Peter Pan

J. M. Barrie · Capítulo 17 de 48

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Peter Pan

XVII. A Pequena Casa

XVII

 

A PEQUENA CASA

Todo mundo já ouviu falar da pequena casa do Kensington Gardens, que é a única casa no mundo inteiro que as fadas construíram para humanos. Mas ninguém a viu de fato, exceto umas três ou quatro pessoas, e elas não apenas a viram como dormiram nela, e se você não dormir nela você não a vê. É porque ela não está lá quando você se deita para dormir, mas está lá quando você acorda e sai.

Todo mundo pode vê-la, de certo modo, mas o que você vê não é a casa, você vê apenas a luz nas janelas. Você pode ver a luz depois do fechamento dos portões. David, por exemplo, viu a luz nitidamente na distância, entre as árvores, em um dia em que voltávamos do espetáculo de pantomina, e Oliver Bailey a viu na noite em que ficou até mais tarde no Templo, que é o nome do escritório de seu pai. Angela Clare, que adora ter dentes extraídos, porque depois ganha um belo chá em uma confeitaria, viu mais de uma luz, viu centenas ao mesmo tempo, e certamente eram as fadas construindo a casa, pois elas a constroem todas as noites, e sempre em pontos diferentes do Gardens. Angela achou que uma das luzes era maior do que as outras, mas não teve certeza, porque elas ficavam pulando para lá e para cá, e pode ser que ela não tenha de fato visto a maior de todas. Se viu mesmo a maior de todas, no entanto, então viu a luz de Peter Pan. Milhões de crianças já viram essa luz, não é nada demais. Mas Maimie Mannering foi a mais célebre de todas: foi para ela que construíram a casa pela primeira vez.

Maimie era uma menina bem estranha na maior parte do tempo, principalmente à noite. Tinha quatro anos de idade, e durante o dia era uma criança comum. Ficou muito satisfeita quando seu irmão Tony, um magnífico rapaz de seis anos de idade, começou a prestar atenção nela, e ela o admirava muito, tentava em vão imitá-lo e ficava antes lisonjeada do que aborrecida quando o irmão a expulsava das brincadeiras. Quando era sua vez de rebater, ela às vezes baixava o taco, com a bola ainda no ar, só para mostrar a todos que estava usando sapatos novos. Enfim, era uma menina bem comum durante o dia.

Porém, assim que assomavam as sombras da noite, Tony, o fanfarrão, esquecia seu desprezo por Maimie e passava a encará-la com pavor, e não era de se estranhar, pois, com a escuridão, surgia no rosto dela um olhar que só posso descrever como um olhar cismado. Era também um olhar sereno, que contrastava por completo com os olhares inquietos de Tony. Ele a presenteava com seus brinquedos favoritos (e os tomava de volta no dia seguinte, sempre), e ela os aceitava com um sorriso perturbador. O fato de que ele ficava tão lisonjeador e de ela que se tornava tão misteriosa tinha a ver (em resumo) com a aproximação da hora de ir para a cama. Era nessa hora que Maimie se mostrava mais terrível. Tony implorava a ela que não fizesse nada naquela noite, e a mãe e a aia faziam ameaças, mas Maimie meramente sorria seu temível sorriso. E o tempo passava, e os irmãos ficavam sozinhos com suas luzes de cabeceira, e ela se erguia na cama e exclamava:

— Psss! O que foi isso?

Tony suplicava:

— Não foi nada… Não, Maimie, pare! — e puxava a coberta por sobre a cabeça.

— Está chegando cada vez mais perto! — ela gritava. — Aaaah, veja, Tony! Está tocando a sua cama com os chifres… Está rasgando a coberta e vai pegar você, Tony, aaah!

Ela só parava quando Tony descia as escadas correndo, em seu pijama curto, berrando. Quando todos entravam no quarto, dispostos a dar umas chineladas em Maimie, ela em geral já estava dormindo, tranquila – e não estava trapaceando, estava dormindo mesmo, como o anjinho mais lindo do mundo, o que, a meu ver, chegava a ser mais sinistro do que todo o resto.

