Peter Pan

J. M. Barrie · Capítulo 26 de 48

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Peter Pan

XXVI. A Dedicatoria

XXVI

 

A DEDICATORIA

Foi apenas ontem à tarde, caros leitores, exatamente três semanas depois

do nascimento de Bárbara, que terminei de escrever o livro, e mesmo assim

ele não estava exatamente terminado, pois faltava a dedicatória, à qual me

dediquei exultante. Acho que nunca me diverti tanto; na verdade, acho que

escrevi o livro como desculpa para escrever a dedicatória.

“Madame” (escrevi com humor), “não tenho vontade de exaltá-la, no

entanto, eu demonstraria uma obtusidade lamentável para com a ironia das

coisas se não dedicasse este pequeno trabalho à senhora. Pois quem teve a

ideia foi a senhora, e em seus dias mais ambiciosos pensou em escrever a

história do pequeno pássaro branco. Por que a senhora abandonou o ninho

tão cedo não cabe a mim perguntar. Parece agora que estava ocupada.

Enfim, a senhora escolheu o caminho mais baixo e se contentou em obter o

pássaro. Devo destacar, ao presenteá-la com esta dedicatória, que enquanto

isso eu me tornei o pai do livro? Para a senhora a sombra, para mim a

substância. Confio que aceitará minha pequena oferta com espírito cristão,

minha cara madame”, etc.

Foi um trabalho inebriante, pois as palavras atrevidas mostravam sua

concepção através do brilho, e eu estava relendo aquilo em êxtase quando,

sem avisar, a porta se abriu e o pequeno garoto entrou, arrastando uma

senhora vacilante.

— Pai — disse David —, essa é a minha mãe.

Depois de fazer essa breve apresentação, ele virou sua atenção para a

luz elétrica, e a apagou e acendeu tão rapidamente que, como era muito

apropriado, posso dizer que Mary e eu nos encontramos pela primeira vez

embaixo do brilho dos relâmpagos. Acho que ela estava vestida com

plumas azuis, mas se tal roupa não for apropriada, juro que havia, pelo

menos, pequenas plumas azuis em seu chapéu coquete, e ela carregava um

regalo para combinar com ele. Nenhuma parte de uma mulher é mais

perigosa do que seu regalo e, como eles não são usados no início do outono,

mesmo por inválidos, percebi rapidamente que ela havia vestido todas as

suas coisas bonitas para me persuadir. Também tenho a opinião de que ela

se lembrava de que usava azul na época em que eu a observava pela janela

do clube. Sem dúvidas Mary é uma criaturinha envolvente, embora não seja

o meu estilo. Ela estava mais pálida do que de costume, e tinha a aparência

de alguém que se quebraria com facilidade. Até me atrevo a dizer que isso

era um truque. Suas saias pareciam música para minhas acomodações, mas talvez isso tenha acontecido apenas porque nenhuma dama jamais entrara

ali antes. Foi inquietante para mim pensar que apesar de seu desconforto

óbvio, ela era uma mulher bastante astuta.

Com a rapidez de David ao acender e apagar a luz, coloquei um mata-

borrão sobre a dedicatória e disse, com frieza:

— Sente-se.

Mas ela continuou em pé, toda nervosa e com muito medo de mim, e

sei que suas mãos deviam estar se apertando embaixo do regalo. Se

houvesse alguma maneira digna de fugir dali, acho que nós dois o teríamos

feito.

— Eu não devia ter vindo — disse ela, nervosa, e então pareceu

esperar por alguma resposta, por isso abaixei a cabeça.

— Eu estava morrendo de medo de vir, de verdade, estava mesmo —

me garantiu ela com sinceridade. — Mas eu vim — encerrou ela.

— É uma epítome, madame — disse eu, vendo ali a minha chance —

da sua vida toda — e dizendo isso eu a conduzi até minha poltrona.

Ela começou a falar sobre as minhas aventuras com David no Gardens,

e sobre algumas coisinhas que não mencionei aqui, que eu posso ter feito

para ela quando eu estava com o humor um pouco alterado, e sua voz era

tão suave quanto seu regalo. Ela também tinha uma maneira adorável de

pronunciar todos o “z” e o “g”, assim como as fadas.

— Então — disse ela, — como você não pôde vir até mim para que eu

o agradecesse, eu vim para isso.

