Peter Pan

J. M. Barrie · Capítulo 47 de 48

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Peter Pan

XVII. Quando Wendy Cresceu

XVII

 

QUANDO WENDY CRESCEU

Espero que você queira saber o que aconteceu com os outros garotos. Eles esperavam lá embaixo para dar tempo para Wendy explicar sobre eles; e depois de contarem até quinhentos eles subiram. Subiram pela escada porque acharam que causariam uma melhor impressão. Formaram uma fila em frente à Sra. Darling, com os chapéus nas mãos, arrependidos por estarem usando roupas de piratas. Eles não disseram nada, mas seus olhos imploravam para que ela ficasse com eles. Eles devem ter olhado para o Sr. Darling também, mas haviam se esquecido dele.

É claro que a Sra. Darling logo disse que ficaria com eles; mas o Sr. Darling ficou curiosamente deprimido, e eles viram que ele considerava seis um número bastante grande.

— Devo dizer — disse ele para Wendy — que você não faz nada pela metade.

Um comentário infeliz que os Gêmeos acharam que era para eles.

O primeiro gêmeo era o mais orgulhoso, e perguntou, com o rosto corado:

— O senhor acha que daremos muito trabalho, senhor? Porque se o senhor achar que sim, podemos ir embora.

— Papai! — gritou Wendy, chocada.

Ainda assim havia uma nuvenzinha em cima da cabeça do Sr. Darling. Ele sabia que não estava se comportando bem, mas não conseguia evitar.

— Podemos dormir de dois em dois — disse Nibs.

— Eu sempre corto o cabelo deles — disse Wendy.

— George! — exclamou a Sra. Darling.

Ela se chateava em ver seu querido marido agindo de maneira tão indigna.

Então o Sr. Darling caiu no choro, e a verdade veio à tona. Ele estava tão feliz quanto a esposa ao pensar em ficar com os meninos, mas achou que eles deveriam ter pedido o consentimento dele também, em vez de chegar na sua casa e tratá-lo como se ele fosse apenas um zero à esquerda.

— Eu não acho que ele seja um zero à esquerda — exclamou Tootles no mesmo instante. — Você acha que ele é um zero à esquerda, Curly?

— Não, eu não acho. Você acha que ele é um zero à esquerda, Slightly?

— Não acho, não. Gêmeo, o que você acha?

Descobriu-se que nenhum deles achava que ele era um zero à esquerda; e ele ficou extremamente grato e disse que encontraria lugar para todos eles na sala de estar se eles coubessem lá.

— Vamos caber, sim, senhor — garantiram a ele.

— Então, sigam o líder — exclamou o Sr. Darling com alegria. — Vejam só, não sei se temos uma sala de estar, mas vamos fingir que temos e será a mesma coisa. Upa lelê!

Ele saiu dançando pela casa, e todos gritavam “upa lelê” e dançavam atrás dele, procurando pela sala de visitas; e eu não me lembro se eles a encontraram, mas de qualquer maneira encontraram cantos e todos couberam neles.

Quanto a Peter, ele viu Wendy mais uma vez antes de ir embora. Ele não veio exatamente até a janela, mas encostou nela quando estava passando por ali, para que ela pudesse abri-la se quisesse e chamasse por ele. Foi exatamente isso o que ela fez.

— Olá, Wendy, adeus — disse ele.

— Ah, querido, você vai embora?

— Sim.

— Você não acha, Peter, que você gostaria de conversar com meus pais sobre um assunto muito delicado? — perguntou ela, vacilante.

— Não.

— Sobre mim, Peter.

— Não.

A Sra. Darling foi até a janela, pois agora ela vigiava Wendy de perto. Ela disse a Peter que havia adotado todos os outros garotos, e que gostaria de adotá-lo também.

— A senhora me mandaria para a escola? — perguntou ele, esperto.

— Sim.

— E depois para um escritório?

— Acho que sim.

— E logo eu me tornaria um homem?

— Logo, logo.

— Eu não quero ir para a escola e não quero aprender coisas importantes — disse ele com fervor. — Eu não quero me tornar um homem. Ah, mãe da Wendy, se um dia eu acordasse e sentisse minha barba crescendo.

— Peter — disse Wendy, sempre tentando consolar —, eu adoraria ver você de barba.

A Sra. Darling esticou seus braços para ele, mas ele a rejeitou.

— Fique longe de mim, senhora, ninguém vai me pegar e me transformar em um homem.

