Peter Pan

J. M. Barrie · Capítulo 37 de 48

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Peter Pan

VII. A Casa Debaixo da Terra

VII

 

A CASA DEBAIXO DA TERRA

Uma das primeiras coisas que Peter fez no dia seguinte foi medir Wendy,

John e Michael para providenciar árvores ocas para eles. Gancho, você deve

se lembrar, desprezara os garotos por acharem que precisavam de uma

árvore para cada um, mas isso era ignorância, pois se uma árvore não

tivesse a sua medida, era difícil subir e descer e nenhum dos garotos tinha

exatamente o mesmo tamanho. Ao encontrar uma árvore do seu tamanho, a

pessoa prende a respiração lá em cima e consegue descer na velocidade

certa, enquanto para subir é preciso prender e soltar a respiração

alternadamente, e se espremer para cima. Claro, depois de praticar bastante

você consegue fazer isso sem nem pensar, e então nada pode ser mais

gracioso.

Mas é necessário caber lá dentro, e Peter tira suas medidas para

encontrar sua árvore com o mesmo cuidado que faria se fosse costurar

roupas para você. A única diferença é que as roupas são feitas para caber

em você, enquanto você precisa ter um tamanho que caiba em uma árvore.

Normalmente isso é resolvido com bastante facilidade, é só você colocar

roupas extras ou não usar quase nenhuma roupa; mas se você tiver alguma

deformação em alguma parte do corpo ou se a única árvore disponível tiver

uma forma estranha, Peter faz algumas coisas com você e depois disso você

cabe lá. E depois que isso acontece deve-se tomar bastante cuidado para

continuar cabendo, e isso, como Wendy veio a descobrir para seu grande

deleite, mantém uma família inteira em perfeitas condições.

Wendy e Michael couberam em suas árvores logo na primeira

tentativa, mas John precisou ser um pouco ajustado.

Depois de alguns dias de prática eles já conseguiam subir e descer com

a facilidade de baldes em um poço. E agora os três amavam muito sua casa

embaixo da terra, principalmente Wendy. Ela era formada por uma grande

sala, como todas as casas, com um chão no qual se podia abrir um buraco se

quisesse pescar, e neste solo cresciam enormes cogumelos de uma cor linda,

que eram usados como banquinhos. Uma árvore do Nunca tentava crescer

no centro do cômodo, mas todas as manhãs eles serravam seu tronco e o

deixavam da altura do chão. Na hora do chá ela já estava a meio metro do

chão, e então eles colocavam uma porta em cima dela e a transformavam

em mesa. Assim que desmontavam a mesa serravam o tronco novamente, e

assim havia mais espaço para brincarem. Havia uma enorme lareira que

ficava em praticamente qualquer lugar do cômodo onde você quisesse acender o fogo e, sobre ela, Wendy estendia cordas feitas de fibras onde

colocava a roupa limpa para secar. A cama ficava encostada na parede

durante o dia, e era arrumada às 18:30, quando ocupava quase metade do

cômodo, e todos os garotos, exceto Michael, dormiam nela como se fossem

sardinhas dentro de uma lata. Havia uma regra severa que proibia que se

virasse de lado até que alguém desse um sinal, e então todos se viravam ao

mesmo tempo. Michael devia fazer isso também; mas Wendy queria ter um

bebê e ele era o menorzinho, e você sabe como são as mulheres. Em

resumo, ele acabou dormindo em uma cesta pendurada no teto.

A casa era rústica e simples, e não era diferente do que os bebês urso

teriam feito em uma casa subterrânea nas mesmas circunstâncias. Mas havia

um nicho na parede, não muito maior do que uma gaiola de passarinho, que

era o aposento particular de Sininho. Ele podia ser separado do resto da

casa por uma minúscula cortina que Sininho, que tinha muitas frescuras,

sempre mantinha fechada quando se trocava. Nenhuma mulher, por maior

que fosse, poderia ter um quarto mais lindo. O sofá, como Sininho gostava

de chamar, era um Queen Mab genuíno, com pés em curva; e ela trocava a

roupa de cama para combinar sempre com a flor da estação. O espelho era

um Gato de Botas, sendo que os antiquários das fadas só conheciam três

deles intactos no mundo todo. A mesinha retrátil onde ficava a bacia e a

jarra que Sininho usava para se lavar tinha as bordas todas trabalhadas. A

cômoda era uma autêntica Charming the Sixth, e o carpete e os tapetes eram

do melhor período (o inicial) do reinado de Margery e Robin. Havia ainda

um candelabro Adedanha, só para decorar, pois obviamente a própria

Sininho iluminava o aposento. Sininho sentia um grande desprezo pelo

resto da casa, o que talvez fosse inevitável; e seu quarto, embora lindo, era

muito pretensioso, tendo a aparência de um nariz sempre empinado.

