Peter Pan
III. Seu Casamento, Suas Roupas, Seu Apetite e um Inventário de Seu Mobiliário
III
SEU CASAMENTO, SUAS ROUPAS, SEU
APETITE E UM INVENTÁRIO DE SEU
MOBILIÁRIO
Uma ou duas semanas depois de eu ter deixado a carta cair, eu estava em
um carro de aluguel a caminho de um certo quartel quando, acima do
barulho da cidade, ouvi aquela amaldiçoada risada, e lá estavam eles, os
dois, saindo de uma loja onde se compram pianos ou alugam sistemas de
som. Dei uma olhadela rápida neles, mas havia um enorme entusiasmo no
rosto dela, e ele jogou sua cabeça para trás orgulhoso, tudo porque haviam
acabado de encomendar um piano na loja.
Então eles iriam se casar. Foi tudo bastante desprezível, mas passei por
eles de maneira tolerante, pois esta mulher me incomoda apenas quando
está infeliz, graças a uma característica perspicaz dela de parecer, nestes
momentos, mais frágil do que realmente é.
Na próxima vez em que os vi, os dois olhavam ávidos para a vitrine da
Sixpenny-halfpenny, que é um dos lugares mais deliciosos e dramáticos de
Londres. Mary anotava animada em um pedaço de papel enquanto ele
montava a lista, e ao final os dois saíram tristes, sem comprar nada. Eu
estava muito bem-humorado. “Cupido de senhora abandonada”, disse para
mim mesmo; “parecia desesperada; mais uma visita à agência do governo
mostra-se inevitável; não pode se casar por causa de uma colher de pau”.
Mas minha familiaridade com a dama era imperfeita.
Poucos dias depois eu me vi andando atrás dela. Há algo de artístico
em suas saias e por causa delas eu sempre a reconheço, mas não sei dizer o
que é. Ela carregava um pacote enorme que parecia ser uma gaiola de
passarinho embrulhada em um papel marrom, que ela levou para uma loja
de bricabraque e saiu de lá sem o pacote. Ela então correu, e não andou, na
direção da loja Sixpenny-halfpenny. Como mistério é algo que detesto, fui
até a loja de bricabraque para ver a porcelana rachada; e lá, ainda em cima
do balcão, com o papel rasgado em volta dela, estava o artigo que Mary
havia vendido para acrescentar a seus rendimentos. O que você acha que
era? Era uma linda casa de boneca, com bonecas tomando chá no andar de
baixo e bonecas indo para a cama no andar de cima, e uma boneca
mostrando a saída para outra. Lábios amorosos haviam, há muito tempo,
lambido a maior parte da tinta, mas no geral o objeto estava
admiravelmente bem-conservado; obviamente a alegria da infância de
Mary, e agora que talvez ela se casasse ela a havia vendido.
— Acabamos de comprar — disse a vendedora ao me ver olhando para
o brinquedo — de uma senhora que não tem mais utilidade para ele.
Acho que raras vezes fiquei tão indignado com Mary. Comprei a casa
de bonecas, e como eles sabiam o endereço da moça (foi nesta loja que
descobri o nome dela), pedi para que eles a enviassem de volta para ela com
a seguinte mensagem, que escrevi na própria loja:
Prezada madame, não seja ridícula. A senhora certamente terá alguma
utilidade para este brinquedo. Eu sou, etc., o Homem que Derrubou a
Carta.
Sofri depois, mas tarde demais para voltar atrás, ao pensar que eu
enviara um presente de casamento para ela; e na próxima vez em que a vi
ela já estava casada há alguns meses. Eram nove horas de uma noite de
novembro, e estávamos em uma rua de lojas que, em vinte anos, ainda não
havia determinado se eram lojas nobres ou vulgares; aqui eram lojas de
moda, mas se desse um passo à frente, sua língua está no copo do
sorveteiro. Normalmente passo por essa rua, que não fica muito longe de
onde moro, com a janela abaixada, mas nesta noite eu caminhava. Mary
estava à minha frente, inclinando-se de maneira um tanto tola sobre o
gargalhador, e os dois conversavam animados. Ela parecia estar reclamando
com ele por ter seguido em frente, mas mais da metade dela parecia admirá-
lo por não ter voltado, e eu me perguntava por quê.
