Peter Pan

J. M. Barrie · Capítulo 25 de 48

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Peter Pan

XXV. A Partida de Críquete

XXV

 

A PARTIDA DE CRÍQUETE

Acho que não houve muita novidade em uma partida de críquete desde o

dia em que Sir Horace Mann andou agitado por Broad Há’penny cortando

as margaridas com seu taco. E é importante lembrar que os heróis de

Hambledon jogavam apenas por dinheiro e renome, enquanto David jogava

por uma dama. Uma dama! Será que não devemos dizer lindamente que ele

jogava por duas damas? Não havia espectadores para a nossa partida a não

ser por um vagabundo ali no Gardens que nem sequer pensava no que

estávamos jogando, mas será que podemos imaginar que Bárbara estava em

pé nas cordas e se agitava cortando as margaridas toda vez que David

perdia uma bola? Digo a vocês, essa foi a partida histórica do Gardens.

David queria jogar em um campo perto do Round Pond com o qual ele

era familiarizado, mas isso teria me colocado em desvantagem, então insisti

que jogássemos em um terreno não conhecido por nós dois, e finalmente

decidimos jogar no Figs. Não podíamos usar varetas, pois elas são proibidas

no Gardens, mas existem árvores aqui e ali que têm marcas de giz durante o

verão, e quando você assume sua posição com um taco perto delas é como

se você tivesse uma vareta. A árvore que escolhemos é um teixo irregular

que consiste de um tronco quebrado e um galho, e olhei para o terreno com

secreta satisfação, pois ele se inclinava levemente a aproximadamente três

metros e meio de distância da árvore, e isso combinava perfeitamente com

meu estilo de lançamento.

Ganhei o sorteio e depois de analisar o wicket decidi fazer a primeira

jogada. Como regra, na primeira jogada o lance é livre, mas nesta ocasião

fui até uma prega de colocação em um silêncio quase assustador. David

havia tirado sua blusa e levantado as mangas de sua camisa, e seus dentes

estavam preparados, então eu soube que ele começaria a me enviar bolas

rápidas.

Ele lança bolas baixas e elegantes, mas às vezes ele tenta uma bola

com efeito, que já vi dobrar o arremessador na square leg. Ele não tem um

bom alcance, mas varia suas ações de maneira desconcertante, e lança uma

bola especialmente truculenta que cai do nada dos galhos no momento em

que você sai do chão para procurá-la. Mas não foi, porém, essa bola

truculenta que ele lançou naquele dia. Eu tinha marcado um três e dois

singles, quando ele me enviou uma bola média para rápida que me dividiu e

eu a rebati tarde demais. Agora, eu raramente entro em um campo gramado

como esse para ter um resultado tão ruim, e como David e eu trocamos de lugares sem dizer uma palavra, havia um olhar alegre em seu rosto que

achei bastante irritante. Ele correu para a minha segunda bola e cortou-a

com perfeição marcando um single, e partiu para minha quinta e sexta bolas

marcando belos três pontos duas vezes, os dois atrás do wicket. Porém,

como eu esperava, isso provou ser sua ruína, pois agora ele batia com

confiança em todas as bolas, e quando fez nove pontos eu o venci com meu

tiro.

Agora o olhar estava no meu rosto.

Abri meu segundo inning tratando-o com um respeito incomum, pois

eu sabia que seu bracinho logo se cansava se não obtivesse sucesso, e então

quando ele enviou bolas soltas eu as rebati para a grade. Aquilo pouco me

importava, embora os lábios de David estivessem se contraindo.

Quando ele finalmente conseguiu ultrapassar minha defesa, com um

salto passando desajeitadamente pelo off, eu já havia marcado vinte e três e

ele precisaria marcar vinte pontos para ganhar, uma pontuação alta que ele

nunca alcançara. Quando entreguei o taco para ele, o garoto parecia valente,

e então senti algo molhado em minha mão e um medo repentino de que o

garoto não ganhasse.

No início, porém, ele parecia dominar o lançamento, e logo conseguiu

fazer dez runs da maneira clássica. Então lancei para ele um Yorker, que ele

perdeu e saiu em uma tangente no momento em que alcançou a árvore.

— Dentro — gritei apressado, pois a expressão com a qual ele me

olhou era terrível.

Logo depois daquilo um outro incidente aconteceu, do qual sempre me

lembrarei com prazer. Ele pegara a bola bem alto com o taco e eu acabara

de perder a jogada.

— Que se dane! — disse eu, irritado.

Estava prestes a voltar a lançar quando percebi que ele estava triste.

Ele hesitou, assumiu sua posição no wicket, e então virou-se para mim com

virilidade:

— Sou um idiota — disse ele, chateado —, sempre que a bola está no

ar eu rezo.

Ele havia rezado para que eu não conseguisse pegar a bola e, acho que

já comentei com vocês, no Gardens é considerado injusto rezar pedindo por

vitória.

Meu esplêndido David! Ele comete os mesmos erros que outros

garotinhos, mas ele tem um senso nobre de justiça.

— Devemos considerar uma bola nula, David — disse eu, seriamente.

Suponho que o suspense para o leitor agora esteja grande demais, e por

isso devo dizer logo de uma vez que David ganhou a partida marcando

quatro pontos duas vezes, primeiro lançando a bola sobre a minha cabeça e

depois com uma bola que percorreu todo o gramado. Quando voltei depois

de correr atrás desta última bola eu o encontrei abraçando seu taco, e ele só

conseguiu responder às minhas amargas congratulações com gritos

histéricos. Mas logo ele estava correndo para casa para contar a novidade

para a mãe.

 

E foi assim que deixamos Bárbara entrar para o nosso grupo.

 

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