Mas era durante o dia, é claro, que eles frequentavam o Gardens, e então era Tony quem falava na maior parte do tempo. Era possível concluir, a partir de sua conversa, que ele era um menino muito valente, e ninguém tinha tanto orgulho dele quanto Maimie. Ela adoraria ter um distintivo preso ao peito, informando que era a irmã de Tony. E a admiração chegava ao ápice quando ele dizia, pela milésima vez, com esplêndida convicção, que pretendia permanecer dentro do Gardens em uma noite qualquer, depois que os portões fossem fechados.

— Tony! — dizia ela, cheia de respeito. — Mas as fadas vão ficar furiosas!

— Pouco me importa — retrucava Tony, despreocupado.

— Talvez — dizia ela, afogueada — você possa dar uma volta no barco de Peter Pan!

— Ele que se cuide, se não permitir — retrucava Tony.

Não é de se espantar que ela sentisse tanto orgulho dele.

Mas eles não deviam falar tão alto, porque um dia foram ouvidos por uma fada que estava juntando folhas secas, com as quais as criaturinhas fabricam suas cortinas de verão, e dali em diante Tony era um menino marcado. Afrouxavam as cercas quando ele estava prestes a se sentar nelas, de modo que ele caía para trás, de cabeça; puxavam seus cadarços e faziam-no tropeçar; subornavam os patos para que afundassem os barcos do menino. Praticamente todos os acidentes sórdidos que você sofre no Gardens ocorrem por causa de alguma hostilidade das fadas em relação a você; portanto, é aconselhável que você tenha muito cuidado com o que diz sobre elas.

Maimie era uma menina do tipo que gosta de fixar datas para fazer coisas, mas Tony não era assim; quando ela queria saber qual seria o dia em que ele ficaria no Gardens depois do horário de fechamento dos portões, ele respondia apenas:

— Num dia desses.

Tony era bastante vago em relação ao tal dia, a não ser quando Maimie perguntava:

— Vai ser hoje?

Nisso ele era preciso: não seria hoje. Maimie achava que o irmão estava esperando por uma oportunidade imperdível.

E assim chegamos a uma tarde em que o Gardens estava branco de tanta neve, e havia gelo no Round Pond; a camada não era grossa o suficiente para que se pudesse patinar, mas ao menos era possível jogar pedras e estragar a patinação do dia seguinte, e um animado grupo de meninos e meninas estava fazendo justamente isso.

Quando Tony e sua irmã chegaram ao parque, quiseram ir direto para o lago, mas a aia ressalvou que eles precisariam dar uma vigorosa caminhada antes, e dizendo isso ela conferiu a placa dos horários, para saber qual seria a hora de fechamento. A placa dizia “cinco e meia”. Pobre aia! Ela ri o tempo inteiro porque existem tantas crianças brancas no mundo, mas não teria muitos motivos para rir naquele dia.

Bem, eles subiram toda a Baby Walk e desceram de volta, e quando chegaram ao ponto de partida a aia ficou surpresa: segundo o que dizia agora a placa dos horários, o fechamento ocorreria às cinco horas. Mas ela desconhecia os truques das fadas, portanto não entendeu (Maimie e Tony entenderam de imediato) que elas tinham alterado o horário porque haveria baile naquela noite. A aia falou que agora só restava tempo para caminhar até o alto da Hump e voltar, e durante a caminhada não percebeu que os pequenos palpitavam de emoção. Ora, a oportunidade de presenciar um baile de fadas chegara. Tony sentiu que topara com uma oportunidade imperdível.

Ele só podia estar sentindo isso, porque Maimie sentia também, com muita intensidade. Ansiosa, ela perguntou com os olhos:

— É hoje?

Ele ficou sem ar e assinalou que sim, era hoje. Maimie agarrou a mão do irmão, e a dela estava quente, mas a dele estava fria. Ela fez uma coisa muito amável: tirou seu cachecol e o deu para ele!

— Para o caso de você sentir frio — sussurrou.

Maimie tinha o rosto radiante, mas a expressão de Tony era sombria.

Quando começaram a caminhar de volta, do alto da Hump, Tony sussurrou para ela:

— Estou com medo de que a babá me veja, acho que não vou conseguir.

Maimie o admirou mais do que nunca por ele sentir medo da aia e de mais nada, quando existiam tantos terrores temíveis, e disse em voz alta:

— Tony, vou correr com você até o portão.

E acrescentou, em um sussurro:

— Aí você poderá se esconder.

