Plano de Ataque: A História dos Voos de 11 de Setembro
Decolagem na Pista 25
Se um vôo é marcado para as 7h45, caso do AAL11, isso significa que, nesse horário, o avião deve ser desatrelado da loading bridge, dando início ao pushback. Só que, no vôo 11, isso aconteceu às 7h40, cinco minutos antes do previsto.
— American 11, pronto para taxiar para a cabeceira da 25 — com o jato já desconectado do trator, o copiloto McGuinness fala com um controlador da torre do Logan.
Com o braço direito esticado, e a mão semi-espalmada para baixo, em forma de garra, o comandante Ogonowski empurra os manetes de aceleração um pouco à frente, elevando o ritmo do giro das turbinas. A pesada aeronave começa a se mover através do labirinto de taxiways que a levará do terminal até a cabeceira. Ogonowski usa o nariz do Boeing como alça de mira para manter as duas rodas da bequilha exatamente sobre a risca central da pista de taxiamento.
O comandante é casado há 17 anos. Sua mulher chama-se Peggy. Eles têm três filhos e moram numa fazenda de 150 acres, em Dracut, Massachusetts, 40 quilômetros ao norte de Boston. Ogonowski foi da Força Aérea e lutou no Vietnã. Voa na American Airlines desde 1979. Thomas McGuinness, seu copiloto, mora em Portsmouth, cidade costeira de New Hampshire, 85 quilômetros distante do Logan.
Enquanto o 767 taxia para a 25, nas cabines de primeira, executiva e econômica as nove comissárias dão início às demonstrações dos procedimentos de segurança para os 81 passageiros. Entre elas, Bobbi Arestegui, 38, Betty Ong, 45, Kay Martin, 40, e Amy Sweeney, 35.
Seiscentos e cinqüenta quilômetros a sudoeste do Logan, no Aeroporto Internacional Dulles, em Washington D.C., os 58 passageiros do vôo 77 da American Airlines entram numa das ultramodernas salas de embarque que se movimentam sobre rodas e pneus, únicas do tipo no mundo. Ela os levará de uma sala de espera na ala oeste até o avião, um Boeing 757 com apenas duas classes: primeira e econômica.
Cinco minutos depois, a sala móvel se acopla à porta dianteira do 757. Os passageiros entram no avião. Entre eles, os cinco sauditas. Hani Hanjour e os irmãos Hazmi (Nawaf e Salem) vão para a primeira classe. Os outros dois, Majed Moqed e Khalid al Mihdhar, ocupam as poltronas 12A e 12B, na classe econômica. Ao adquirir os bilhetes, e escolher os assentos de cada um, Hazmi, vice-líder dos 19 kamikazes, levou em conta o fato de que, se os cinco se agrupassem na primeira, onde, naquela versão de 757, só cabiam 12 passageiros, poderiam chamar muita atenção.
Barbara Olson, comentarista política e mulher do procurador-geral Ted Olson, após tomar o café-da-manhã com o marido aniversariante, na casa deles em Great Falls, Virgínia, a 25 quilômetros do Dulles, foi a última pessoa a fazer o check-in do vôo 77 no balcão da American.
Faltam 25 minutos para a abertura das primeiras bolsas no mercado financeiro americano. Na sala de operações da Euro Brokers, no 84º andar da Torre Norte do World Trade Center, o trabalho do corretor (e bombeiro voluntário do andar) Brian Clark já é intenso. Ele tem de estudar os pre-openings (estimativas de abertura dos mercados), as previsões sobre as estatísticas econômicas que serão divulgadas pelo governo americano naquela manhã e trocar idéias sobre esses dados com colegas e clientes.
Na véspera, após ter chegado da Itália, e se encontrado na estrada com a mãe, que lhes devolveu os meninos David e Drew, Lisa Beamer veio com o marido, Todd, para casa, em Cranbury. Brincaram um pouco com os filhos, distribuíram os presentes comprados na viagem, inclusive uma miniatura da estátua de Davi, de Michelangelo, comprada em Florença, jantaram e puseram os garotos para dormir. Enquanto o workaholic Todd ligava o laptop, para atualizar seu correio eletrônico, Lisa desmaiou na cama. Seu relógio biológico marcava três da manhã (horário de Roma).
