Peter Pan

J. M. Barrie · Capítulo 16 de 48

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Peter Pan

XVI. Quando os Portões Se Fecham

XVI

 

QUANDO OS PORTÕES SE FECHAM

Emuito difícil saber coisas sobre as fadas, e praticamente a única coisa que se pode saber ao certo é que existem fadas onde existem crianças. Num passado distante, o acesso das crianças ao parque era proibido; certo dia, a proibição terminou, e na mesma noite o parque foi tomado por uma horda de fadas. Seguir as crianças é algo irresistível para elas, mas você raramente as vê, em parte porque durante o dia se escondem atrás de cercas que você não pode atravessar e em parte, também, porque são astutas demais. Não são nem um pouco astutas depois do fechamento dos portões, mas durante o dia… Ponho minha mão no fogo!

Quando você era um pássaro, você conhecia as fadas muito bem, e na primeira infância você tinha muitas memórias a respeito delas; é uma pena que não seja possível escrever e fazer anotações nessa fase da vida, porque o esquecimento vai apagando tudo, e eu já ouvi crianças declarando que jamais viram uma fada. É comum que uma criança diga isso ao mesmo tempo em que olha para uma fada, em pleno Kensington Gardens. Isso acontece porque a fada finge ser outra coisa, num de seus melhores truques. Elas geralmente fingem que são flores, porque a corte costuma se reunir no Vale das Fadas, e as flores abundam no Vale e em toda a Baby Walk, de modo que uma flor seria a última coisa a chamar a atenção. Elas se vestem exatamente como flores e se adaptam às estações, usando branco em época de lírios e azul quando é tempo de campânulas, e assim por diante. Gostam acima de tudo das florações de croco e jacinto, porque apreciam cores vistosas, mas consideram espalhafatosas as tulipas (exceto as brancas, que são seus berços), e às vezes se negam a usar tulipa por vários dias, de modo que o melhor período para se ver uma fada é no início da floração das tulipas.

Quando acham que você não está olhando, saem saltitando com muita vivacidade; se você olhar, porém, e elas sentirem que não há tempo para se esconder, elas se imobilizam e fingem que são flores. Depois, quando você já passou, sem se dar conta de que eram fadas, elas correm para casa e contam para as mães que tiveram uma aventura e tanto. O Vale das Fadas, do qual falei há pouco, é todo coberto de hera (com a qual elas produzem seu óleo de rícino), com flores crescendo aqui e ali. A maioria delas são flores de verdade, mas algumas são fadas. Não há como ter certeza nunca, mas uma tática interessante é passar pelo vale caminhando, olhando para o outro lado, e então virar a cabeça abruptamente. Outro plano eficiente, que David e eu colocamos em prática de vez em quando, é encará-las sem parar, sem desviar o olhar. Depois de um longo tempo elas não aguentam mais e piscam, e aí você tem certeza de que são fadas.

Também há inúmeras fadas ao longo da Baby Walk, que é um famoso “local nobre”, como se costuma chamar os lugares frequentados por elas. Houve uma vez em que 24 fadas tiveram uma aventura extraordinária. Era um passeio escolar; a professora acompanhava as meninas e todas estavam usando vestidos de jacinto. De súbito a professora colocou o dedo sobre os lábios, e todas se imobilizaram em cima de um canteiro vazio e fingiram ser jacintos. O que a professora ouvira, infelizmente, eram dois jardineiros que vinham plantar flores novas naquele exato canteiro. Vinham trazendo um carrinho de mão cheio de flores, e ficaram um tanto surpresos em ver o canteiro ocupado.

— Que pena arrancar esses jacintos — disse um dos homens.

— Ordens do duque — retrucou o outro.

Tendo esvaziado o carrinho, os homens desenraizaram com suas pás todo o internato e depositaram as pobres e aterrorizadas criaturas dentro dele, em cinco fileiras. É claro que nem a professora e nem as meninas ousaram revelar que eram fadas, e assim foram transportadas para bem longe, até uma estufa, da qual escaparam durante a noite, deixando os sapatos para trás; houve um grande clamor entre os pais, e a reputação da escola foi arruinada.

