Peter Pan

J. M. Barrie · Capítulo 20 de 48

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Peter Pan

XX. Comparando David e Porthos

XX

 

COMPARANDO DAVID E PORTHOS

Mas Mary estragou tudo, quando enviei David de volta para ela pela

manhã, ao fazer perguntas com demasiada curiosidade para ele e ao

descobrir que eu havia colocado suas roupas com os botões virados para a

frente. Por causa disso, escrevi para ela a seguinte carta ofensiva. Quando

Mary faz qualquer coisa que me incomoda muito eu envio para ela uma

carta ofensiva. Uma vez tirei uma foto de David pendurado em uma árvore.

Enviei a foto para ela. Vocês não podem imaginar as minhas várias

maneiras sutis de magoá-la. Nenhuma mulher suportaria isso.

“Prezada senhora (escrevi), tomei conhecimento de que quando você

caminha no Gardens com o garoto David você escuta avidamente para ouvir

elogios sobre ele e sobre suas roupas, feitos por pessoas que por ali

passeiam, guardando-os em seu coração enquanto finge em vão não se

preocupar com eles: para que você não seja engolida por coisas tão

pequenas eu, que agora conheço David tanto de dia quanto de noite, eu me

preocupo em compará-lo com Porthos, um com o outro, tanto nesta questão

quanto em outras questões mais importantes. E tocando nesse assunto de

exibição, os dois são muito educados, e nenhum deles gosta ser

mencionado, mas os dois se manifestam de maneiras diferente. Pois David

diz ‘Ah, que chato!’ e em alguns momentos reclama, mas Porthos abaixa o

rabo e deixa que as pessoas falem. No entanto ele é exaltado como sendo

bonito e querido dez vezes mais do que David é exaltado.

“Os modos de Porthos, então, são mais bonitos do que os modos de

David, que quando pede para que eu me esconda atrás de uma árvore às

vezes não vem me procurar, e ao sair de meu esconderijo eu o encontro

brincando de outra coisa tendo se esquecido totalmente da minha existência.

Já Porthos sempre vem me procurar. Além disso, se David se cansa de você,

ele tem escrúpulos para não dizer isso, mas Porthos, em circunstâncias

semelhantes, oferece sua pata querendo dizer ‘adeus’ e para homens

barbados ele faz isso o tempo todo (acho que graças à sua aversão

hereditária por cabras), de modo que eles imaginam que ele está apaixonado

por eles quando ele está simplesmente implorando, de maneira educada,

que eles se retirem. Assim, enquanto os modos de Porthos são mais

educados pode ser dito que as maneiras de David são mais eficazes.

“Com relação à gentileza, é difícil comparar David com Porthos. Pois

enquanto um empurra e é conhecido por chutar quando provocado, o outro,

que é ruidosamente odiado por todos os cães pequenos por causa de seu tamanho, não protesta, mesmo quando eles grudam furiosos em seu peito,

mas os carrega com tolerância até que eles se cansam e caem. De novo,

David não vai se abaixar quando está na companhia de bebês esperando que

eles subam a seu nível, já Porhos, ao contrário, embora seja terrível com

andarilhos, sofre na companhia dos bebês que chegam até a explorar sua

boca na tentativa de descobrirem como é a sua língua do outro lado. As idas

e vindas de David não são percebidas pelos carrinhos de bebê, que ficam

parados esperando por Porthos. Os fortes e perversos temem Porthos, mas

nenhuma criatura pequena tem medo dele, nem os ouriços que ele

transporta de um lugar para outro em sua boca, nem os pardais que roubam

sua palha debaixo dele.

“Em prova de sua gentileza, cito suas aventuras com o coelho. Depois

de passar algum tempo morando em um país de coelhos, Porthos ficou

exultante ao descobrir uma criatura pequena correndo dele, e tornando-se

imediatamente um desportista partiu em rápida perseguição, embora sempre

ultrapassando a marca dos cem metros ou mais e se perguntando o tempo

todo o que tinha acontecido com o coelho. Havia um caminho íngreme, do

topo do qual o coelho rapidamente surgiu à vista, e a prática de Porthos era

avançar na ponta dos pés, virando-se perto da curva para trocar olhares

comigo e então saltando para a frente. O coelho então fez algo truculento

com o buraco no chão, mas Porthos seguiu em frente com plena fé de que o

jogo estava sendo levado de forma justa e sempre voltava ofegante e

intrigado, mas glorioso.

