Plano de Ataque: A História dos Voos de 11 de Setembro

Yousef, o Químico

 

Manhã de terça-feira, 1º de setembro de 1992, Aeroporto Internacional John F. Kennedy, Nova York. Entre os milhares de passageiros desembarcando no Terminal de Chegadas Internacionais (International Arrivals Building), encontrava-se Ramzi Yousef, 24 anos, esguio, 1 metro e 83 de altura. Acabava de chegar de Karachi, na primeira classe de um Boeing 747 da Pakistan Airlines. De hábitos refinados, normalmente Yousef vestia Armani. Mas, nesse dia, usava um terno de alfaiate, cortado em seda afegã, que se manteve impecável mesmo após a exaustiva jornada através de meio mundo.

Quando chegou sua vez de se apresentar num dos guichês da Imigração, Yousef exibiu um passaporte iraquiano falsificado, perfeitamente falsificado. E, falando um inglês britânico de ótima qualidade — ele era formado em engenharia no País de Gales —, pediu asilo político aos Estados Unidos.

O funcionário examinou de alto a baixo o bem-vestido passageiro e o encaminhou a uma das salas de interrogatório. Após ser questionado por outro agente, Ramzi Yousef recebeu um visto de permanência temporário, como era de praxe no início dos anos 1990. Yousef se comprometeu a comparecer, dentro de algumas semanas, a uma audiência nos escritórios do Serviço de Imigração, na qual saberia a resposta sobre seu pedido.

Uma vez liberado, e já do lado de fora do terminal, Ramzi Yousef percorreu a pé a fila de táxis, até encontrar um motorista paquistanês (que existem aos milhares, em Nova York). Depois de explicar ao compatriota que acabara de chegar de Karachi, Yousef lhe passou um pedaço de papel onde estava escrito: Atlantic Avenue 552, Brooklyn. Ao ler o endereço, e examinar o homem de pé ao lado de sua janela, o motorista fez um meneio respeitoso de cabeça e mandou Yousef entrar no carro.

Após um trajeto de meia hora, Ramzi Yousef chegou à mesquita Al Faruk, ou MASJID AL FAROOQ, como mostrava o letreiro da fachada. Yousef entrou e foi recebido pelo clérigo encarregado, Omar Abdel Rahman, o Sheik Cego. Yousef revelou ser sobrinho de Khaled Sheik Mohamed (KSM), veterano e célebre mujahedin (guerrilheiro muçulmano) do Afeganistão.

 

Nascido no Egito, Rahman, 54, era cego desde a infância, vítima de diabetes. A deficiência não o impedira de estudar profundamente o Corão e de se tornar um dos mais respeitados estudiosos islâmicos de seu país. Muito menos de ser barbaramente torturado, ao longo de três anos, pela polícia egípcia, que suspeitou de seu envolvimento no assassinato do presidente Anwar el-Sadat, ocorrido durante uma parada militar, em 1981. Na verdade, os sermões de Rahman inspiraram os assassinos.

Embora absolvido no julgamento, Rahman foi expulso do país em meados dos anos 1980. Seguiu para o Afeganistão, onde entrou em contato com seu antigo mentor religioso, um palestino chamado Abdullah Azzam. Este, juntamente com o bilionário saudita Osama bin Laden, havia fundado a Maktab al-Khadamat, “O Escritório de Serviço”, mais conhecida como MAK, cujo primeiro objetivo foi o de recrutar voluntários islâmicos para lutar contra os soviéticos. No segundo semestre de 1988, ao final da vitória dos mujahedins, a organização passou a ser conhecida por um nome ainda mais singelo e não mais esclarecedor: “A Base”. Em árabe: “al-Qaeda”.

Em 24 de novembro de 1989, Abdullah Azzam foi assassinado, juntamente com dois de seus filhos, em Peshawar, no Paquistão, na explosão de um carro-bomba. Embora o crime tenha tido as características de uma disputa pelo poder, ao estilo máfia, a participação de Osama bin Laden no episódio jamais ficou esclarecida. O certo é que a morte de Azzam fez de bin Laden o líder absoluto e inconteste da al-Qaeda.

No ano seguinte, Osama decidiu enviar o Sheik Cego, com quem já mantinha uma estreita ligação, religiosa e afetiva, para os Estados Unidos. Sua missão: criar uma base avançada da organização em território americano. A própria CIA facilitou a concessão do visto de entrada de Rahman (emitido na embaixada americana em Cartum), em reconhecimento à sua assistência, no Afeganistão, na luta contra os soviéticos. Antes de ser designado para a mesquita Al Faruk, o Sheik Cego se estabeleceu em Jersey City.

 

Nessa terça-feira de fim de verão nova-iorquino, Omar Abdel Rahman já esperava a chegada de Ramzi Yousef. Este acabara de concluir, no Afeganistão, no campo de treinamento Khaldan, da al-Qaeda, próximo à fronteira paquistanesa, um curso de fabricação de bombas. Lá, aprendeu também a falsificar documentos. Embora fosse engenheiro, Yousef se destacara tanto no manuseio de explosivos que seus colegas o apelidaram de O Químico.