Quanto às casas das fadas, de nada adianta procurar por elas, porque são o oposto total das casas às quais estamos habituados. As nossas casas podem ser vistas durante o dia, mas não são vistas de noite. Bem, as casas das fadas podem ser vistas no escuro, mas não podem ser vistas durante o dia, pois elas têm a cor da noite, e eu nunca ouvi falar de alguém que seja capaz de ver noite em meio ao dia. Isso não quer dizer que elas sejam negras, porque a noite tem suas cores como o dia tem as dele, mas as cores noturnas são mil vezes mais brilhantes. Os azuis, vermelhos e verdes são como os nossos, mas brilham uma luminosidade intrínseca. O palácio é constituído inteiramente de vidro multicor, e é a mais adorável das residências imperiais, mas a rainha às vezes reclama, porque pessoas comuns espiam para dentro, para ver o que ela está fazendo. Essas pessoas são muito inquisitivas, e se espremem com força contra as paredes de vidro, e é por isso que seus narizes são tão empinados. As ruas são quilométricas e muito sinuosas, e as trilhas que saem delas são demarcadas com um fio de lã brilhante. Os pássaros costumavam roubar a lã para construir ninhos, mas um policial foi designado para segurar a ponta do fio.

Uma das grandes diferenças entre as fadas e os humanos é que elas nunca fazem nada de útil. Quando o primeiro bebê deu sua primeira risada, seu riso se espatifou em um milhão de pedaços, e esses pedaços saíram saltitando em todas as direções. Foi assim que surgiram as fadas. Elas parecem estar sempre tremendamente atarefadas, como se não pudessem perder nem um minuto, mas se você perguntasse a elas o que é que estão fazendo, não teriam a menor condição de responder. São terrivelmente ignorantes, e tudo o que fazem, fazem em faz de conta. Elas têm um carteiro, mas ele só aparece no Natal, com um presentinho; embora tenham lindas escolas, nada é ensinado nelas: a criança mais jovem, por ser a pessoa mais importante, é sempre escolhida como professora, e quando ela termina de fazer a chamada todos saem para um passeio e nunca mais voltam. É algo notável: nas famílias das fadas, o filho mais jovem é sempre o filho mais importante, e geralmente se torna príncipe ou princesa. As crianças se lembram disso, e acham que também deveria ser assim entre os humanos, e é por isso que elas muitas vezes se inquietam quando veem suas mães colocarem, furtivamente, babados novos no berço de vime.

Você provavelmente já observou que a sua irmãzinha quer fazer um monte de coisas que não são do agrado da sua mãe e da babá: ficar de pé quando é hora de sentar, por exemplo, ou acordar quando deveria dormir, ou se arrastar no chão quando está usando seu melhor vestidinho, e assim por diante, e talvez você pense que tudo isso é travessura. Mas não é; ela simplesmente está fazendo aquilo que um dia viu as fadas fazerem; ela começa agindo como fada, e se passam uns dois anos até que ela adquira os costumes humanos. Seus acessos de raiva, que são horríveis de se presenciar, e que costumam ser chamados de “botar as garras para fora”, não são nada disso; são decorrência de sua natural exasperação, porque ninguém a entende, embora ela esteja utilizando uma linguagem inteligível. Ela está falando a linguagem das fadas. As mães e as babás compreendem antes e melhor do que os outros as afirmações dos bebês: que “Qui” significa “Quero isso agora”, e que “Pu” quer dizer “Por que você está usando esse chapéu engraçado?”; isso ocorre porque, convivendo tanto com bebês, elas acabam captando um pouco da linguagem das fadas.