— Mas onde você vai morar?

— Com a Sininho, na casa que construímos para a Wendy. As fadas vão colocá-la na copa de uma árvore, no lugar onde dormem à noite.

— Que adorável — exclamou Wendy com tanto desejo na voz que a Sra. Darling a segurou com força.

— Achei que todas as fadas estivessem mortas — disse a Sra. Darling.

— Sempre tem muitas fadas novinhas — explicou Wendy, que agora era uma autoridade no assunto — porque, sabe, quando um bebê ri pela primeira vez nasce uma nova fada, e como sempre nascem bebês, sempre nascem novas fadas. Elas vivem em ninhos nas copas das árvores; e as roxas são meninos, as brancas são meninas, e as azuis são as bobinhas que não sabem o que são.

— E eu vou me divertir com elas — disse Peter, com um olho em Wendy.

— Vai ser bastante solitário à noite — disse ela —, ao se sentar perto do fogo.

— Vou ter a Sininho.

— A Sininho não aguenta muita coisa — lembrou ela, um pouco maldosa.

— Fofoqueira danada! — gritou Sininho de algum lugar virando a esquina.

— Não importa — disse Peter.

— Ah, Peter, você sabe que importa sim.

— Ora, então venha comigo para a casinha.

— Posso ir, mamãe?

— Mas é claro que não. Agora que você voltou para casa, não vou mais deixar você ir embora.

— Mas ele precisa muito de uma mãe.

— E você também, meu amor.

— Ah, tudo bem — disse Peter, como se tivesse perguntado apenas por educação.

Mas a Sra. Darling viu sua cara de choro e fez uma bela oferta: deixar que Wendy passasse uma semana com ele todo ano, para ajudar a fazer uma faxina quando chegasse a primavera. Wendy teria preferido um acordo mais permanente, e sentiu que a primavera ainda ia demorar muito a chegar; mas essa promessa fez com que Peter fosse embora bastante contente. Ele não tinha nenhuma noção de tempo e vivia tantas aventuras que tudo o que contei a vocês sobre ele é só o comecinho. Acho que era porque Wendy sabia disso que suas últimas palavras para ele foram bastante suplicantes:

— Será que você não vai se esquecer de mim, Peter, antes da faxina da primavera chegar?

É claro que Peter prometeu não se esquecer; e então foi embora. Ele levou o beijo da Sra. Darling com ele. O beijo que ninguém conseguira ganhar, Peter ganhou com a maior facilidade. Engraçado. Mas ela pareceu estar satisfeita.

É claro que todos os meninos foram para a escola. A maioria entrou na quarta série, mas Slightly foi para a quinta série e para a sexta série. Menos de uma semana depois de terem ido para a escola os garotos viram que tinham sido bobos de não terem ficado na ilha; mas agora era tarde demais e logo se conformaram em serem pessoas normais como você, eu ou qualquer outro zé-ninguém. É triste contar isso, mas aos poucos eles foram perdendo a habilidade de voar. No começo Naná amarrava seus pés nas colunas das camas para que não saíssem voando no meio da noite; e, durante o dia, uma de suas brincadeiras era fingir que estavam caindo de dentro dos ônibus em movimento. Mas, com o tempo, pararam de puxar as amarras que os prendiam nas camas, e descobriram que se machucavam quando caíam do ônibus. Chegou ao ponto em que não conseguiam mais sair voando nem para pegar chapéus levados pelo vento. Disseram que era falta de prática, mas a verdade é que eles não acreditavam mais.

Michael acreditou durante mais tempo do que os outros meninos, embora eles caçoassem dele. Por isso ele estava com Wendy quando Peter veio buscá-la no final do primeiro ano. Ela voou com Peter, usando o vestido que costurara com folhas e frutinhas da Terra do Nunca. Ela estava morrendo de medo que ele notasse o quanto o vestido havia ficado curto; mas Peter não percebeu, pois tinha muita coisa para contar sobre si mesmo.

Ela estivera animada para ter conversas emocionantes com ele sobre os velhos tempos, mas novas aventuras o haviam feito se esquecer das antigas.

— Quem é o Capitão Gancho? — perguntou ele com interesse quando ela falou sobre seu arqui-inimigo.

— Você não se lembra dele? — perguntou ela, espantada. — Você o matou e salvou nossas vidas.

— Eu me esqueço das pessoas que eu mato — respondeu ele, com indiferença.

