Plano de Ataque: A História dos Voos de 11 de Setembro
Amanhecer na Costa Leste
Onze de setembro de 2001, quatro da manhã. Ainda é noite escura quando Louis Mariani, aposentado, 59 anos, e sua mulher, Ellen, saem de casa em Derry, New Hampshire, com destino a Boston, 60 quilômetros ao sul. Pegam a interestadual 93 e, dez minutos depois, cruzam a divisa com o estado de Massachusetts.
Gina, filha de Ellen, enteada de Louis, vai se casar no sábado, dia 15, em Los Angeles. No início, apenas Ellen iria à festa. Ela comprou, com antecedência, um bilhete promocional num vôo com escala em Chicago. Louis, que não gosta de voar, decidiu ir em cima da hora. Como não encontrou mais lugares com desconto no avião de Ellen, ele fez reserva no UAL175. Para sua alegria, conseguiu um preço ainda mais barato do que o dela.
O vôo de Ellen Mariani sairá do aeroporto Logan, em Boston, às seis da manhã. O 175, de Louis, às oito, do mesmo local. Como ela fará escala, os dois chegarão a Los Angeles praticamente na mesma hora.
Do Comfort Inn, em South Portland (onde Mohamed Atta e Abdulaziz al Omari passaram a noite), até o Portland International Jetport, são apenas 5 quilômetros. Ao volante do Nissan azul e prata, Atta os percorre em minutos. Eles deixam o carro no estacionamento do aeroporto e pegam as bagagens no porta-malas. Mas, no interior do Nissan, ficam diversos documentos de Atta, assim como um exemplar do manual de operações da al-Qaeda.
Os dois se apresentam ao check-in no balcão da US Airways e exibem seus bilhetes para Los Angeles, cuja primeira perna é o vôo 5930, da Colgan Air (subsidiária da US), entre Portland e o Aeroporto Internacional Logan, em Boston, onde haverá a conexão com o vôo 11 da American. Michael Tuohey, funcionário que os atende no Jetport, diz que a bagagem não poderá ser despachada diretamente para Los Angeles. Eles terão de retirá-la no Logan, onde haverá novo check-in. Atta demonstra irritação com o transtorno inesperado, mas nada pode fazer.
Minutos mais tarde, os dois árabes submetem suas pastas executivas ao exame na esteira de raios X. Atta veste uma camisa azul anil, Omari, uma pêssego, ambas de mangas compridas. Uma câmera de segurança registra a passagem deles pelo local às 5h45min13s.
Embora as pastas contenham estiletes fragmentáveis, eles medem menos do que os 11 centímetros permitidos, pois só as últimas seções de lâminas foram mantidas. Atta e Omari são liberados sem contratempos.
Tendo nos braços duas caixas grandes, contendo presentes para os netos, Louis Mariani se despede de Ellen no aeroporto Logan. Esperam se encontrar, dali a oito horas e 15 minutos, em Los Angeles.
— Eu chegarei lá logo depois de você — ele a beija em despedida.
Antes de passar pelo portão de embarque ela se volta e o vê pela última vez.
São seis horas da manhã em Portland. Com Mohamed Atta e Abdulaziz al Omari a bordo, o Colgan Air 5930 inicia o vôo de meia hora até Boston.
São seis horas da manhã em Sarasota, Flórida. Ainda está escuro quando o presidente George W. Bush, acompanhado de três agentes do serviço secreto, e assistido por um grupo de repórteres e cinegrafistas, dá início à sua corrida matinal na pista de jogging do Colony Beach, onde passou a noite. Bush acena para os jornalistas.
O dia já clareou. A bordo do vôo 5930, a meio caminho entre Portland e Boston, Mohamed Atta vê que o tempo está magnífico. O sol está para nascer, sobre o Atlântico, do lado esquerdo da aeronave.
Como fica numa longitude 530 quilômetros a oeste, embora no mesmo fuso horário da costa da Nova Inglaterra, em Washington D.C. ainda é noite. Apenas uma risca horizontal avermelhada, mais parecendo um letreiro de néon esmaecido, pode ser vista nos lados da Baía Chesapeake. Nawaf al Hazmi pára seu Toyota no estacionamento do aeroporto Dulles. Com ele está Khalid al Mihdhar, o desertor arrependido. Descem do carro. Hazmi usa calça e camisa em tom berrante de azul. Mihdhar, jeans e camisa branca. Uma carta não remetida, para Mustafá al Hawsawi, agente da al-Qaeda nos Emirados Árabes Unidos, é deixada no veículo. A Base faz questão de ir imprimindo suas pegadas.
Às 6h45, George Bush encerra sua corrida. Fotógrafos e cinegrafistas colhem imagens do presidente, ofegante, bebendo água mineral do gargalo de uma garrafa.