Sem maiores rodeios, Ramzi Yousef explicou a Omar Abdel Rahman que o objetivo de sua viagem, já aprovado por Bin Laden, e pelo tio, KSM, era explodir o World Trade Center. Em vez de se assustar com as dimensões do atentado, o Sheik Cego ficou tão entusiasmado com o projeto que prometeu a Yousef toda a mão-de-obra de que ele necessitasse. Os recursos financeiros necessários para o ataque, Yousef revelou a Rahman, seriam fornecidos pela al-Qaeda, através de uma conta no Qatar.

A idéia de atacar o Trade Center surgiu de um amigo de infância de Yousef, Abdul Murad. Numa conversa telefônica, travada meses antes, Yousef dissera a Murad que seu sonho era explodir edifícios nos Estados Unidos e matar muitos judeus.

“Então ataque o World Trade Center”, sugeriu Murad.

Desde então, Yousef não pensou em outra coisa. E concluiu, mais por delírio do que por embasamento técnico, que uma carga explosiva colocada num ponto estratégico do subsolo do Trade Center, junto aos alicerces, poderia demolir uma das torres. Na queda, a outra também iria abaixo e, em efeito dominó, boa parte da zona financeira do sul de Manhattan seria destruída. Yousef projetou a morte de 250 mil pessoas, número que superaria, por larga margem, os ataques atômicos contra Hiroshima e Nagasaki, em 1945.

 

Quando chegou o dia da audiência na Imigração, no prédio do número 26 da Federal Plaza, o asilo político do “iraquiano” Ramzi Yousef foi concedido. Dizendo-se perseguido por Saddam Hussein, então inimigo número 1 da América, Yousef recebeu um visto de permanência nos Estados Unidos.

Livre para agir, durante o outono de 1992 e o início do inverno de 1992/93 Yousef trabalhou com três homens indicados pelo Sheik Cego: Mohamed Salameh, palestino, Nidal Ayyad (nascido no Kuwait, de origem paquistanesa) e o egípcio Mahmoud Abouhalima. O grupo alugou um boxe no depósito Self Service Storage, em Nova Jersey. Sob orientação de Yousef, Nidal Ayyad, naturalizado americano e fluente em inglês, adquiriu os componentes necessários para fazer a bomba: nitrato de amônia, óleo diesel e nitroglicerina.

Na penúltima semana de fevereiro de 1993, Mohamed Salameh alugou uma van numa agência da locadora Ryder. Deixou como caução 400 dólares em dinheiro. No boxe do depósito, Yousef e seus companheiros começaram a montar, no interior do veículo, uma carga explosiva de 680 quilos, transformando-o em carro-bomba. No dia 25 de fevereiro, Salameh telefonou para a Ryder. Comunicou o furto do veículo e pediu de volta seu depósito de 400 dólares.

Pouco antes do meio-dia da sexta-feira 26, Ramzi Yousef chegou com a van-bomba ao World Trade Center. Desceu a rampa em espiral do estacionamento rotativo até o nível B-2 da garagem subterrânea. O veículo, com sua carga letal, foi estacionado junto a um dos pilares de sustentação de uma das torres (lá embaixo, ele não identificou qual delas). Yousef acionou o timer e tratou de sair rapidamente.

Exatamente às 12h17, a carga explodiu. Abriu um rombo que se elevou até sete andares acima da garagem. Mas os danos ficaram muito aquém das previsões mais pessimistas de Ramzi Yousef. Ou ele não calculara bem a resistência do Trade Center, ou, mais provavelmente, O Químico não era tão talentoso, em suas alquimias, quanto seu apelido fazia crer. O certo é que apenas seis pessoas morreram, embora mais de mil tenham ficado feridas.

 

No próprio subsolo do World Trade Center, Yousef pegou um trem subterrâneo para Jersey City. Lá, do outro lado da boca do Hudson, menos de meia hora após ter acionado a bomba, ele teve a oportunidade de conferir o resultado de seu dominó, de sua Hiroshima particular. Para sua decepção, apenas uma coluna de fumaça rala e esmaecida se erguia paralela às Torres Gêmeas, praticamente intactas.

O Químico havia fracassado.

Apesar do pequeno número de baixas, o atentado revelou a fragilidade do World Trade Center. As Torres Gêmeas ficaram sem energia. Por motivos de segurança, nunca bem esclarecidos, os geradores foram desligados. O sistema interno de comunicações entrou em pane. As escadas, escuras e enfumaçadas, tornaram-se intransitáveis. Os aparelhos de rádio dos bombeiros não funcionaram no interior do prédio. As linhas do telefone de emergência 911, sobrecarregadas, não puderam atender aos pedidos de socorro. A retirada dos ocupantes do Trade Center durou mais de quatro horas.

Nem desse prêmio de consolação Ramzi Yousef tomou conhecimento. No início da noite, ele embarcou, no Kennedy, de volta para o Paquistão, usando um bilhete adquirido semanas antes.

Enquanto o 747 da Pakistan voava para leste, na primeira classe do jumbo a mente sinistra de O Químico já poderia, quem sabe, estar pensando numa nova tentativa de destruir as Torres Gêmeas. Pois, nos anos seguintes, essa idéia se tornaria, cada vez mais, sua jihad, seu leitmotiv particular, que regaria como uma planta de estimação.