E, afinal, o que Mary e seu pintor estavam fazendo? Estavam
comprando duas costeletas de porco. Palavra de honra. Concluí que ela
tentava convencê-lo de que estavam levando uma vida muito extravagante.
Era por isso que ela tentava convencê-lo a voltar atrás. Mas no fundo de seu
coração ela adora a audácia e por isso ela o admirava por ele insistir em
continuar com seu plano.
Assim que compraram as costeletas os dois saíram correndo como
duas crianças felizes para cozinhá-las. Eu os segui, na esperança de
descobrir onde moravam, mas logo os dois se distanciaram de mim e
naquela noite compus o seguinte aforismo: é inútil tentar alcançar uma linda
jovem carregando costeletas de porco. Agora eu estava determinado a
desistir dela. Primeiro, porém, eu precisava descobrir onde moravam;
provavelmente era perto da loja. Até os imaginei atraídos pela casa por
causa de um anúncio do tipo: “situada convenientemente perto do Empório
dos Porcos”.
Bem, um dia – e agora isso é realmente romântico e eu tenho bastante
orgulho disso. Meus aposentos ficam no segundo andar, e ficam de costas
para uma rua ansiosamente civilizada e entre esta rua e a minha existem
pequenos pátios chamados, eu acho, de jardins. Eles são tão pequenos que,
se você tiver uma árvore ali, o seu vizinho poderá se aproveitar da sombra
dela. Eu estava olhando pela minha janela dos fundos no dia a que
chegamos, quando quem eu vi sentada em um banco em um desses jardins
foi ninguém menos do que a babá. Coloquei meus óculos para ter certeza e,
sem dúvidas, era ela. Mas ela estava sentada lá fazendo nada, o que de
modo algum era a minha ideia daquela mulher, por isso peguei meus binóculos e descobri que o objeto era simplesmente um casaco feminino.
Estava pendurado nas costas de uma cadeira de cozinha, parecia ser de
pelos e, suponho, estava pendurado ali para pegar um pouco de ar.
Fiquei mortificado e então insisti para mim mesmo que, se não era
Mary, devia ser o casaco de Mary. Eu nunca a tinha visto usando aquele
casaco, preste atenção nisso, mas mesmo assim eu estava confiante e não
sei dizer por quê. Será que as roupas absorvem um pouco da característica
de seu dono, para que eu reconheça este casaco por um certo coquetismo?
Se ela tem um jeito especial com suas saias que sempre me alerta sobre sua
presença, é muito possível que ela seja também astuta com casacos. Ou
talvez seja ela mesma quem costura suas roupas e usa pouca criatividade no
que faz para si.
Pense como quiser; mas preciso informar a você que coloquei meu
chapéu e cinco minutos depois vi Mary e seu marido saírem de uma casa. E
calculei que aquele jardim pertencia àquela casa. Agora diga, sou esperto ou
não?
Depois que eles desapareceram na rua examinei a casa devagar, e que
casa singular era aquela. Vista de frente parecia ter apenas uma porta e uma
janela, embora acima delas era possível que o olho treinado percebesse uma
outra janela, o buraco de ar de algum apartamento que seria típico da
grandiloquência de Mary chamar de “seu quarto”. As casas de cada lado
desse quadrado são altas e, descobri depois, o lugar já fora uma passagem
aberta para os jardins do fundo. O andar e meio construído agora custou
barato e, devo mencionar, foi construído por carpinteiros e não por
pedreiros. O efeito disso é uma frente de cores vivas que foi erguida para
sempre no lugar da passagem.
As casas baixas de Londres parecem muito mais um lar do que as altas
e nunca passo por elas sem abençoar seus construtores, mas esta casa era
ridícula; na verdade, não podia ser chamada de casa, pois sobre a porta
havia uma placa onde estava escrito “Este espaço está à venda”, e eu me
lembrei, ao tocar a campainha, que aquele lugar estava à venda há anos. Ao
declarar que estava interessado no lugar fui recebido por uma senhora de
aparência um tanto desanimada, cuja bela figura não combinava com o
ambiente. Talvez meu semblante tenha expressado isso, pois a primeira
observação dela foi explicativa.
— Não me valorizam — disse ela — porque eu bebo.