Quase ao mesmo tempo, o vôo 5930, com Atta e Omari, aterrissa no Logan. No aeroporto, já estão Marwan al Shehhi, Fayez Banihammad, Mohand al Shehri, Ahmed al Ghamdi e Hamza al Ghamdi, destacados para o vôo UAL175, que sairá do Terminal C. Os três companheiros de Atta e Omari no vôo 11, Waleed al Shehri, seu irmão Wail e Satam al Suqami estão no Terminal B, onde a American opera seus vôos domésticos. Os dez homens conduzem estiletes ou pequenos canivetes. Alguns levam também tubos de gás Mace (de pimenta).
Ruth Magdaline McCourt, 45, e Paige FarleyHackel, 46, são melhores amigas, praticamente irmãs. Paige é madrinha de Juliana, 4, filha de Ruth. Estão levando a menina para conhecer a Disneylândia. Só que, para aproveitar melhor seus respectivos programas de milhagem, Ruth e Juliana irão no vôo 175, da United Airlines. Paige, no AAL11. Por isso, se despedem antes de irem para seus respectivos terminais. Como o vôo 11 sai 15 minutos antes, Paige diz que esperará as duas no aeroporto de Los Angeles.
Juliana tem cachos louros. Sua mãe, longos cabelos ruivos. Paige faz palestras motivacionais, tem um programa de rádio e um grande sonho na vida: comparecer, na qualidade de entrevistada, ao programa de Oprah Winfrey.
No setor de segurança do Terminal B, o nome de Mohamed Atta é selecionado pelo sistema computadorizado de vigilância de passageiros, CAPPS, cuja função é separar eventuais suspeitos, gente que possa representar algum tipo de ameaça ao vôo. Isso significa que a mala de Atta, sem que ele seja notificado disso, só será posta no porão da aeronave após a confirmação de seu embarque.
Desde a explosão de um 747 da Pan Am sobre a cidade de Lockerbie, na Escócia, alguns dias antes do Natal de 1988 — com a morte de 270 pessoas —, as companhias aéreas temem que algum passageiro, tal como naquela ocasião, possa despachar uma bomba-relógio e depois não embarcar.
Da verdadeira ameaça que Atta representa, ninguém desconfia. O estilete que o egípcio leva em sua pasta de mão passa incólume pela esteira de raios X, tal como acontecera em Portland.
No Terminal C, embora esteja de posse de um celular, Marwan al Shehhi usa um telefone público para chamar Atta, no B. Os dois se falam às 6h45. A conversa dura nove minutos. Entre outras coisas, devem ter confirmado a passagem dos dez homens pelo setor de segurança e Atta dado o sinal verde para o início da Operação Aviões.
Em Newark, Nova Jersey, Ziad Jarrah, Saeed al Ghamdi, Ahmad al Haznawi e Ahmed al Nami, designados para o vôo UAL93, já deixaram o Marriott. O checkout foi feito por Jarrah, que pagou, em dinheiro, a conta do hotel. Um micro-ônibus os levou pelo pequeno trajeto até o Terminal A. No caminho, puderam ver, ao longe, do outro lado do Hudson, as Torres Gêmeas do World Trade Center.
Piloto e comandos fazem o check-in no balcão de atendimento da primeira classe da United. Pouco depois, tal como acontecera com Atta em Boston, o nome de Haznawi é selecionado pelo CAPPS. Suas malas, postas de lado, aguardam a confirmação do embarque do dono. Mas os canivetes e estiletes dos homens da al-Qaeda passam sem problemas pelo posto de segurança.
A caminho da saleta de embarque, Ziad Jarrah pára num telefone público. Liga para Aysel Senguen, na Alemanha, onde já é início da tarde. Ela continua no hospital, recuperando-se da operação na garganta.
— Eu te amo — ele diz.
— Onde é que você está? — ela fala com dificuldade, por causa da cirurgia.
— Eu te amo — Ziad repete, e desliga.
Enquanto Ziad Jarrah telefona para Aysel, próxima a ele, Lauren Grandcolas, executiva de marketing de 38 anos, liga, do celular, para San Rafael, na Califórnia. Ela está regressando do funeral de sua avó.
Retardatária contumaz, desta vez Lauren chegou cedo ao aeroporto. Tão cedo que a United lhe ofereceu antecipar sua reserva, do vôo das 9h20, o UAL91, para o UAL93, às 8h.
Como são quatro da manhã na Costa Oeste, Jack, marido de Lauren, dorme profundamente. Não ouve a chamada e a ligação cai na secretária eletrônica.
— Vou pegar o vôo das 8h. Chego aí às 11h15 — ela grava seu recado. A viagem costa a costa dura seis horas e 15 minutos, mas, voando no mesmo sentido da trajetória do sol, os vôos leste-oeste ganham as três horas de diferença de fuso horário.
Enquanto fala, Lauren, que está grávida de três meses de seu primeiro filho, gestação desejada há muitos anos, chega ao portão de embarque 17, do vôo 93.
Tom Burnett, de San Ramon, Califórnia, marido de Deena, também chegou cedo ao aeroporto, com reserva marcada para o vôo 91. E, tal como Lauren Grandcolas, antecipou seu embarque para as oito horas. Há uma semana fora de casa, Tom está louco para ver Deena, as gêmeas Halley e Madison e a caçula Anna Clare.
