Plano de Ataque: A História dos Voos de 11 de Setembro
A Célula de Hamburgo
Hamburgo, Alemanha, 1998. Faltavam três anos para o 11 de setembro.
Marwan al Shehhi, 20 anos, e Mohamed Atta, 30, eram alunos da Universidade Técnica Hamburg-Harburg, no bairro do mesmo nome. Os dois dividiam o aluguel de um apartamento com um terceiro estudante, Ramzi Binalshibh, na Marienstrasse, 54, também em Hamburg-Harburg.
Atta nasceu em 1968, no Egito, filho de um bem-sucedido advogado. Em 1990, formou-se em Arquitetura na Universidade do Cairo e conseguiu um emprego de planejador urbano. Lá mesmo, na capital egípcia, conheceu uma família alemã, que não só lhe sugeriu prosseguir seus estudos (mestrado e doutorado) em Hamburgo, como se ofereceu para hospedá-lo nos primeiros tempos.
Após iniciar um curso de alemão no próprio Cairo, Atta seguiu viagem. Foi primeiro para Stuttgart, onde continuou aprendendo a língua. Só no outono de 1992 mudou-se para a Universidade Técnica, em Hamburgo. Foi viver com a família que conhecera no Egito. O relacionamento não foi bom e logo eles lhe pediram para deixar a casa. Atta passou a dividir um minúsculo quarto-e-sala com um colega. Também não deu certo. O rapaz foi embora. Tentou com outro, sem sucesso. E mais um outro. E outro. Esse entra-e-sai durou cinco anos. Do Egito, o pai cobrava o mestrado e o doutorado. Mas Atta ia mal nos estudos e protelava a volta para casa por ter se envolvido com radicais islâmicos.
Como não raro acontece na Europa, Mohamed Atta, vez ou outra, se via vítima de preconceito. Talvez por isso ele, aos poucos, tenha se segregado com os seus. O estudante egípcio, que até então nunca havia sido muito fervoroso na prática do islamismo, tornou-se freqüentador assíduo da mesquita Quds, no centro de Hamburgo, ponto de reunião de muçulmanos radicais.
Atta limitou ao mínimo seu relacionamento com os kaffirs (infiéis), conversando com eles só o estritamente necessário. Deixou a barba crescer. Leu textos do Hadith (coletânea de pregações e passagens da vida do Profeta). Fundou um grupo de preces que se reunia na própria mesquita.
Para não ter de pedir mais dinheiro ao pai, Atta passou a levar uma vida monástica. Vestia sempre a mesma calça e uma suéter tricotada pela mãe. Observava todas as obrigações religiosas. Em maio de 1995, cumpriu o ritual do haji, peregrinação, a Meca, que os muçulmanos devem fazer pelo menos uma vez na vida. A visita aos lugares sagrados do Islã o tocou profundamente.
De volta a Hamburgo, Atta elevou o rigor de suas penitências. Adquiriu o hábito de passar dias e dias comendo purê de batatas. Só purê. Uma vez cozidas, amassava as batatas com um garfo e comia na própria panela. Quando se sentia satisfeito, guardava o resto na geladeira, com garfo e tudo. No dia seguinte, tirava, voltava a esquentar e comia.
Aos poucos, o egípcio foi abandonando os estudos. O Islã ditava seus passos e pensamentos.
Em meados de 1995, Mohamed Atta conheceu, na Mesquita Quds, o iemenita Ramzi Binalshibh, então com 23 anos. Este proclamava abertamente seu desprezo pela cultura e sociedade ocidentais. Tendo pedido demissão de um emprego de escriturário no Banco Internacional do Iêmen, Binalshibh desembarcou a primeira vez na Alemanha com um passaporte falso, no qual aparecia como Ramzi Omar. Teve seu pedido de asilo negado e regressou ao Iêmen, onde tentou obter visto de entrada nos Estados Unidos, também sem sucesso. Voltou à Alemanha, agora usando seu nome verdadeiro e identificando-se como estudante.
