Plano de Ataque: A História dos Voos de 11 de Setembro
Introdução
Dos meus livros de cabeceira, um dos preferidos chama-se Disasters, almanaque publicado pelo New York Times em 1976. São reportagens sobre desastres ocorridos entre outubro de 1871, quando um incêndio devastou Chicago, e 24 de junho de 1975, dia em que, durante uma tempestade, um Boeing 727 da Eastern Airlines caiu nas proximidades do Aeroporto Kennedy, em Nova York, matando 112 pessoas.
Entre esses dois eventos, há o relato do terremoto que destruiu a cidade de São Francisco (1906), do naufrágio do Titanic (1912), do incêndio do dirigível alemão Hindenburg (1937), do choque de um bombardeiro B-25 da Força Aérea dos Estados Unidos contra o Empire State Building, em Nova York (1945), do choque de um Lokheed Constellation da TWA com um Douglas DC-7 da United Airlines sobre o Grand Canyon (1956), da colisão dos transatlânticos Andrea Doria e Stockholm, no Atlântico Norte (também em 1956) e do terremoto que matou 60 mil pessoas no Peru (1970).
Confesso que esse tipo de história me hipnotiza. Talvez por um sadismo atávico. Ou, quem sabe, pela curiosidade extrema de saber como o homem reage a situações-limite. Não sei. Só sei que devoro os jornais quando um desastre de grandes proporções acontece. Junte-se minha paixão por aviões, e está explicado por que escrevi Caixa-preta, o relato de três tragédias da aviação brasileira, publicado em novembro de 2000.
De lá para cá, muitos leitores me pediram uma nova narrativa de desastres aéreos. Só não a escrevi porque não encontrei nenhum tão eletrizante quanto aqueles três.
Veio então o 11 de setembro de 2001. E tudo que aconteceu antes, em quase noventa anos de história da aviação comercial, tornou-se um evento menor.
Eu dormia quando o vôo 11 da American Airlines atingiu a Torre Norte do World Trade Center, ao sul da Ilha de Manhattan. De seu escritório, minha mulher me telefonou, informando que um teco-teco se chocara contra a torre. Levantei-me de um salto, já em estado de prontidão, liguei a TV, coloquei na CNN e, a partir daquele momento, durante vários dias, só larguei a telinha para breves cochiladas. Senti que aquela história, além de mudar os destinos da humanidade, mudaria o “meu” destino. Seria a “minha” história.
Logo veio a primeira decepção. Quando revelei meus planos aos amigos, a maioria me desencorajou. “Poxa, Ivan, 11 de setembro? Esquece. Vão escrever 200 livros sobre esse assunto.”
Pois bem, que seja este o 201º.
Ao contrário de Caixa-preta, percebi que, para este trabalho, eu não precisaria entrevistar parentes dos mortos, nem sobreviventes. Isso porque talvez nunca uma tragédia tenha sido tão esmiuçada pela imprensa.
A mim, bastaria ler jornais e revistas, com matérias sobre o assunto, assistir aos documentários na televisão, ler os tais 200 livros, ou boa parte deles, para então escrever o meu. Mas não demorei a constatar que o grande obstáculo, no caso do 11 de setembro, não é a falta de informações, mas o excesso delas.
No início, pensei em ficar um ano em Washington, na Biblioteca do Congresso, ou em Nova York, na Biblioteca Pública Municipal da Quinta Avenida, da qual sou antigo freqüentador, estudando os atentados. Mas resolvi primeiro investigar o assunto pela Internet. E, após quase um ano de pesquisas, surgiu, na rede, o relatório da comissão que investigou os fatos (The 9/11 Commission Report), presidida pelo ex-governador do estado de Nova Jersey, Thomas Kean.
Sendo um comitê oficial, com amplos poderes de investigação, a equipe de Kean pôde convocar, e ouvir, a CIA, o FBI, a FAA (Administração Federal de Aviação), o NTSB (Comitê Nacional de Segurança no Transporte), o Conselho de Segurança Nacional, o próprio presidente George W. Bush e seu antecessor, Bill Clinton. Ouviu também depoimentos do prefeito de Nova York, Rudolf Giuliani, dos integrantes do comando do Corpo de Bombeiros da cidade e de inúmeras autoridades envolvidas no episódio, além de relatos de sobreviventes e de pessoas ligadas aos mortos. Recebeu cópia dos interrogatórios dos presos da Base de Guantanamo, em Cuba, e de outras prisões mantidas pelos Estados Unidos em diversos países, algumas secretas, para as quais foram enviados os suspeitos de ligação com a Al-Qaeda presos fora do território americano.
