Peter Pan
III. Venham, Venham!
III
VENHAM, VENHAM!
Durante algum tempo depois que o Sr. e a Sra. Darling deixaram a casa, as luzinhas ao lado das camas das três crianças continuaram a brilhar. Eram luzinhas muito boas, e é impossível não lamentar que não tenham conseguido ficar acesas para ver Peter; mas a luzinha de Wendy piscou e deu um bocejo tão grande que as outras duas bocejaram também, e antes de fecharem suas bocas as três se apagaram.
Havia uma outra luz no quarto agora, mil vezes mais brilhante do que as luzinhas noturnas, e no tempo que levei para dizer isso, a luz entrou em todas as gavetas do quarto das crianças, procurando pela sombra de Peter, vasculhando o armário e procurando dentro de cada bolso que encontrou. Não era realmente uma luz; ela emitia sua luz ao se mover tão rápido quanto um raio, mas quando parou para descansar por um segundo era possível ver que era uma fada, não muito maior do que a sua mão, mas ainda estava crescendo. Era uma garota, chamada Sininho, que usava uma linda roupinha feita de folhas secas, bem curtinha e reta, e que lhe caía muito bem, embora ela tendesse levemente a ser mais “cheinha”.
Um minuto depois de a fada entrar, as janelas foram abertas graças ao sopro das pequenas estrelas, e Peter apareceu dentro do quarto. Ele havia carregado Sininho em uma parte do caminho, e suas mãos ainda estavam sujas com pó de fada.
— Sininho — chamou ele baixinho depois de se certificar de que as crianças estavam dormindo —, Si, cadê você?
Naquele momento ela estava em uma jarra, e estava gostando bastante dali, nunca vira uma jarra antes.
— Ah, saia dessa jarra e me diga, você sabe onde guardaram minha sombra?
A adorável fadinha dos sininhos dourados lhe respondeu. É a linguagem das fadas. Vocês, crianças comuns, nunca conseguem ouvi-las, mas se conseguissem escutar saberiam que vocês já ouviram essa língua antes.
Sininho disse que a sombra estava na caixa grande. Ela queria dizer na gaveta da cômoda, e Peter pulou nas gavetas, espalhando seu conteúdo no chão com suas duas mãos, como fazem os reis ao atirar moedas para a multidão. Em um momento ele recuperou a sombra, e em seu entusiasmo ele se esqueceu de que havia fechado Sininho dentro de uma gaveta.
Se ele tivesse pensamentos, mas não acredito que tenha, seria de que ele e sua sombra, ao ficarem perto um do outro, se juntariam como gotas d’água; e quando não se juntaram, ele ficou horrorizado. Ele tentou grudá-la com sabão que encontrou no banheiro, mas também não deu certo. Peter sentiu um arrepio, sentou-se no chão e chorou.
Seus soluços acordaram Wendy, e ela se sentou na cama. Ela não ficou assustada ao ver um estranho chorando no quarto das crianças; ficou apenas bastante curiosa.
— Ei garoto — disse ela, com educação —, por que você está chorando?
Peter podia ser extremamente educado, pois aprendeu a se comportar em cerimônias de fadas, e levantou-se e curvou-se lindamente para ela. Ela ficou muito feliz e também se curvou lindamente para ele do alto de sua cama.
— Qual é o seu nome? — perguntou ele.
— Wendy Moira Angela Darling — respondeu ela com alguma satisfação. — E qual é o seu nome?
— Peter Pan.
Ela já tinha certeza de que ele deveria ser Peter, mas mesmo assim achou o nome bastante pequeno.
— Só isso?
— Sim — respondeu ele, um pouco irritado.
Pela primeira vez ele achou seu nome curto mesmo.
— Desculpe — disse Wendy Moira Angela.
— Não tem problema — soluçou Peter.
Ela perguntou onde ele morava.
— Na segunda à direita — respondeu Peter —, e depois siga em frente até o amanhecer.
— Que endereço engraçado!
Peter ficou chateado. Pela primeira vez ele pensou que talvez aquele fosse mesmo um endereço engraçado.
— Não, não é — disse ele.
— Quero dizer — disse Wendy, de maneira simpática, lembrando que ela era a anfitriã —, é isso que escrevem nas cartas?
Ele desejou que ela não tivesse falado em cartas.
— Não recebo cartas — disse ele, com desprezo.
— Mas sua mãe não recebe cartas?
— Não tenho mãe — disse ele.