Quando ela expressou dúvidas se Sininho ficaria feliz em vê-la, ele perguntou:

— Quem é Sininho?

— Ah, Peter — exclamou ela, chocada.

Mas mesmo depois de ela explicar, ele não conseguiu se lembrar.

— Existem tantas fadas — disse ele. — Acho que essa não existe mais.

Eu acho que ele estava certo, pois as fadas não vivem por muito tempo. Mas elas são tão pequenas que o tempo curto parece grande para elas.

Wendy também ficou chateada ao descobrir que o ano passado foi ontem para Peter; parecia ter sido um ano tão longo de espera para ela. Mas ele estava exatamente tão fascinante quanto antes, e eles passaram uma adorável primavera limpando a casinha na copa da árvore.

No ano seguinte ele não veio buscá-la. Ela esperou por ele usando um vestido novo, pois o velho simplesmente não servia mais; mas ele não apareceu.

— Talvez ele esteja doente — disse Michael.

— Você sabe que ele nunca fica doente.

Michael aproximou-se dela e sussurrou, sentindo um calafrio:

— Talvez ele não exista, Wendy!

E Wendy teria chorado se Michael já não estivesse chorando.

 

Peter veio no ano seguinte, e o estranho é que ele nunca percebeu que havia pulado um ano.

Essa foi a última vez que Wendy o viu ainda criança. Por ele, ela tentou demorar mais um pouco para crescer; e sentiu que estava sendo infiel a ele quando ganhou um prêmio de conhecimentos gerais na escola. Mas os anos chegaram e passaram, e aquele menino desatento não apareceu. Quando voltaram a se encontrar, Wendy já era uma mulher casada e Peter, para ela, era apenas a poeira da caixa onde ela guardara seus brinquedos. Wendy cresceu. Você não precisa ficar com pena dela. Ela era do tipo que gostava de crescer. No fim das contas, acabou crescendo por vontade própria, um dia antes das outras garotas.

Todos os garotos haviam crescido a essa altura e não tenho mais o que falar sobre eles. Talvez vocês vejam os gêmeos, Nibs e Curly um dia qualquer a caminho do escritório, sempre carregando uma bolsa e um guarda-chuva. Michael é maquinista. Slightly se casou com uma moça da nobreza e virou lorde. Está vendo aquele juiz de peruca branca saindo por aquele portão de ferro? Aquele é o Tootles. O homem barbado que não conhece história nenhuma para contar para seus filhos um dia foi o John.

Wendy casou usando um vestido branco com uma faixa rosa. É estranho que Peter não tenha voado até a igreja para interromper a cerimônia.

Anos se passaram novamente e Wendy teve uma filha. Isso não deveria ser escrito com tinta normal, mas com tinta dourada.

Ela se chamava Jane, e sempre tinha uma expressão intrigada, como se tivesse começado a fazer perguntas no momento em que chegou ao mundo. Quando teve idade para fazer perguntas elas eram, em sua maioria, sobre Peter Pan. Ela adorava escutar histórias sobre Peter, e Wendy contava a ela tudo o que conseguia se lembrar naquele mesmo quarto de criança onde ocorrera aquela famosa fuga. Agora aquele era o quarto de Jane, pois seu pai comprou a casa por um bom preço do pai de Wendy, que não gostava mais de subir escadas. A Sra. Darling já estava morta e esquecida.

Agora havia apenas duas camas no quarto de criança, a cama de Jane e a da babá; e não havia uma casinha de cachorro, pois Naná também havia morrido. Ela morreu já bem velha, e no final de sua vida deu bastante trabalho, pois acreditava que ninguém, além dela, conseguiria cuidar de crianças.

Uma vez por semana a babá de Jane tirava a noite de folga; e então Wendy colocava a filha na cama. Aquele era o momento das histórias. Foi Jane quem teve a ideia de colocar o lençol sobre sua cabeça e a cabeça da mãe, formando uma cabaninha, e no meio de toda aquela escuridão, sussurrar:

— O que estamos vendo agora?

— Acho que não estou vendo nada esta noite — disse Wendy, com a sensação de que, se Naná estivesse ali, ia dizer para pararem de conversar.

— Está vendo, sim — disse Jane. — Você está vendo quando você era uma garotinha.

— Isso foi há muito tempo, querida — disse Wendy. — Ah, como o tempo voa!

— Ele voa da mesma maneira como você voou quando era pequena? — perguntou a criança esperta.

— Da maneira como eu voei! Sabe, Jane, às vezes eu me pergunto se eu realmente voei.

