Peter Pan

J. M. Barrie · Capítulo 12 de 48

Páginas do PDF

Peter Pan

XII. O Clube Mais Agradável de Londres

XII

 

O CLUBE MAIS AGRADÁVEL DE

 

LONDRES

Todos os carrinhos de bebê levam ao Kensington Gardens

 

N ão quer dizer, porém, que vocês ainda verão David em seu carrinho por

muito mais tempo, pois logo depois de eu ter estremecido a fé que ele tinha

em sua mãe, ele começou a se levantar e fazer as coisas, e ele se levantou e

andou pela Broad Walk, onde ele ficaria em pé sozinho, um pouco mais

equilibrado, sinalizando imperiosamente ao público britânico para

cronometrá-lo, e parecendo o mais celestial dos seres um segundo antes de

cair. Ele caía com um baque e, como todos sempre riam quando isso

acontecia, ele fingiu que esta era a sua maneira engraçada de terminar sua

apresentação.

Isso aconteceu em uma segunda-feira. Na terça-feira ele escalou a

escada de pedras do Gold King, olhando gloriosamente para trás a cada

passo dado e na quarta-feira ele marcou o terceiro ponto e foi promovido a

usar calças curtas. Pois o Kensington Gardens, vocês devem saber, é cheio

de atalhos, conhecidos por todos que brincam lá; e o mais curto deles é ocupado por bebês usando roupas compridas até garotinhos de três anos

subindo nas cercas. É o que é chamado de “tragédia das mães”.

Se você é um burguês dos jardins (que tem um vocabulário próprio),

os rostos dessas mães pitorescas funcionam como um relógio, e só de olhar

para elas você já sabe a idade de seus filhos. Quando a criança tem três anos

de idade dizem que elas usam um rosto de mãe de criança que usa calção, e

vocês podem acreditar que Mary assumiu aquele rosto com um suspiro; ela

bem que gostaria de ter mantido seu garoto um bebê por mais tempo, mas

ele insistiu em ter seus direitos, e eu o encorajei para que eu conseguisse

marcar um outro ponto contra ela. Agora eu estava me encontrando com

David pelo menos uma vez por semana. Sua mãe, que permanecia

culposamente insensível ao meu projeto sinistro, instruiu Irene que eu

poderia dividir a atenção dele com ela, e nós nos tornamos amigos

próximos, embora a pequena babá sempre tenha sido uma sombra

ameaçadora nos bastidores. Irene, em suma, não melhorou com o

conhecimento. Ela se tornou arrogante e poderosa, mandona, eu acho, só

porque agora usava uma touca de babá com fitas, da qual a pequena criatura

tinha um orgulho absurdo. Ela assumiu o ar de uma pessoa responsável e

sempre falava como se gerações de bebês tivessem passado por suas mãos.

Ela também era extremamente ciumenta, e tinha uma maneira de sinalizar

que desaprovava meus métodos, o que causava bastante frieza e até mesmo

brigas entre nós, o que hoje vejo como tendo sido algo indigno. Fiz uma

acusação contra ela.

Eu disse que ela falava muito sobre o que era certo e errado.

Disse que ela parecia uma militar.

Disse que ela fingia que aquela touca era verdadeira, com fitas

verdadeiras, mas que ela sabia que Mary tinha feito a touca com restos de

cortina de musselina. Eu me arrependo de ter usado este argumento, mas foi

o único que realmente a afetou.

Por outro lado, ela me acusou de mimá-lo.

De não pensar em seu futuro.

De nunca perguntar a ele aonde ele esperava chegar se fizesse aquele

tipo de coisas.

De contar a ele histórias que não tinham uma moral.

De dizer que um lenço desaparece do nada, quando ele na verdade era

colocado em um pequeno copo de lata preso em meu corpo por um elástico.

