Peter Pan
XXIV. Barbara
XXIV
BARBARA
Um outro choque esperava por mim mais para frente na história.
Havíamos retomado nossas aventuras, embora mal víssemos Bailey agora.
Depois de longos intervalos nós o encontrávamos em nosso caminho indo
ou voltando do Gardens e, se não houvesse ninguém de Pilkington
vigiando-o, eu achava que ele nos olhava com um pouco de saudade, como
se por baixo de suas calças curtas ainda existisse um pedaço da casca do
ovo. Caso contrário ele dava um chute nada amigável em David ao passar
por ele e o chamava de “pirralho”. E isso era tudo.
Quando Oliver desapareceu da vida no Gardens nós o tiramos da
história, e seguimos muito bem sem ele, estendendo nossas operações ao
continente, onde elas eram de uma escala tão vasta que rapidamente fomos
despovoando a terra. E então, um dia, David disse:
— Devemos deixar a Bárbara entrar?
Já havíamos pensado em dar o lugar de Bailey para alguma outra
criança do Gardens, crianças da idade de David se candidataram e até
tentaram nos subornar, mas Bárbara era nova para mim.
— Quem é ela? — perguntei.
— Ela é minha irmã.
Vocês podem imaginar como fiquei sem reação.
— Ela ainda não chegou — disse David —, mas está chegando.
Fiquei chocado. Talvez não tão chocado, mas desiludido. Pois embora
eu sempre suspeitasse que Mary A----- nutria as mais loucas ambições
enquanto parecia ser uma pessoa humilde, nunca imaginei que ela fosse
capaz de tamanha presunção.
Vaguei pela Broad Walk para dar uma olhada em Irene, e ela tinha um
ar que não se deixava enganar. Isso me fez pensar no marido de Mary e em
seus modos na última vez em que nos encontramos, pois embora eu não
tenha tido a oportunidade de dizer isso, ainda nos encontrávamos de vez em
quando, e ele até jantou comigo no clube. Nessas ocasiões era proibido falar
sobre Timothy, e se por um triste acidente o nome de Mary fosse
mencionado, nós imediatamente olhávamos para lados opostos e o silêncio
se estabelecia, durante o que eu tinha certeza de que ele sorria, e me
perguntava do que o camarada estava rindo. Eu me lembro agora que a
última vez em que o vi foi quando jantei com ele no clube (pois ele se
tornou membro de um clube de amigos pintores, e Mary tinha tanto orgulho
disso que havia imprimido isso em seu cartão), quando, sem dúvida, ele
pareceu preocupado. Era o olhar, percebo agora, de alguém que
compartilhava um segredo.
Quando tudo me havia sido revelado eu ri de forma desagradável de
mim mesmo, pois, em minha alma, eu vinha pensando coisas boas sobre
Mary ultimamente. Sempre exagerada com relação a David, ela o vinha
restringindo até mesmo de mim durante as últimas semanas, e eu a havia
perdoado, pensando que era amor de mãe. Eu sabia pelo que o pobre garoto
me contava sobre o tratamento que ela vinha lhe dando e do qual ele não
gostava; eu a havia visto abraçando-o furtivamente em lugares públicos;
todos os seus atos, pelo que eu sabia, eram um desafio para quem ousasse
afirmar que ela queria mais alguém além de David. Como poderia eu, não
sendo uma mulher, ter adivinhado que na verdade ela estava se despedindo
dele?
Leitores, imaginem aquele garotinho brincando pela casa neste
momento, imaginando que tudo estava caminhando como sempre. Seus
brinquedos não tinham adquirido um novo significado, principalmente o
motor que ela comprara para ele ontem?