— Voou, sim.

— Ah, aquela época boa em que eu sabia voar!

— E por que você não pode voar agora, mamãe?

— Porque eu cresci, meu amor. Quando as pessoas crescem, elas se esquecem como se voa.

— Por que elas se esquecem?

— Porque elas não são mais alegres, inocentes e insensíveis. Apenas as pessoas alegres, inocentes e insensíveis conseguem voar.

— O que é alegre, inocente e insensível? Eu gostaria de ser alegre, inocente e insensível.

Ou talvez Wendy tenha admitido que ela estava, sim, vendo alguma coisa.

— Eu acho — disse ela — que é esse quarto de criança.

— Eu acho que é mesmo — disse Jane. — Continue.

Agora elas embarcaram em uma grande aventura sobre a noite quando Peter veio voando atrás de sua sombra.

— O bobinho — disse Wendy — tentou grudar a sombra com sabão, e quando não conseguiu chorou, e aquilo me acordou, e eu costurei a sombra nele.

— Você pulou uma parte — interrompeu Jane, que agora já conhecia a história melhor do que sua mãe. — Quando você o viu sentado no chão chorando, o que você disse?

— Eu me sentei na cama e disse, “Garoto, por que você está chorando?”.

— Sim, foi isso — disse Jane, respirando fundo.

— E então ele nos levou voando para a Terra do Nunca, e para ver as fadas e piratas e peles-vermelhas e a lagoa das sereias, e a casa embaixo da terra, e a casinha.

— Sim! Do que você gostou mais?

— Acho que o que mais gostei foi da casa embaixo da terra.

— Sim, eu também. Qual foi a última coisa que Peter disse a você?

— A última coisa que ele me disse foi:

“Esteja sempre esperando por mim que, uma noite dessas, você vai me ouvir cacarejar”.

 

— Isso.

— Mas, infelizmente, ele se esqueceu de mim — disse Wendy com um sorriso.

Ela já estava bem crescida mesmo.

— Como era o cacarejo dele? — perguntou Jane em uma noite.

— Era assim — disse Wendy, tentando imitar o cacarejo de Peter.

— Não, não era — disse Jane, bastante séria. — Era assim…

E ela imitou o cacarejo de Peter muito melhor do que a mãe.

Wendy estava um pouco assustada.

— Meu amor, como você sabe?

— Eu sempre escuto quando estou dormindo — disse Jane.

— Ah, sim, muitas garotas ouvem isso quando estão dormindo, mas eu fui a única que ouvi quando estava acordada.

— Sorte sua — disse Jane.

E então, certa noite, aconteceu a tragédia. Era primavera, a história de ninar já havia sido contada, e Jane dormia em sua cama. Wendy estava sentada no chão, bem perto da lareira, tentando enxergar melhor para poder cerzir, pois não havia nenhuma outra luz no quarto. Enquanto cerzia, ela ouviu um cocoricó. A janela se abriu como nos velhos tempos e Peter pousou no chão.

Ele continuava exatamente igual, e Wendy logo viu que ele ainda tinha todos os dentes de leite.

Ele era um garotinho, e ela era uma adulta. Wendy encolheu-se ao lado do fogo, não se atrevendo a se mexer, impotente e culpada, uma mulher crescida.

— Olá, Wendy — disse ele, sem perceber qualquer diferença, pois estava pensando mais em si mesmo; e, naquela penumbra, o vestido branco de Wendy podia ser confundido com a camisola que ela estava usando quando ela a vira pela primeira vez.

— Olá, Peter — respondeu Wendy, com a voz fraca.

Ela se espremeu ficando do menor tamanho possível. Algo dentro dela gritava “mulher adulta, mulher adulta, me largue”.

— Olá, onde está o John? — perguntou ele, de repente sentindo falta da terceira cama.

— John não está aqui agora — disse Wendy, prendendo a respiração.

— O Michael está dormindo? — ele perguntou, com um olhar descuidado para Jane.

— Sim — respondeu ela; e agora ela sentia que não estava sendo fiel com Jane, nem com Peter.

— Este não é Michael — disse ela rapidamente, com medo de ser penalizada pela mentira.

Peter olhou.

— Ora, é uma criança nova?

— Sim.

— Menino ou menina?

— Menina.

Agora certamente ele iria entender; mas não foi isso o que aconteceu.

— Peter — disse ela, com a voz trêmula —, você espera que eu saia voando com você?