A respeito desta última acusação eu me declaro culpado, pois naqueles

dias eu tinha uma fé patética no truque, e como o lance das sobrancelhas

(que é totalmente uma questão de prática) surtiu resultados tão bons, eu

naturalmente procurei por diversões semelhantes quando a primeira parou

de ser atrativa. O truque parou de chamar a atenção de David de repente, e

descobri que esse era o destino de todos eles; por vinte vezes ele pedia pelo

último truque, e se deliciava com ele, e na vigésima primeira vez (e depois

disso, nunca mais) ele não reagia, era como se ficasse se perguntando o que

aquele homem estava fazendo. Ele se parecia com um reizinho que, quando

uma grande piada era explicada para ele dizia friamente que “não foi

divertido” e, garanto a vocês, é humilhante se apresentar perante uma

criança que insinua, depois de ter dado tempo o suficiente para você se

explicar, que não se divertiu. Eu esperava que quando David fosse capaz de

falar – e não simplesmente ficar olhando para mim por cinco minutos e

depois dizer “péu” –; seu veredito oral, por mais que fosse condenável,

seria menos expressivo do que seu veredito sem palavras, mas eu estava

desiludido. Eu me lembro de uma vez, naqueles anos, quando ele conseguia

manter conversas espirituosas consigo mesmo e praticamente não precisava

de nós, de ter prometido a ele fazer algo extremamente engraçado com uma

caixa e duas bolinhas de gude, e depois de ter assistido minha apresentação

por bastante tempo ele me disse, com seriedade:

— Me chame quando começar a ficar engraçado.

Confesso ter feito algumas aulas simples de truques de magia, em um

cômodo mal-iluminado embaixo de uma loja, com um rapaz talentoso de

pescoço comprido e rosto cheio de espinhas que, quando eu entrei, pegou

um poste de barbeiro do meu bolso dizendo enquanto fazia isso “Venha,

venha, senhor, isso nunca vai dar certo”. Não sei se porque ele sabia

demais, ou se era porque ele usava uma camisa cheia de truques, mas ele

era a pessoa mais deprimente que já conheci; ele não tinha nada da alegria

do artista e era triste ver alguém tão calculista para levar diversão a

milhares de pessoas sem se importar nem um pouco com isso.

O poste de barbeiro eu havia conseguido tirar com êxito da boca de

David, mas a dificuldade (não prevista) de saber como se livrar de um poste

de barbeiro no Kensington Gardens é considerável, pois sempre existem

crianças educadas que vêm correndo atrás de você para devolver o objeto.

O jovem, de novo, disse que ninguém me emprestaria uma garrafa ou um

limão, mas embora estes fossem artigos nos quais ele parecia sempre ser capaz de colocar sua mão, descobri (o que eu nunca havia percebido antes)

que existe uma escassez curiosa deles no Gardens. Eu normalmente

carregava o ovo mágico comigo, e com sua conivência fiz algumas coisas

impressionantes com moedas, mas mesmo a moeda de seis centavos é

incerta, e apenas quando você está dizendo triunfante que ela vai ser

encontrada no suporte do ovo ela pode cair no chão, onde algum observador

não generoso, como Irene, acusa você de mentir e corromper mentes

jovens. Era inútil dizer a ela, com os dentes cerrados, que a coisa toda era

uma brincadeira, pois ela não entendia brincadeiras além das que ela fazia,

a respeito das quais ela tinha as mais elevadas opiniões, e aquilo teria

importado pouco para mim se David não gostasse tanto delas. Havia

momentos em que era impossível respeitá-lo, ao vê-lo se convulsionar com

as travessuras de Irene que eram conhecidas por todas as babás desde

sempre. Enquanto eu ficava ali, desdenhoso, ele me olhava com aquele

olhar animado querendo dizer: “a Irene é realmente muito divertida, não

é?”.

