Peter Pan
XIII. O Grande Passeio Pelo Gardens
XIII
O GRANDE PASSEIO PELO GARDENS
V ocês precisam entender que vai ser difícil acompanhar nossas aventuras se não se familiarizarem com o Kensington Gardens, já que agora David já o conhece. Ele fica em Londres, onde vive o Rei, e as crianças o visitam todos os dias, a não ser que estejam ardendo em febre, mas ninguém nunca conseguiu percorrer todo o parque de uma só vez, pois a hora de ir embora chega muito rápido. Se sua mãe não achasse que você precisa dormir das doze à uma, você provavelmente conseguiria visitar o lugar todo.
O Gardens é cercado, de um lado, por uma fileira de incontáveis ônibus, sobre os quais Irene exerce uma autoridade suprema; se ela levantar o dedo para algum deles o veículo para imediatamente. Ela então atravessa com você em segurança até o outro lado da rua. Existem vários portões para se entrar no Gardens e não apenas aquele, mas é por ele que você entra, e antes de entrar você conversa com a senhora dos balões, que fica sentada do lado de fora. Isso é o mais perto que ela chega de se aventurar no lugar, pois se soltasse a grade por um minuto, os balões a levantariam no ar e ela sairia voando. Ela fica agachada, pois os balões lhe puxam o tempo todo, e a força que ela faz deu ao seu rosto uma cor avermelhada. Um dia ela chegou ali pela primeira vez, pois a antiga vendedora de balões soltara a grade e David ficou muito triste por ela, mas já que ela se soltou, ele gostaria de ter estado lá para ver.
O Gardens é um lugar enorme, com milhões de centenas de árvores, e primeiro você chega ao Figs, mas você detesta perder muito tempo lá, pois o Figs é o refúgio de certas pequenas pessoas superiores, que não podem se misturar com a plebe e recebeu esse nome, segundo a lenda, por causa do figurino usado por quem o frequenta. Tais pessoas refinadas são chamadas de “Figs” por David e outros heróis, e vocês terão uma ideia sobre os modos e costumes desse setor dândi do Gardens quando eu lhes contar que os Figs não dizem partida de críquete e sim apenas críquete. Ocasionalmente, um Fig rebelde escala a cerca e vem para o mundo; e um deles foi a senhorita Mabel Grey, sobre quem contarei a vocês quando chegarmos ao portão da senhorita Mabel Grey. Ela foi a única Fig que se tornou célebre.
Agora estamos na Broad Walk, que é uma alameda bem maior do que as outras assim como seu pai é maior do que você. David se perguntava se a alameda nascera pequena e crescera mais e mais até virar adulta, e se as outras alamedas eram suas bebês, e fez um desenho, que o divertiu muito, da Broad Walk passeando com um carrinho de bebê. Na Broad Walk vocês encontram todas as pessoas que vale a pena conhecer, e normalmente há um adulto com elas para evitar que pisem na grama molhada, e para que fiquem de castigo no canto de um banco caso tenham feito papel de cachorro louco ou de Mary-Ann. Fazer papel de Mary-Ann é se comportar como uma garota, choramingar porque a babá não quer pegar você no colo, ou abrir um sorriso largo com o polegar na boca, e isso é uma atitude detestável, mas ser um cachorro louco é sair chutando tudo o que encontra pela frente, e nisso existe uma certa satisfação.
Se eu fosse ficar nomeando todos os lugares notáveis do lugar enquanto seguimos pela Broad Walk, seria hora de voltar antes de alcançarmos o seu fim, e simplesmente aponto minha varinha e escolho a Árvore Cecco, que é aquele lugar memorável em que um menino chamado Cecco perdeu uma moeda e, ao procurar por ela, encontrou duas. O lugar tem sido submetido a muitas escavações desde então. Andando mais um pouco encontramos a casinha de madeira em que Marmaduke Perry se escondeu. Não existe uma história pior sobre o Gardens do que esta do dia em que Marmaduke Perry, que tinha se comportado no estilo Mary-Ann por três dias seguidos, fora condenado a aparecer na Broad Walk vestindo as roupas de sua irmã. Ele se escondeu na casinha de madeira e se recusou a sair dali até que trouxessem suas calças curtas com bolsos.
Tente agora ir até o Round Pond; mas as babás detestam isso porque não são verdadeiramente corajosas e fazem você olhar para o outro lado, na direção da Big Penny e do Baby Palace. Essa bebê foi a criança mais celebrada do Gardens, vivia sozinha no palácio com suas várias bonecas, então as pessoas tocavam a campainha e ela se levantava da cama, embora já passasse das seis horas, acendia uma vela e abria a porta vestindo uma camisola, e então todos gritavam em grande regozijo: “Viva a rainha da Inglaterra!”. O que mais intrigava David era o fato de ela saber onde os fósforos estavam guardados. A Big Penny é uma estátua em homenagem a ela.