Só que o relato da comissão de inquérito é uma história oficial, com todas as vantagens (ter acesso às fontes) e desvantagens (exibir apenas um dos lados da moeda) inerentes a isso.
Por outro lado, na Internet há tudo sobre o 11 de setembro. Seria maravilhoso, não fosse um detalhe: no momento em que escrevo este parágrafo, por exemplo, são 481 milhões de sites sobre o assunto. Sim. Quatrocentos e oitenta e um milhões! Se alguém conseguir estudar vinte por dia, levará 65.890 anos para concluir sua pesquisa. Em meio a essa montanha de informações, há preciosidades como www.september11victims.com/september11victims/victims_list.htm, com a foto e a biografia de cada um dos 2.973 mortos nos ataques, perdidas entre milhões de histórias falsas, fantasiosas e enganosas, além de teorias conspirativas as mais fantásticas, tais como um site que “prova”, por A + B, que o AAL77 não se chocou contra o Pentágono e outro que diz que o Mossad (Serviço Secreto de Israel) organizou os atentados para provocar um surto mundial de indignação contra o islamismo.
Só me restou ser judicioso ao extremo. Na procura daquela agulha no palheiro, pinçar, na medida do possível, as melhores fontes, ler os melhores livros, assistir aos melhores documentários. Descartar-me de toda a baboseira. E, principalmente, checar e rechecar cada fonte, cada informação. Se o New York Times, ou a CNN, diz que Osama bin Laden fez isso ou aquilo em tal dia, vejamos o que diz a Al-Jazeera. Se Robert Baer, ex-agente da CIA, diz algo em seu livro Sleeping with the Devil (Dormindo com o inimigo), vejamos o que diz Montasser al Zayat em The Road to al-Qaeda (A estrada para a al-Qaeda), pois Zayat conviveu, na intimidade, com Ayman al Zawahiri, segundo em hierarquia na organização liderada por Bin Laden, desde 1981.
Durante meus anos de pesquisa, fui freqüentador assíduo dos sites de livrarias virtuais dos Estados Unidos e da Europa, onde adquiri boa parte do que saiu, em livro, sobre os atentados. Assisti pela TV, e gravei em fita, diversos documentários. Comprei DVDs e fitas de VHS daqueles que não foram exibidos no Brasil. Meu escritório foi inundado por uma enxurrada de discos, fitas, livros e gravações.
Li as biografias dos mortos, estudei as histórias dos sobreviventes, subi, com os bombeiros de Nova York, as escadas das Torres Gêmeas, embarquei em cada um daqueles quatro vôos, me debrucei sobre as telas dos radares dos Centros de Controle da Costa Nordeste americana. Retornei no tempo até os primórdios da Operação Aviões, nome que Khaled Sheik Mohamed, um dos líderes da al-Qaeda, deu ao projeto de ataque à Cabeça da Serpente — que era como Osama bin Laden se referia aos Estados Unidos da América —, usando aviões como arma.
Quando, acima, escrevi que, em 11 de setembro de 2001, morreram 2.973 pessoas, não contei os 19 terroristas. Incluindo os seqüestradores kamikazes (que se autodenominam mártires de Alá), o número de mortos se eleva a 2.992. E são justamente esses 19 indivíduos os personagens dessa tragédia apocalíptica que, durante as pesquisas, mais me interessaram, principalmente Mohamed Atta, Marwan al Shehhi, Hani Hanjour e Ziad Jarrah, os quatro homens que, após o assassinato dos pilotos, assumiram os comandos, respectivamente, dos vôos AAL11, UAL175, AAL77 e UAL93. Sei como, quando, e por onde, cada um deles entrou nos Estados Unidos. Descobri como, e em que lugares, aprenderam a pilotar. E como elaboraram, e sincronizaram, seus ataques.
Talvez o leitor ainda não saiba, ou não tenha deduzido isso, mas, meia hora antes do AAL11 (primeiro dos quatro mísseis macabros da al-Qaeda) atingir, exatamente às 8h46min40s, a Torre Norte do World Trade Center, o pânico já se apoderara dos controladores de vôo. Pois, com intervalo de alguns minutos entre um e outro, e sem nenhuma explicação, jatos comerciais de passageiros haviam mudado de rota e se desconectado de seus centros de apoio no solo. Algo de muito sério acontecia nos céus da América, sem que a imprensa, nem o comando das Forças Armadas, e nem mesmo a CIA ou a Casa Branca soubessem. Circunscrito ao interior das vidraças das torres de controle, em meio à ansiedade e às conversas nervosas dos profissionais, um grande mistério pairava no ar límpido daquela manhã de terça-feira.
