Peter Pan
V. A Luta por Timothy
V
A LUTA POR TIMOTHY
O pobre bebê pretensioso de Mary gritava continuamente, com uma nota
de exultação em seu barulho, como se pensasse que seu destino era uma
vida de prazeres, e com frequência o último som que eu ouvia quando saía
na rua era sua gargalhada, que era entregue de maneira triunfante como se
fosse algo inteiramente novo, embora ele deva tê-la aprendido como um
papagaio. Eu não tinha uma única lágrima para derrubar pela mulher, mas o
pobre pai, pensei eu; saber que sempre que seu filho está feliz você está
sendo traído. Uau, um ciclo nauseante.
Tenho conhecimento de uma garota deliciosamente linda, que está
sempre mal-humorada, e o impensado implora que ela seja brilhante, sem
saber onde está seu heroísmo. Ela nasceu a mais alegre das criadas, mas,
sendo uma observadora de seu rosto, percebeu que o melhor é ser mal-
humorada, e então lutou e prevaleceu. A história de uma mulher. Admirável
Margaret, quando a noite cai e o teu cabelo está penteado, imagino que
voltas ao teu estado natural, ou, temendo a sombra da indulgência, dormes
até de mau humor?
Mas será que um filho homem faria o mesmo com seu pai? Isso ainda
precisa ser observado, e então, depois de esperar vários meses, decidi
comprar um cavalo de balanço para David. Meu cachorro São Bernardo me
acompanhou, embora eu sempre tenha sido reservado para levá-lo a lojas de
brinquedo, pois elas o deixam muito animado. Até agora todos os
brinquedos que comprei sempre foram para ele e, embora nós não
admitamos para a vendedora, nós dois estávamos conscientemente
horrorizados quando chegamos à loja. Várias vezes eu havia dito a ele que
era muito melhor se ele não viesse comigo. Ele então esparramou suas
pernas, que é como o São Bernardo se senta, fazendo o barulho de um saco
de carvão sendo depositado e, colocando a cabeça entre suas patas da
frente, olhou para mim com aqueles olhos vermelhos que o deixam com a
feição tão triste. Ele é capaz de ficar uma hora assim, sem piscar, pois ele
sabe que com o tempo eu vou ceder. Meu cachorro sabe muito pouca coisa,
mas o que ele sabe, ele sabe extraordinariamente bem. É possível sair da
minha casa pela porta dos fundos, e eu às vezes saio suavemente por ali –
mas não consigo evitar de olhar para trás, e lá está ele, e lá estão aqueles
olhos tristes me perguntando “para você, isso vale a pena”?
— Maldito — digo —, pegue seu chapéu, ou algo parecido com isso.
Ele até já esteve no clube, onde sobe as escadas com um gingado tão
parecido com o de alguns membros respeitáveis que deixa todos bastante
desconfortáveis. Eu me esqueço de como me tornei dono dele. Acho que eu
o livrei de uma grande quantidade de socos. Ele me custa tanto quanto uma
casa de oito cômodos no campo.
Ele já era um cachorro totalmente crescido quando eu, muito estúpido,
o apresentei para os brinquedos. Eu havia comprado um brinquedo na rua
para minha própria diversão. Representava uma mulher, uma jovem mãe,
arremessando seu pequeno filho sobre a cabeça com uma mão e pegando-o
com a outra, e eu estava me divertindo no tapete da lareira com esta cena
totalmente doméstica quando ouvi Porthos fazer um barulho inusitado e, ao
olhar para cima, vi aquele semblante nobre e melancólico exibindo um
sorriso largo. Estremeci e estava colocando o brinquedo de lado, mas ele
bateu sua perna em meu braço e sinalizou que eu deveria continuar.
Descobri que a risada fraca acontecia quando a pobre dama largava seu
bebê, mas a coisa toda o fascinava; ele tentava conter sua excitação
tomando grandes quantidades de água; esqueceu de todas as suas boas
condutas; sentou-se em êxtase com o brinquedo entre suas patas, levou-o
para a cama, comeu-o durante a noite e ficou tão triste por não tê-lo mais no
dia seguinte que precisei sair e comprar o homem com a foice para ele.