Ele não só não tinha mãe, como também não tinha a menor vontade de ter. Ele as achava pessoas muito exageradas. Wendy, porém, logo percebeu que estava diante de uma tragédia.
— Ah, Peter, não é à toa que você estava chorando — disse ela, e levantou-se da cama e correu para abraçá-lo.
— Eu não estava chorando por causa das mães — disse ele bastante indignado. — Estava chorando porque não consigo grudar minha sombra em mim. Aliás, eu não estava chorando.
— Ela desgrudou?
— Sim.
Então Wendy viu a sombra no chão, parecendo toda amarrotada, e ela sentiu pena de Peter.
— Que horror! — disse ela, mas não conseguiu evitar que um sorriso se formasse quando viu que ele a estava tentando colar com sabão.
Tão típico de um garoto.
Felizmente ela logo soube o que fazer.
— Ela precisa ser costurada — disse ela, com um certo ar de superioridade.
— O que é costurada? — perguntou ele.
— Você é terrivelmente ignorante.
— Não sou não.
Mas ela estava exultante com sua ignorância.
— Vou costurar para você, meu pequeno camarada — disse ela, embora ele fosse do mesmo tamanho que ela; e ela pegou sua caixinha de costura e prendeu a sombra no pé de Peter.
— Devo dizer que vai doer um pouquinho — advertiu ela.
— Não vou chorar — disse Peter, que já estava acreditando que nunca havia chorado na vida. E cerrou os dentes e não chorou; e logo sua sombra começou a se comportar de maneira adequada, embora ainda um pouco amassada.
— Talvez eu devesse tê-la passado a ferro — disse Wendy pensativa; mas Peter, como acontece com os garotos, não se importava com as aparências, e agora estava pulando por todos os lados na maior felicidade. Infelizmente, ele já havia se esquecido de que devia sua felicidade a Wendy. Achou que ele mesmo havia prendido a sombra em seu corpo.
— Como sou esperto! — gabou-se ele. — Ah, como sou muito esperto!
É humilhante ter que confessar que essa arrogância de Peter era uma de suas qualidades mais fascinantes. Para falar com total franqueza, nunca existiu um garoto mais arrogante.
Mas, naquele momento, Wendy ficou chocada.
— Seu convencido! — exclamou ela com um terrível sarcasmo. — Você não fez nada!
— Você ajudou um pouco — disse Peter, sem muita preocupação, e continuou a dançar.
— Um pouco! — respondeu ela, orgulhosa. — Se eu não sirvo para nada, então posso pelo menos me retirar — e então ela pulou de maneira bastante elegante em sua cama e cobriu o rosto com o cobertor.
Para convencê-la a olhar para ele, Peter fingiu que ia embora. Quando isso não adiantou, ele se sentou na ponta da cama e cutucou seu pé com delicadeza.
— Wendy — disse ele —, não se retire. Não consigo deixar de me gabar, Wendy, quando estou feliz comigo mesmo.
Ainda assim ela não olhou para ele, embora o escutasse com atenção.
— Wendy — continuou ele, em um tom de voz ao qual nenhuma mulher consegue resistir —, Wendy, uma garota vale mais do que vinte garotos.
Agora Wendy era uma garota em cada centímetro de seu corpo, embora não houvesse muitos centímetros em seu corpo, e ela olhou para fora do cobertor.
— Você acha isso mesmo, Peter?
— Sim, eu acho.
— Acho isso muito gentil da sua parte — declarou ela — e vou me levantar de novo.
E então ela se sentou ao lado dele na cama. Ela também disse que lhe daria um beijo se ele quisesse, mas Peter não sabia o que ela queria dizer com aquilo e segurou sua mão esperando pelo beijo.
— Você tem certeza de que sabe o que é um beijo? — perguntou ela, impressionada.
— Vou saber quando você me der um — respondeu ele, irritado; e para não magoar seus sentimentos Wendy lhe deu um dedal.
— E agora, que tal eu lhe dar um beijo? — perguntou ele.
Ela respondeu com um pouco de vergonha:
— Por favor.
Ela foi até um pouco oferecida ao inclinar o rosto na direção dele, mas ele simplesmente arrancou um dos botões da roupa e colocou em sua mão; então ela levou devagar o rosto para onde ele estava antes, e disse com delicadeza que usaria seu beijo na corrente que tinha em volta do pescoço. Foi realmente uma sorte ela o colocar na corrente, pois mais tarde aquilo salvaria sua vida.
