Peter Pan

J. M. Barrie · Capítulo 11 de 48

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Peter Pan

XI. O Carrinho de Bebê Fugitivo

XI

 

O CARRINHO DE BEBÊ FUGITIVO

As vezes, eu encontrava David em lugares públicos como o Kensington

Gardens, onde ele reinava cercado por sua corte, com o rosto sem expressão

e os olhos de vidro de todas as pessoas em carruagens. Nessas ocasiões eu

sempre o perseguia, pensando em coisas sérias, embora Mary parecesse

pensar que eu tinha um coração duro e Irene, que havia se tornado sua babá

(não me lembro como, mas receio que eu tenha alguma coisa a ver com

isso), corria atrás de mim com mensagens como se eu não ligaria e o

visitaria em sua casa ao meio-dia, momento em que, ao que parecia, ele

estaria em seu melhor humor.

Não, eu não faria isso.

— Ele fala tique-taque para o relógio — dizia Irene, tentando me

persuadir.

— Puff! — dizia eu.

— Outro dia o pequeno disse “tique-tique” — me disse ela, com

orgulho.

— Prefiro “tique-tique” — disse eu, fazendo com que ela partisse em

dúvida.

Se elas tivessem a ideia de deixá-lo sozinho atrás de uma árvore eu

teria ido dar uma olhada, mas como elas não fizeram isso decidi esperar até

que ele soubesse andar, quando seria mais fácil abordá-lo. No entanto, ele

era uma pequena criatura cautelosa, depois de muitas ameaças de se

levantar sempre parecia que ele chegava à conclusão de que poderia ser pior

do que permanecer onde estava, e quando completou seu primeiro ano de

vida perdi a paciência com ele.

— Quando eu tinha a idade dele — disse eu para Irene — eu já andava

para todos os lados.

Por acaso eu havia feito essa pergunta no clube e todos aqueles com

quem conversei já andavam para todos os lados quando tinham por volta de

um ano de idade.

Fiz a seguinte oferta para a babá: se ela trouxesse aquele menino

vagaroso até minha casa e o deixasse lá comigo por meia hora eu cuidaria

dele. Primeiro Mary, a quem a oferta foi mencionada, rejeitou-a com

altivez, mas logo mudou de ideia e o resultado foi que Irene, parecendo

desdenhosa e ansiosa, chegou um dia com o carrinho. Sem olhar para o

ocupante do veículo, apontei a porta para Irene:

— Meia hora — disse eu.

Ela implorou para ficar, e prometeu ficar de costas e tudo o mais, mas

eu estava obstinado e ela então se entregou a uma despedida cheia de afeto

a seu encarregado, que na verdade era diretamente contra mim, e saiu

dizendo as seguintes palavras poderosas:

— E se ele tirar suas meias, meu lindinho, que ele seja destruído para

sempre.

— Eu provavelmente tirarei as meias dela — disse eu, sem me

importar com isso.

As meias dela. Vocês percebem o que fez Irene gritar?

— É uma garota, não é? — perguntei, embora a privasse de conseguir

me responder, pois a empurrei para a porta.

Eu então me virei para – para começar e, depois de pensar, comecei me

sentando atrás da cobertura do carrinho. Meu plano era deixá-lo

acostumado com o novo ambiente antes de eu entrar em cena.

Vários pensamentos passaram pela minha cabeça. Ele estava

acordado? Se não estivesse, era melhor deixá-lo acordar naturalmente. Meia

hora era muito tempo. Por que eu não disse quinze minutos? Percebi que se

eu ficasse sentado ali por muito tempo eu deveria ter dito para ela voltar em

uma hora, então assobiei baixinho, mas ele não percebeu. Eu me lembro de

ter tentado me convencer de que, se eu não me mexesse até a volta de Irene,

seria um triunfo divertido de Mary. Tossi, mas ele ainda não reagiu. De

repente, o medo tomou conta de mim. Talvez ele não estivesse lá.

Eu me levantei apressado e estava indo para a frente quando percebi

um movimento em algum lugar perto do meio do carrinho, e ouvi um

gorgolejo baixo que foi imediatamente suprimido. Parei de repente ao

perceber que provavelmente eu não era a única pessoa curiosa na sala, e por

um longo momento nós dois ficamos quietos, depois disso, fico feliz em me

lembrar, eu fiz o primeiro movimento. Mais cedo naquele dia eu havia

arrumado alguns objetos em uma mesa lateral: meu relógio e minha

corrente, meu molho de chaves, e duas medalhas de guerra, e ao dar uma

olhada para eles (como se fossem algo no que pensar), avancei obstinado,

parecendo (receio agora) um professor de prestidigitação. David estava

sentado e imediatamente fixou os olhos em mim.