Inclinei minha cabeça e passamos para a sala de estar. Eu me esqueci
se já descrevi a aparência de Mary, mas se já o fiz você deve ter uma ideia
daquela sala de visitas ensolarada. Meu primeiro pensamento foi “como ela
conseguiu dinheiro para pagar por isso!”, que é sempre a primeira coisa a se
pensar quando você vê Mary tropeçando pela rua.
Não tenho espaço (naquele cômodo pequeno) para fazer uma lista de
todo o capricho com que ela deixou o lugar lindo, desde a corda do sino
costurada à mão que não tocava em sino nenhum até a caixa de charutos
pintada à mão que não continha charutos. O chão era de um verde
maravilhoso com tapetes orientais requintados; verde e branco, eu acho, era
o esquema de cores da dama, algo interessante, observe, para manter o
brilho do sol. As cortinas da janela eram de algum material raro e da cor de
uma clematis roxa; elas se arrastavam bastante no chão e sugeriam uma
imagem de Mary recebendo visitas. O piano podemos ignorar, pois eu sabia
que ele era alugado, mas havia muitas peças delicadas, a maioria feita em
madeira verde, um sofá, uma cristaleira de canto, e uma escrivaninha
encantadora que era tão parecida com sua dona que eu podia facilmente
imaginá-la sentada ali escrevendo um bilhete. O papel de cartas sobre a
escrivaninha tinha a palavra Mary impressa nele, mostrando que, se
houvesse outras Marys, elas não eram importantes. Havia muitas pinturas a
óleo nas paredes, a maioria delas sem molduras, e devo mencionar o lustre,
que obviamente tinha um valor inestimável, pois era ornado por cristais.
— Percebo, madame — disse eu para a senhora robusta —, que seu
patrão tem dinheiro.
Ela balançou a cabeça de maneira enfática e disse algo que não
consegui entender.
— Você está tentando dizer — arrisquei — que ele se casou com uma
pessoa rica.
Dessa vez entendi suas palavras. Ela disse:
— Carne enlatada.
E depois de soltar essas palavras ela ficou em um silêncio sombrio.
— De qualquer maneira — disse eu —, este cômodo deve ter custado
uma nota.
— Ela fez tudo sozinha — respondeu minha nova amiga, com
desprezo.
— Mas este chão verde, tão bem tingido…
— Óleo queimado — disse ela, com um rubor de vergonha — e tinta
velha e barata.
— Estes tapetes…
— Retalhos — suspirou ela, e me mostrou como eles haviam sido
cuidadosamente feitos.
— As cortinas…
— Retalhos.
— De qualquer modo, o sofá…
Ela levantou seu estofado e vi que o sofá havia sido construído com
caixotes.
— A escrivaninha…
Realmente achei que desta vez ela não teria o que falar, pois eu via as
gavetas com seus puxadores, a charmosa estante para livros e os escaninhos
cobertos por seda.
— Ela construiu a escrivaninha com três caixas de laranja — disse a
senhora, finalmente um pouco impressionada também.
Olhei em volta desesperado e meus olhos enxergaram a cobertura de
cristais.
— Existe um belo lustre embaixo daqueles cristais — disse eu,
persuasivo.
Ela fungou e estava levantando a mãos quando eu a interrompi.
— Abstenha-se, madame — disse eu, com autoridade. — Prefiro
acreditar naqueles cristais. Como devemos sentir pena, madame, daqueles
que perderam a fé em tudo.
Acho que todas as lindas coisas que a pequena babá fez do nada me
afetaram a ponto de querer deixar o lustre de fora delas.
— Mas, meu Deus, madame — disse eu para a senhora —, quanta
exposição.
Ela sugeriu que havia outras exposições no andar de cima.
— Então, tem uma escada — disse eu, e então, em tom suspeito: — foi
ela quem fez?
Não, mas ela a havia modificado.
A escada levava para o quarto de Mary, e eu disse que não entraria lá,
nem em seu ateliê, que era um galpão no jardim.
— Ela construiu o ateliê com suas próprias mãos?
Não, mas ela o havia modificado.
— Nossa, ela muda tudo — disse eu. — Você acha que está segura,
madame?