Ultimamente David tem se esforçado muito para lembrar alguma coisa da linguagem das fadas, com as mãos esmagando as têmporas, e conseguiu se lembrar de uma porção de frases que contarei a vocês um dia desses, se eu não esquecer. Ele as ouviu nos dias em que era um tordo, e quando argumentei que aquilo podia ser linguagem de pássaro ele disse que não, não podia ser, porque as frases falavam de diversão e aventuras, e os pássaros só sabem falar de construção de ninhos. Ele lembra claramente que os pássaros costumavam voar de um ponto a outro, como damas que passam por vitrines de lojas, e que analisavam diversos ninhos e diziam “Nessa cor não, meu amor”, ou “Como esse aqui ficaria com um forro discreto?”, ou “Será que vai durar?”, ou “Que enfeite horroroso!”, e assim por diante.

As fadas são refinadas dançarinas, e é por isso que a primeira coisa que um bebê faz é demonstrar com gestos que quer ver uma apresentação de dança, e quando começamos a dançar ele rompe em choro. As fadas promovem seus grandiosos bailes ao ar livre, em um terreno que é chamado de “arena de fadas”. O círculo ainda pode ser visto na grama semanas depois. A arena não está lá quando elas começam a dançar; elas valsam e dão mil voltas e o círculo aparece no chão. Às vezes você vê cogumelos dentro da arena: são cadeiras que os criados das fadas se esqueceram de recolher. As cadeiras e as arenas são os únicos vestígios que essas pequenas criaturas deixam para trás, e elas removeriam até mesmo esses vestígios, não fosse o fato de que são fanáticas por dança: valsam até o momento em que os portões começam a ser abertos. David e eu encontramos certa vez uma arena que ainda estava quente.

Existe uma maneira de descobrir com antecedência que as fadas farão um baile. Você conhece bem as placas que indicam o horário de fechamento do Gardens para o dia. Bem, as ardilosas fadas às vezes alteram os dizeres das placas dissimuladamente, em noite de baile, de modo que elas informem que o Gardens vai fechar às seis e meia, por exemplo, e não às sete. Isso lhes permite começar o baile meia hora mais cedo.

Se pudéssemos permanecer dentro do Gardens em uma dessas noites, como fez a famosa Maimie Mannering, veríamos cenas deliciosas: centenas de lindas fadas apertando o passo para chegar ao baile, as casadas usando suas alianças em torno da cintura, os cavalheiros, todos de uniforme, segurando as caudas dos vestidos das damas, e homens correndo na frente, carregando cerejas, que são as lanternas das fadas, e o vestiário onde todos deixam seus chinelos de prata e recebem um tíquete numerado por seus casacos, e as flores que se deslocam da Baby Walk para contemplar o espetáculo e que são sempre bem-vindas porque fornecem broches, e a mesa de jantar, presidida pela rainha Mab, e atrás dela o lorde Camareiro, que carrega consigo um dente-de-leão, para soprá-lo quando Sua Majestade quer saber que horas são.

A toalha de mesa varia de acordo com a estação, e em maio ela é feita de flores de castanheira. Os criados-fada procedem assim: os homens, dezenas deles, sobem nas árvores e chacoalham os galhos, e a floração cai como neve; depois as criadas recolhem as flores e as espanam com suas saias até que formem uma toalha de mesa; e é assim que as pequenas criaturas as obtêm.