Quando as pessoas são apresentadas, é comum perguntarem a idade umas das outras, então Wendy, que sempre gostava de fazer as coisas certas, perguntou a idade de Peter. Esta não era exatamente uma boa pergunta para se fazer a ele; era como chegar à escola e descobrir que tinha prova de gramática quando você estudou para a prova de história.
— Eu não sei — respondeu ele incomodado —, mas sou bastante jovem.
Ele realmente não sabia nada sobre isso, apenas suspeitava, mas disse em um impulso:
— Wendy, eu fugi de casa no dia em que nasci.
Wendy ficou bastante surpresa, mas interessada; e indicou, de maneira bastante educada como fazem as garotas, tocando sua camisola, que ele podia sentar-se perto dela.
— É que ouvi meu pai e minha mãe conversando sobre o que eu seria quando crescesse — explicou ele em voz baixa.
Ele estava bastante agitado agora.
— Não quero nunca me tornar um adulto — disse ele, com raiva. — Quero ser criança para sempre, e me divertir. Por isso fugi para o Kensington Gardens e vivi bastante tempo com as fadas.
Ela lançou um olhar de bastante admiração para ele e Peter pensou que era porque ele tinha fugido, mas na verdade era pelo fato de ele conhecer as fadas. Wendy vivera uma vida tão caseira que, para ela, conhecer fadas parecia um sonho. Ela fez várias perguntas sobre elas, para a surpresa dele, pois ele as achava chatas, sempre se metendo na vida dele, e, na verdade, algumas vezes elas lhe davam umas palmadas. Ainda assim, ele gostava das fadas em geral, e contou a ela sobre o surgimento das fadas.
— Sabe, Wendy, quando o primeiro bebê riu pela primeira vez, sua risada se quebrou em milhares de pedaços, e todos os pedaços saíram pulando, e foi assim que as fadas surgiram.
Aquela era uma história pouco interessante, mas como ela era uma garota caseira, acabou gostando dela.
— E então — continuou ele, simpático —, deveria existir uma fada para cada menino e para cada menina.
— Deveria existir? Não existe?
— Não. As crianças sabem de tanta coisa hoje em dia, logo elas deixam de acreditar nas fadas, e sempre que uma criança diz “eu não acredito em fadas”, existe uma fada em algum lugar que cai morta.
Agora Peter achou que eles já tinham falado bastante sobre fadas e estava intrigado com o fato de Sininho estar muito quieta.
— Não sei onde ela se meteu — disse ele, levantando-se e chamando a fadinha pelo nome.
Wendy sentiu um arrepio com tanta emoção.
— Peter — gritou ela, agarrando-o —, você não vai me dizer que tem uma fada neste quarto!
— Ela estava aqui agora mesmo — disse ele um pouco impaciente. — Você não está ouvindo ela falar, não é?
— O único som que ouço — disse Wendy — é um barulhinho de sino.
— Sim, é a Sininho, essa é a linguagem das fadas. Acho que estou ouvindo também.
O barulho vinha de uma gaveta da cômoda e Peter fez uma cara feliz. Ninguém conseguia ficar com a expressão tão feliz quanto a de Peter, e a risada mais adorável do mundo era a dele. Ele ainda guardava a sua primeira risada.
— Wendy — sussurrou ele, com alegria —, acho que a tranquei na gaveta!
Ele soltou a pobre Sininho da gaveta e ela voou pelo quarto das crianças gritando furiosa.
— Você não devia dizer esse tipo de coisas — respondeu Peter. — É claro que eu sinto muito, mas como é que eu poderia saber que você estava dentro da gaveta?
Wendy não escutava o que ele dizia.
— Ah, Peter — exclamou ela —, se ela pudesse ficar parada para que eu a visse direito.
— Elas raramente ficam paradas — disse ele, mas por um momento Wendy viu a linda imagem pousar no relógio cuco para descansar.
— Ah, que amor! — exclamou ela, embora Sininho estivesse fazendo uma careta de raiva.
— Sininho — disse Peter, cordialmente —, essa moça diz que queria que você fosse a fada dela.
Sininho deu uma resposta insolente.
— O que foi que ela disse, Peter?
Ele precisou traduzir:
— Ela não é muito educada. Ela disse que você é uma menina muito grande e feia e que ela é a minha fada.
Ele tentou argumentar com Sininho:
— Você sabe que não pode ser minha fada, Sininho, porque eu sou um rapaz e você é uma garota.
Para responder a isso, Sininho pronunciou palavras:
— Imbecil — e desapareceu para dentro do banheiro.