Imagino que tudo aquilo era especialmente extasiante para Wendy,

pois seus meninos levados lhe davam muito o que fazer. Houve semanas

inteiras em que ela trabalhou tanto que só conseguia sair um pouco de

debaixo da terra quando pegava uma meia para cerzir no fim do dia. Tinha

que fazer tanta comida que, posso lhes assegurar, não tirava o nariz da

panela. A alimentação deles era composta principalmente por fruta-pão

grelhada, inhame, cocos, porco assado, abricós, rolinhos de tapioca e

bananas, acompanhados por cabaças de suco de seriguela. Mas eles nunca

sabiam se ia haver uma refeição de verdade ou só uma de faz de conta, tudo

dependia do humor de Peter. Ele às vezes comia muito, muito mesmo, como se isso fosse parte de uma brincadeira, mas nunca comia só para se

empanturrar, que é o que a maioria das crianças mais gosta de fazer na vida.

A segunda melhor coisa é falar sobre fazer isso. O faz de conta era tão real

para Peter que durante uma refeição de mentirinha ele até engordava. É

claro que era difícil, mas todos eram obrigados a fazer o que ele mandava.

Só que, se alguém conseguia provar para Peter que estava ficando magro

demais para sua árvore, ele deixava a pessoa se empanturrar.

A hora preferida de Wendy para costurar e cerzir era quando todos eles

já tinham ido para a cama. Então, ela tinha um momento para respirar e se

ocupava fazendo roupas novas para os garotos, ou colocando um forro a

mais nos joelhos, pois essa era a parte da roupa que eles sempre rasgavam

primeiro.

Quando ela se sentava com uma cesta cheia de meias para cerzir, todas

com um furo enorme no calcanhar, ela jogava os braços para o alto e

exclamava:

— Meu Deus, às vezes acho que quem não tem filho deve ser

invejado.

Seu rosto sempre brilhava quando ela dizia isso.

Você deve se lembrar de seu lobinho de estimação. Bom, ele logo

descobriu que ela viera para a ilha e a encontrou, e os dois se abraçaram.

Depois disso o lobinho ficava atrás dela por todos os lugares.

Será que com o passar do tempo Wendy começou a pensar nos

queridos pais que deixara para trás? Essa é uma pergunta difícil, pois é

quase impossível dizer como o tempo passa na Terra do Nunca, pois ele é

calculado pela Lua e pelo Sol, e ali há muito mais luas e sóis do que na

nossa terra. Mas receio que Wendy não se preocupasse com seu pai e sua

mãe; ela tinha bastante confiança de que eles sempre manteriam a janela

aberta para que ela voasse de volta, e isso a deixava tranquila. O que a

incomodava às vezes era que John se lembrava apenas vagamente dos pais,

como pessoas que um dia ele conheceu, e Michael estava bem confuso

achando que Wendy realmente era sua mãe. Essas coisas a deixavam com

um pouco de medo, e com o nobre propósito de cumprir com suas

obrigações ela tentava ajudar os garotos a se lembrar de sua antiga vida

obrigando-os a fazer provas sobre o assunto, parecidas com aquelas que ela

costumava fazer na escola. Os outros garotos achavam aquilo extremamente

interessante e insistiam em fazer também, e arrumavam lugares onde

pudessem escrever as respostas, sentavam-se à mesa, escreviam e pensavam bastante sobre as perguntas que ela havia escrito em um outro lugar de

anotações improvisado e que passava por eles. Eram perguntas bastante

fáceis, como:

 

“Qual era a cor dos olhos da mamãe? Quem era mais alto, o papai ou a

mamãe? A mamãe era loira ou morena? Responda todas as três questões, se

possível”. “a) Escreva uma redação de no mínimo 40 palavras sobre ‘O que

fiz nas minhas últimas férias’ ou ‘Uma comparação das personalidades do

papai e da mamãe’. Escolha apenas um dos temas.” Ou: “(1) Descreva a

risada da mamãe; (2) descreva a risada do papai; (3) descreva o vestido de

festa da mamãe; (4) descreva a casinha do cachorro e quem dorme nela”.

Eram perguntas simples como estas, e quando você não conseguia

responder era necessário fazer uma cruz no lugar da resposta; e era horrível

ver o número de cruzes que John fazia. É claro que o único garoto que

respondia a todas as perguntas era Slightly, e ninguém poderia ter mais

esperanças de ser o primeiro da turma, mas suas respostas eram totalmente

ridículas, e ele sempre tirava a nota mais baixa, o que era bastante triste.

Peter não competia. Pois se existia algo que ele realmente desprezava

eram as mães, com exceção de Wendy, e também porque ele era o único na

ilha que não sabia ler nem escrever, nem uma palavrinha sequer. Ele estava

acima de todos esses tipos de coisas.

Aliás, as perguntas eram sempre escritas no passado. Qual era a cor

dos olhos da mamãe, e por aí vai. Veja só, Wendy também estava

começando a se esquecer.

