Peter Pan
VI. Um Choque
VI UM
CHOQUE
E ra um dia de maio e vi Mary acompanhar seu marido até o primeiro
cruzamento, quando ela acenou para ele como se ele houvesse embarcado
em um navio. Durante todo esse tempo ela usou a face de uma mulher
casada e feliz que ia direto para casa, e lá ficava esperando o retorno
glorioso do lorde; e o cavalheiro de aparência militar que a observava com
um sorriso entediado não via nada melhor perante ele além de mais um
capítulo de algum programa sobre felicidade doméstica. Ah, Mary, você
não pode me adiantar um pouquinho da trama?
Olá!
Assim que ela se viu sem ele, transformou-se em uma outra mulher;
agora ela havia se tornado uma senhora calculista e decidida, que olhava
secretamente ao redor e, tendo diminuído de tamanho para se tornar menos
perceptível, embarcou nervosa em uma aventura misteriosa.
— Que diabos! — pensei eu, e a segui.
Como alguém ansiosa para chegar no horário ela consultava o relógio
com frequência, olhando para ele por bastante tempo, como se fosse um
daqueles relógios que não revelam seu segredo até você ter feito um cálculo
mental. Uma vez ela o beijou. Eu sempre soube que ela gostava de seu
reloginho barato, que ele lhe deu, eu acho, no dia em que eu derrubei a
carta, mas por que beijá-lo na rua? Ah, e por que então colocá-lo de
maneira tão apressada em seu cinto de couro, Mary, como se você se
sentisse culpada por beijar hoje, ou qualquer outro dia, o relógio que seu
marido lhe deu?
Veremos que fiz uma viagem muito rápida dos pensamentos leves até a
inquietação. Eu não queria nenhum enredo quando ela chegou a seu destino,
uma rua de lojas vulgares. Ela não entrou em nenhuma das lojas, mas andou
devagar e se encolheu observando a rua de cima a baixo, uma verdadeira
imagem da vergonha; e nunca pensei em um dia ver a vergonha no rosto
doce de Mary A-----. Se eu tivesse passado por ela e dito seu nome acho
que eu a teria derrubado, e ainda assim ela continuou ali, esperando. Eu
também esperava por ele, imaginando se este era o homem, ou este, ou este,
e acredito que segurei com força a minha bengala.
Eu desconfiava de Mary? Ah, claro que não, não por um momento.
Mas havia alguma besteira aqui; ela tinha vindo sem o conhecimento do
marido, como indicava sua maneira furtiva, para um encontro que ela temia
e sobre o qual ela tinha vergonha de contar a ele; então devia ser para salvar, não ela mesma, mas a ele; a loucura a esconder nunca poderia ter
sido de Mary. Ainda assim, o que poderia ter acontecido no passado
daquele garoto honesto de cujas consequências ela podia protegê-lo
escondendo-se aqui? Aquela risada dele poderia ter sobrevivido a uma
desonra? A testa aberta, os cachos encaracolados, o sorriso agradável, as
centenas de maneiras agradáveis que trazemos conosco da nossa infância,
tudo isso pode permanecer quando a inocência desaparece, mas certamente
a risada do início da vida deve desaparecer. Nunca soube que o diabo
mantinha seu controle sobre isso.
Mas Mary ainda esperava. Ela não era mais bonita; a vergonha tinha
poder sobre seu rosto, ela era uma mulher feia. Então a confusão era do
marido e eu o amaldiçoei por isso. Mas sem convicção, pois, afinal, o que
eu sabia sobre as mulheres? Tenho algumas lembranças distantes delas,
algumas invenções inúteis. Mas sobre os homens – conheço um homem
bastante indiferente há mais de quarenta anos, eu o tripudiei (é estranho
pensar nisso), estremeci perante ele, eu me cansei dele, tive vontade (Deus
me perdoe) de caminhar com ele de maneira tolerante bastante tempo
depois de o ter conhecido; eu conheço um pouco sobre os homens e, no
fundo do meu coração, garoto, acho que estou enganado com relação a
você.
Então Mary está aqui por algum motivo inocente, para fazer uma boa
ação que era melhor ser desfeita, pois isso a assustava muito. Volte, sua
boba, coração mole, e não falarei mais sobre isso. Obstinada, você viu o
olhar no rosto de seu marido quando ele lhe deixou. É à luz do ateliê onde
ele pinta e ainda vê esperança, apesar de todas as decepções de suas
desprezíveis ambições. Aquela luz é o dote que você trouxe para ele, e ele é
um homem rico se não oscilar.
Ela estava tão ansiosa para ir embora, e ainda assim não foi. Em vários
momentos ela deu sinais, como se tivesse decidido fugir daquela rua
detestável, e vacilou e voltou como um pássaro para uma doninha. De novo
ela olhou para o relógio e beijou-o.
Ah, Mary, voe. Que loucura é esta? Mulher, vá embora.
De repente ela se foi. Com um grande esforço e um último olhar
aterrorizado ela entrou em uma loja de penhores.
Bem antes de ela surgir entendi tudo, acho até que quando a porta se
abriu e depois se fechou atrás dela; pois a alma tímida procurou por uma
rua onde ninguém a conhecia, por que ela passou tantas vezes por aquela loja detestável antes de se aventurar de maneira desesperada, por que ela
olhou tanto para o relógio que ela podia nunca mais ver. Mary estava tão
desesperada para manter sua pequena casa, e ainda assim seu coração
corajoso a fazia manter o rosto sorridente para o marido, que talvez nem
soubesse que caminhos seus pequenos tesouros estavam tomando.
Pode parecer monstruosamente cruel da minha parte, mas agora eu
estava bastante aliviado mais uma vez. Mesmo quando Mary saiu da loja
onde havia deixado seu relógio e eu tive paz de espírito para observar como
ela estava magra e cansada, como se seu bebê tivesse ficado grande demais
para seus braços leves, mesmo então eu me senti aliviado. Sem tentar ir
atrás dela, caminhei de volta para casa cantarolando uma música com
bastante la-ra-li-la-ra-la, pois nunca consigo me lembrar da letra. Eu a vi
entrar um uma outra loja, loja de roupa de bebê ou alguma outra desse tipo,
então estava claro que ela havia vendido seu relógio, mas o que eu tinha a
ver com isso? Continuei cantando. Eu atirei alegremente com minha
bengala em um poste e errei, vi um menino de rua sorrindo para mim;
pisquei para ele e deixei duas moedas escorregarem por suas costas.
Acho que eu teria escolhido o caminho mais fácil se tivesse tido
tempo, mas o destino quis que eu encontrasse o marido em seu caminho de
volta para casa, e sua primeira observação me inspirou a cometer uma
loucura.
— Como está Timothy? — perguntou ele; e a pergunta abriu um
caminho tão atraente que eu acho que ninguém cuja vida chata anseia por
cores teria resistido.
— Ele não está mais — respondi, de maneira impulsiva.
O pintor ficou tão chocado que soltou uma exclamação de pena e eu
mesmo senti uma tristeza, pois com essas palavras precipitadas meu
menininho se fora, de fato; todos os meus sonhos com Timothy, todos os
meus esforços para protegê-lo do desprezo de Mary, foram embora com o
vento.
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