Com isso ela me agradeceu de maneira abominável. Ela também tirou

as mãos do regalo e, embora estivesse sorrindo, seus olhos estavam

molhados.

— Ora, madame — disse eu, desesperado, mas não segurei sua mão.

— Ainda não estou muito forte — disse ela, com a voz baixa e com

astúcia.

Ela disse isso para que eu segurasse sua mão, e então eu segurei, talvez

eu a tenha acariciado um pouco. Então andei bruscamente até a janela. A

verdade é que comecei a ficar desconfortável com a dedicatória.

Fui até a janela porque, sem dúvidas, seria mais fácil me dirigir a ela

estando atrás dela, e eu queria dizer algo que a magoaria.

— Quando a senhora tiver terminado, madame — disse eu, depois de

uma longa pausa —, talvez a senhora permita que eu fale um pouco.

Eu só conseguia enxergar a parte de trás de sua cabeça, mas eu sabia,

pelo rosto de David, que ela havia lançado a ele um olhar rápido que não

indicava que ela estava magoada. Na verdade eu senti agora, como eu havia

sentido antes, que embora ela estivesse nervosa e com um pouco de medo

de mim, ela também estava se divertindo bastante.

Em tais circunstâncias minha intenção de tentar magoá-la não faria

diferença, por isso eu disse, de maneira bastante imprevisível:

— Se eu fiz tudo isso para você, por que eu fiz isso?

Ela não me respondeu, mas pareceu crescer na poltrona, de maneira

que consegui enxergar seus ombros, e eu sabia que agora ela estava se

segurando presunçosamente e tentando parecer modesta.

— Nem um pouco por isso, madame — disse eu, bruscamente —, este

não foi o motivo de maneira alguma.

Fiquei satisfeito ao ver ela se mexer, finalmente bastante indignada.

— Nunca disse que era por isso — respondeu ela, incomodada —,

nunca pensei, em nenhum momento, que era por isso — acrescentou ela, de

maneira um pouco trivial para a história. — Além disso, eu não sei do que

você está falando.

Acho que devo ter sorrido neste momento, pois ela se virou com

rapidez e ficou bastante pequena na poltrona novamente.

— David — disse eu sem pena alguma —, você já viu sua mãe corar?

— O que é corar?

— Ficar com uma cor lindamente rosa.

David, que nessa hora já tinha quebrado minha conexão com a chefe,

foi até sua mãe para olhar para ela.

— Não estou corada, David — respondeu ela.

— Acho — disse eu — que ela vai ficar corada agora — e com o

instinto de um cavalheiro, desviei o olhar.

Embora eu não possa dizer o que aconteceu, ouvi David exclamar com

admiração:

— Ah, mãe, faça isso de novo!

Como ela não fez de novo, ele subiu no guarda-fogo para olhar no

vidro da lareira se ele conseguia fazer o mesmo que ela, e então Mary

virou-se para mim com um olhar sincero que mais lembrava maternidade do

que reprovação. Talvez nenhum outro olhar, mesmo o de uma mulher para

um homem, tenha tanto efeito sobre alguém.

— Você vê — disse ela radiante e com um gesto no qual ela se revelou

para mim —, sou capaz de perdoar até mesmo isso. Há muito tempo você

ganhou o direito de me magoar se quiser.

Esse comentário me livrou de todo o meu desejo de criticar Mary e

senti uma atração incomum por ela.

— E se eu pensei isso durante algum tempo… — continuou ela com

um sorriso.

— Isso o quê? — perguntei, mas sem a convicção necessária.

— Isso sobre o que estamos falando — respondeu ela estremecendo,

mas me perdoando novamente. — Se um dia pensei isso, foi bonito para

mim enquanto durou, e durou só um pouco. Faz tempo que tenho certeza de

que sua gentileza comigo é por algum outro motivo.

— Madame — disse eu com bastante sinceridade —, não sei qual era o

motivo. Minha preocupação com você era no começo algo bastante frágil e

até mesmo egoísta, mas não de todo egoísta, pois eu acho que o que

primeiro mexeu comigo foi o balanço alegre da pequena babá enquanto ela

descia a Pall Mall para encontrar seu amante. Parecia algo tão poderoso

para você ser amada que achei que seria melhor você continuar sendo

amada por mais um pouco. E talvez por tê-la ajudado uma vez ao deixar

cair a carta tenha ficado encantado pela facilidade com que você aceitava a

ajuda, pois você deve saber que eu sou uma daquelas pessoas que escolhem

o caminho mais fácil há mais de vinte anos.