— Ela é uma fada bastante ordinária — explicou Peter, tentando desculpar-se. — Ela é chamada de Sininho porque faz um barulhinho de sino quando está consertando panelas e chaleiras.
Eles estavam sentados juntos na poltrona agora e Wendy continuou fazendo perguntas a Peter.
— Se você não mora mais no Kensington Gardens…
— Às vezes ainda moro.
— Mas onde você mora a maior parte do tempo agora?
— Moro com os garotos perdidos.
— Quem são eles?
— São as crianças que caem dos carrinhos de bebês quando as babás estão olhando para o outro lado. Se ninguém vai buscar essas crianças em sete dias, elas são enviadas para a Terra do Nunca, para ajudarem nas despesas. Eu sou o capitão.
— Isso deve ser muito divertido!
— É, sim — disse Peter, esperto —, mas somos bastante solitários. Veja só, não temos a companhia de nenhuma menina.
— Nenhum deles é menina?
— Ah, não. As garotas são espertas demais para caírem de seus carrinhos.
Isso deixou Wendy bastante lisonjeada.
— Eu acho a maneira como você fala sobre as meninas perfeitamente adorável — disse ela. — Já John, aquele menino ali, nos despreza.
Como resposta Peter levantou-se e chutou John para fora da cama, com cobertor e tudo; deu um chute só. Isso pareceu bastante abusado para um primeiro encontro e Wendy o advertiu em tom enérgico dizendo que ele não era o capitão ali, na casa dela. Mesmo assim, John continuou a dormir tão tranquilamente no chão que ela permitiu que ele continuasse ali.
— E eu sei que você quis ser gentil — disse ela, perdoando-o. — Por isso, você pode me dar um beijo.
Por um momento ela esquecera que ele não sabia o que era um beijo.
— Achei mesmo que você ia querer de volta — disse ele, um pouco bravo e ofendido por ter que lhe devolver o dedal.
— Ah, querido — disse a simpática Wendy —, não quis dizer um beijo, quis dizer um dedal.
— O que é isso?
— É assim.
E ela deu um beijo nele.
— Que engraçado! — disse Peter, bastante sério. — Agora eu também devo lhe dar um dedal?
— Se você quiser — disse Wendy com a cabeça ereta dessa vez.
Peter lhe deu um “dedal” e quase imediatamente ela soltou um grito.
— O que foi, Wendy?
— Senti como se alguém estivesse puxando o meu cabelo.
— Deve ter sido a Sininho. Nunca a vi tão malcriada antes.
E, realmente, Sininho estava voando por ali e falando coisas feias.
— Ela disse que vai fazer isso com você, Wendy, sempre que eu lhe der um dedal.
— Mas por quê?
— Por que, Sininho?
Mais uma vez Sininho respondeu:
— Seu imbecil.
Peter não conseguia entender, mas Wendy entendeu; e ela ficou um pouco decepcionada quando ele admitiu que entrou no quarto das crianças não para vê-la, mas para ouvir histórias.
— Sabe, eu não conheço nenhuma história. Nenhum dos garotos perdidos conhece história alguma.
— Que coisa mais terrível — disse Wendy.
— Você sabe por que as andorinhas fazem ninho nos beirais dos telhados das casas? — perguntou Peter. — É para ouvir as histórias. Ah, Wendy, sua mãe estava contando uma história adorável para você.
— Que história ela estava contando?
— Sobre um príncipe que não encontrava uma moça que usou um sapatinho de cristal.
— Peter — disse Wendy animada —, é a história da Cinderela, e ele a encontrou, e eles viveram felizes para sempre.
Peter ficou tão feliz que se levantou do chão onde estivera sentado e correu até a janela.
— Aonde você vai? — gritou ela, preocupada.
— Vou contar para os outros garotos.
— Não vá, Peter — pediu ela —, conheço muitas outras histórias.
Aquelas foram suas palavras precisas, então não pode haver dúvidas de que foi ela quem primeiro o tentou.
Ele voltou e havia um olhar ganancioso em seu rosto que deveria tê-la alarmado, mas isso não aconteceu.
— Ah, as histórias que eu poderia contar para os garotos! — exclamou ela, e então Peter a segurou e começou a arrastá-la em direção à janela.
— Me solte! — ordenou ela.
— Wendy, venha comigo e conte as histórias para os outros garotos.
É claro que ela estava bastante feliz com o convite, mas disse:
— Ah, querido, não posso. Pense na mamãe! Além disso, eu não sei voar.
— Eu te ensino.