Depois disso, passamos a ter de tudo, o garoto de botas pretas, a garrafa
com a tampa, o coelhinho de algodão que fazia barulho quando ele o
pegava com a boca; todos desapareceram de maneira inexplicável, como
aconteceu com a dama, mas não me atrevi a dividir minhas suspeitas com
ele, pois ele também suspeitava o mesmo e seu coração carinhoso ficaria
muito triste se eu confirmasse minhas suspeitas.
A dama no templo de brinquedos que frequentamos acha que compro
os brinquedos para um garotinho e o chama de “precioso” e “cordeirinho”,
enquanto Porthos fica parado, sério, ao meu lado. Ela tem a alma materna,
mas fala demais.
— E como está o querido cordeirinho hoje? — começa ela, sorridente.
— Bem, madame, bem — digo eu, segurando firme a coleira de
Porthos.
— Esse tempo abafado não está afetando seu apetite?
— Não, madame, de maneira alguma.
(Ela ficaria bastante surpresa se soubesse que ele comeu hoje uma
cabeça de peixe, um pão e três repolhos, e suspeito que tenha comido também uma perna de carneiro.)
— Entendo que ele ama os brinquedos.
— Ele os carrega para cima e para baixo, madame. (Inclusive está
agora com o que compramos ontem, embora talvez você não queira vê-lo.)
— E o que você acha de levar uma caixa de ferramentas desta vez?
— Acho melhor não, madame.
— O querido gosta de cavar?
— Gosta bastante de cavar. (Devemos encontrar a perna de carneiro
qualquer dia.)
— Então, talvez uma pá e um baldinho?
Ela me fez comprar uma catedral de Canterbury uma vez, ela foi tão
insistente, e Porthos me mostrou o que achou disso quando cheguei em
casa. Ele detesta o sistema do jardim de infância, e como ela é
absurdamente influenciada por esse sistema precisamos experimentar outras
lojas. Fomos até a Lowther Arcade para comprar o cavalo de balanço. Ah, a
Lowther Arcade! Muitas vezes vagamos encantados por seus palácios
encantados, Porthos e eu, David e eu, David, Porthos e eu. Ouvi dizer que
você é vulgar, mas não vejo como, a menos que crianças esfarrapadas
assombrem seus portais, aquelas entradas terríveis mas sorridentes, para ir
ao encontro de tanta alegria. Para chegar ao Arcade há duas entradas, e com
muito a ser dito em louvor àquela do Strand I eu ainda prefiro a outra que é
mais romântica, pois é lá que os esfarrapados se concentram, esperando
para ver os Davids surgirem com a lâmpada mágica. Sempre temos um
trocado para dar a eles, e eu sei que eles, antes de entrarem no Arcade com
o trocado, se retiram (mas para onde vão?) para se lavar; certamente o
maior de todos os respeitos demonstrados para uma loja de brinquedos.
E agora, ah, Arcade, muito melhor do que seu irmão no West End,
somos informados de que você está amaldiçoado, em breve será
transformado em um restaurante ou em um cortiço para usurários, algo
bastante inútil. Todas as suas maravilhas estão destinadas a desaparecer. As
argolas de Noah estão empacotadas juntas, com cavalos mecânicos arreados
a elas; os soldados, com mochilas nas costas, estão beijando as mãos de
suas queridas e tolas meninas que, no entanto, não serão deixadas para trás;
todas as coisas que têm quatro pés estão juntas em volta do elefante, que
está repleto de mobília da sala de visitas; os pássaros batem suas asas; o
homem com a foice abre seu caminho pela multidão; os balões puxam suas cordas; os navios balançam sob uma onda, tudo está ficando pronto para o
poderoso êxodo pela Strand. Lágrimas serão derramadas.