Os quatro aviões eram equipados de caixas-pretas, duas (CVR e FDR) em cada um. O CVR (Cockpit Voice Recorder) é o gravador de vozes da cabine de comando. O FDR (Flight Data Recorder), registrador dos parâmetros do vôo. Nos dois vôos (AAL11 e UAL175) que atingiram o World Trade Center, essas caixas-pretas se pulverizaram. Não foram projetadas para suportar a devastadora seqüência de choque, explosão, incêndio e desmoronamento que se seguiu. Do AAL77, que se chocou contra o Pentágono, foram recuperados os dados do FDR. Do UAL93, que caiu na Pensilvânia, salvaram-se os registros tanto do CVR como do FDR. Eu, graças ao The 9/11 Commission Report, e, mais tarde, às sessões de julgamento de um dos integrantes da Operação Aviões (Zacarias Moussaoui), tive acesso a esses dados. Durante os três anos de pesquisa, houve um momento em que pensei seriamente em desistir do projeto. Pois minha tarefa parecia impossível. Ou, no mínimo, insana. Coletando dados e informações de jornais, revistas, sites, livros, fitas e discos, eu transcrevera, em documentos do meu Word, 17 mil páginas. Dezessete mil! E as informações não paravam de chegar — e aos poucos me soterravam, me enlouqueciam.
Hoje, se quisesse, acho que poderia escrever uma enciclopédia sobre os antecedentes dos atentados, retornando ao século VII, quando, aos 40 anos, o profeta Maomé iniciou sua pregação, passando, em seguida, pelos primórdios do islamismo, por sua propagação pelo Oriente Médio, África e parte da Europa, pelo surgimento da dinastia Saud (família fundadora da Arábia Saudita), pela descoberta de petróleo na Península Arábica, em 1938, pela criação do Estado de Israel (1948), pelas guerras, que se seguiram, entre israelenses e árabes (Independência, 1948, Suez, 1956, Seis Dias, 1967, Yom Kippur, 1973), além de milhares de escaramuças entre os dois lados, pela crise do petróleo (anos 1970 e 1980), pelos movimentos armados de independência do Estado Palestino, pela invasão soviética do Afeganistão (1979), pela Guerra Irã/Iraque (1980/1988), pelo surgimento dos mujahedins, pela Guerra do Golfo, pelo primeiro atentado contra o World Trade Center (1993), pela fundação da al-Qaeda, pelos ataques às embaixadas americanas na África (organizados e executados pela “Base”) e pelos seguidos planos da CIA para assassinar Osama bin Laden, cuja movimentação era acompanhada por uma aeronave espiã, não tripulada, à qual a CIA deu o nome de Predador.
Embora este seja um livro-reportagem, e, como tal, baseado em fontes que reputei confiáveis, em certos trechos da narrativa tomei a liberdade de formular alguns diálogos — travados principalmente entre os integrantes da rede al-Qaeda — representativos do que se passou na ocasião. Como diversos planejadores dos ataques de 11 de setembro foram presos e interrogados por militares e agentes de Inteligência dos Estados Unidos, os diálogos aos quais me refiro se baseiam nesses interrogatórios, listados um a um nas páginas de The 9/11 Comission Report, o relatório oficial da Comissão de Investigações do Congresso americano.
Em determinado momento do trabalho de pesquisa, Plano de Ataque tomou conta de mim. Tornei-me escravo dele. Temi morrer sem concluir a tarefa. Temi perder os dados do HD do computador. Passei a fazer backup de tudo. E a mandar cópias do backup para outro lugar, com receio do meu apartamento pegar fogo. Passei a trabalhar 12, 14 horas por dia, sete dias por semana. Terminar Plano de Ataque tornou-se o único objetivo de minha vida. Minha jihad particular. Passei, no processo, ao largo de dois cânceres, ignorando-os solenemente, assim como ignorei algumas crises de arritmia, cãibras, lesões de esforço repetitivo, cansaço nos olhos, torcicolo e entorpecimento da mente.
Dormia, sonhava e acordava a bordo daqueles quatro aviões.
Chegou então o dia em que o livro, como por encanto, se compactou em minha mente. Restava-me psicografá-lo. Foi o que fiz nesta narrativa.
Rio de Janeiro, junho de 2006
Ivan Sant’Anna
rapina@wnetrj.com.br