Às 5h45 de terça-feira, soou o despertador. Quase como um autômato, Todd desligou rápido o alarme e saiu de mansinho da cama, mas não conseguiu impedir que Lisa — com seu sono leve de mãe de criança pequena — acordasse. Ela entreabriu os olhos. Então puxou as cobertas para cima do rosto. Tentou voltar a dormir, lamentando o fim do dolce far niente e o reinício de sua dura rotina de dona de casa. Permaneceu em estado semi-letárgico por algum tempo. Pôde ouvir as passadas do marido descendo os degraus de madeira da escada.
7h30. Na sala de espera anexa ao portão 17 do Aeroporto Internacional de Newark, alguns passageiros aguardam a chamada de embarque do vôo 93, da United, para São Francisco. Entre eles, Todd Beamer, marido de Lisa, e Tom Burnett, cuja mulher, Deena, e três filhas dormem a sono solto em San Ramon, Califórnia, onde são 4h30 da madrugada.
Donald F. Greene, outro passageiro do UAL93, além de piloto é vice-presidente da Safe Flight Instrument, empresa fabricante de aparelhos de vôo de alta precisão. Poucas pessoas conhecem tão bem o funcionamento dos instrumentos da cabine de um jato quanto Greene.
Dos quatro suicidas da al-Qaeda, Ahmad al Haznawi é o primeiro a chegar à sala de embarque. Pouco depois, surge Ziad Jarrah. Não fala com Haznawi nem senta-se perto dele. Saeed al Ghamdi, que entra em seguida, assume a mesma atitude. Ahmed al Nami é o último. Isola-se em um canto.
São 7h45 quando uma voz feminina anuncia pelo sistema de alto-falantes:
— United Airlines, vôo 93 para São Francisco, agora embarcando no portão 17.
Os passageiros se levantam, kamikazes e vítimas misturados, e encaminham-se para o pequeno balcão junto à entrada da loading bridge. Entregam seus talões de embarque a uma funcionária de terra da United, entram no corredor em declive, caminham 22 metros, fazem uma curva para a esquerda e caem na porta dianteira do avião, em cujo interior a tripulação os aguarda.
Na cabine de pilotagem do Boeing, o comandante Jason Dahl, 43 anos, e seu copiloto Leroy Homer, 36, percorrem os itens de uma minuciosa lista de verificações (checklist) pré-vôo. Homer, que tem às mãos um cartão plastificado, recita a lista. Dahl, sentado na poltrona da esquerda, confere o item mencionado. Entre eles há um console com diversos botões, interruptores e pequenas alavancas.
Os dois nunca voaram juntos. Aliás, acabaram de se conhecer. Dahl conseguiu um remanejamento na escala de vôo para poder estar com sua mulher, Sandy, comissária da própria United, em Denver, na sexta-feira, dia 14, quando completarão cinco anos de casados. A data será comemorada com um jantar.
A chefe de equipe Debbie Welsh, de 49 anos, moradora da cidade de Nova York, também trocou com uma colega para pegar o vôo 93. Ela agora recebe os passageiros junto à porta. São apenas 38, para cinco comissárias, e Debbie antecipa um vôo com pouquíssimo trabalho.
Mark Bingham, o fortão defensor do San Francisco Fog’s, tendo já perdido seu primeiro vôo àquela manhã, chega a Newark em cima da hora. Seu amigo Matt Hall, em cuja casa passara a noite, o deixa na entrada do Terminal A. Mark consegue fazer o check-in e se submeter à inspeção de segurança. Agora surge na boca de saída da loading bridge no momento em que Debbie vai fechar a porta da aeronave. Ela finge uma expressão de censura e confere o talão de embarque de Bingham, que está ofegante da corrida.
Aeroporto Internacional Logan, Boston. A equipe de seqüestro do UAL175 também já embarcou. Marwan al Shehhi, líder do grupo, está sentado numa poltrona de corredor na classe executiva. Mohand al Shehri e Fayez Banihammad sentam-se respectivamente nas poltronas 2A e 2B da primeira. Ahmed al Ghamdi e Hamza al Ghamdi, que não são irmãos, estão na penúltima fila da executiva, atrás de Shehhi.