Então compramos o cavalo na Lowther Arcade. Porthos, que pensou
que o brinquedo era para ele, parecia orgulhoso mas inquieto, e o cavalo foi
enviado para a caixa de correios da casa, anonimamente. Cerca de uma
semana depois tive a infelicidade de encontrar o marido de Mary em
Kensington, e então perguntei a ele o nome de sua garotinha.
— É um menino — respondeu ele, com intolerável bom humor. —
Nós o chamamos de David.
E então, com uma falta de tato única, ele quis saber o nome do meu
menino.
Sacudi minha luva.
— Timothy — disse eu.
Vi um sorriso suprimido em seu rosto, e ele disse calorosamente que
Timothy era um nome tão bom quanto David.
— Gosto desse nome — garantiu ele, e expressou o desejo de que os
dois se tornassem amigos.
Eu quase disse que não podia permitir que Timothy se misturasse com
meninos do nível de David, mas eu me abstive, e ouvi friamente enquanto
ele me contava o que David fazia quando ele dizia que seus dedos eram
porquinhos indo para o mercado ou voltando de lá, não me lembro direito.
Ele também se gabou do peso de David (um assunto sobre o qual
gostávamos de conversar no clube), como se o peso das crianças valesse
uma aposta.
Mas não falamos mais sobre Timothy. Aos poucos aquilo foi me
irritando. Senti que Timothy era um pobre camarada abandonado, sobre
quem ninguém falava uma palavra, e me tornei seu campeão e mencionei
algo sobre dentição, mas retirei meu comentário quando ele pareceu
surpreendente demais e tentei pisar em um solo mais seguro, falando de
coisas como babadores e inteligência de um modo geral, mas o caro pintor
queria tanto me ouvir, e sabia tão mais sobre bebês do que é normal os
homens saberem que empalideci à frente dele e fiquei me perguntando por
que ele me ouvia com tanta atenção.
Vocês devem se lembrar da história que ele me contou sobre um amigo
anônimo.
— A última dele — dizia ele, agora — foi enviar para o David um
cavalo de balanço!
Preciso dizer que não consegui entender o motivo de ele achar aquilo
hilário.
— Imagine — disse ele —, um cavalo de balanço para uma criança
que ainda não tem nem três meses de vida!
Eu estava a ponto de dizer, de maneira feroz: “os estribos são
ajustáveis”, mas pensei que era melhor rir com ele. Mas fiquei chateado ao
ouvir que Mary tinha rido, embora Deus saiba o quanto eu já rira dela.
— Mas as mulheres são estranhas — disse ele inesperadamente e então
se explicou.
Parece que no meio de sua risada Mary ficou séria e disse a ele de
maneira bastante arrogante: “Não vejo motivos para rir”. E então ela beijara
o cavalo solenemente no nariz e disse: “Gostaria que ele estivesse aqui para
me ver fazendo isso”. Em certos momentos é impossível não se sentir
atraído por Mary.
Mas apenas em alguns momentos, pois a próxima coisa que ele disse a
colocou em uma posição particularmente odiosa. Ele me disse que ela havia
jurado caçar o Sr. Desconhecido.
— Ela não vai conseguir — disse eu, irônico, mas nervoso.
— Se isso acontecer será seu primeiro fracasso — disse ele.
— Mas ela não sabe nada sobre o homem.
— Você não diria isso se a ouvisse falar sobre ele. Ela diz que ele é um
velho solteiro, gentil, extravagante e solitário.
— Velho? — exclamei.
— Bom, ela diz que ele logo vai ficar velho se não se cuidar. De
qualquer maneira, ele é solteiro, e gosta bastante de crianças, mas nunca
teve uma criança com quem brincar.
— Poderia não brincar com uma criança embora tivesse uma — disse
eu bruscamente. — Se esqueceu de como fazer isso; poderia ficar ali em pé
e olhando apenas.
— Sim, se os pais estivessem presentes. Mas ele acha que se estivesse
sozinho com a criança ele poderia brincar com ela.
— Mas como — comecei a dizer.