Em seguida chegamos à Hump, que faz parte da Broad Walk onde são realizadas as grandes corridas e, mesmo que você não tenha intenção de correr, assim que chega à Hump você começa a correr, pois é um lugar fascinante e deslizante. Muitas vezes você acaba parando, na metade da descida, e então percebe que está perdido, mas há uma outra casinha de madeira ali perto, a Lost House, e então você diz ao homem que encontrará por lá que está perdido e ele lhe indicará o caminho. É inacreditavelmente divertido correr pela Hump, mas você não pode fazer isso em dias de vento, pois nesses dias você não está lá, e as folhas caídas correm por você. Não há praticamente nada que tenha um senso de diversão tão apurado quanto uma folha caída.
Da Hump é possível enxergar o portão que tem o nome da senhorita Mabel Grey, a Fig sobre quem prometi contar a vocês. Havia sempre duas babás com ela, ou melhor, uma mãe e uma babá, e durante muito tempo ela foi uma criança modelo, que não tossia em cima da mesa e que dizia “Como vai?” para os outros Figs, e sua única brincadeira consistia em jogar uma bola longe, graciosamente, para que a babá buscasse para ela. Então um dia ela se cansou disso tudo e se comportou como um cachorro louco e, primeiro, para mostrar que estava realmente brava, soltou os cadarços de suas botas e colocou a língua para fora nas direções leste, oeste, norte e sul. Depois jogou a faixa de seu vestido em uma poça e dançou sobre ela até seu vestido ficar todo respingado com água suja, e depois disso escalou a cerca e viveu uma série de inacreditáveis aventuras, sendo que uma das menos inacreditáveis foi ter chutado suas botas. Por fim, chegou ao portão que agora tem seu nome, e por ele saiu correndo e se viu em ruas nas quais David e eu nunca estivemos, embora já tenhamos escutado o barulho delas, e continuou correndo e nunca mais ninguém teria ouvido falar nela se sua mãe não tivesse pulado para dentro de um ônibus no qual a apanhou. Devo dizer que isso tudo aconteceu muito tempo atrás, e essa não é a Mabel Grey que David conhece.
Retornando à Broad Walk, temos à direita a Baby Walk, que é tão cheia de carrinhos que é impossível cruzá-la de um lado ao outro sem pisar em um bebê, mas as babás não permitiriam que vocês fizessem isso. Dessa alameda sai uma passagem chamada Bunting’s Thumb, porque tem a extensão de um polegar, que leva à Picnic Street, na qual vocês encontram chaleiras de verdade, e flores de castanheira caem dentro de sua xícara enquanto você toma um chá. É bem comum que crianças façam piqueniques aqui também, e as flores caem em suas xícaras da mesma maneira.
A seguir vem o St. Govor’s Well, que estava cheio de água quando Malcolm, o ousado, caiu dentro ele. Ele era o preferido de sua mãe, e permitia que ela o abraçasse em público porque era viúva, mas ele também tinha um fraco por aventuras e gostava de brincar com um limpador de chaminés que já matara um bocado de ursos. O nome do limpador era Sooty; um dia eles estavam brincando perto do poço e Malcolm caiu dentro dele e teria se afogado se Sooty não tivesse mergulhado para salvá-lo, e a água lavou o rosto do Sooty e agora ali estava ele com sua identidade revelada. Ele era o pai de Malcolm, desaparecido tanto tempo antes. Depois disso Malcolm não permitiu mais que sua mãe o abraçasse em público.
Entre o poço e o Round Pond ficam os campos de críquete, e frequentemente a distribuição dos jogadores dos dois times demora tanto que muitas vezes mal sobra tempo para o jogo em si. Todo mundo quer rebater primeiro, e quando os times trocam de posição o primeiro rebatedor quer arremessar primeiro, a não ser que você seja mais forte do que ele, e enquanto vocês dois brigam os outros arremessadores se dispersam e vão jogar outra coisa. O Gardens é conhecido por servir de campo para dois tipos de críquete: críquete de menino, que é o críquete de verdade, com taco, e críquete de menina, que é um jogo com raquete e com presença de uma governanta. As meninas nem sabem jogar críquete, na verdade, e ao se observar seus esforços inúteis você acaba zombando delas com gritos de escárnio. Houve, contudo, um incidente muito desagradável em uma ocasião, quando certas meninas atrevidas desafiaram o time de David, e uma criatura bizarra chamada Angela Clare arremessou tantas bolas certeiras que… Bem, em vez de falar sobre o resultado dessa lamentável partida eu vou passar direto parra o Round Pond, que é a engrenagem que mantém o Gardens em funcionamento.