Tony costumava se distanciar de Maimie com facilidade, mas ela nunca o vira disparar em uma velocidade tão espantosa, e teve certeza de que ele se apressava para ter mais tempo de se esconder.

— Que coragem! — exclamavam seus olhos devotados.

Foi então que ela sofreu um choque terrível: em vez de se esconder, seu herói correra para fora do portão! Diante dessa amarga visão, Maimie estancou o passo, sem saber o que fazer, como se lhe tivessem roubado suas joias mais preciosas. Cheia de desprezo, não chorou nem soluçou; em protesto contra todos os covardes e choramingões, correu até o St. Govor’s Well e se escondeu, substituindo Tony.

Quando a aia chegou ao portão, viu Tony longe, fora do parque, achou que a menina o acompanhava e seguiu em frente. O lusco-fusco desceu, dezenas e centenas de pessoas passaram pela saída, incluindo a última de todas, que sempre se vê obrigada a correr, mas Maimie não viu ninguém. Ela fechara os olhos com força, e os colara com lágrimas ardentes. Quando os abriu, uma coisa gelada subiu por suas pernas e por seus braços e penetrou seu coração. Era a quietude do Gardens. Então ouviu um estrondo metálico, e então um estrondo mais distante, e então uma sequência de estrondos longínquos. Era o fechamento dos portões.

Assim que o eco do último estrondo evanesceu, Maimie ouviu claramente uma voz que disse:

— Está tudo em ordem.

A voz tinha um timbre de madeira e parecia vir do alto, e Maimie olhou para cima e pôde ver um olmo esticando os braços e bocejando.

Ela estava prestes a dizer “Eu não sabia que você podia falar!” quando uma voz metálica, que parecia vir do balde do poço, respondeu ao olmo:

— Deve estar meio frio aí em cima, não?

E o olmo retrucou:

— Não muito. O problema é parar em uma perna só por tanto tempo, o sujeito fica todo dormente — e sacudiu os braços vigorosamente, como fazem os cocheiros antes de partir em viagem.

Maimie ficou um tanto admirada de ver que inúmeras outras árvores altas estavam repetindo o gesto; correu em silêncio até a Baby Walk e se agachou, atenta, sob um ílice de Minorca, que encolheu os ombros e não pareceu lhe dar atenção.

Ela não sentia nem um pouco de frio. Estava usando uma peliça castanho-avermelhada e cobrira a cabeça com seu capuz, de forma que só seus cachos e seu adorável rosto podiam ser vistos. O resto de sua aparência real estava escondido no fundo de tantas roupas que, no conjunto, ela parecia uma bola. Sua cintura tinha uns cem centímetros.

Havia uma certa algazarra na Baby Walk, e Maimie pôde ver uma magnólia e um lilás da Pérsia passando por cima da grade e saindo para uma caminhada jovial. Caminhavam aos trancos, certamente, mas era porque estavam usando muletas. Um sabugueiro coxeou pela alameda e se pôs a conversar com uns marmelos jovens, e todos estavam usando muletas. As muletas eram os sarrafos que são amarrados em árvores e arbustos infantes. Maimie já tinha visto esses sarrafos várias vezes, e só agora soube que eram na verdade muletas.

Ela olhou mais adiante na alameda e viu sua primeira fada. Era um menino-fada de rua que estava correndo pela alameda, perseguindo salgueiros-chorões. Ele se aproximava, apertava uma saliência do tronco e os salgueiros se fechavam como guarda-chuvas, soltando uma avalanche de neve sobre as plantinhas que estivessem por perto.

— Puxa, mas que menino malcriado! — Maimie exclamou, indignada, pois sabia como era ruim quando um guarda-chuva espirrava água na sua cabeça.

O pilantra estava longe demais para ouvi-la, por sorte, mas os crisântemos a ouviram, e disseram ao mesmo tempo, enfáticos:

— Santa presunção, quem está aí?

E Maimie teve de se apresentar. Todo o reino vegetal ficou atônito, sem ação.

— Não é problema nosso, é claro — disse um evônimo, quando as árvores pararam de cochichar —, mas você sabe muito bem que não deveria estar aqui, e talvez seja nosso dever denunciar o caso às fadas; qual é a sua opinião?