Você olhou no rosto dele, Mary, quando deu a ele aquele motor? Não
invejo seus sentimentos, madame, quando com braços amorosos ele
envolveu você. Aquela confiança infantil dele em mim, com a qual ele,
inconscientemente, a traiu, mostra que finalmente você o está preparando
para a grande mudança, e suponho que você seja capaz de me dizer que
David ainda é feliz e até mesmo interessado. Mas você contou para ele o
que isso realmente significa? Melhor, acredito, você é aquela que não teria
escrúpulos para fazê-lo entender que B (que você ainda pode achar que quer
dizer Benjamin) é primeiramente um presente para ele. No seu coração,
madame, o que você acha desse truque de um garotinho?
Suponha que David soubesse o que ia acontecer antes de ele vir até
você, você tem certeza de que ele teria vindo? Sem dúvidas, existe um
pacto não escrito em tais assuntos entre uma mãe e seu primogênito, e
desejo salientar a você que ele nunca o quebrará. De novo, o que dirão os
outros garotos quando souberem? Você está fora das críticas do Gardens,
mas David não está. Lealdade, madame; acredito que teria sido mais
delicado de sua parte esperar e deixar que ele enfrentasse os desafios de
Pilkington.
Você acha que seu marido é um grande homem agora porque estão
começando a comentar sobre seus primeiros planos e médias distâncias nas
colunas de jornal que ninguém lê. Sei que você comprou um casaco de
veludo para ele, e que ele agora tem um estúdio grande, arejado e
confortável em Mews Lane, onde você pode ser encontrada usando uma
roupa macia nas primeira e na terceira quarta-feira do mês. Os tempos estão
mudando, mas devo lhe contar uma história aqui, apenas para que você
saiba que tenho conhecimento disso?
Três anos atrás uma certa galeria aceitou de um certo artista uma
gravura que sua esposa e ele sabiam ser monstruosamente boa. Mas
ninguém falou sobre a gravura, ninguém escreveu sobre ela, e ninguém fez
nenhuma oferta por ela. O artista estava arrasado, sua esposa lamentava a
estupidez dos conhecedores, até que o trabalho foi comprado por um
negociante para um cliente anônimo, e então felizes ficaram os dois, e
aliviados também em descobrir que eu não era o comprador. Ele veio até
mim um dia para ter certeza disso, e andou glorioso de um lado para o outro
me dizendo o que o reconhecimento significa para um cavalheiro com
sangue artístico. Ah, o garoto feliz!
Mas meses depois, arrumando um armário em casa que normalmente
fica trancado, ele descobriu a gravura ali escondida. Sua mulher fora
colocada contra a parede e fez a confissão. Como ela poderia se submeter a
ver uma obra-prima de seu amor ser ignorada pelo público idiota, e ver seu
amor andar triste de um lado para o outro? Ela sabia tão bem quanto ele
(pois, não estavam eles casados há anos?) o quanto o instinto artístico busca
reconhecimento, e então com suas economias ela comprou a grande obra
anonimamente e guardou-a no armário. Primeiro, acreditei, o homem ficou
furioso, mas aos poucos ele estava de joelhos aos pés de sua querida. Você
sabe quem ela era, Mary, mas, Deus me perdoe, pareço estar elogiando
você, e este não foi o meu propósito. O que eu pretendia mostrar é que
embora agora você possa se aventurar em pequenas extravagâncias, você
parece estar indo rápido demais. Veja isso com responsabilidade, essa ideia
de Bárbara é sem dúvidas uma má ideia.
Como ficar quites com ela? Procurei uma maneira e, em meu dia de
sorte, concebi meu triunfo final sobre Mary, que ainda mal ousei insinuar,
para que, ao descobri-lo, não estragasse minha trama. Pois existe uma trama
o tempo todo.