Para Mark Rothenberg, 52, passageiro da primeira classe do UAL93, a viagem Newark/São Francisco é apenas a primeira etapa de um longo vôo para Taiwan. Rothenberg viaja o mundo todo fazendo negócios para sua empresa. Ele acaba de chegar à sala de embarque, onde já estão diversos passageiros, entre eles Liz Wainio, gerente do Discovery, Jeremy Glick — que, para não embarcar no Kennedy, ficara mais uma noite nas montanhas Catskill — e Andy Garcia.
Garcia, 62, serviu na Guarda Nacional, tirou brevê de piloto em 1992 e já foi controlador de tráfego aéreo. Está casado há 32 anos com Dorothy. Eles moram em Portola Valley, na Califórnia, e têm uma neta.
Na ala oeste do saguão principal do aeroporto Dulles, em Washington, Hani Hanjour, Majed Moqed e Salem al Hazmi, todos destacados para o AAL77, depois de serem submetidos aos procedimentos de rotina, seguem para o portão de embarque, onde encontram Nawaf al Hazmi e Khalid al Mihdhar.
Os nomes de três dos cinco seqüestradores, Hanjour, Mihdhar e Moqed, foram selecionados pelo CAPPS. Suas bagagens despachadas são postas à parte. Já Salem al Hazmi, que não fala uma palavra de inglês, e não traz consigo nenhum documento com foto, sofreu uma inspeção especial, com um detector portátil de metais. Mas o estilete em sua maleta de mão, com duas seções afiadas de lâminas, passou, sem incidentes, pela inspeção dos raios X.
As câmeras da empresa Argenbright, contratada pela American Airlines para fazer segurança em aeroportos, registram as fotos dos cinco kamikazes do vôo 77. Com exceção de Nawaf al Hazmi, com seu azul espalhafatoso, todos vestem roupas esporte discretas.
O simples fato de se deslocar de casa para o trabalho já é um ato de heroísmo na vida de Ed Beyea. Ele é tetraplégico há vinte anos, desde que quebrou o pescoço num acidente de mergulho.
Em Nova York, são sete e meia da manhã. Beyea sai de seu apartamento, em Roosevelt Island, no meio do East River, entre Midtown Manhattan e o Queens. Em sua cadeira de rodas eletrônica, de última geração, da qual depende até para respirar, ele segue, sozinho, para a estação de metrô da ilha, cujo acesso é adaptado para deficientes físicos, por causa de um hospital de reabilitação próximo.
Irma Fuller, assistente de Ed na Empire Blue Cross and Blue Shield, irá aguardá-lo na saída do metrô no World Trade Center e acompanhá-lo até os escritórios da empresa, no 27º andar da Torre Norte.
Em Nova Jersey, Mark Bingham, que passou a noite na farra, acorda tarde, com muita ressaca, e perde a hora de seu vôo para São Francisco. Agora, ele e seu amigo Matt Hall voam pela estrada. Bingham quer ver se chega a tempo de pegar o vôo seguinte, o UAL93.
No Terminal C do aeroporto Logan, em Boston, a United anuncia o embarque do vôo 175. Marwan al Shehhi e seus companheiros dirigem-se à entrada da loading bridge (ponte de embarque — corredor móvel, telescópico, articulado) que liga o Boeing 767 ao terminal.
Em outro 767, só que da American Airlines, estacionado junto ao portão 32 do Terminal B, o comandante John Ogonowski, 52 anos, do vôo 11, tem à sua direita o copiloto Thomas McGuinness, 42. As portas do avião já estão fechadas; a ponta da loading bridge, recolhida. Ogonowski autoriza o pushback, operação através da qual a aeronave, empurrada por um trator acoplado à sua bequilha (trem de pouso menor, na maioria dos aviões localizado na dianteira), se afasta de marcha a ré em direção ao centro do pátio de manobras.
Na cabine de passageiros do AAL11, Mohamed Atta, Waleed e Wail al Shehri, Satam al Suqami e Abdulaziz al Omari estão quietos em seus assentos. Os irmãos Shehri ocupam as poltronas 1A e 1B, na primeira fila da primeira classe, as mais próximas da galley e da cabine de comando. Atta, na ala central da segunda fila da executiva, está num assento ao lado do corredor esquerdo. Omari, na fila seguinte, ocupa a poltrona G, corredor da direita. Suqami senta-se na poltrona B da quarta fila da executiva, duas atrás de Atta e uma atrás de Omari.
Posicionado no meio do grupo, à frente de Suqami, ao lado de Omari e uma fila atrás de Atta, está Daniel C. Lewin, 31, residente em Charlestown, Massachusetts. Casado, dois filhos, ele é empresário e tem dupla nacionalidade: israelense e americana. Nascido em Denver, Colorado, Lewin foi criado em Jerusalém, onde serviu durante anos na Sayeret Matkal, unidade de elite do Exército de Israel, especializada em contraterrorismo, notabilizada por abortar diversos seqüestros aéreos.