— Eu não faria isso, se fosse vocês — respondeu Maimie.

As árvores ficaram ainda mais perplexas e disseram, com petulância, que de nada adiantava conversar com a menina.

— Eu não pediria isso a vocês — assegurou ela — se achasse que é algo errado.

Diante disso elas desistiram da delação. E disseram:

— Pois muito bem! É a vida!

Elas sabem ser terrivelmente sarcásticas. Mas Maimie se compadeceu das árvores que não tinham muleta, e falou, bondosa:

— Antes de me dirigir ao baile das fadas, gostaria de passear um pouco com vocês, com uma de cada vez; vocês podem se apoiar em mim.

As árvores bateram palmas, e ela as escoltou por toda a Baby Walk, indo e voltando, levando uma de cada vez, segurando as mais frágeis com o braço ou com um dedo, firmando a perna de suas acompanhantes quando a cena ficava muito ridícula e tratando sem distinção as estrangeiras e as inglesas, embora não conseguisse entender uma palavra do que diziam as estrangeiras.

Elas se comportaram muito bem, de modo geral, mas algumas resmungaram, disseram que Maimie não as levara tão longe quanto levara Nancy ou Grace ou Dorothy, e outras a arranharam, mas de modo involuntário, e Maimie era senhora de si e jamais choraria. Aquele excesso de caminhada a deixara exausta, e ela não via a hora de ir para o baile, mas já não sentia medo. Não sentia mais medo porque chegara à noite, e no escuro, vocês lembram, Maimie era sempre um tanto estranha.

As árvores relutavam em deixá-la, porque:

— Se as fadas notarem a sua presença — advertiram elas —, você vai ser ludibriada, vai ser esfaqueada até a morte, ou será obrigada a ser babá dos filhos delas, ou será transformada em alguma coisa tediosa, em um carvalho sempre-verde ou algo assim.

Tendo dito isso, olharam para um carvalho sempre-verde com afetada piedade: no inverno elas morrem de inveja das plantas sempre-verdes.

— Aaaah! — retrucou o carvalho, mordaz. — É tão delicioso estar encasacado até o pescoço, enquanto vocês, pobres criaturas peladas, ficam aí tremendo de frio!

O comentário as deixou emburradas, mas bem que o mereceram; e elas expuseram a Maimie o cenário tenebroso e os mil perigos que enfrentaria se insistisse em ir ao baile.

Uma aveleira roxa contou a Maimie que a corte não passava por um bom momento; o causador da tristeza generalizada era o atormentado coração do duque de Margarida Natalina. Tratava-se de um cavalheiro de origem oriental que sofria de uma pavorosa enfermidade, a incapacidade de amar; ele já tentara se relacionar com diversas damas em diversos países, e não conseguira se apaixonar por nenhuma delas. A rainha Mab, que governa o Gardens, alimentara a certeza de que uma de suas donzelas acabaria por enfeitiçá-lo. Pobre duque; seu coração, dizia o médico, permanecia frio. Esse irritante doutor, médico particular do enfermo, auscultava o coração do duque a cada vez que uma dama lhe era apresentada, e sempre balançava sua cabeça calva e resmungava:

— Frio, muito frio!

Aquilo causava um enorme desânimo na rainha Mab, naturalmente; ela ordenou à corte que vertesse lágrimas por nove minutos ininterruptos, sem obter resultado algum; depois, atribuiu a culpa aos cupidos e decretou que eles usassem chapéus de burro até que conseguissem derreter o coração congelado do duque.

— Eu adoraria ver os cupidos usando seus lindos chapéus de burro! — Maimie exclamou.

Ela saiu correndo, ardendo de vontade de ver os cupidos; isso era um tanto arriscado, porque os cupidos odeiam que achem graça deles.

É sempre muito fácil descobrir onde está sendo realizado um baile de fadas: fitas são estendidas entre o local da festa e todos os recantos populosos do Gardens, e os convidados vão caminhando por cima das fitas, assim não molham as sapatilhas. Naquela noite as fitas eram vermelhas, e o contraste com a neve era muito bonito.