Seria maldade da minha parte tentar descrever esse querido garoto para

vocês, pois, claro, realmente não sei nada sobre crianças, então devo dizer

apenas que achei ele bastante parecido com como seria Timothy se ele

tivesse tido a chance de existir.

Eu, a quem David fora trazido para ser julgado, me sentia agora sendo

julgado por ele, e esta reorganização das peças parecia tão natural que não

senti nenhuma surpresa; senti apenas um desejo humilde de ouvi-lo

significar o que eu faria. Eu já ficara em pé perante outros juízes e enganei

a todos, mas não fiz nenhum esforço para enganar David; eu queria fazer

isso, mas não me atrevi. Aqueles olhos vidrados eram novos demais no

mundo para serem encobertos por qualquer um de seus truques. Neles

enxerguei minha verdadeira pessoa. Eles abriram para mim aquele fardo de

mexeriqueiros sobre os quais fiz tanto barulho, e descobri que pesava

menos com seus pequenos e tristes símbolos de amor do que com

pensamentos desprezíveis, deveres e uma vida não guiada. Olhei com

desânimo para David, acho que não porque eu tinha pena dele, mas porque

eu temia que ele não aceitasse minha ajuda. Eu parecia saber que ele estava

se decidindo de uma vez por todas.

E no final ele sorriu, talvez apenas porque eu parecesse tão

amedrontado, mas a razão pouco importava para mim, eu rapidamente me

senti um camarada bom. Foi um longo sorriso também, abrindo-se ao

máximo (como se para me deixar entrar) e então se recolhendo devagar.

Então, para desviar minha cabeça de pensamentos tristes, ou para

firmar nossa amizade, ou porque havia chegado a hora de cada um de nós

mostrar ao outro o que era capaz de fazer, ele imediatamente levantou um

pé no ar. Isso o fez escorregar do carrinho e vi logo que era necessário

colocá-lo de volta no lugar. Mas eu nunca antes havia estado em um contato

tão próximo com uma criança; o máximo que eu já tinha feito era, quando

elas esticavam o braço para mim, fechar meus olhos e jogar um beijo.

David, claro, embora sem dúvida estivesse sendo eternamente colocado no

lugar, podia dizer tão pouco quanto eu como isso fora planejado, e ainda

assim conseguimos administrar isso entre nós com bastante facilidade. Seu

corpo assumiu uma certa posição instintivamente quando o toquei, o que

fez com que meus braços se encaixassem, e a coisa estava feita. Eu me senti

absurdamente feliz, mas ele já estava pensando no que fazer em seguida.

De novo ele levantou o pé, que tinha um aspecto gostoso por estar

preso em uma pequena meia de lã, e pensei que ele desejava repetir sua

primeira estripulia, mas não fiz justiça a ele neste aspecto, pois, diferente de

Porthos, ele não gostava de fazer a mesma coisa duas vezes; talvez, como

os mágicos, ele soubesse que sua plateia fica mais atenta na segunda

exibição.

Descobri que ele queria que eu tirasse sua meia!

Ao me lembrar das ameaças terríveis de Irene sobre isso, confesso que

me senti um pouco incomodado. Será que ele tinha ouvido o que ela dissera

e estava me desafiando? E que coisa terrível poderia acontecer se a meia

fosse retirada? Tentei argumentar com ele, mas ele sinalizou para que eu

fosse esperto e então tirei sua meia. Essa parte do corpo dele que foi

revelada, então, trouxe um grande prazer para David, mas percebi, como

algo curioso, que ele parecia não ter nenhum interesse no outro pé.

No entanto, ele não queria simplesmente olhar para o pé, pois, depois

de me lançar um olhar que dizia “agora preste atenção”, ele levantou o pé

descalço e passou a boca pelos dedos, como alguém tocando um

instrumento bárbaro. Então jogou o pé para o lado, expressou seu largo e

triunfante sorriso e exigiu que agora era a minha vez de fazer alguma coisa.

Pensei que o melhor que eu poderia fazer era colocar a meia em seu pé

novamente, mas logo que tentei fazer isso descobri por que Irene me avisara

tão portentosamente a não tirá-la. Eu diria que ela tinha problemas ao

colocar as meias nele todas as manhãs.

De qualquer maneira, consegui colocar a meia enquanto ele pensava

no que fazer com meu relógio. Eu me arrependia amargamente por não

poder fazer nada com ele, colocá-lo embaixo de uma taça de vinho, por

exemplo, e transformá-lo em um coelho, algo que muitas pessoas

conseguem fazer. Enquanto isso David, preso em pensamentos semelhantes,

quase fez tudo desaparecer, e eu estava agradecido por poder colocá-lo de

volta pela corrente.