O terceiro morador da Marienstrasse, 54, Marwan al Shehhi, profundo conhecedor do Corão, obteve o diploma secundário em sua terra natal, Emirados Árabes Unidos, em 1995. Chegou à Alemanha em abril do ano seguinte, para fazer faculdade. Também passou pela experiência fracassada de morar com uma família local. Depois dividiu, com dois outros bolsistas, um apartamento em Bonn, onde estudou alemão e matemática antes de se mudar para Hamburgo. Na nova cidade, descobriu logo a Mesquita Quds. Entre uma e outra reunião de preces, fez amizade com o egípcio Atta e com o iemenita Binalshibh. Daí a mudarem-se para o mesmo apartamento foi um pulo.
Na mesquita, um pregador chamado Mohamed Haydar Zammar, ex-mujahedin no Afeganistão e na Bósnia, convocou os fiéis a participar da jihad. Disse que Alá recompensava seus mártires com glórias no Paraíso, que incluíam sexo com 72 virgens. Segundo o pregador, os crimes que ocorreram na Bósnia (massacre de civis, inclusive crianças, estupro de muçulmanas) estavam acontecendo na Chechênia, na Indonésia, na Caxemira e na Palestina. Conclamou os jovens seguidores a ir para os campos de treinamento da al-Qaeda no Afeganistão. Leu discursos de Osama bin Laden contra judeus e cruzados.
Aos poucos, Mohamed Zammar foi conquistando as mentes e os corações de Atta, Binalshibh e Shehhi. No início de agosto de 1998, quando a al-Qaeda explodiu as embaixadas americanas na África, os três amigos celebraram, ao lado de Zammar, a vitória sobre os infiéis.
No mês seguinte, Ramzi Binalshibh foi expulso da universidade por causa de péssimas notas e ausência às aulas. Marwan al Shehhi também era um aluno medíocre, embora fosse pago para estudar pelas Forças Armadas de seu país. Devido ao seu mau desempenho, os orientadores de sua bolsa o devolveram para Bonn. Shehhi se disse satisfeito com a ordem, mas não lhe obedeceu. Ficou em Hamburgo. Enquanto isso, Mohamed Atta empurrava com a barriga seu mestrado. Por outro lado, nenhum dos três se descuidou da parte religiosa.
O apartamento da Marienstrasse passou a ser chamado por eles de “Dar el Ansar”, ou “casa dos seguidores”. Lá se pregava o ódio ao Ocidente. Seus moradores, estivessem onde estivessem, rezavam cinco vezes por dia, sempre voltados para Meca.
No início do último trimestre de 1999, Mohamed Atta terminou o mestrado. Do Egito, seu pai lhe cobrou o doutorado, que o filho já deveria ter concluído. Afinal, completava 31 anos. Mas o único interesse de Atta era participar da jihad. Numa visita ao pai, no Cairo, os dois se envolveram em discussões intermináveis.
Enquanto Atta se encontrava no Egito, na Alemanha Ramzi Binalshibh e Marwan al Shehhi, agora usando barba, fizeram uma viagem de trem. Conversavam em árabe quando foram abordados por um desconhecido. Este se chamava Khaled al Masri. Tratava-se de um olheiro, um scout (caçador de talentos), da al-Qaeda.
Masri iniciou uma conversa e puxou o assunto para a luta separatista da Chechênia. Binalshibh e Shehhi, loucos para pôr em prática sua opção por uma jihad violenta, se interessaram. O olheiro lhes ofereceu o número do telefone de Abu Musab, um recrutador da al-Qaeda que morava em Duisburg, 320 quilômetros a sudoeste de Hamburgo.
Após telefonarem para Duisburg, Binalshibh e Shehhi viajaram ao encontro de Musab. Levaram consigo um libanês, um jovem de 24 anos, simpático e sedutor, com modos e aspecto de um ocidental. Chamava-se Ziad Jarrah e estudava Engenharia Espacial. Também optara pela jihad.
À esquerda: o jovem Ziad Jarrah, que, desde sua infância em Beirute, tinha um sonho: ser piloto.
À direita: a turca Aysel Senguen, namorada de Ziad na Alemanha.