Maimie caminhou ao longo de uma das fitas por um tempo e não topou com ninguém, mas por fim viu um cortejo de fadas se aproximando. Para sua surpresa, elas pareciam estar retornando do baile, e no último segundo ela conseguiu se esconder: dobrou os joelhos e projetou os braços para a frente, fingindo ser uma cadeira de jardim. Seis cavaleiros vinham na frente e seis cavaleiros seguiam atrás; entre eles caminhava uma dama empertigada, metida em um vestido longo cuja cauda era carregada por dois pajens, e na cauda se reclinava uma charmosa garota, como se estivesse em um sofá, pois é assim que as fadas aristocráticas viajam. A garota estava vestida com chuva dourada, mas o mais invejável nela era o pescoço, que tinha uma coloração azulada e uma textura de veludo, e que exibia, é claro, um colar de diamantes, com um esplendor que jamais será visto em um pescoço humano. As fadas de linhagem nobre obtêm esse admirável efeito espetando a si mesmas: o sangue azul aflui e tinge a pele, e é impossível pensar em algo mais deslumbrante, a não ser que você já tenha visto um busto de veludo em uma vitrine de joalheria.

Maimie também notou que todos os integrantes do cortejo tinham semblantes furiosos, e que empinavam muito o nariz, mais alto do que seria recomendável, até mesmo para fadas, e concluiu que devia ser um dos casos em que o médico dissera:

— Frio, muito frio!

Bem, ela seguiu caminho até um lugar em que a fita se tornava uma ponte, sobre uma poça seca. Uma fada caíra na poça e não conseguia sair. Em um primeiro momento a pequena donzela teve medo de Maimie, que se prontificou a ajudá-la com a maior gentileza; dentro de pouco tempo, porém, a fada já estava sentada na mão da menina, conversando alegremente, contando que seu nome era Brownie e que, embora não passasse de uma pobre cantora de rua, estava se dirigindo para o baile para tentar conquistar o coração do duque.

— Mas eu sou apenas uma fada comum, é claro — disse ela.

Maimie ficou sem jeito, pois, de fato, a pobre fadinha era uma criatura absolutamente sem graça.

Era difícil saber o que dizer.

— Eu sei, você acha que não tenho chance — falou Brownie, com a voz falhando.

— Eu não diria isso — a menina respondeu, educada. — O seu rosto é um pouco corriqueiro, bem pouquinho, é claro, mas…

Aquilo era embaraçoso para Maimie, de fato. Mas ela se lembrou, por sorte, de seu pai e da feira beneficente. Ele visitara uma feira popular na qual, ao custo de meia coroa no segundo dia, podiam ser vistas as mais belas damas de Londres, mas ao chegar em casa, em vez de ficar insatisfeito com a mãe de Maimie, ele dissera:

— Você não imagina, minha querida, o alívio que é poder ver um rosto corriqueiro de novo.

Maimie repetiu essa história e Brownie se revigorou tremendamente; já não tinha a menor dúvida de que o duque a escolheria. E saiu correndo em velocidade máxima pela fita, gritando para Maimie que seria uma temeridade ir atrás dela, porque a rainha seria inclemente.

Mas a curiosidade de Maimie a impeliu, e ela logo avistou os sete castanheiros espanhóis e viu uma luz magnífica. Agachada, avançou até chegar bem perto dela, e se posicionou atrás de uma árvore e espiou.

A luz ficaria na altura da sua cabeça, se você parasse ao lado, e era composta por uma miríade de vaga-lumes que se abraçavam, formando assim um dossel deslumbrante sobre a arena das fadas. Havia milhares de pequenos seres observando o espetáculo, mas estavam nas sombras, apagados, incolores se comparados às gloriosas criaturas que se encontravam dentro do círculo luminoso e que cintilavam de modo atordoante, tanto que Maimie tinha que fechar os olhos com força a cada vez que olhava para elas.

Era assombroso e até mesmo irritante, para ela, que o duque de Margarida Natalina fosse capaz de não estar apaixonado por um segundo sequer; desapaixonado, no entanto, ainda estava o majestoso coração soturno: isso era visível nos semblantes envergonhados da rainha e dos cortesãos (embora fingissem não se importar), nas lágrimas abundantes das lindas damas que eram apresentadas ao duque e em seguida descartadas, e no rosto lúgubre do próprio duque.