Ele é redondo porque está situado exatamente no centro do parque, e depois de se aproximar dele você não quer mais se distanciar. Você não consegue se comportar direito o tempo todo quando você está no Round Pond, por mais que tente. Você consegue se comportar direito o tempo todo na Broad Walk, mas não no Round Pond, e isso acontece porque você se esquece e, quando lembra, já está tão molhado que não custa nada se molhar ainda mais. Há homens que soltam barcos a vela no Round Pond; são barcos tão grandes que os homens os trazem em carrinhos de mão, ou às vezes em carrinhos de bebê, e então os bebês precisam caminhar. As crianças de pernas tortas do Gardens são aquelas que precisaram aprender a caminhar cedo demais porque seus pais precisavam usar seu carrinho de bebê.
Você sempre sonha em ter um barco a vela para soltar no Round Pond, e por fim você ganha um do seu tio; e é esplêndido levar o barco para o Pond no primeiro dia, e também é esplêndido falar sobre ele com meninos que não têm tios, mas você logo prefere deixá-lo em casa. Porque não há nada mais incrível, no Round Pond, do que soltar as amarras de uma embarcação conhecida como barco-graveto; pois ele é bastante parecido com um graveto até o momento em que você o solta na água e segura a ponta de um barbante. Então enquanto você vai andando em volta do Pond, conduzindo a embarcação, e começa a ver homenzinhos que correm pelo convés, e velas são içadas magicamente e se inflam com o vento, e em noites de tempestade você abriga o barco em portos seguros que são desconhecidos pelos iates nobres. A noite se passa em um piscar de olhos, e de novo a dissoluta embarcação voa com o vento, baleias esguicham, você desliza por sobre cidades submersas e confronta-se com piratas e lança âncora em ilhas de coral. Você fica sozinho ao longo de toda a aventura, porque dois meninos juntos não conseguem ir muito longe mar adentro, e embora você possa conversar consigo durante a viagem, dando ordens e executando-as com presteza, quando chega a hora de ir para casa você já não sabe mais onde esteve e o que é que inflou suas velas; o tesouro que você encontrou está guardado no seu porão, por assim dizer, e será descoberto por outro menino, talvez em um futuro distante.
Mas não há nada no porão daqueles iates. Existe alguém que retorne a esse refúgio da infância por causa dos iates nobres que ele costumava navegar? Ah, não. É o barco-graveto a embarcação que carrega memórias. Os iates são brinquedos, seus donos são marinheiros de água doce, eles apenas cruzam um laguinho de um lado para o outro enquanto o barco-graveto se aventura pelo mar. Vocês, marinheiros que ostentam seus iates, que pensam que estamos aqui por causa de vocês; os seus navios estão aqui por acidente e, se os patos embarcassem neles e os afundassem, a vida real do Round Pond teria prosseguimento, como se nada tivesse acontecido.
Caminhos de todos os lugares aglomeram-se como crianças em torno do lago. Alguns deles são caminhos comuns, com cercas dos dois lados, feitos por homens que suaram suas camisas, mas outros são excêntricos, em um trecho são largos, em outro são tão estreitos que você acaba caminhando com os pés fora da trilha. São chamados de “Caminhos Construídos por Conta Própria”, e David gostaria muito de ter visto um caminho se fazendo por si mesmo. Mas assim como todas as coisas maravilhosas que acontecem no Gardens, isso acontece, concluímos, durante a noite, depois que os portões foram fechados. Também deduzimos que os caminhos se fazem por conta própria porque é só assim que eles conseguem chegar ao Round Pond.