— Claro, foi por isso que eu vim — disse Peter.

E acrescentou, com certa severidade:

— Esqueceu que está na época da faxina da primavera?

Ela sabia que era inútil dizer que ele havia pulado várias primaveras.

— Não posso ir — disse Wendy, em um tom de quem pede desculpas. — Eu me esqueci como se voa.

— Eu ensino para você de novo.

— Ah, Peter, não desperdice o pó de fada comigo.

Ela havia se levantado; e agora finalmente Peter teve receio.

— O que foi? — gritou ele, se encolhendo.

— Eu vou acender a luz — disse ela — e então você vai entender.

Até onde eu sei aquela foi a primeira vez em que Peter sentiu medo.

— Não acenda a luz — gritou ele.

Wendy passou as mãos no cabelo do infeliz menino. Ela não era mais uma menininha com o coração partido por causa dele; ela era uma mulher adulta, sorrindo daquilo tudo, mas eram sorrisos misturados com lágrimas.

Então ela acendeu a luz e Peter viu. Ele soltou um grito de dor; e quando a alta e linda criatura se abaixou para pegá-lo no colo ele se esquivou, horrorizado.

— O que aconteceu? — gritou ele, de novo.

Ela precisava contar a ele.

— Eu cresci, Peter. Já tenho muito mais do que vinte anos. Eu cresci há bastante tempo.

— Você prometeu que não ia crescer!

— Não pude evitar. Sou uma mulher casada, Peter.

— Não, você não é.

— Sim, eu sou. E a garotinha na cama é minha filha.

— Não, não é.

Mas ele entendeu que era; e deu um passo na direção da criança com sua adaga erguida. É claro que ele não deu o golpe. Em vez disso, sentou-se no chão e começou a soluçar. Wendy não sabia como consolá-lo, embora um dia já houvesse sido tão boa nisso. Mas agora era apenas uma mulher, e saiu correndo do quarto para tentar pensar.

Peter continuou a chorar, e logo seus soluços acordaram Jane. Ela se sentou na cama e logo se interessou pelo que viu.

— Garoto — disse ela —, por que você está chorando?

Peter se levantou e se inclinou para ela, e ela se curvou para ele de sua cama.

— Olá — disse ele.

— Olá — disse Jane.

— Meu nome é Peter Pan — disse ele.

— Sim, eu sei.

— Eu vim buscar minha mãe, para levá-la para a Terra do Nunca — explicou ele.

— Sim, eu sei — disse Jane. — Eu estava esperando por você.

Quando Wendy voltou, cabisbaixa, encontrou Peter sentado na coluna da cama soltando um glorioso cacarejo, enquanto Jane voava pelo quarto de camisola, em completo êxtase.

— Ela é minha mãe — explicou Peter.

Jane desceu e ficou parada ao lado dele, com a expressão que Peter gostava de ver no rosto das mulheres que olhavam para ele.

— Ele precisa tanto de uma mãe — disse Jane.

— Sim, eu sei — admitiu Wendy, desolada. — Ninguém sabe disso tão bem quanto eu.

— Adeus — disse Peter para Wendy; e ele levantou voo.

Sem a menor vergonha Jane levantou-se com ele; ela já estava voando melhor do que andava.

Wendy correu para a janela.

— Não, não! — exclamou ela.

— Só vou fazer a faxina da primavera — disse Jane. — Ele quer que eu vá sempre ajudar com a faxina da primavera.

— Ah, se eu pudesse ir com vocês — suspirou Wendy.

— Mas você não consegue voar — disse Jane.

É claro que no final Wendy deixou que eles fossem embora juntos. Nosso último vislumbre foi ela na janela, observando os dois se afastando no céu até virarem dois pontinhos que mais parecem estrelinhas.

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Quando você olhar para Wendy, talvez você veja seu cabelo ficando

branco, e seu corpo ficando pequeno de novo, pois tudo isso aconteceu há

muito tempo. Jane agora é uma adulta como qualquer outra, com uma filha

chamada Margaret. E, sempre que chega a hora de fazer a faxina da

primavera, a não ser que ele esqueça, Peter vem buscar Margaret para levá-la

para a Terra do Nunca, onde ela conta a ele histórias sobre ele mesmo, às

quais ele ouve com muita atenção. Quando Margaret crescer, ela terá uma

filha, que será então a mãe de Peter; e assim continuará sendo, enquanto as

crianças forem felizes, inocentes e insensíveis.

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