Peter Pan

J. M. Barrie · Capítulo 8 de 48

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Peter Pan

VIII. O Garçom Desatencioso

VIII

 

O GARÇOM DESATENCIOSO

Eles eram da família de William, um de nossos garçons do clube que vinha

me desapontando bastante nos últimos tempos. Muitas vezes retardei meu

jantar por vários minutos para ser atendido por esse ingrato. Seus esforços

para reservar a mesa à janela para mim eram satisfatórios, e eu costumava

lhe conceder alguns privilégios, como permitir que ele sugerisse os pratos;

contei algumas coisas a ele, como o fato de alguém ter me assustado na sala

de leitura ao bater a porta; mostrei a ele que cortei meu dedo com um

pedaço de fio. William não era um garçom assertivo. Poderíamos ter

cometido um assassinato na frente dele em segurança. Um membro do

clube disse a ele que Saucy Sarah ganharia o Derby e um outro disse que

Saucy Sarah não tinha chance alguma, e William concordou com os dois. O

excelente camarada (que achei que ele era) era como um charuto que pode

ser fumado de qualquer um dos lados.A data de seu lapso foi uma noite

quando eu jantava à beira da janela. Precisei repetir meu pedido de rins de

cordeiro e em vez de responder “Claro, senhor” como se a minha escolha

por rins de cordeiro o deixasse feliz, que é a reação que se espera de um

garçom, ele ficou olhando seriamente para fora da janela e então me

perguntou:

— O senhor disse rins de cordeiro, senhor?

Alguns minutos depois percebi que alguém se inclinava sobre as costas

de minha cadeira e vocês devem entender minha indignação ao descobrir

que esta pessoa grosseira era William. Deixe-me contar a vocês, em

palavras apropriadas para se descrever um incidente passado, o que

aconteceu em seguida.

Para chegar mais perto da janela ele apoiou com força em meu ombro.

— William — disse eu —, você não está tomando cuidado comigo.

Para ser justo com ele, ele vacilou, mas nunca me esqueceria da

maneira audaciosa como se desculpou:

— Peço perdão, senhor, mas eu estava pensando em outra coisa.

E imediatamente voltou a olhar pela janela, e fez isso de maneira

vigorosa.

— Pelo amor de Deus, senhor, de homem para homem, diga-me se o

senhor viu uma garotinha olhando pela janela do clube.

De homem para homem! Mas ele já fora um bom garçom no passado,

por isso apontei a garota para ele. Assim que ela viu William saiu correndo

para o meio da Pall Mall, apesar dos carros de aluguel (muitos pareciam não a ver), balançou a cabeça com força três vezes e então desapareceu

(provavelmente em uma maca). Ela era uma pequena árabe bastante vistosa

de uns dez anos de idade, mas parecia ter trazido alívio a William.

— Graças a Deus! — disse ele com a voz fervorosa, e no pior gosto.

Fiquei bastante horrorizado, como se ele tivesse derrubado um prato

em meus pés.

— Pão, William — disse eu bruscamente.

— O senhor está aborrecido comigo? — ele teve a ousadia de

sussurrar.

— Você tomou uma liberdade — disse eu.

— Eu sei, senhor, mas foi mais forte do que eu.

— Aí está uma outra liberdade.

— É a minha esposa, senhor, ela…

E então William, a quem eu favoreci de tantas maneiras, era um

homem casado. Achei aquela a maior liberdade de todas.

Concluí que a mulher problemática dele estava doente, e como alguém

que gostava de acreditar que não há problemas no mundo depois do jantar,

desejei que William me dissesse que aqueles sinais significavam que ela

havia recuperado a saúde. Ele respondeu, sem nenhum cuidado, porém, que

o médico temia o pior.

— Ah, médicos — disse eu, bravo.

— Sim, senhor — disse William.

— Qual é a maldita doença dela?

— Ela sempre foi bastante delicada, mas cheia de personalidade e,

sabe, senhor, ela teve uma bebezinha há pouco tempo…

— William, como você pode — disse eu, mas no mesmo momento vi

que aquele pai poderia ser útil para mim.