“Eu às vezes me arrepiava ao pensar em sua perplexidade se

conseguisse capturar o coelho, o que era, porém, bastante improvável; no

entanto ele o pegou, não sei como, mas acredito que tenha sido um outro

coelho, diferente daquele que ele estava caçando. Eu o encontrei com ele,

com suas sobrancelhas franzidas e absorto em pensamentos. O coelho,

aterrorizado, mas não machucado, escondido embaixo dele. Porthos me

olhou feliz e, de novo, entrou em um estado de espírito carregado. ‘O que

fazer agora?’ era obviamente o que o intrigava, e a posição não era nem um

pouco menos estranha para o coelho, que por várias vezes fez um

movimento para encerrar com aquele suspense intolerável. Diante disso

Porthos imediatamente deu um tapinha com seu pé, e de novo caiu em

pensamentos. A pressão em mim foi bastante grande.

“Por fim eles pareceram chegar a um acordo. Porthos olhou para trás

com bastante consciência e o coelho, primeiro devagar e depois em disparada, retirou-se. Porthos fingiu procurar por ele, mas você não pode

imaginar o quanto ele parecia aliviado. Ele até tentou escancarar sua

vergonha quando me viu e abanou o rabo. Mas ele não conseguia olhar para

mim, e quando viu que era isso o que eu insistia que ele fizesse, ele se

deitou aos meus pés e gemeu. Havia lágrimas de verdade em seus olhos,

fiquei comovido e enfatizei para ele que ele havia feito tudo o que um

cachorro poderia fazer, e embora ele soubesse que eu estava mentindo ele

ficou feliz novamente. Desde que eu esteja feliz com ele, senhora, nada

mais importa para Porthos. Contei essa história para David, depois que ele

me prometeu julgar Porthos, e agora exijo que você me prometa o mesmo.

Quero também que admita que na inocência de seu coração, pelo qual

David é bastante elogiado, ele não pode, no entanto, ensinar nada a Porthos,

mas, ao contrário, pode aprender muito com ele.

“E agora, tratando daquelas qualidades de David, quando ele supera

Porthos – a primeira delas é que ele não esnoba mas gosta muito da garota

Irene (pretensiosamente chamada de sua babá) mais do que de qualquer

outra dama, e inveja todo garoto maltrapilho que consegue acertar a perna.

Por outro lado, Porthos faria cada classe ocupar seu lugar, e embora goste

de descer para a cozinha, sempre late no topo da escada esperando por um

convite para que desça. A maioria dos criados em nossa rua o pediu

emprestado para tirar uma foto com ele, e eu acabei de vê-lo saindo com

esse propósito com uma pequena serviçal orgulhosa que está olhando para

ele como se ele fosse um guerreiro a quem ela estava pagando um xelim.

“De novo, quando David e Porthos estão tomando banho, um recebe

elogios e o outro não. Pois David, como já percebi, adora esparramar água

enquanto toma banho e escapar de volta para a banheira das mãos daquele

que o enrolaria em uma toalha. Mas Porthos fica parado em seu banho, com

a cabeça abaixada, como se fosse uma figura envergonhada cortada de

algum material mole.

“Além disso, a criatividade de David é muito maior do que a de

Porthos, que não consegue brincar sozinho, e não sabe nem sair para

passear sozinho, enquanto David inventa brincadeiras o dia todo. Por fim,

quando David é descoberto fazendo alguma travessura e expressa

arrependimento por isso, ele não faz mais aquela travessura por algum

tempo, mas procura por outras traquinagens para fazer, enquanto Porthos

continua a repetir suas travessuras; em outras palavras, ele enterra novamente seu osso no quintal, e fica maravilhado por eu saber disso,

embora seu focinho fique repleto de terra.

“Por falar nisso, portanto, preciso mencionar que David supera

Porthos; e em diversas qualidades semelhantes um não é mais páreo que o

outro, como em relação à curiosidade; pois, se um pacote é entregue em

minha casa Porthos fica aflito até que eu o abra, e percebi que o mesmo

acontece com David.