— Haw-haw-haw!

 

Assim ele comentou sobre seu novo feito, mas aquilo também foi um

lembrete um pouco cruel de que ele não era meu filho. Afinal, vocês

entendem, Mary não deu a ele toda a sua risada. O relógio mostrava que

haviam se passado vinte e cinco minutos e ao olhar pela janela vi Irene em

uma ponta da rua olhando para a minha janela, e vi o marido de Mary na

outra ponta da rua olhando para a minha janela, e embaixo de minha janela

vi Mary também olhando para a minha janela. Todos havia quebrado suas

promessas.

Eu me virei para David e perguntei a ele, em voz baixa, se ele poderia

me dar um beijo. Ele balançou a cabeça por cerca de seis vezes, e fiquei

desolado. Então o sorriso apareceu e eu soube que ele estava só brincando.

Ele agora acenou a cabeça cerca de seis vezes.

Esta foi a mais linda de todas as suas façanhas. Era tão lindo que,

contrariando suas regras, ele repetiu. Eu havia esticado meus braços para

ele e, primeiro ele sacudiu a cabeça, e então, depois de uma longa pausa

(para me assustar) ele acenou com a cabeça.

Mas assim que o peguei em meu colo tive a sensação de ver Mary, seu

marido e Irene embaixo de meus aposentos para tirá-lo de mim e, agindo

por impulso, eu o joguei no carrinho e saí sem permissão pela escada dos

fundos. Fomos ao Kensington Gardens; podíamos ter começado por

Manitoba, mas foi no Kensington Gardens que chegamos, e tudo havia sido

tão inesperado e executado com tanta inteligência que eu me lembro de

colocar minha mão na cabeça quando estava na rua para me certificar de

que eu estava usando meu chapéu.

Observei David para ver o que ele pensava daquilo, e ele ainda não

tinha se decidido. É estranho dizer, eu não sentia mais vergonha. De repente

eu havia ficado indiferente ao comentário público, e minha euforia

aumentou quando descobri que eu estava sendo perseguido. Colocaram um

cordão em volta de mim perto da árvore de Margot Meredith, mas passei

por ele com um movimento estratégico para o sul, e ouviram que eu estava

na Baby Walk. Eles fecharam as duas pontas dessa passagem, e então

acharam que tinham me pegado, mas escorreguei de suas mãos ao dobrar na

Bunting’s Thumb para entrar na Picnic Street. Agachando no St. Govor’s

Well, nós os vimos subindo distraidamente pela Hump, e quando

atravessaram o Round Pond nós andamos alegres pela Broad Walk, sem

sentir um pingo de pena de ninguém.

Mas, aqui, aos poucos foi ficando claro para David que, afinal eu era

um homem estranho, e seus olhos começaram a se abrir, e a se abrir até

ficarem do tamanho de duas medalhas e então, com a deliberação que

distingue seu sorriso, devagar ele se preparou para uivar. Vi todas as suas

forças se juntando em seu rosto, e não tinha nada para se opor a elas; era um

homem desarmado contra um regimento.

Mesmo naquele momento eu não o repreendi. Ele não podia saber que

fora eu quem derrubara a carta.

Acho que eu devo ter pisado em alguma fada agradecida naquele

momento, pois quem mais teria me lembrado tão oportunamente da minha

famosa manipulação de sobrancelhas, da qual eu havia me esquecido desde

a época do colégio? Eu era o único menino que conseguia levantar e abaixar

minhas sobrancelhas separadamente; quando uma levantava a outra descia,

como dois baldes dentro de um poço.

Com muita timidez, chamei esse feito em meu auxílio agora, e

imediatamente David controlou suas forças e considerou meu movimento

inesperado sem preconceitos. Seu rosto permaneceu como estava, sua boca aberta para soltar o uivo se eu não superasse suas expectativas. Vi que,

como era o garoto justo de sempre, ele estava me dando uma chance, e

trabalhei fervorosamente, sendo o meu maior medo o fato de que, por ele

ser tão jovem, ele talvez não percebesse o quão maravilhosa era essa coisa

que eu estava fazendo. É um apelo ao intelecto, assim como aos sentidos, e

ninguém na face da terra além de mim consegue fazê-lo.

Quando parei exausto por um momento ele sinalizou gravemente, com

a mesma expressão no rosto, que embora fosse realmente engraçado, ele

ainda não havia decidido se era divertido o suficiente e, usando isso como

motivação, fiz o gesto mais uma vez, até eu ver suas forças se rendendo,

quando levantei minha sobrancelha esquerda quase tão alto a ponto de não

conseguir trazê-la de volta, e com isso consegui, o sorriso apareceu entre as

nuvens.