— Como a sua bebê dorme, William? — perguntei com a voz baixa.

— Como ela acorda? O que você coloca no banho dela?

Vi que ele ficou surpreso por isso me apressei em falar sem esperar por

sua resposta.

— Aquela garotinha veio aqui com uma mensagem da sua esposa?

— Sim, senhor, ela vem toda noite. É a minha filha mais velha, e

quando ela acena a cabeça três vezes quer dizer que a mãe está um pouco

melhor.

— E ela acenou três vezes hoje?

— Sim, senhor.

— Suponho que você more em alguma parte baixa da cidade, William?

O camarada imprudente parecia querer me atacar.

— Moro fora de Drury Lane — disse ele, ruborizando. — Mas não é

na parte baixa. E agora ela está com medo de morrer sem eu estar lá para

segurar sua mão — resmungou ele.

— Ela não devia falar coisas assim.

— Ela nunca fala coisas assim, senhor. Ela finge estar se sentindo mais

forte. Mas eu sei o que se passa na cabeça dela quando saio de casa pela

manhã, pois ela me olha da cama, e eu olho da porta para ela – ah, meu

Deus, senhor!

— William!

Ele finalmente viu que eu estava bravo e era típico dele implorar pelo

meu perdão e sair levando o assunto de sua esposa como se fosse alguma

louça suja. Tentei esquecer essa história vulgar jogando bilhar, mas ele

havia atrapalhado o meu jogo e, no dia seguinte, para puni-lo, fiz meu

pedido a outro garçom. Mas, como eu estava sentado à janela, não consegui

deixar de perceber que a garotinha estava atrasada, e embora isso não

tivesse a menor importância para mim e eu tivesse terminado meu jantar,

fiquei ali até ela aparecer. Ela não só balançou a cabeça três vezes como

também acenou seu chapéu, e eu me levantei agora que havia realmente

terminado o meu jantar.

William veio sorrateiro em minha direção.

— A febre dela passou, senhor — disse ele, esfregando as mãos.

— Sobre quem você está falando? — perguntei com frieza e me retirei

em direção à sala de jogos, onde joguei um uma partida de bilhar.

Sofri para mostrar para William que havia me esquecido de seus

problemas familiares, mas observei a garota todas as noites e, um dia, em

vez de acenar, ela sacudiu a cabeça e naquela noite não consegui acertar

uma única caçapa. Na noite seguinte William não estava no salão de jantar e

achei que eu soubesse o que havia acontecido. Mas, enquanto pensava em

entrar na biblioteca bastante chateado fui surpreendido ao vê-lo em cima de

uma escada tirando pó dos livros. Estávamos praticamente sozinhos no

cômodo, pois, embora vários membros do clube estivessem sentados em

cadeiras segurando livros em suas mãos, todos estavam cochilando, e

William desceu da escada para me contar sua história explosiva. Ele havia

xingado um membro!

— Eu mal tinha consciência do que eu estava fazendo o dia todo,

senhor, pois eu a havia deixado tão fraca que…

Bati meu pé.

— Peço desculpas por falar dela — ele teve a elegância de dizer. —

Mas Irene havia prometido vir a cada duas horas; e quando ela veio por

volta de quatro horas e eu a vi chorando, fiquei meio cego, senhor, e

esbarrei em um membro, o Sr. B-----, e ele disse: “Maldito!”. Bom, senhor,

eu tinha só encostado nele, e estava tão arrasado que me senti mal por ser

tratado assim e perdi minha razão e respondi para ele: “Maldito é você!”.

Ele abaixou a cabeça envergonhado e acho que alguns dos leitores

estremeceram enquanto dormiam.

— Fui tirado do salão de jantar imediatamente e enviado para cá até o

comitê decidir o que fazer comigo. Ah, senhor, tenho vontade de me

ajoelhar aos pés do Sr. B-----!

Como poderia eu não desprezar um camarada que teria uma atitude tão

miserável para ganhar uma libra por semana?

— Porque se eu tiver que contar para ela que perdi meu emprego ela

vai desistir e morrer.