As fadas têm taças de verdade e três tipos de vinhos de verdade, que são: vinho de abrunheiro, vinho de uva e vinho de prímula. É a rainha quem serve a bebida, mas as garrafas são tão pesadas que ela apenas finge que serve. Há pão com manteiga para a entrada, em pedacinhos do tamanho de uma moeda minúscula; e há bolos para sobremesa, tão pequenos que não têm miolo. As fadas se sentam em cogumelos em volta da mesa, e no começo se comportam muito bem, tossem para fora da mesa e assim por diante, mas depois de um tempo já não se comportam tão bem e enfiam os dedos na manteiga, que é produzida com raízes de árvores velhas, e as fadas realmente horríveis saem engatinhando em cima da toalha de mesa, em busca de açúcar e de outras guloseimas, passando a língua por tudo. Quando a rainha vê o que elas estão fazendo, ordena aos criados que recolham os pratos e limpem a mesa, e então todos se levantam e se encaminham para a dança, a rainha caminhando na frente e o lorde Camareiro caminhando atrás dela e carregando duas pequenas jarras, uma delas contendo suco de goivo e a outra contendo suco de selo-de-salomão. O suco de goivo é bom para reavivar dançarinos que desabaram no chão em um espasmo, e o suco de selo-de-salomão é para machucados. As fadas se machucam com muita facilidade; e quando Peter toca, cada vez mais rápido, elas dançam alucinadamente até que desabam no chão, convulsas. Nem preciso dizer a vocês que Peter é a orquestra das fadas. Ele se senta no meio da arena e toca; hoje em dia elas nem imaginam como seria ter uma boa dança sem ele. “P. P.” vai sempre escrito em um canto dos cartões de convite para as festas das melhores famílias. As fadas são criaturinhas muito generosas e agradecidas, e no baile de debutante da princesa (elas debutam no segundo aniversário, e fazem aniversário todos os meses) ofereceram a Peter, de presente, qualquer coisa que ele quisesse.

Peter ganhou o presente assim: a rainha ordenou a ele que se ajoelhasse e disse que, por ter tocado tão maravilhosamente bem, concederia ao músico a realização do desejo mais secreto de seu coração. Todos se juntaram em torno de Peter para saber qual era o desejo secreto, mas ele hesitou por um longo tempo, pois não sabia ao certo o que desejava em seu coração.

— Se eu quiser voltar para a minha mãe — perguntou ele, por fim —, a senhora me concederia esse desejo?

Bem, essa questão deixou todos sem jeito, pois se ele voltasse para sua mãe eles perderiam a música maravilhosa, então a rainha torceu o nariz, com desdém, e disse:

— Puxa, nada disso, você pode escolher um desejo muito maior.

— Esse desejo é meio pequeno? — quis saber ele.

— Desse tamanho aqui — respondeu a rainha, colocando as mãos muito perto uma da outra.

— Um desejo grande seria de que tamanho? — perguntou ele.

Ela fez a medida em sua saia, e o comprimento era fantástico.

Então Peter refletiu e disse:

— Bem, então acho que vou querer dois desejos pequenos, em vez de um grande.

As fadas se viram obrigada a concordar, é claro, embora tenham ficado chocadas com a esperteza do menino. Peter disse que seu primeiro desejo era ir visitar sua mãe, mas com o direito de retornar ao Gardens caso ficasse desapontado com ela. O segundo desejo ele manteria em segredo por enquanto.

Tentaram dissuadi-lo, tentaram colocar obstáculos em seu caminho.

— Posso lhe conceder o poder de voar até a casa dela — disse a rainha —, mas não posso abrir a porta para você.

— A janela pela qual eu saí voando estará aberta — disse Peter, confiante. — Minha mãe a mantém sempre aberta, na esperança de que eu volte voando.

— Como você pode saber? — perguntaram todos, e Peter, de fato, não soube explicar.

— Eu simplesmente sei — falou.

Como ele insistiu em seu desejo, as fadas tiveram que ceder. Deram a ele o poder de voar assim: todas fizeram cócegas em seus ombros, e em seguida ele começou a sentir um formigamento nos ombros e de repente subiu no ar, alto e mais alto, e se afastou do Gardens e voou sobre os telhados das casas.

Aquilo era tão delicioso que em vez de voar em linha reta ele circulou sobre a St. Paul’s Cathedral e sobre o Crystal Palace e depois voltou pelo rio e sobrevoou o Regent’s Park, e quando chegou à janela de sua mãe já tinha quase certeza de que seu segundo desejo seria se transformar em pássaro.

A janela estava escancarada, bem como ele previu, e ele voou para dentro e lá estava sua mãe, deitada, dormindo. Peter pousou com suavidade na balaustrada de madeira ao pé da cama, e olhou para ela com atenção. Ela tinha a cabeça sobre uma mão, e a cavidade do travesseiro era como um ninho forrado de cabelo castanho encaracolado.