Um desses caminhos ciganos tem como procedência o lugar onde as ovelhas ganham cortes de cabelo. Quando David perdeu seus cachos, no cabeleireiro, deu adeus para eles sem o menor abalo, segundo me disseram, embora Mary, sua mãe, nunca mais tenha sido a criatura radiante de sempre, de modo que ele se enche de desprezo quando as ovelhas correm do tosquiador e grita para elas, com sarcasmo: “Covardes, não são de nada!”. Mas quando o homem as segura entre as pernas, David lhe faz um gesto ameaçador com o punho, por ele usar tesouras tão grandes. Outro momento surpreendente é quando o homem joga para trás a lã encardida que saiu do lombo das ovelhas e de repente elas parecem damas sentadas em poltronas de teatro. As ovelhas se apavoram tanto com o tosquiamento que ficam um tanto brancas e magras, e assim que são soltas saem mordiscando a grama no mesmo instante, bastante ansiosas, como se temessem que ninguém quisesse comê-las nunca mais. David se pergunta se elas reconhecem umas às outras, agora que estão tão diferentes, e se não acabam brigando com as ovelhas erradas. Elas são ótimas lutadoras, e muito diferentes das ovelhas do campo, que todos os anos pregam uma peça em Porthos. Ele é capaz de fazer um rebanho inteiro de ovelhas do campo sair voando somente anunciando sua chegada, mas essas ovelhas da cidade se aproximam dele sem nenhuma promessa de divertimento inocente, e uma lembrança do ano anterior se abate sobre ele. Porthos não tem como sair correndo com dignidade; ele fica imóvel e olha para os lados, como se tivesse o olhar perdido na beleza da paisagem, e em seguida sai trotando com uma indiferença altiva, olhando de soslaio para mim.
O Serpentine começa perto daqui. É um lago encantador, e há uma floresta submersa no fundo dele. Se você espiar na beira da água, verá as árvores todas crescendo de ponta-cabeça, e dizem que no período da noite também existem estrelas submersas ali. Se existem mesmo, Peter Pan as vê quando está velejando pelo lago no ninho do tordo. Só uma pequena parte do Serpentine fica no Gardens, pois ele logo passa por baixo de uma ponte e se estende para muito longe, até a ilha na qual nascem todos os pássaros que viram meninos e meninas. Ninguém que seja humano, exceto Peter Pan (ele é apenas meio humano), consegue chegar até a ilha, mas você pode escrever o que quiser (menino ou menina, moreno ou loiro) em um pedaço de papel e depois dobrar o papel em forma de barco e lançá-lo na água, e ele chega à ilha de Peter Pan depois do anoitecer.
Estamos a caminho de casa agora, embora seja ilusão, é claro, pensar que possamos visitar tantos lugares em um dia só. Eu já deveria estar carregando David no colo há algum tempo e, como o velho Sr. Salford, teria de parar para descansar em todos os bancos. Era assim que o chamávamos porque ele sempre nos falava de um lugar adorável chamado Salford, onde nascera. Era um rabugento senhor de idade que perambulava o dia inteiro pelo Gardens, de banco em banco, tentando encontrar alguém que conhecesse a cidade de Salford, e quando já o conhecíamos havia um ano nós acabamos encontrando um outro ancião solitário que certa vez ficara de sábado a segunda-feira em Salford. Ele era meigo e acanhado e levava seu endereço dentro do chapéu, e quando queria chegar a determinado lugar em Londres seu ponto de partida era sempre a agência central dos correios. Em triunfo, arrastamos esse velho até o nosso outro amigo, com a história daquele sábado a segunda-feira, e jamais esquecerei o pulo de felicidade com o qual o Sr. Salford o recebeu. Os dois são amigos desde então, e percebo que o Sr. Salford, que naturalmente fala muito mais do que o outro, não larga o casaco do amigo de jeito nenhum.
Os dois últimos lugares sobre os quais quero lhes falar, antes de chegarmos ao nosso portão, são o cemitério de cães e o ninho do pintassilgo, mas nós fingimos não saber o que é o cemitério de cães, já que Porthos está sempre conosco. O ninho é muito triste. Ele é bem branco, e a maneira como o encontramos foi maravilhosa. Estávamos fazendo mais uma busca entre os arbustos, procurando pela bola de lã que David perdera; em vez de achar a bola, encontramos um ninho encantador, feito com a lã da bola, contendo quatro ovos com garatujas sobre eles que lembravam a letra de David, e o nosso palpite é que eram cartas da mãe para os pequeninos que estavam dentro dos ovos. Quando íamos ao Gardens, visitávamos sem falta o ninho, tomando cuidado para que nenhum menino cruel nos visse, e jogávamos migalhas de pão, e logo a ave soube que éramos seus amigos, e ficava sentada no ninho, olhando-nos com amabilidade, com os ombros encolhidos. Mas certo dia nós fomos ver o ninho e só havia dois ovos nele, e na visita seguinte não havia nenhum. A parte mais triste disso é que a pobre ave ficou voando agitada entre os arbustos, olhando-nos com tanta reprovação que nos demos conta de que ela nos considerava culpados por aquilo; e embora David tenha tentado se explicar para ela, já fazia tanto tempo que ele não falava a linguagem dos pássaros que receio que ela não tenha entendido. Ele e eu saímos do Gardens esfregando os olhos naquele dia.
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