— Proíbo você de falar comigo sobre aquela mulher — gritei irônico

— a menos que você consiga falar de maneira agradável sobre ela — e eu o

deixei entregue a seu destino e fui procurar o B-----.

— Que história é essa de você xingar um dos garçons? — perguntei a

ele.

— Você quer dizer de ele me xingar — disse B-----, ficando vermelho.

— Fico feliz que a história seja essa — disse eu — pois não poderia

acreditar que você teria agido dessa maneira. A versão que chegou até mim foi que vocês se xingaram e que ele seria demitido e você seria repreendido.

— Quem lhe disse isso? — perguntou B-----, que era um homem

tímido.

— Faço parte do comitê — respondi e continuei a falar sobre outros

assuntos.

Mas B-----, que estivera refletindo, disse:

— Você sabe que eu acho que estava errado ao pensar que o garçom

me xingou? Vou retirar a queixa amanhã.

Fiquei feliz em saber que os problemas de William estavam perto do

fim sem que eu precisasse interferir a favor dele, e então me lembrei que ele

não conseguiria ver a garota Irene pela janela da biblioteca, que fica nos

fundos do clube. Eu estava olhando para ela, mas ela não fez nenhum sinal

porque não podia ver William, e irritado com sua estupidez eu saí e

perguntei a ela como sua mãe estava.

— Meu Deus — soltou ela depois de me examinar com cuidado —,

acho que você é um deles!

E ela me olhou com um espanto admirado. Acho que William conta a

eles sobre nossos feitos esplêndidos.

A inválida, pelo que parecia, estava um pouco melhor, e esta criança

irritante queria informar a William que ela tinha comido todo o mingau. Ela

ia sinalizar isso lambendo um prato imaginário no meio da Pall Mall. Dei

um xelim para a pequena garota vulgar e voltei enojado para o clube.

— Ah, William — disse eu — o senhor B----- vai informar o comitê

que se enganou ao pensar que você usou uma linguagem imprópria para

falar com ele, então você sem dúvidas será realocado para o salão de jantar

amanhã.

Precisei acrescentar, imediatamente:

— Lembre-se de se comportar, William.

— Mas o Sr. B----- sabe que eu o xinguei — insistiu ele.

— Um cavalheiro — respondi, de maneira formal — não consegue,

depois de muitas horas, se lembrar do que um garçom lhe disse.

— Não, senhor, mas…

Para fazer com que ele parasse de insistir precisei dizer:

— E, ah, William, sua esposa está realmente melhor. Ela comeu o

mingau – comeu tudo.

— Como o senhor sabe disso?

— Por acaso.

— Irene sinalizou na janela?

— Não.

— Então o senhor a viu e saiu e…

— Como você se atreve, William?

— Ah, senhor, fazer isso por mim! Que Deus lhe…

— William.

Ele voltou para o salão de jantar, mas sempre que eu olhava para ele

tinha a sensação de ver a mulher à beira da morte em seu rosto, e então

nosso relacionamento ainda estava estranho. Mas eu observava a garota, e

sua mímica era tão clara que eu soube que a sofredora havia, novamente,

limpado o prato na terça-feira, tentou comer um ovo cozido na quarta-feira

(vocês deveriam ter visto Irene tentando representar isso na Pall Mall, e

depois colocar sal nele), mas teve uma terrível recaída na quinta-feira.

— A sua mãe está muito doente hoje, senhorita Irene? — perguntei

assim que a tirei do alcance das janelas do clube.

— Nossa! — exclamou ela novamente, e eu vi uma troca de olhares

entre ela e uma garota ainda menor do que ela, a quem ela se referia como

sua vizinha.

Esperei friamente. A esposa de William, fui informado, parecia morta

até tomar seu licor.

— Não fale assim, criança — disse eu, abalado. — Você não sabe

como uma pessoa morta se parece.

— Deus abençoe! — respondeu ela.