Ela sacudiu a cabeça e sorriu.

— Em minha cabeça — garanti a ela — não consigo pensar em

nenhum outro motivo.

— Um coração gentil — disse ela.

— Parece mais um capricho — disse eu.

— Ou uma outra mulher — disse ela.

Fiquei bastante surpreso.

— Há mais de vinte anos — disse ela, com uma suave rouquidão em

sua voz, e com um tremor e doçura, como se ela não soubesse que em vinte

anos todas as histórias de amor ficam desgastadas.

Em minha defesa como um soldado, esta explicação sobre minha

solicitude inicial por Mary era algo que nunca me preocupou, mas quanto

mais eu pensava nisso – levantei sua mão e toquei-a com meus lábios, da

maneira como nós, velhos cavalheiros caprichosos, fazemos quando uma

garota graciosa nos faz abrir o baú que guarda algo há tanto tempo.

— Ora, madame — disse eu —, é uma bela noção, e deve haver

alguma razão nisso. Vamos deixar assim.

Mas ainda havia aquela maldita dedicatória, embaixo, vocês se

lembram, daquele mata-borrão. Eu não tinha mais nenhuma intenção de

magoá-la com aquilo. Eu queria que ela tivesse conseguido escrever o livro

como ela tanto desejava.

— Se você apenas tivesse sido menos ambiciosa — disse eu, bastante

preocupado que ela ficasse decepcionada com o desejo de seu coração.

— Eu queria todas as coisas queridas e deliciosas — admitiu ela,

arrependida.

— Não era razoável — disse eu ansioso, apelando para o seu intelecto.

— Principalmente esta última coisa.

— Sim — concordou ela com franqueza. — Eu sei.

E então, para meu espanto, ela acrescentou, triunfante:

— Mas eu consegui.

Acho que meu olhar a censurou, pois ela continuou desculpando-se,

mas ainda como se ela realmente achasse que tinha tido uma carreira

romântica:

— Eu sei que não mereço, mas eu consegui.

— Ah, madame — soltei, com tom reprovador —, pense. Você não

conseguiu a grande coisa.

Eu a vi pensando nas grandes coisas em sua cabeça, em seu

maravilhoso marido e seu sucesso obscuro, em David, Bárbara e em outras

coisas triviais que tinha dentro de sua caixa de joias.

— Acho que consegui, sim — disse ela.

— Vamos lá, madame — soltei, um pouco irritado. — Você sabe que

falta uma das coisas que você mais queria.

Vocês acreditam que eu tive de contar a ela o que era? E quando

contei, ela exclamou com extraordinária insensibilidade:

— O livro? Eu já tinha me esquecido totalmente do livro!

E então, depois de refletir, ela acrescentou:

— Puf!

Se ela não tivesse dito “puf” eu a teria poupado, mas como ela disse,

levantei o mata-borrão e mostrei a ela a folha que estava embaixo dele.

— O que é isto? — perguntou ela.

— Madame — disse eu, inchando —, é uma dedicatória.

E caminhei majestosamente até a janela.

Não há nenhuma dúvida de que ouvi um barulho inesperado. Ainda

assim, se foi uma risada ela a segurou, pois quase no mesmo momento ela

me olhou com os olhos arregalados e bateu em minha manga de maneira

impulsiva com seus dedos, assim como David faz quando ele começa a

gostar de você.

— Tão típico de você — disse ela, à janela.

— Típico — repeti, incomodado. — Ora!

— E tão gentil.

— Você disse gentil, madame?

— Mas sou eu quem tenho a substância, e você quem tem a sombra,

como você muito bem sabe — disse ela.

Sim, eu sempre soubera que aquela era a única falha em minha

dedicatória, mas como eu poderia esperar que ela teria a inteligência para

perceber isso? Eu estava bastante chateado.

— E tem mais um erro — disse ela.

— Me perdoe, madame, mas tem apenas um erro aí.

— Nunca foi sobre o meu pequeno pássaro branco que quis escrever

— disse ela.

Eu parecia incrédulo e então ela realmente me surpreendeu.

— Eu queria escrever sobre o seu pequeno pássaro branco — disse ela

—, sobre um garotinho chamado Timothy.