Maimie também podia ver o pomposo doutor apalpando o coração do paciente e o ouvia proferindo sua frase de papagaio, e sentia profunda pena dos cupidos, que se ocultavam em cantos obscuros com seus chapéus de burro e, a cada vez que ouviam aquele “Frio, muito frio”, baixavam suas desgraçadas cabecinhas.

Ela estava desapontada por não ver Peter Pan, e eu posso muito bem contar a vocês por que é que ele estava tão atrasado naquela noite. É que seu barco se encravara em blocos flutuantes de gelo no Serpentine, e ele teve que abrir caminho à força, golpeando o gelo com seu fiel remo.

As fadas ainda nem tinham dado pela falta de Peter, pois não tinham condições de dançar, tão pesados estavam seus corações. Elas esquecem todos os passos quando estão tristes e os relembram quando estão alegres. David me conta que as fadas jamais dizem “Estamos felizes”; o que elas dizem é: “Estamos dançantes”.

Bem, elas de fato não pareciam dançantes, até que uma gargalhada súbita irrompeu entre os que estavam ao redor, motivada por Brownie, que acabara de chegar e insistia em seu direito de ser apresentada ao duque.

Maimie esticou o pescoço o mais que podia, angustiada, para ver como sua amiga se sairia, embora no fundo não tivesse esperança alguma; ninguém parecia ter a mais mínima esperança, exceto a própria Brownie, que, muito pelo contrário, tinha plena confiança. Ela foi levada até o majestoso cavalheiro; o médico, tocando o coração ducal desleixadamente com o dedo, através de uma conveniente escotilha na camisa de diamantes, começara a dizer, mecanicamente, “Frio, mu…”, e parou de súbito.

— O que é isso? — exclamou; e primeiro sacudiu o coração, como quem sacode um relógio, e depois encostou o ouvido nele.

— Abençoada seja a minha alma! — gritou o doutor, e a essa altura a euforia entre os espectadores era tremenda, fadas desmaiavam à esquerda e à direita.

Ninguém respirava; todos olhavam para o duque, que estava muito assustado e dava sinais de que sairia correndo a qualquer momento.

— Bendita sorte! — o médico seguia comemorando, e agora o coração estava evidentemente pegando fogo, porque o doutor recuou a mão em um repuxo e levou os dedos à boca.

O suspense era medonho!

Então, em voz alta, curvando-se até o chão, o doutor anunciou, esfuziante:

— Senhor duque, tenho a honra de informar a Vossa Excelência que vosso majestoso coração está apaixonado.

Vocês não podem conceber o efeito do anúncio. Brownie esticou os braços na direção do duque e ele pulou na direção deles, a rainha se jogou nos braços do lorde Camareiro, e as damas da corte se jogaram nos braços dos cavalheiros da corte, pois a etiqueta exige que se siga o exemplo da soberana em tudo. Assim, em um só momento, foram efetivados cerca de cinquenta casamentos, pois, se você se joga nos braços de alguém, isso é um casamento de fada. É necessário que um clérigo se faça presente, é claro.

A multidão exultava e saltava! Trombetas zurraram, e a lua saiu, e imediatamente mil casais apanharam seus raios com as mãos, como quem apanha fitas em uma dança de maio, e valsaram em total abandono pela arena das fadas. Foi a cena mais jubilosa de todas: os cupidos arrancaram os odiosos chapéus de burro de suas cabeças e os jogaram para o alto no ar. E então Maimie apareceu e estragou tudo.

Ela não pôde evitar. Estava louca de alegria pela ventura de sua pequena amiga, e deu vários passos à frente e gritou, em êxtase:

— Brownie! Que esplêndido!

Ninguém se moveu, a música cessou, as luzes se apagaram, e tudo isso no tempo que você levaria para dizer “Minha nossa!”. Um pressentimento de perigo tomou conta de Maimie; ela lembrou, tarde demais, que era uma menina perdida em um lugar em que nenhum humano deveria estar entre o fechamento e a abertura dos portões, e ouviu o murmúrio de uma turba furiosa, e viu mil espadas reluzentes que pediam por sangue, soltou um grito de terror e fugiu.