As aventuras, é claro, como veremos, eram diárias; mas nessa época

Peter inventou, com a ajuda de Wendy, um jogo novo que o fascinava

bastante, até que de repente ele perdeu o interesse nele. Como você já sabia,

isso era o que sempre acontecia com os jogos e com Peter. O jogo era fingir

que não havia aventuras ao fazer todos os tipos de coisas que John e

Michael sempre fizeram em sua vida toda: sentar em banquinhos e jogar

uma bola para cima, empurrar um ao outro, sair para caminhar e voltar sem

ter matado mesmo um urso pardo. Ver Peter fazendo nada sentado em um

banquinho era algo extraordinário; ele não conseguia deixar de parecer

sério nesses momentos, ficar sentado era, para ele, algo muito cômico de se

fazer. Ele se gabava por ter ido caminhar pelo bem de sua saúde. Durante

muitos sóis essa foi a aventura mais diferente do mundo para ele; e John e

Michael precisaram fingir que adoravam fazer aquilo também, se não

seriam castigados.

Ele sempre saía sozinho e, quando voltava, os outros nunca tinham

certeza se ele havia se envolvido em uma aventura ou não. Ele podia se

esquecer completamente se tinha ou não falado algo sobre ela; e quando

alguém saía encontrava o corpo. Por outro lado, ele podia falar bastante

sobre a aventura e ainda assim não era possível encontrar o corpo. Às vezes

ele voltava para casa com um curativo na cabeça, e quando Wendy cuidava

dele e lavava o machucado em água morna ele falava sobre seu

impressionante feito. Mas ela nunca acreditava totalmente nisso, você sabe

como é. Havia, porém, muitas aventuras que ela sabia serem verdade, pois

participava delas, e havia ainda aquelas que eram verdade pelo menos em parte, pois os outros meninos haviam participado e diziam que era

completamente verdade. Para descrever todas elas, seria necessário um livro

tão grande quanto um dicionário de latim, e o máximo que posso fazer é dar

uma ideia e uma hora como qualquer outra na ilha. A dificuldade é qual

delas escolher. A briga com os peles-vermelhas na ravina Slightly? Foi uma

batalha sangrenta e especialmente interessante, pois mostrou uma das

peculiaridades de Peter, que era que no meio de uma luta ele

repentinamente mudava de lado. Na ravina, quando a luta ainda estava

equilibrada, ele às vezes estava de um lado, às vezes do outro, e gritava:

— Hoje eu sou pele-vermelha. E você, Tootles?

E Tootles respondia:

— Pele-vermelha. E você, Nibs?

E Nibs dizia:

— Pele-vermelha. E você, o que é, Gêmeo?

E assim por diante; e todos eram peles-vermelhas; e, é claro, isso teria

terminado a luta se os verdadeiros peles-vermelhas, fascinados pelos

métodos de Peter, não tivessem concordado em serem garotos perdidos

daquela vez, e então começavam tudo de novo, mais ferozes do que nunca.

O resultado extraordinário dessa aventura foi que — mas ainda não

decidi se essa vai ser a aventura que vou narrar. Talvez uma aventura

melhor seja a do ataque noturno dos peles-vermelhas à casa debaixo da

terra, quando diversos deles ficaram entalados nas árvores ocas e

precisaram ser tirados de lá como rolhas. Ou eu poderia contar como Peter

salvou a vida de Tiger Lily, na Lagoa das Sereias, e a transformou em sua

aliada.

Ou posso falar do bolo que os piratas fizeram para que os meninos

comessem e morressem; e sobre como o colocaram em diversos lugares

diferentes, cada um mais estratégico do que o outro; mas Wendy sempre

arrancava o bolo das mãos de seus filhos e, após algum tempo, ele perdeu

sua suculência e ficou duro como uma pedra. O bolo acabou sendo usado

em uma catapulta, e Gancho tropeçou nele no escuro e caiu na escuridão.

Ou talvez eu conte sobre os pássaros que eram amigos de Peter,

particularmente o pássaro do Nunca, que fez seu ninho em uma árvore que

se debruçava sobre a lagoa, e sobre como esse ninho caiu na água, e ainda

assim a mãe continuou sentada sobre seus ovos, e Peter deu ordens para que

ela não fosse incomodada. Essa é uma linda história e seu fim mostra o

quanto um pássaro pode ser grato; mas se a contar precisarei contar também sobre toda a aventura na lagoa, o que seria, então, contar duas aventuras e

não uma só.

 

Uma aventura mais curta e tão emocionante quanto essa foi a tentativa

de Sininho, com a ajuda de algumas fadas, de se aproveitar do fato de

Wendy estar dormindo para colocá-la em cima de uma folha enorme e

tentar fazer com que ela voltasse para casa, boiando. Felizmente a folha

afundou e Wendy acordou, achando que era hora do banho e voltou

nadando. Ou, então, posso escolher falar sobre o dia em que Peter desafiou

os leões, quando desenhou um círculo em volta dele no chão com uma

flecha e os desafiou a atravessá-lo; e embora tenha ficado horas esperando,

com os outros garotos e Wendy olhando ansiosos das árvores, nenhum deles

se atreveu a aceitar seu desafio.

Qual dessas aventuras devo escolher? A melhor maneira será tirar cara

ou coroa.

Pronto, já fiz isso e a lagoa ganhou. Isso quase me faz desejar que a

aventura da ravina ou do bolo ou a da folha da Sininho houvesse ganhado. É claro que eu poderia jogar a moeda de novo e escolher o melhor de três,

mas talvez seja mais justo ficar com a da lagoa mesmo.

 

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