Éramos rivais, mas eu desejava tratá-la com justiça escrupulosa, e

admito que ela tinha um lado bom, a saber, seu dente de guta-percha. Um

dia, como ela me contou, seu dente da frente caiu, mas em vez de deixá-lo

para lá a garota engenhosa o martelou de volta com uma escova de cabelos,

que ela se ofereceu para me mostrar, com as marcas nele. Esse dente, que

morreu com o tempo, foi substituído por um de guta-percha, feito por ela,

que raramente caía com exceção de quando ela espirrava, e se ele

simplesmente caísse aos seus pés aquilo era um sinal de que seu resfriado

seria leve, mas se ele fosse arremessado para o outro lado da sala ela sabia

que a situação seria mais séria. O dente de Irene era bastante conhecido no

Gardens, onde os carrinhos de bebê costumavam se reunir para ouvir se por

acaso ele havia aprontado alguma naquele dia, e eu provavelmente não teria

rancor do orgulho que David sentia se ele parecesse entender que o pobre

pequeno feito de Irene, embora inegavelmente vistoso, não tinha nenhum

mérito intelectual. Às vezes eu me afastei dele, pedindo que, se ele se

contentava com tão pouco, que eu gostaria de me retirar da competição,

mas o Gardens era um dos lugares mais agradáveis de Londres e eu logo

voltava para lá. Percorri muito o Gardens à procura dele, e me tornei

bastante hábil em alcançá-lo no meio das árvores, apesar de outras mães

imitarem o pitoresco traje dele, deixando Mary indignada. Também cortei

as asas de Irene (maneira de falar), levando-a ao dentista.

David fez algumas coisas adoráveis. Por exemplo, ele usava meus

bolsos como receptáculos onde colocava qualquer artigo que ele não queria

no momento. Ele os colocava lá dentro, como se fosse seu próprio bolso,

sem dizer nada, sem pedir licença, e talvez eu os descobrisse ao chegar em

casa – um soldado de lata, ou uma pistola –, quando eu os colocava em

minha prateleira e suspirava. E aqui está mais uma lembrança agradável.

Um dia eu havia ficado muito amigo de um outro garoto e, depois de

aguentar por algum tempo, David levantou-se e bateu nele. Exatamente

como Porthos faz, quando eu prestigio outros cachorros (ele bate neles com

sua pata e fica em cima deles, parecendo bastante nobre e austero), então eu

sabia logo o que aquilo significava; foi a primeira demonstração pública de

David de que ele sabia que eu pertencia a ele.

Irene brigou com ele por ele ter batido no garoto, e o fez ficar sentado

no canto de um banco na Broad Walk. O banco ao lado do qual David ficou

em pé sofrendo por causa do amor que sente por mim é aquele mais perto

do Round Pond para as pessoas que vêm do norte.

Vocês podem ter certeza de que ela e eu conversamos sobre essa

crueldade diabólica. Na próxima vez em que nos encontramos eu a tratei

como alguém que não mais existia e, primeiro, ela ficou brava e depois

triste, e quando eu estava indo embora ela começou a chorar. Ela chorou

porque não levantei meu chapéu para ela quando cheguei nem quando fui

embora, um costume tolo meu do qual, como fiquei sabendo agora, para

minha surpresa, ela tinha muito orgulho. Ela e eu ainda temos nossas brigas,

mas nunca, desde então, eu me esqueci de levantar meu chapéu para Irene.

Também fiz com que ela prometesse se curvar para mim, um pedido do qual

ela fingiu zombar, dizendo que eu estava me divertindo às custas dela, mas

ela realmente estava satisfeita e, digo a vocês, Irene se curva da maneira

mais linda e emocionante que você possa imaginar; é meio para o lado (se

vocês me permitirem me expressar), e este sempre foi o meu tipo preferido

de reverência e, não tenho dúvidas, ela aprendeu a fazer isso observando

Mary.

Eu devia me arrepender de pensar, como vocês devem estar achando,

em crianças como cachorros de estimação, que só querem brincar. Talvez

aquela tenha sido a minha ideia quando tentei atrair David para os meus

braços no início, e até mesmo por algum tempo depois disso, pois para ser

franco, devo admitir que até ele ter três anos de idade tentei simplesmente entretê-lo. Deus me perdoe, mas eu tinha apenas um dia na semana para

ficar com ele, e eu era bastante inexperiente naquela missão.