— Ah, que delícia poder voar.
— Eu ensino você a pular no lombo do vento, e então vamos embora.
— Ah! — exclamou ela, extasiada.
— Wendy, Wendy, enquanto você fica deitada nessa cama tola você poderia estar voando comigo e me ouvindo dizer coisas engraçadas para as estrelas.
— Ah!
— E, Wendy, tem as sereias.
— Sereias? Com cauda?
— Com caudas tão longas.
— Ah — exclamou Wendy. — Eu adoraria conhecer uma sereia!
Peter estava cada vez mais astuto.
— Wendy — disse ele —, nós a respeitaríamos tanto.
Ela estava sacudindo o corpo de tanta agonia. Até parecia que ela tentava ficar ali no quarto das crianças. Mas ele não teve pena dela.
— Wendy — disse ele, o dissimulado — você poderia nos cobrir à noite.
— Ah!
— Ninguém nunca nos cobriu antes de dormir.
— Ah! — E ela estendeu os braços para ele.
— E você poderia costurar nossas roupas, e fazer bolsos nelas. Nenhum de nós nunca teve bolsos costurados nas roupas.
Como ela poderia resistir?
— Mas é claro, isso é muito fascinante! — exclamou ela. — Peter, você ensinaria John e Michael a voar também?
— Se você quiser — disse ele, indiferente.
Ela correu até John e Michael e os sacudiu.
— Acordem! — gritou ela. — Peter Pan está aqui e vai nos ensinar a voar.
John esfregou os olhos.
— Então eu vou me levantar — disse ele.
Claro que ele já estava no chão.
— Olá — disse ele —, acordei!
Michael também já estava acordado, mais aceso do que um farol, mas Peter de repente fez um gesto pedindo silêncio. Seus rostos ficaram com aquela expressão astuta que as crianças fazem quando estão tentando escutar algum barulho do mundo adulto. Estava tudo em silêncio. Então estava tudo bem. Não, parem! Estava tudo errado. Naná, que vinha latindo muito a noite toda, estava quieta agora. Era o seu silêncio que eles ouviam.
— Apaguem a luz! Escondam-se! Rápido! — gritou John, assumindo o comando pela única vez durante toda a aventura. E então, quando Liza entrou, segurando Naná, o quarto das crianças parecia estar como sempre, bastante escuro; e era possível jurar que que havia três criaturas danadas dormindo ali e respirando como anjinhos. Na verdade, eles faziam aquilo escondidos atrás das cortinas.
Liza estava de mau humor, pois estava preparando pudins para o Natal, lá na cozinha, e precisou sair de lá e ir até o quarto com uma uva passa grudada no rosto por causa das suspeitas absurdas de Naná. Ela achou que o melhor a fazer para que a cachorra se acalmasse era levá-la até o quarto das crianças por um momento, mas sempre a segurando, claro.
— Pronto, bicho desconfiado — disse ela, gostando de ver Naná humilhada. — Eles estão perfeitamente bem, não é? Todos os anjinhos dormindo profundamente, cada um em sua cama. Ouça a respiração deles.
Neste momento Michael, motivado pelo seu sucesso, respirou tão alto que eles quase foram descobertos. Naná conhecia aquele tipo de respiração e por isso tentou se soltar dos braços de Liza.
Mas Liza não era muito inteligente.
— Chega disso, Naná — disse ela, brava, tirando a cadela do quarto. — Estou avisando, se você latir de novo, vou atrás do patrão e da patroa e vou fazer com que eles venham embora da festa, e então, ah, o patrão vai dar umas boas palmadas em você.
Ela prendeu a cadela infeliz novamente, mas você acha que Naná parou de latir? Tirar o patrão e a patroa da festa? Ora, isso era exatamente o que ela queria que acontecesse. Você acha que ela se importou se levaria umas palmadas? Ela queria era que suas crianças estivessem em segurança. Infelizmente, Liza voltou para o seu doce e Naná, ao perceber que não teria nenhuma ajuda dela, esticou, esticou e esticou a corrente até finalmente conseguir quebrá-la. Em um segundo ela entrou em disparada na sala de jantar da casa número 27 e colocou as patas para cima. Essa era sua maneira mais expressiva de se comunicar. O Sr. e a Sra. Darling logo souberam que algo terrível estava acontecendo no quarto das crianças e, sem se despedirem de seus anfitriões, saíram correndo pela rua.