Há bastante tempo eu sei que Mary escrevia um livro, sendo David
meu informante, e porque eu publiquei um pequeno volume sobre táticas
militares e estou preparando um volume maior sobre o mesmo assunto (que
eu provavelmente nunca vou terminar), ele gosta de assistir meus métodos
de composição, como mergulho a caneta na tinta, e coisas assim, sempre
querendo ajudá-la. Ele pode ter feito isso por iniciativa própria, mas
também é bem possível que em seu desespero ela tenha pedido para que ele
o fizesse; ele certamente tinha implícito que ela havia decidido escrever um
livro porque devia ser uma tarefa fácil, já que eu podia fazer isso. Ela
também o informou (bastante sem consideração) que eu não imprimia meus
livros, e isso me rebaixou aos olhos de David, pois ele me admirava por
imprimir os livros e dizia aquilo por todo o Gardens.
— Suponho que você também não tenha feito as caixas, nem as capas
— disse ele com a voz de quem não acredita mais em tudo.
Devo dizer aqui que meus trabalhos literários são obscuros, seus
símbolos são várias fileiras de caixas pregadas em minha parede, cada uma
marcada com uma letra do alfabeto. Quando faço uma anotação na letra A,
coloco a anotação dentro da caixa com a letra A, e assim por diante, para a alegria de David, que gosta de jogar as anotações lá dentro para mim. Agora
preciso admitir que as caixas foram feitas por Wheeler & Gibb.
— Mas fui eu quem fiz as marcações das letras, David.
— Elas não são tão bem-feitas quanto as caixas — respondeu ele.
Embora eu tenha motivos para desejar tudo de mal para o trabalho de
imaginação de Mary, que é o que presumo que seja, eu disse a ele com
brutalidade:
— Conte a ela sobre as caixas, David, e diga que ninguém pode
começar a escrever um livro até que as caixas estejam cheias. Isso vai
deixá-la assustada.
Logo depois disso ele me contou que ela tinha arranjado uma caixa.
— Uma caixa! — disse eu com desdém.
— Ela fez a caixa sozinha — respondeu David, bravo.
Recebi pouca informação verdadeira dele sobre o trabalho, em parte
porque David se perde um pouco quando começa a falar sobre coisas
práticas, e talvez ainda mais porque ele percebeu minha antipatia. Mas
quando ele soltou o nome do título do livro (“O Pequeno Pássaro Branco”),
eu parecia ser aquele que havia lido o livro até o final. Soube de imediato
que o pássaro branco era a garotinha que Mary gostaria de ter. De alguma
forma eu sempre soube que ela gostaria de ter uma garotinha, ela era esse
tipo de mulher, e como tinha a modéstia de perceber que ela não poderia ter
uma, eu me simpatizava profundamente com ela, não importava o que eu
tinha dito para David sobre seu livro.
Naqueles dias Mary tinha as mais adoráveis ideias para seu triste livro,
e elas chegavam pela manhã, quando ela estava apenas um pouco acordada,
mas quando ela se levantava da cama todas desapareciam como pássaros
assustados. Eu soube por David que isso a deixava bastante deprimida.
Ah, Mary, seus pensamentos são lindos e sagrados demais para serem
mostrados para qualquer outra pessoa que não seja você. As coisas tímidas
estão escondidas aí dentro. Se elas pudessem ser liberadas não seriam um
livro, seriam a pequena Bárbara.
Mas aquela não era a mensagem que eu enviava para ela:
— Ela nunca vai conseguir escrever o livro — expliquei para David.
— Ela não tem capacidade. Diga a ela que eu disse isso.
Eu me lembro agora que durante meses não ouvi nada sobre seu
projeto ambicioso, então perguntei para David e descobri que ele fora
abandonado. Ele não sabia dizer por que, e nem precisava que ele soubesse, o motivo tão trivial logo fico claro para mim. A partir daquele momento
toda a minha simpatia por Mary foi derramada e procurei por alguma
maneira de exaltá-la até que encontrei. Foi assim. Decidi, sem que nem
mesmo David soubesse, escrever o livro “O Pequeno Pássaro Branco”, que
ela provou não ser capaz de escrever, e então quando, na plenitude do
tempo, ela segurasse seu bebê no alto, mostrando que havia feito algo
grande, eu seguraria o livro no alto. Eu me aventurei a pensar que tal
vingança diabólica nunca havia sido planejada ou levada adiante antes.