— Isso é o que ela diz — explicou ele, desculpando-se. — Acho que
ela vai se mostrar esperta demais para ele.
— Puf! — disse eu, mas sem dúvidas me senti um pouco zonzo e na
próxima vez em que me encontrei com ele me assustei.
— Você conhece alguém — perguntou ele — que tenha um cão São
Bernardo?
— Não — disse eu, pegando minha bengala.
— Ele tem um São Bernardo.
— Como você sabe disso?
— Ela descobriu.
— Mas como?
— Eu não sei.
Eu o deixei, pois Porthos estava logo atrás de mim. O mistério me
assustava, mas eu me armei para a batalha. Contratei um garoto para levar
Porthos para andar no Kensington Gardens e lhe dei instruções: “se você vir
que uma mulher jovem com um carrinho de bebê usado está seguindo você,
entregue-a imediatamente à polícia dizendo que ela está tentando roubar o
cachorro”.
Agora eu quero ver, Mary.
— Ah — disse o marido em nosso próximo encontro —, aquele cavalo
de balanço que eu comentei com você custou três guinéus.
— Ela foi até a loja para perguntar?
— Não, não para perguntar isso, mas para pedir uma descrição do
comprador.
Ah, Mary, Mary.
Eis a descrição do comprador, dada pela Arcade: parecia um
cavalheiro militar; alto, escuro e bem-vestido; um belo nariz romano
(parecia bastante), bigode cuidadosamente aparado, quase grisalho (ainda
não era grisalho); cabelo fino e bem distribuído sobre a cabeça como se
quisesse aproveitar o máximo (pah!); tirou o pó da cadeira com o lenço
antes de se sentar nela, e tinha outras manias de velho (gostaria de saber que
manias são essas); tediosamente educado, mas não era falante; rosto
entediado; deve ter uns quarenta e cinco anos (mentira); estava
acompanhado por um enorme cachorro amarelo com olhos tristes (sempre
acham seus olhos tristes).
— Você conhece alguém assim? — perguntou o marido de Mary para
mim, inocente.
— Meu caro — disse eu —, quase todo mundo que conheço é assim.
E isso era verdade, pois no clube sempre acabamos ficando uns iguais
aos outros. Fiquei satisfeito, no geral, com esta fala, pois ela pelo menos me
dizia como ela ficara sabendo sobre o São Bernardo, mas a ansiedade voltou a me atormentar quando um dia, detrás de minhas cortinas, vi Mary
na minha rua com um olhar questionador em direção às minhas janelas. Ela
parou uma babá que carregava um bebê e pareceu bastante animada com a
criança. Tive certeza de que ela também perguntou para a babá se por acaso
o bebê se chamava Timothy. E, se não se chamava, perguntou se a babá
conhecia alguma outra babá que cuidava de um Timothy.
Era óbvio que Mary suspeitava de mim, mas, apesar disso, eu me
agarrei a Timothy embora eu desejasse muito saber mais sobre ele; pois eu
ainda encontrava aquele outro pai ocasionalmente, e ele sempre parava para
comparar as duas crianças. E as perguntas que ele me fazia eram tão
íntimas: como Timothy dormia, como acordava, como dormia de novo e o
que colocávamos em seu banho. O fato de cachorros e garotinhos terem
tanto em comum era bom, pois tudo o que eu lhe contava era sobre Porthos;
como ele dormia (tranquilamente), como acordava (como quem acorda de
um sonho), como dormia de novo (com uma mãozinha no nariz), mas
deixei passar a pergunta sobre o que colocamos em seu banho (carbólico e
esfregão).
O homem não suspeitava nem um pouco de mim e achei razoável
esperar que Mary fosse generosa assim também. No entanto, fortaleci
minha mente, pois poderia ser que ela estivesse apenas ganhando tempo
para me atacar de repente, e isso fez com que eu me apegasse ainda mais a
Timothy, como se eu temesse que ela pudesse tirá-lo de mim. Como, de
fato, era o caso.
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