Auxiliada pela amiga, que estava evidentemente muito impressionada

pela intimidade de Irene comigo, ela me deu uma grande quantidade de

informações variadas, como por exemplo que o nome verdadeiro de

William era Sr. Hicking, mas que ele era conhecido na rua onde moravam

por causa da quantidade de suas camisas, como Dândi Hicking. Disseram

ainda que a rua toda achava que ele devia sair do clube antes das duas da

manhã, pois sua esposa precisava dele mais do que o clube. Ao que William

respondia (de maneira muito sensível) que se o clube tivesse poucos

garçons no horário do jantar alguns dos cavalheiros talvez precisassem ficar

esperando por muito tempo. Disseram também que ele passava a maior

parte da noite sentado com sua esposa, e mentia para ela dizendo que tirava

cochilos agradáveis no clube. Disseram ainda que ela conversava com ele

principalmente sobre a criança. E que a criança estava em um outro lugar em Londres (aos cuidados de uma pessoa chamada de velha senhora),

porque havia uma epidemia na rua de Irene.

— E o que o médico diz sobre sua mãe?

— Às vezes ele diz que ela poderia ter uma chance se pudesse ter a

criança de volta.

— Bobagem.

— E se fosse levada para o campo.

— E por que William não a leva?

— Meu Deus! E se ela bebesse vinho do porto.

— Ela não bebe?

— Não. Mas o papai, ele conta para ela sobre os cavalheiros que

bebem.

Eu me virei de costas para ela aliviado, mas ela veio atrás de mim.

— Você não vai fazer aquilo dessa vez? — perguntou ela com a voz

decepcionada. — Você fez isso da última vez. Eu contei pra ela que você

fez — ela apontou para a amiga, que olhava triste para mim —; você não

vai deixar ela ver você fazendo isso?

Por um momento achei que ela queria outro xelim, mas com uma

mímica ela me mostrou que queria que eu levantasse meu chapéu para ela.

Então eu o levantei, e quando olhei para trás ela estava com a cabeça

erguida e sua vizinha olhava pasma para ela. Essas pequenas criaturas

realmente têm algum mérito.

Cerca de uma semana depois eu estava em um landau alugado,

segurando um jornal em frente ao meu rosto para que ninguém me visse na

companhia de um garçom e de sua esposa. William a levava para Surrey,

para ficar com uma antiga babá minha, e Irene estava conosco, usando uma

touca ultrajante.

Formei uma opinião ruim em relação à inteligência da Sra. Hicking

por causa de seu orgulho em relação ao bebê, que era uma criança bastante

comum. Ela criou uma cena lamentável quando ele foi trazido até ela, pois

“ela teve medo de que ele não a reconhecesse”. Eu poderia ter dito a ela que

os bebês não reconhecem ninguém durante anos se eu não tivesse medo de

que Irene escutasse. A garotinha embalou a criança em seus joelhos e

conversou com ela o caminho todo. Nunca conheci uma criança mais

ousada do que esta Irene. Ela fazia perguntas impróprias ao bebê, como, por

exemplo: “Ah, sabe quem me deu esta touca?”, e respondia ela mesma às

perguntas. “Foi o lindo cavalheiro que está ali” e várias vezes precisei fingir que dormia porque ela dizia “o bebê quer dar um beijinho no lindo

cavalheiro”.

Por mais incômodo que tudo aquilo fosse para um homem de bom

gosto, sofri ainda mais quando chegamos ao nosso destino, onde

circunstâncias desagradáveis me obrigaram a tomar chá com a família do

garçom. William sabia que eu considerava agradecimentos de pessoas de

sua classe uma ofensa, mas ainda assim ele parecia agradecido embora não

se atrevesse a falar. Mal ele havia sentado à mesa acatando às minhas

ordens quando se lembrou de que eu era um membro do clube e levantou-se

assustado. Nada é pior do que o cochicho, mas ainda assim ele cochichava

vez após outra para a pobre e tola esposa “Como você está agora? Está se

sentindo fraca?”, e quando ela dizia que já se sentia uma outra mulher seu

rosto me responsabilizou pela mudança. Não pude deixar de perceber, pela

maneira como ela deixava o bebê bater nela, que a mulher era mais forte do

que fingia ser.