“Tem também a questão de tomar remédios, pois durante a

manipulação do frasco toda a alegria de repente desaparece de Porthos e ele

olha para o outro lado, mas se eu disser que me esqueci de completar o

frasco ele fica feliz e ainda assim acha que tem o direito de ganhar um

chocolate, e quando comentei sobre isso com David ele ficou tão

envergonhado que enxerguei a imagem de uma certa dama tratando-o

contra doenças da juventude.

“Algo a ser considerado nos dois é como reagem ao serem punidos, e

agora sou lembrado de que a garota Irene (a quem eu considero, neste

assunto, sua porta-voz) reclama que não sou severo o suficiente com David,

e que deixo que ela o repreenda por travessuras que ele faça contra mim na

esperança de que ele goste menos dela e mais de mim. Discutimos

fervorosamente sobre isso no Gardens em detrimento de nossa dignidade. E

digo aqui que se não sou severo o suficiente com David, é porque não me

atrevo a ser severo com Porthos, e sempre tentei tratar um e outro da mesma

maneira.

“Eu me recuso a levantar a mão ou a voz para Porthos porque seu

grande coração corre o risco de quebrar se ele suspeitar que algo não vai

bem entre ele e eu, e como eu o golpeei alguns anos atrás nunca vou me

esquecer da reação dele ao perceber que eu havia batido nele, e nunca mais,

madame, encostarei minha mão nele. Mas quando ele é pego em alguma

atividade imprópria hoje em dia, costumo bater em minha escrivaninha na

presença dele, e mesmo este tipo de punição é quase mais do que ele

consegue aguentar. Portanto, se tal transgressão infligida a David o encoraje

a fazer travessuras (como sugere a garota Irene), a razão é porque seu

coração não é como o coração do nobre Porthos.

“E se você retrucar dizendo que David é um garotinho naturalmente

pervertido, e por isso precisa de medidas duras, eu mantenho minha posição

e ainda pergunto: de que maneira severa ele é reprimido em casa? E para que você não se atrapalhe em sua resposta, mencionarei uma história que

chegou aos meus ouvidos.

“Ouvi dizer que David, depois de ter ouvido uma palavra horrível na

rua, a pronunciou com vontade ao chegar em casa. E sua mãe ameaçou

agredi-lo fisicamente, e seu pai interferiu. Ouvi dizer que David continuou

usando tal palavra de maneira excessiva, o pai falou sombriamente sobre

uma bengala, mas a mãe se apressou a se meter entre os combatentes. E o

castigo se tornou, para David, um objeto de interesse. E isso trouxe um

clima tenso para aquele lar feliz. Ouvi ainda que, expulsando de seu

caminho uma mãe chorosa, o pai saiu de casa gritando que ia comprar uma

bengala. E que ele simplesmente andou pelas ruas atordoado imaginando o

horror que David estava sentindo. E que quando voltou, foi David, radiante

de esperança, quem abriu a porta e então começou a chorar, porque ele não

trazia nenhuma bengala. Sinceramente, madame, você é uma pessoa

adequada para me pedir para agir com severidade. Em vez disso você

deveria me agradecer que não é você que estou comparando com Porthos.

“Mas para terminar a comparação, digo que Porthos sempre quer

demonstrar sua gratidão por minha gentileza com ele, de maneira que, ao

tirar os olhos de meu livro, eu o vejo com sua expressão triste fixa em mim

com apego, e então eu percebo que a tristeza quase insuportável que surge

no rosto dos cães é porque eles não conseguem dizer ‘Obrigado’ para seus

donos. Já David vê minha gentileza com ele como sendo um direito seu.

Mas por isso, embora eu deva repreendê-lo, não consigo fazê-lo, pois entre

todas as maneiras que David tem de me fazer amá-lo a mais comovente é

que ele espera isso de mim como algo natural. David só quer diversão, mas

ninguém é capaz de adivinhar o que existe dentro de Porthos. Entretanto, eu

quase consigo adivinhar quando me deito ao lado dele no chão e ele coloca

um braço em volta de meu pescoço. Para mim, madame, um braço que me

protege. Nessas horas é como se cada um de nós soubesse o que um quer do

outro.

“Assim, ao colocar Porthos e David em uma balança, é difícil dizer

qual é o mais valioso. Assim sendo, você fica com seu garoto e eu fico com

meu cão, e então ficaremos ambos satisfeitos.”

 

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