Como ela correu! Seus olhos estavam o tempo todo a ponto de saltar das órbitas. Parou e se deitou no chão várias vezes, mas logo se levantava em um pulo e saía correndo de novo. Sua cabecinha cogitava tantos terrores que já não sabia mais onde estava. Sua única certeza era a de que não podia parar de correr nunca. Maimie achou que ainda estava correndo mesmo depois de desabar no chão, no Figs, e de pegar no sono. Achou que os flocos de neve que caíam em seu rosto eram os beijos de boa-noite de sua mãe. Achou que sua cobertura de neve era um cálido cobertor, e tentou puxá-lo por sobre a cabeça. Quando ouviu pessoas conversando enquanto sonhava, achou que eram seus pais no quarto, vigiando seu sono. Mas eram as fadas.

Fico muito feliz de poder dizer que elas não tinham mais a intenção de puni-la. Quando Maimie fugira correndo, elas rasgaram o ar da noite com gritos como “Acabem com ela!”, “Reduzam seu corpo a algo extremamente desagradável!” e assim por diante, mas a perseguição se atrasou porque não sabiam quem devia marchar na frente, e com isso a duquesa Brownie teve tempo de se jogar aos pés da rainha e de lhe pedir um obséquio.

Toda noiva tem direito a um obséquio, e Brownie pediu pela vida de Maimie.

— Tudo menos isso — respondeu a rainha Mab, severa.

E todas as fadas ecoaram:

— Tudo menos isso.

Quando souberam, porém, que Maimie prestara auxílio a Brownie, que fizera com que a fada pudesse ir ao baile que lhe daria glória e renome, deram três hurras pela pequena humana, e partiram em sua busca como um exército para agradecer a ela, a corte avançando na frente e o dossel seguindo junto. Rastrearam Maimie com facilidade, pelas pegadas marcadas na neve.

Encontraram-na no Figs, enterrada em neve, mas parecia ser impossível lhe agradecer, pois não conseguiam acordá-la. Deram início, mesmo assim, ao cerimonial do agradecimento, ou seja, o novo rei se postou junto ao corpo de Maimie e leu um longo discurso de boas-vindas, mas ela não ouviu uma palavra sequer. Também removeram a neve de cima dela, mas a menina logo foi soterrada de novo, e viram que ela iria acabar falecendo de frio.

— Transformem-na em algo que não se importe com o frio!

Essa sugestão do doutor pareceu interessante, mas eles pensaram que a única coisa que não se importaria com o frio seria um floco de neve.

— E ele poderia derreter — ressaltou a rainha, de modo que a ideia foi descartada.

Foi empreendida uma magnífica tentativa de carregar Maimie até um abrigo; havia muitos braços, mas ela era pesada demais. A essa altura todas as damas choravam em seus lenços. Pouco depois, porém, os cupidos tiveram uma ótima ideia.

— Vamos construir uma casa em volta dela — exclamaram; e todos perceberam, de imediato, que era essa a solução.

Momentos depois, cem serradores circulavam entre os galhos, arquitetos corriam em torno de Maimie, medindo-a; materiais de construção foram dispostos ao pé dela, 75 pedreiros trouxeram às pressas a pedra fundamental e a rainha a assentou, vigilantes foram designados para que meninos não se aproximassem da obra, andaimes foram erguidos, sons de martelos e formões e tornos repercutiam sem parar, e a essa altura a casa já tinha telhado e os vidraceiros instalavam as janelas.

A casa tinha o tamanho exato de Maimie e era simplesmente adorável. Um braço dela estava esticado para o lado e os construtores se atormentaram por alguns instantes; mas construíram uma varanda sobre o braço, conduzindo à porta da frente. As janelas tinham o tamanho de um livro de gravuras colorido e a porta era ainda menor, mas Maimie poderia sair de casa sem grande dificuldade, removendo o telhado. Como sempre fazem, as fadas bateram palmas, aclamando a própria engenhosidade; e ficaram tão desesperadamente apaixonadas pela pequena casa que não suportavam a ideia de que tivessem encerrado o trabalho. Então se puseram a dar inúmeros retoques finais, e depois disso ainda deram mais alguns retoques finais.

Por exemplo: dois dos trabalhadores subiram em uma escada e instalaram uma chaminé.

— A casa está pronta, infelizmente — suspiraram.

Não estava, e outros dois subiram a escada e amarraram um pouco de fumaça na chaminé.

— Com isso, não temos mais o que fazer — choramingaram, relutantes.