Mas agora já fazia dez minutos desde o momento em que aqueles três danadinhos estavam respirando atrás das cortinas, e Peter Pan é capaz de fazer bastante coisa em dez minutos.
Voltemos para o quarto das crianças.
— Está tudo bem — anunciou John, saindo de seu esconderijo. — Peter, você sabe mesmo voar?
Em vez de respondê-lo Peter voou pelo quarto, arrancando a prateleira da lareira ao fazer isso.
— Que legal! — exclamaram John e Michael.
— Que adorável! — disse Wendy.
— Sim, sou adorável, ah, eu sou adorável! — disse Peter, esquecendo-se novamente de suas boas maneiras.
Parecia deliciosamente fácil, e eles tentaram primeiro voar do chão para suas camas, mas sempre iam para baixo em vez de subir.
— Como você faz isso? — perguntou John, esfregando o joelho.
Ele era um garoto bastante prático.
— Basta pensar em coisas adoráveis e maravilhosas — explicou Peter —, e elas levantarão você no ar.
Ele mostrou mais uma vez.
— Você faz isso tão rápido — disse John —, você não consegue fazer bem devagar, pelo menos uma vez?
Peter fez devagar e rápido.
— Agora eu entendi, Wendy! — gritou John, mas logo ele percebeu que não tinha entendido nada.
Nenhum deles conseguia voar nem um centímetro, embora até Michael conseguisse ler palavras de duas sílabas enquanto Peter não sabia o que era A nem o que era Z.
Peter estava brincando com eles, é claro, pois ninguém consegue voar se o pó de fada não for jogado sobre a pessoa. Felizmente, como mencionamos, uma de suas mãos estava suja de pó de fada e Peter assoprou um pouco em cada uma das crianças, conseguindo resultados fantásticos.
— Agora é só sacudir os ombros desta maneira — disse ele — e se soltar.
Todos estavam em suas camas e o valente Michael foi quem voou primeiro. Ele não chegou a voar, mas se soltou um pouco e imediatamente foi lançado para o outro lado do quarto.
— Eu voei! — gritou ele, ainda no ar.
John se soltou e encontrou Wendy perto do banheiro.
— Ah, que adorável!
— Ah, que legal!
— Olhe para mim!
— Olhe para mim!
— Olhe para mim!
Eles não voavam nem um pouco tão bem quanto Peter, não conseguiam deixar de chutar um pouco o ar, mas suas cabeças estavam encostando no teto, e não há nada mais delicioso do que isso. Peter segurou a mão de Wendy no início, mas precisou soltá-la, pois Sininho ficou indignada.
Eles foram para cima e para baixo, giraram para um lado e para o outro. Wendy usou a palavra “divino” para explicar o que sentia.
— Pergunto — exclamou John —, por que não saímos daqui?
É claro que era isso que Peter queria que eles fizessem.
Michael estava pronto. Ele queria ver quanto tempo iam levar para percorrer um bilhão de quilômetros. Mas Wendy hesitou.
— Sereias! — disse Peter, de novo.
— Ah!
— E tem os piratas.
— Piratas! — exclamou John, procurando o chapéu que usava aos domingos. — Vamos logo.
Foi neste exato momento que o Sr. e a Sra. Darling saíram correndo, com Naná, da casa de número 27. Correram para o meio da rua para olhar para o quarto das crianças e, sim, ele ainda estava fechado, mas o quarto estava todo iluminado e, a visão mais espantosa que tiveram foi a sombra de três criaturinhas na cortina, vestindo pijamas e girando, girando, não no chão, mas no ar.
Não eram três criaturas, e sim quatro!
Tremendo eles abriram a porta da rua. O Sr. Darling teria subido as escadas correndo, mas a Sra. Darling sinalizou para ele que fizesse isso devagar. Ela tentou acalmar seu coração.
Será que eles chegarão ao quarto das crianças a tempo? Se chegarem, que alegria para eles, e nós conseguiremos todos respirar aliviados. Mas então nossa história termina aqui. Por outro lado, se não chegarem a tempo, prometo que vai dar tudo certo no final.
Eles teriam chegado ao quarto das crianças a tempo se as estrelinhas não os estivessem observando. De novo, as estrelas abriram a janela, e a menor estrela de todas gritou:
— Cuidado, Peter!
E então Peter soube que não havia mais tempo a perder.
— Venham! — gritou ele.
E lançou-se na noite, seguido por John, Michael e Wendy.
O Sr. e a Sra. Darling, acompanhados de Naná, chegaram tarde demais ao quarto das crianças. Os pássaros haviam voado.
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