Sussurrando em seu celular, Marwan al Shehhi conversa com Mohamed Atta. Este encontra-se no AAL11, a 500 metros de distância, se movendo em direção à cabeceira. O egípcio está sentado logo à frente do israelense Daniel Lewin. Shehhi e Atta falam durante um minuto.
Às 7h48 inicia-se o pushback do 175. Começa a viagem de férias de Peter Hanson, de sua mulher Sue Jue Kim-Hanson e da filha do casal, Christine, de 2 anos. Esta, tal como Juliana, de 4, também a bordo, com sua mãe Ruth McCourt, vai conhecer a Disneylândia. Paige FarleyHackel, amiga de Ruth e madrinha de Juliana, está perto dali, taxiando no vôo 11 com Mohamed Atta.
Na cabine de comando do UAL175, o comandante Victor Saracini, 51, e o copiloto Mike Horrocks, 38, acompanham atentos a marcha a ré do pushback. Através de um intercomunicador, Saracini fala com um mecânico que, no solo, caminha ao lado da bequilha. Este usa um fone de ouvido.
Ex-piloto da Marinha, Saracini está na United Airlines há 16 anos. Horrocks, antes de entrar na empresa, voou no Corpo de Fuzileiros Navais. Ambos têm treinamento de combate corpo-a-corpo. Horrocks, um homem muito bonito, foi também jogador universitário de futebol americano.
Nas três classes do vôo 175, sete comissárias de bordo atendem os 56 passageiros, que representam menos de um terço da lotação do Boeing.
Depois de percorrer, em longos 19 minutos, num verdadeiro ziguezague, os 5 quilômetros de taxiways, o AAL11 está na posição 2 (penúltima parada antes da pista de decolagem), junto à cabeceira 25. Na cabine de comando, Ogonowski e McGuinness estão atentos às instruções da torre do Logan.
— American 11, ventos variando de 100 a 120º, com dez nós.
O.K. para posição 3 (cabeceira da pista). Livre decolagem — diz o controlador.
— American 11 — limita-se a responder McGuinness.
Ogonowski começa a se alinhar para a decolagem. Como a cabine de comando está bem à frente das rodas do trem de pouso, ele espera que o nariz passe uns 7 metros além da linha tracejada no centro da pista, antes de usar o steering wheel (pequeno volante direcional das rodas da bequilha) e o pedal de freio da direita, para fazer o Boeing girar 90º para esse lado.
Já no eixo da pista, Ogonowski liga o auto throttle (acelerador automático). Pressiona os manetes um terço à frente, para estabilizar o giro das turbinas. Tal como determinam os manuais de pilotagem, o copiloto McGuinness põe sua mão esquerda junto à mão direita do comandante. Se este sofrer um ataque cardíaco, ou outro mal súbito, o copiloto assumirá, instantaneamente, o controle da aceleração. Ogonowski aumenta a pressão sobre os manetes.
Com o empuxo de mais de 60 mil libras gerado pelas duas enormes turbinas, o 767 se lança para a frente. Agora a manutenção da reta é controlada pela parte inferior dos pedais, correspondente ao leme de direção. Ogonowski e McGuinness (que só acompanha os movimentos do comandante) usam as pontas dos pés e mantêm os calcanhares no chão. Isso evita uma freada acidental. Aos poucos, o Boeing torna-se um bólido. A faixa tracejada no meio da pista vem ao encontro da cabine, velozmente, como na tela de um videogame.
O vôo 11 gasta pouco mais de trinta segundos para sair do chão. São 7h59 da manhã de terça-feira, 11 de setembro.
Enquanto as rodas do trem de pouso são recolhidas, o AAL11 sobrevoa a enseada interior da Baía de Boston, cruza diagonalmente a ponte da auto-estrada de Massachusetts (Massachusetts Turnpike) e passa no través sul do bairro chinês (Chinatown). Na cabine de comando, McGuinness muda a freqüência de seu rádio, saindo da torre do Logan e entrando no Centro Boston.
— Centro Boston, bom-dia. American 11 com você, subindo de 190 (19 mil pés) para 230 (23 mil).
— Positivo — responde Pete Zalewski, um dos controladores do Centro. — Suba e mantenha o nível 280.
— Dois oito zero, American 11 — confirma o copiloto.
Pura rotina.