Sim, levada adiante, pois este é o livro, rapidamente chegando ao final.
Ela e eu estamos disputando uma corrida acirrada.
Eu também, mais uma vez, cheguei a um final abrupto na história das
aventuras de David.
— E realmente este é o final desta vez, David — disse eu seriamente
(eu sempre digo isso).
A história terminou na costa da Patagônia, para onde tínhamos ido
para caçar o grande Bicho-Preguiça, conhecido por ser o maior dos animais,
embora tenhamos achado seu tamanho um pouco subestimado. David, seu
pai e eu estávamos deitados na praia dando uma última tragada antes de
voltarmos, enquanto Mary, vestida com um esplendor bárbaro, cantava e
dançava à nossa frente. Foi uma noite adorável e estávamos deitados como
homens, bastante alegres, olhando para a linda criatura.
A noite ainda estava absolutamente silenciosa, exceto pelo barulho dos
Bichos-Preguiça ao longe.
Logo Irene chegou na entrada de nossa caverna, onde sob a luz de sua
tocha pudemos ver que explorava um tubarão que havia sido capturado por
David mais cedo naquele dia.
Tudo levava ao repouso, e um sentimento delicado de paz tomava
conta de nós, do qual fomos tirados por um grito arrepiante. Quem gritou
foi Irene, que veio correndo até nós carregando alguns objetos: um relógio,
um par de botas, um jornal, que ela parecia ter encontrado no interior do
tubarão. A nossa surpresa foi descobrir no jornal uma informação de muita
importância para todos nós. Era nada menos do que isso: o nascimento de
um novo bebê em Londres, filho de Mary.
Que método estranho Solomon havia encontrado para nos enviar a
notícia.
O anúncio nos deixou bastante agitados, e na manhã seguinte
erguemos as velas e partimos para a Inglaterra. Logo enxergamos os penhascos brancos de Albion. Mary não conseguiu se sentar por um minuto
sequer, tão animada que estava para ver sua criança. Ela desceu no cais com
uma agitação incontrolável.
— E eu também — gritou David, quando cheguei a essa parte da
história.
Ao chegar nas docas nós imediatamente chamamos um carro de
aluguel.
— Nunca, David — disse eu —, vou me esquecer da animação de sua
mãe. Ela colocava a cabeça para fora da janela e pedia para que o cocheiro
fosse mais rápido, mais rápido. Nossa, como ele bateu naquele cavalo!
Finalmente ele nos deixou em sua casa, e então sua mãe, descendo do carro,
subiu correndo os degraus e bateu suas mãos na porta.
David estava bastante envolvido na cena.
— O papai carrega a chave! — gritou ele.
— Ele abriu a porta — disse eu com grandiosidade —, e sua mãe
correu para dentro, e no momento seguinte Benjamin estava em seus
braços.
Houve uma pausa.
— Bárbara — corrigiu David.
— Benjamim — disse eu, obstinado.
— Benjamim é nome de menina?
— Não, é nome de menino.
— Mas mamãe quer uma menina — disse ele, bastante incomodado.
— Ela é presunçosa — respondi, testando. — Vai ser um menino,
David, e você pode dizer a ela que eu falei isso.
Ele estava em um estado de espírito deplorável, mas bastante altruísta.
Um menino estava bom para ele, mas ele se colocou de lado e foi
obstinadamente solícito para que Mary conseguisse o que queria.
— Bárbara — repetiu ele, implorando para mim.
— Benjamim — respondi com firmeza.
Por muito tempo fui obstinado, mas era verão, e por fim concordei em
decidir aquilo com ele em uma partida de duas rodadas. Se ele vencesse,
seria uma menina, e se eu vencesse seria um menino.
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