Fiquei ali mais tempo do que o necessário, pois eu tinha algo para

dizer para William que eu temia que ele entendesse errado, mas quando ele

anunciou que chegara a hora de ele pegar o trem de volta para Londres, o

que fez sua esposa empalidecer, anunciei a mensagem.

— William — disse eu, afastando-me dele —, o chefe dos garçons me

pediu para dizer que você pode tirar duas semanas de férias. Seu salário

será pago normalmente.

Eu o confundi.

— William — gritei, furioso —, vá embora.

Então vi sua esposa sinalizando para ele e eu soube que ela queria ficar

sozinha comigo.

— William — gritei em pânico —, fique onde você está.

Mas ele já tinha saído e eu fiquei sozinho com uma mulher de olhos

firmes. Sua classe gosta de cenas.

— Se a senhora me permitir, madame! — disse eu, implorando.

Mas ela beijou minha mão; ela parecia um cachorrinho.

— Só pode ser a lembrança de alguma mulher — disse ela — que o

faz ser tão gentil comigo e com os meus.

Lembrança foi a palavra que ela usou, como se toda a minha juventude

tivesse desaparecido. Suponho que eu realmente sou bastante velho.

— Eu gostaria de saber o nome dela, senhor — disse ela. — Para que

eu possa mencionar seu nome com respeito e amor em minhas orações.

Levantei a mulher e disse a ela o nome. Não era Mary.

— Mas ela tem um lar — disse eu — assim como você, e eu não

tenho. Talvez, madame, valeria mais a pena se a senhora mencionasse o

meu nome em suas orações.

Foi a esta mulher, agora com saúde, a quem confiei a compra das

roupas de criança:

— Uma para um garoto de seis meses — expliquei a ela — e outra

para um garoto de um ano. — Pois o pintor havia me contado que David

estava crescendo rápido.

Acho que ela ficou um pouco surpresa ao saber que as duas roupas

eram para a mesma casa; e certamente ficou curiosa pelo nome de batismo

da mãe da criança, mas ela era muito mais fácil de se persuadir do que uma

dama fina seria, e tenho certeza de que ela e sua filha se divertiram bastante

nas lojas. Nunca me esquecerei de Irene saindo orgulhosa de uma delas com

um porteiro que a conduziu sob um guarda-chuva até o taxi onde eu

esperava. Acho que aquela foi a caminhada mais celestial da vida de Irene.

Pedi a Sra. Hicking que desse um tratamento naquelas roupas para que

elas não parecessem tão novas, e ela soltou uma exclamação, sem se

importar em fazer isso em segredo, e então pedi que depois ela enviasse as

roupas para mim. Então enviei a encomenda para Mary e passei a noite feliz

com minha astúcia diabólica, mas o desgosto apareceu pela manhã

acompanhado de uma carta dela na qual ela mostrava que sabia de tudo, que

eu era seu Sr. Desconhecido e que nunca existiu um Timothy. Acho que

nunca fiquei tão preocupado. Mesmo agora ainda não sei como ela

descobriu isso.

Sua esperteza fez surgir um demônio em mim e tranquei sua carta

imediatamente e raramente a li desde então. Nenhuma mulher casada

deveria redigir tal epístola a um homem solteiro. Dizia, entre outras coisas

que me recuso a repetir, que eu era sua fada madrinha. Como exemplo de

todas as falsidades deliberadas escritas ali, devo mencionar que ela disse

que David já me amava. Ela esperava que eu fosse à casa dela com

frequência para visitar seu marido, que tinha muito orgulho da nossa

amizade, e sugeriu que a primeira visita acontecesse hoje, às três horas da

tarde, um horário no qual, como eu por acaso sabia, ele sempre estava fora

dando aula de pintura. Resumindo, ela queria me encontrar sozinha

primeiro, para tirar de mim o romance delicioso e respeitoso, e depois

contar a ele, com suspiros e pequenos olhares para ele sobre seu lenço.

Ela havia derramado o que era para parecer duas lágrimas por mim

sobre o papel, mas eu não deixei de pensar, porém, que eram apenas duas

gotas de água ali colocadas.

Enviei a ela uma resposta dura e áspera, declinando manter qualquer

tipo de comunicação com ela.

 

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