Eu estava prestes a dizer que David abriu meus olhos para a loucura

que isso significava, mas, na verdade, acho que foi Irene quem fez isso. Ao

observá-la com as crianças aprendi que embora em parte elas queiram se

divertir, elas são movidas ainda mais profundamente pela excelência moral.

Esta pequena mãe gostava tanto de bebês que tinha sempre espaço perto

dela para mais um, e eu sempre a via no Gardens, no meio de uma dezena

de pimpolhos que olhavam admirados para ela enquanto ela lhes dizia, com

seriedade, como pequenas damas e cavalheiros deveriam se comportar.

Eram crianças bem de vida, e ela era de Drury Lane, mas eles acreditavam

nela como se ela fosse a maior autoridade em relação a pequenas damas e

cavalheiros, e quanto mais elas ouviam sobre como estas românticas

criaturas se mantinham arrumadas e evitavam os lagos, e esperavam até

chegar ao portão, mais elas a admiravam, embora seus rostos mostrassem o

quanto elas sentiam que não haviam sido feitas para se tornarem pequenas

damas e cavalheiros. Vocês não podem imaginar como aqueles rostinhos

pareciam desesperados.

Crianças não são, de maneira alguma, parecidas com animais de

estimação, tenho dito. Mas os bichinhos querem apenas brincar? Ao ver

aquele olhar triste que até o mais feliz deles às vezes carrega, me faz

imaginar se significa que eles gostariam de ouvir sobre como ser bons

bichinhos de estimação.

Como vocês verão, inventei muitas histórias para David, praticando

como contá-las perto da lareira como se estivesse conjurando façanhas,

enquanto Irene conhecia apenas uma história, mas a contava como se

nenhum outro conto de fadas jamais houvesse sido contado antes. Era a

mais linda de todas, e era narrada pela heroína.

— Por que o rei e a rainha não estavam em casa? — perguntava David

para ela.

— Acho — disse Irene, pensando um pouco — que eles tinham saído

para comprar mantimentos.

Ela sempre contava a história olhando para o nada de maneira que

David achava que aquilo realmente estava acontecendo em algum lugar em

Broad Walk, e quando ela chegava a grandes momentos da história seu

pequeno seio se levantava. Nunca me esquecerei do desprezo com que o príncipe disse para as irmãs: “Nenhuma de vocês estava usando o sapatinho

de cristal”.

— E então – e então – e então — disse Irene, não para aumentar o

suspense, mas porque aquilo era muito glorioso para ela.

— Conta, conta logo — gritou David, embora ele conhecesse a história

de cor.

— Ela se senta — disse Irene, tremendo em uma segunda análise — e

experimenta o sapatinho de cristal, e ele se encaixa nela como uma luva, e

então o príncipe, ele grita com a voz emocionada: “Aqui está o meu

verdadeiro amor, Cinderella, que agora se tornará minha esposa”.

Então ela saía de seu sonho, olhava em volta para a grandeza do

Gardens com uma euforia extraordinária.

— Ela era só uma escrava — dizia ela com a voz estranhamente suave

e olhos brilhantes —, mas era verdadeira e sincera em suas palavras e atos,

e teve a sua recompensa.

Tenho certeza de que se a fada madrinha aparecesse naquele momento

e tocasse Irene com sua varinha, David teria ficado mais interessado do que

surpreso. Já eu, acredito que descobri o segredo da garotinha. Ela sabe que

hoje em dia não existem fadas madrinhas, mas espera que, se for sempre

sincera e leal talvez um dia ela se transforme em uma dama em palavras e

atos, como a patroa que ela adora.

É um segredo mortal, um romantismo de uma criança de Drury Lane;

mas quanta artilharia pesada será trazida para atacá-la nesta nossa triste

Londres. Creio que ela não tenha muitas chances.

Boa sorte para você, Irene.

 

OceanofPDF.com