Ele se lembrou, embora tivesse esquecido por muito tempo, de que ela sempre dava uma folga a seus cabelos durante a noite. Como eram belos os babados de sua camisola! Peter ficou muito feliz por ter uma mãe tão bonita.

Mas ela parecia triste, e seu filho sabia muito bem por que é que ela parecia triste. Um dos braços dela estava se mexendo, como se quisesse abraçar algo, e ele sabia o que era esse algo.

— Ah, mamãe — Peter disse consigo —, se você soubesse quem está sentado na balaustrada ao pé da cama…

Peter deu tapinhas suaves na pequena elevação que os pés dela formavam e pôde ver, pela expressão de seu rosto, que ela gostou. Ele sabia que só precisaria dizer “Mamãe”, em voz bem baixa, para que ela acordasse. Elas sempre acordam quando é você quem as chama. E então ela soltaria um imenso grito de alegria e o apertaria com força nos braços. Como seria agradável para ele! Ah, mas como seria extraordinariamente delicioso para ela! É assim, eu temo, que Peter encarava a situação. Retornando para sua mãe, ele não tinha nenhuma dúvida de que estava lhe dando o maior presente que uma mulher pode receber. Nada pode ser mais esplêndido, ele pensava, do que ter um menininho só seu. Elas são tão orgulhosas de seus filhos; e muito corretas e justas também.

Mas por que Peter fica sentado na balaustrada por tanto tempo, por que não diz à mãe que está de volta?

A verdade me amedronta um pouco. É que ele estava sentado ali refletindo, e duas mentes pensavam ao mesmo tempo em sua cabeça. Às vezes ele olhava com ânsia para a mãe, às vezes olhava com ânsia para a janela. Sem dúvida seria ótimo ser o menino dela outra vez, mas, por outro lado, que dias de pura diversão foram aqueles no Gardens! Será que ele gostaria de usar roupas de novo? Peter pulou da cama e abriu algumas gavetas, para dar uma olhada em suas roupinhas antigas. Ainda estavam todas lá, mas ele não sabia mais vesti-las. As meias, por exemplo, você as coloca nas mãos ou nos pés? Ele estava prestes a enfiar a mão em uma meia quando teve uma grande aventura. Talvez a gaveta tenha rangido; de qualquer maneira, sua mãe despertara, pois ele a ouviu dizer “Peter”, como se fosse a palavra mais linda do mundo. Ele ficou imóvel, sentado no chão, segurando a respiração, tentando entender como é que ela sabia que ele voltara. Se ela dissesse “Peter” de novo, ele prontamente gritaria “Mamãe!” e correria até ela. Mas ela não falou mais nada, apenas gemeu um pouco, e quando Peter a espiou de novo ela já estava dormindo de novo, com lágrimas nos olhos.

Peter ficou inconsolável, e o que vocês acham que ele fez a seguir? Sentado na balaustrada ao pé da cama, tocou uma bela canção de ninar com sua flauta. Ele criou a canção na hora, inspirando-se na entonação com que sua mãe dissera “Peter”, e não parou de tocar até que o rosto dela se mostrasse alegre outra vez.

Ele se contentou tanto com a própria astúcia que era quase irresistível acordá-la, para que ela pudesse dizer: “Ah, Peter, como você toca bem”. Entretanto, ela parecia estar muito confortável agora, e de novo ele lançou olhares para a janela. Não pensem que ele quis sair voando para nunca mais voltar. Peter estava bastante convicto de que voltaria a ser o menininho de sua mãe, mas hesitava em começar já nesta noite. O segundo desejo o perturbava. Ele já não queria ser um pássaro, mas não solicitar a realização de um segundo desejo lhe parecia um desperdício, e, é claro, ele não poderia fazer a solicitação se não retornasse ao Gardens. E não seria nada bom protelar a solicitação por muito tempo. E não tinha sido rude de sua parte ir embora para sempre sem dar adeus a Solomon?