Ela se derreteu um pouco com minha óbvia simpatia e me gratificou
com algumas de suas opiniões e confidências. O aluguel pago por Mary e
por seu marido não era, pelo que parecia, aquele que alguém que se preze
poderia pagar com orgulho. Eles pagavam bem barato pela casa entendendo
que deveriam liberá-la prontamente se alguém a comprasse para fins de
construção e, como pagavam tão pouco, precisavam se submeter à
indignidade de ter a placa sobre a porta. Mary A----- detestava aquela
informação de “este lugar está à venda”, e sabe-se que ela já mandara uma
banana para a placa. Ela era apegada à casa como se fosse realmente uma
casa, e sempre tremia quando um possível interessado em comprar o espaço
aparecia.
Como contei a vocês meu próprio aforismo, sinto que devo ser justo e
registrar o dessa criada ofendida. O assunto eram as obras de arte.
— O difícil — disse ela — não é pintar os quadros, mas conseguir
emoldurá-los.
Uma casa causou isso.
Ela não conseguia dizer sinceramente que gostava do trabalho do
patrão. Assim como, aparentemente, ninguém mais gostava. Resultado,
carnes enlatadas.
Sim, uma pessoa gostava muito daquilo, ou fingia gostar; ela
frequentemente levantava as mãos em deleite por isso; até mesmo tinha sido
pega sussurrando para uma amiga: “elogie, elogie, elogie!”. Isso foi quando
o pintor mergulhou na escuridão. Nunca, como eu bem podia acreditar,
existiu alguém como Mary, capaz de trazer a alegria de volta para um
homem.
— Uma mulher perigosa — disse eu, com um arrepio, e comecei a
observar a pintura sobre a prateleira. Era o retrato de um homem, e havia
me impressionado bastante porque estava emoldurado.
— Um amigo dela — informou minha guia —, mas nunca o vi.
Eu teria me afastado do quadro se não houvesse uma legenda na
gravura que fez com que eu me aproximasse. Estava escrito em uma letra
feminina e as palavras diziam: “Retrato elegante de nosso querido
desconhecido”. Poderia aquele ser eu? Não posso descrever a vocês como,
de repente, fiquei interessado.
Representava um camarada muito bem-apessoado, que não devia ter
mais do que trinta anos de idade.
— Um amigo dela, madame, foi isso o que a senhora disse? —
perguntei, bastante trêmulo. — Como a senhora sabe disso, se nunca o viu?
— Quando o patrão estava pintando — disse ela — no ateliê, ele
costumava vir correndo até aqui para perguntar para ela coisas como “de
que cor você pintaria os olhos dele?”.
— E a resposta, madame? — perguntei, atento.
— Ela disse, “lindos olhos azuis”. E ele disse: “você não acha que é
um rosto bonito, acha?”. E ela disse “um rosto muito bonito.” E ele disse
“de meia-idade?” e ela disse “vinte e nove”. E me lembro de ele perguntar
“um pouco careca no topo da cabeça?” e de ela responder “nem um pouco.”
A querida, agradecida garota; não me fazer careca no topo da cabeça.
— Eu já a vi enviar um beijo com a mão para essa imagem — disse a
criada.
A caprichosa Mary enviando um beijo para mim! Ah, querida!
Puff!
Eu estava olhando para o retrato, pensando em uma mensagem
ofensiva para escrever nele, quando ouvi a voz da mulher de novo.
— Acho que ela o conhece desde que era bebê — dizia ela — porque
isso aqui é um presente que ele deu a ela.
Ela estava ajoelhada puxando a casa de boneca de baixo do sofá, onde
estava escondida; e imediatamente pensei “vou colocar a mensagem
ofensiva aí dentro”. Mas não o fiz, devo dizer a vocês. Isso porque o
brinquedo adorável havia sido redecorado por mãos carinhosas; havia
vestidos novos para todas as habitantes, e a pintura da mobília mal havia
secado. A pequena casa de bonecas estava praticamente pronta para ser
usada novamente.
Olhei para a criada mas seu rosto estava sem expressão.
— Guarde-a de volta — disse eu, envergonhado por ter descoberto o
lindo segredo de Mary, e deixei a casa em desalento, com a profunda
convicção de que a pequena babá estava novamente conectada a mim.
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