— Nada disso — exclamou um vaga-lume. — Se ela acordasse e não visse uma luz de cabeceira, ficaria assustada. Farei as vezes de luz de cabeceira.

— Espere um momento — disse um comerciante de porcelana —, vou fazer um pires para você.

Puxa, agora a casa estava definitivamente pronta.

Não!

— Céus! — gritou um fundidor de bronze. — Não há maçaneta na porta! — e instalou uma maçaneta.

Um ferreiro providenciou um raspador de sapatos e uma velhinha apareceu com um capacho. Carpinteiros trouxeram uma tina para apanhar água de chuva, e os pintores insistiram em pintá-la.

Pronta a casa, finalmente!

— Pronta? Como pode estar pronta — o encanador questionou, com escárnio — sem instalação de água quente e fria? — e instalou água quente e fria.

Nesse momento um exército de jardineiros se acercou da casa com diminutos carrinhos de mão e minúsculas pás, e sementes e bulbos e estufas de crescimento, e logo se viu um jardim de flores à direita da varanda e uma horta à esquerda, e rosas e clematites subiam pelas paredes da casa, e em menos de cinco minutos todas as encantadoras plantas estavam em plena floração.

Ah, como estava linda a pequena casa agora! Estava finalizada, sem a menor sombra de dúvida, e as fadas tiveram que ir embora e voltar para a dança. Todas elas jogaram beijos com a mão enquanto se afastavam, e a última a partir foi Brownie. Ela esperou um momento, até que os outros se distanciassem, e jogou um sonho feliz para dentro da chaminé.

Por toda a noite a requintada casinha tomou conta de Maimie, no Figs, e ela não se deu conta de nada. A menina dormiu até que o sonho estivesse bem acabado; acordou sentindo-se deliciosamente aconchegada no momento em que a manhã saía da casca, e então quase pegou no sono de novo, e então chamou por Tony, porque pensou que estava em casa, em seu quarto. Como Tony não respondeu, ela se sentou, e com isso sua cabeça bateu no telhado, e o telhado se abriu como a tampa de uma caixa; para seu imenso espanto, tudo o que via era o Kensington Gardens, afundado em neve. Já que não estava em seu quarto, tentou verificar se era ela mesma quem estava ali, e beliscou suas bochechas, e então soube que era ela mesma, e isso a fez lembrar que se encontrava no meio de uma grande aventura. Lembrou-se de tudo o que lhe acontecera desde o fechamento dos portões até o momento em que fugira correndo das fadas; mas de que maneira, perguntou a si mesma, fora parar naquele lugar esquisito? Ela saiu pelo telhado, passando por cima do jardim, e viu, então, a bela casa na qual passara a noite. Ficou em transe, não conseguia pensar em mais nada.

— Ah, que amor, que doçura, que lindo!

A voz humana talvez tenha assustado a pequena casa, ou quem sabe ela agora soubesse que seu trabalho estava terminado: assim que Maimie acabou de falar, ela começou a diminuir de tamanho; encolhia com muita lentidão, e Maimie mal pôde acreditar que estivesse encolhendo, porém logo percebeu que não conseguiria mais entrar nela. A casa não perdeu nenhum de seus adornos, mas foi ficando cada vez menor, e o jardim se retraiu na mesma medida, ao mesmo tempo, e a neve foi se avolumando e começou a engolir a casa e o jardim. Agora a casa tinha o tamanho de uma pequena casinha de cachorro, e agora tinha o tamanho de uma concha, mas você ainda podia ver a fumaça e a maçaneta da porta e as rosas na parede, todos os detalhes. A luz do vaga-lume também estava se extinguindo, mas ainda estava lá.

— Minha querida, meu amor, não desapareça! — gritou Maimie, caindo de joelhos, porque a pequena casa, ainda completa, tinha agora o tamanho de um carretel.

Enquanto a menina estendia os braços, em súplica, a neve subiu por todos os lados até se unir a si mesma, e a ausência da pequena casa foi ocupada por uma expansão maciça de neve.

Ela bateu o pé, ranzinza, e ia cobrir os olhos com as mãos quando ouviu uma voz amável dizer:

— Não chore, humana bonita, não chore.

Maimie girou a cabeça e viu um lindo menininho nu, que olhava para ela melancolicamente. Ela soube na hora que ele só podia ser Peter Pan.

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