Ela tinha uma maneira muito linda de falar Timothy, e então David e

eu fomos para outra sala para deixá-la sozinha com o manuscrito deste

pobre livrinho, e quando voltamos ela tinha a maior surpresa do dia para me

oferecer. Ela estava rindo e chorando ao mesmo tempo, o que não era uma

surpresa, pois qualquer um de nós choraria ou daria gargalhadas ao ler um

livro sobre um assunto tão interessante quanto nós, mas ela disse:

— Como você está errado em pensar que este livro é sobre mim e

sobre os meus, na verdade é tudo sobre o Timothy.

No começo eu considerei isso um absurdo incomum, mas ao pensar

melhor, vi que ela provavelmente estava certa novamente, e olhei

cabisbaixo para esta mulher muito inteligente.

— E então — disse ela, batendo a mão como David faz quando chega

a uma grande descoberta —, por fim ele se prova ser o meu livro.

— Com todos os seus lindos pensamentos deixados de fora —

respondi, com humildade.

Ela falou em voz baixa para que David não a ouvisse.

— Tenho apenas uma sugestão bonita para o livro — disse ela —, eu

daria a ele um final feliz.

Ela disse isso tão timidamente que eu estava quase derretendo quando

ela acrescentou, com extraordinária ousadia:

— O pequeno pássaro branco precisa carregar uma folha de oliveira

em sua boca.

Durante um longo tempo ela conversou comigo animada sobre um

grande esquema no qual ela havia se empenhado, e sempre e de novo ela

dava tapinhas em mim como se quisesse saber o que eu achava de suas

ideias. Ouvi com respeito, sorrindo para esta jovem por cuidar com tanto

carinho de mim, e no final precisei lembrá-la de que eu tinha quarenta e sete

anos de idade.

— Você é bastante jovem para um homem — disse ela,

descaradamente.

— Meu pai — disse eu — não tinha quarenta e sete anos quando

morreu, e eu me lembro de vê-lo como um homem velho.

— Mas você não acha isso agora, não é? — insistiu ela. — Você ainda

se sente jovem em alguns momentos, não é? Às vezes, quando você está

brincando com David no Gardens, sua juventude reaparece, não é?

— Mary A----- — disse eu, começando a ficar com medo da mulher

—, proíbo você de fazer mais descobertas hoje.

Mas ainda assim ela abraçou seu esquema, que não tenho dúvidas de

que foi o que trouxe ela até minha casa.

— Elas são mulheres muito queridas — disse ela, de maneira

persuasiva.

— Tenho certeza disso — disse eu —, devem ser mulheres queridas se

são suas amigas.

— Elas não são exatamente jovens — vacilou ela —, e talvez não

sejam muito bonitas.

Mas ela tinha ficado sabendo há tão pouco tempo sobre minha querida

juventude que ela parou de repente, envergonhada, imagino; uma pausa em

sua mente por ter proposto algo daquele tipo para mim que, naqueles dias

presunçosos, pensei estar feliz com nada menos do que a mais adorável

dama de toda a terra.

Meus pensamentos também haviam mudado, e pela última vez meus

olhos viram a pequena cabana através da névoa do bosque de pinheiros.

Encontrei Mary lá, e voltamos juntos para o presente.

Eu já contei a vocês, leitores, que essa conversa aconteceu ontem

mesmo.

— Muito bem, madame — disse eu, tentando colocar uma aparência

valente em meu rosto —, vou participar de seus chás, e vamos ver no que

dá.

Realmente isso era tudo o que ela me pedira, mas agora que ela tinha

conseguido o que queria de mim os olhos da tola alma ficaram molhados,

ela sabia tão bem que os romances de juventude são os melhores.

 

Agora era a minha hora de confortá-la.

— Em vinte anos — disse eu, sorrindo para as lágrimas dela — um

homem torna-se humilde, Mary. Guardei dentro de mim uma grande

quantidade de afeição, sem ter ninguém com quem compartilhá-la e, juro

para você, palavra de soldado, que se uma daquelas suas amigas vierem a

gostar de mim ficarei bastante orgulhoso.

 

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Apesar de parecer feliz, eu sabia que ela estava se perguntando se aquilo

que eu dizia era verdade, e eu também me perguntava isso, mas aquilo era

verdade.

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