— Seria tão incrível se eu pudesse velejar no meu barco só mais uma vez… — disse ele, tristonho, para a mãe adormecida.

Começou a argumentar com sua mãe, como se ela pudesse ouvi-lo.

— Seria esplêndido falar aos pássaros sobre esta aventura — disse, persuasivo. — Prometo que vou voltar — acrescentou, acreditando firmemente em sua promessa.

E no fim, vejam, Peter voou embora. Por duas vezes voltou e entrou no quarto, com a intenção de dar um beijo em sua mãe, mas temeu que o deleite do beijo a despertasse, e afinal tocou um adorável beijo para ela em sua flauta, e então se foi para o Gardens.

Muitas noites e muitos meses se passaram antes que ele fizesse seu segundo pedido às fadas; e não sei muito bem por que é que ele esperou tanto. Uma das razões era que ele precisava fazer muitas e muitas despedidas, precisava dizer adeus não apenas para seus amigos íntimos, mas também para cem lugares favoritos. Então velejou pela última vez, e depois velejou pela última das últimas vezes, e depois velejou pela última de todas as vezes, e assim por diante. E inúmeras festas de despedida foram celebradas em sua homenagem; e uma outra razão pertinente era a de que não havia pressa alguma, ora; pois sua mãe jamais se cansaria de esperar pelo filho. Essa última razão desagradou o velho Solomon, porque era um incentivo à procrastinação dos pássaros. Solomon tinha lemas excelentes para mantê-los trabalhando, tais como “Não deixe de fazer o forro hoje pensando que pode fazê-lo amanhã” ou “Neste mundo não existe uma segunda chance”, e no entanto ali estava Peter, sem pressa nenhuma e sem se importar. Os pássaros o observavam e faziam comentários entre si, e se entregavam a hábitos preguiçosos.

Mas vejam bem: por mais que Peter se demorasse, ele estava totalmente decidido a voltar para sua mãe. A maior prova disso era a sua cautela em relação às fadas. Elas torciam, angustiadas, para que Peter permanecesse no parque; não queriam ficar sem a música do menino. Tentavam lhe incutir pensamentos desviantes, lançavam mão de truques para que ele dissesse “Eu queria que a grama não estivesse tão molhada”, e algumas delas dançavam em descompasso para que ele exclamasse: “Seria bom se vocês dançassem direito!”. Então elas diziam que ele acabara de fazer seu segundo pedido. Mas Peter desvendou o estratagema; havia ocasiões em que ele começava a dizer “Eu queria que…”, mas sempre parava a tempo. Assim, quando por fim ele anunciou com bravura “Eu quero voltar para a minha mãe e não voltar nunca mais”, as fadas tiveram de fazer cócegas em seus ombros e não puderam impedir sua partida.

Ele voou em grande velocidade, pois tinha sonhado que sua mãe estava chorando, e estava ciente da grave motivação do choro, pensando que um esplêndido abraço de Peter a faria sorrir imediatamente. Ah, ele tinha certeza, e estava tão ansioso para se aconchegar nos braços dela que dessa vez voou em linha reta até a janela, que estaria permanentemente aberta para ele.

Mas a janela estava fechada, e barras de ferro a vedavam. Espiando para dentro, Peter viu sua mãe dormindo pacificamente, abraçando um outro menininho.

Peter gritou:

 

— Mamãe! Mamãe!

Mas ela não ouviu. Ele golpeou as barras de ferro com seus pequenos braços, em vão. Foi obrigado a voltar para o Gardens, soluçando, e nunca mais viu sua querida. Peter teria sido um filho inigualável. Ah, Peter! Nós, nós que cometemos um grande erro, como faríamos tudo diferente se tivéssemos uma segunda chance! Mas Solomon estava certo: não existe segunda chance para nós, não para a maioria. Quando chegamos à janela, os portões estão fechados. As barras de ferro vedarão a entrada para sempre.

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