Em meio ao meu triunfo duramente conquistado, ouvi aplausos.

Eu estava vagamente consciente de que não estávamos totalmente

sozinhos, mas não me atrevi a tirar os olhos de David; olhei agora e

descobri, para meu incômodo, que eu era o centro de um aglomerado de

crianças totalmente interessadas. Havia, em particular, um pequeno garoto

de rua.

No entanto, se isso me afetou no momento da vitória, logo triunfei

gloriosamente no que começou como derrota. Eu havia me sentado em um

dos bancos de jardim no Figs, com uma mão descansando no carrinho

imitando as babás, era tão prazeroso assumir o ar de alguém que leva David

para passear diariamente, quando para meu desgosto vi Mary se

aproximando com passos rápidos e furtivos, e ela já estava tão perto que

fugir seria uma vergonha. Porthos, a quem ela segurava, saltou em minha

direção, abanando seu rabo traidor, mas ela começou a andar mais devagar

ao ver que eu a observava. Ela havia me encontrado graças a meu próprio

cachorro.

Não preciso dizer que Porthos há algum tempo visitava a casa dela,

embora eu nunca possa me esquecer do choque que senti na primeira vez

em que o vi saindo de lá como um visitante de todas as tardes. Ultimamente

ele tem evitado ir até lá, atravessa a rua quando passo por aquele caminho e

se junta a mim mais adiante, então conclui que o marido de Mary está

pintando o cachorro.

Esperei que ela viesse, bastante desapontado, e percebi que sua

primeira atenção foi destinada a David que, de certa forma mesquinho, havia lançado a ela o final do sorriso que começara para mim. Ela pareceu

aliviada, pois o que alguém pode chamar de olhar maternal selvagem havia

deixado seu rosto, e tentando controlar sua respiração, resultado de uma

corrida inadequada, ela sinalizou para que seus companheiros

permanecessem na retaguarda e lançou um olhar curioso para mim. Se ela

tivesse falado alguma coisa enquanto se aproximava, tenho certeza de que

suas palavras sairiam tão fervorosas quanto seu rosto, mas agora sua boca

se enrugou como David costuma fazer antes de formar um sorriso, e vi que

ela pensava que finalmente conseguiria negociar comigo.

— Não consegui deixar de me sentir um pouco ansiosa — disse ela,

astuciosamente, mas devo admitir, com uma certa doçura.

Mal levantei meu chapéu, e com isso ela se virou rapidamente para

David (não consigo entender por que o movimento foi tão rápido) e olhou

para ele. Ah, pequeno grande menino! Em vez de beijá-la ele tocou seu

rosto com uma mão e tentou fazer com que suas sobrancelhas se

levantassem e descessem alternadamente. Ele não conseguiu e sua óbvia

decepção com a mãe foi um néctar para mim.

— Eu não entendo o que você quer, querido — disse ela, aflita.

Ela então olhou para mim em tom questionador e eu entendi o que ele

queria, e deixei que ela soubesse que eu entendera. Se eu estivesse

preparado para conversar com ela eu teria dito eufórico que, se ela soubesse

o que ele queria ainda assim ela não poderia fazer o que ele pedia, mesmo

que treinasse por vinte anos.

Tentei expressar isso tudo fazendo um outro movimento com meu

chapéu.

Isso chamou a atenção de David e ele rapidamente recorreu a mim

com a mais perfeita confiança. Ela não conseguiu ver o que eu fiz, pois

fiquei de costas para ela, mas o efeito de meu gesto em David era

milagroso; ele sinalizou para que ela fosse embora, pois ele já estava

comprometido durante o período da tarde.

O que você teria feito então, leitor? Eu não fiz. Em meu grande

momento tive força de caráter para levantar meu chapéu pela terceira vez e

ir embora, deixando a criança a nos julgar. Caminhei devagar, pois eu sabia

que precisava dar um tempo a ele para perceber o que acontecera, e escutei

atento, mas era desnecessário prestar tanta atenção, pois quando a criança

reagiu foi com um alto rugido de angústia. Virei minha cabeça e vi David

empurrando a mulher para o lado, bravo, para que pudesse olhar para mim mais uma vez, longa e demoradamente. Ele estendeu seus braços

melancólicos e acenou a cabeça para mim repetidas vezes, e vacilei, mas

meu esquema glorioso me salvou, e segui em frente. Foi um esquema

concebido em um piscar de olhos, e desde então implacavelmente

perseguido, esconder-me sob a influência de Mary com o garoto, deixá-la

exposta a ele em todas as suas excentricidades, tirá-lo completamente dela e

torná-lo meu.

 

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