaga lembrança de que foi humano um dia, e por isso ele é especialmente carinhoso com as andorinhas-dos-beirais quando elas visitam a ilha, porque são os espíritos das criancinhas que morreram. Elas constroem seus ninhos nos beirais das casas em que viveram quando eram humanas, e às vezes tentam entrar pelas janelas dos quartos de criança; talvez em função disso, Peter as ame mais do que a todas as outras aves.
E a pequena casa? Agora, a cada noite útil (ou seja, todas as noites, menos nas noites de baile) as fadas constroem a pequena casa, para o caso de haver uma criança humana perdida no Gardens, e Peter cavalga pelos charcos em busca de crianças perdidas, e se encontra alguma ele a leva em sua cabra até a pequena casa, e quando a criança acorda ela está dentro da casa, e quando sai da casa ela a vê. As fadas só constroem a casa porque ela é linda, mas Peter cavalga pelo parque em memória de Maimie, e porque ainda adora fazer as coisas que acha que meninos de verdade fariam.
Mas vocês não devem pensar, só porque a pequena casa está reluzindo em algum lugar entre as árvores, que é seguro permanecer no Gardens depois do fechamento dos portões. Se fadas más estiverem à solta nessa noite, elas certamente serão cruéis com vocês, e mesmo que não encontrem fadas, vocês poderão morrer de frio e de escuridão, antes que Peter Pan chegue. Peter chegou tarde demais diversas vezes, e quando vê que chegou tarde demais ele corre de volta até o ninho do tordo para pegar seu remo, cuja real utilidade lhe foi revelada por Maimie, e ele cava uma tumba para a criança e ergue uma pequena lápide e grava nela as iniciais da pobrezinha. Ele faz essas coisas de imediato, sem perder tempo, porque acha que meninos de verdade fariam o mesmo, e você já deve ter topado com as pequenas pedras tumulares, e deve ter notado que são sempre duas juntas. Peter enterra as crianças em pares pois acha que assim é menos solitário. Eu acho que o que há de mais tocante, no Gardens, é a visão das duas lápides de Walter Stephen Matthews e Phoebe Phelps. Elas podem ser vistas, juntas, no lugar em que, segundo se diz, a paróquia de Westminster St. Mary faz fronteira com a paróquia de Paddington. Aqui Peter encontrou os dois bebês, que tinham caído de seus carrinhos, despercebidos, Phoebe com treze meses de idade e Walter com menos meses, provavelmente; Peter não inscreveu idade na pedra do menino, por delicadeza, ao que parece. Os dois jazem lado a lado, e as simples inscrições dizem:
David às vezes deposita flores brancas nessas duas inocentes tumbas.
Mas como é estranho, para os pais, entrar correndo no Gardens, na abertura dos portões, e procurar pelo filho perdido, e encontrar a graciosa lápide. Espero que Peter não esteja usando seu remo neste momento. É tudo muito triste.
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