Plano de Ataque: A História dos Voos de 11 de Setembro

Shanksville, Pensilvânia

Na cabine de um monomotor, o casal de pilotos Bill Wright e Holly Joiner, ela nos comandos, ele ao rádio, se preparava para pousar em um aeroporto qualquer, cumprindo ordens da FAA, que punha em prática o Ground Stop — esvaziar, de aviões civis, os céus dos Estados Unidos.

Trezentos quilômetros a noroeste, um controlador do Centro Cleveland percebeu, em sua tela de radar, que o sinal do pequeno avião se deslocava nas proximidades dos blips primários de radar emitidos pelo vôo 93.

— Você consegue ver um jato comercial a nor-noroeste? — ele perguntou, ansioso, a Wright.

— Positivo — respondeu o piloto. — Ele está a umas 3 milhas (4,8 quilômetros) de distância.

— A que altitude? — quis saber Cleveland.

— Uns 300 metros acima de nós — disse Wright. — Podemos vê-lo claramente. É um 757 da United.

Em segundos, Holly e Bill perceberam que o jato não seguia uma trajetória normal. Pareceu iniciar uma curva para a esquerda, como se estivesse mudando de rumo. Mas voltou para a direita, e para a esquerda de novo. Sempre balançando as asas. Ficou claro ao casal que o Boeing voava erraticamente, como se um louco o estivesse pilotando.

— Está balançando as asas, de modo brusco — Bill completou a informação.

— Tudo bem, agora saia de perto dele — ordenou o controlador, nervosamente. — E pouse no aeroporto mais próximo.

Enquanto o monomotor se afastava do vôo 93, Cleveland avisou ao Centro de Comando da FAA, em Herndon, na Virgínia, e este ao quartel-general da instituição, em Washington, que uma aeronave vira o vôo 93 voando de modo aparentemente descontrolado.

 

Os tripulantes de outro avião também testemunharam os últimos momentos do vôo 93. Tratava-se de um Hércules C-130, da Força Aérea, de transporte de cargas, que, por incrível coincidência, assistira, 26 minutos antes, ao choque do vôo AAL77 contra o Pentágono.

 

Mais tarde, após a queda do UAL93 contra o bosque de Shanksville, condado de Somerset, um jatinho executivo Fairchild 20, à procura de um lugar para pousar, desceu de 37 mil pés (11.300 metros) até 5 mil (1.500 metros) para localizar o ponto exato da queda do avião e passar as coordenadas do desastre para as equipes de socorro.

Nos momentos que precederam a queda, e enquanto se desenrolava a luta pela posse dos controles do avião, o United 93 esteve ao alcance dos mísseis ar-ar do F-16, da Base Aérea de Langley, que havia rompido a barreira do som sobre o sul da Pensilvânia, evento assinalado pelos sismógrafos.

 

 

Após ter interceptado o vôo 93, o caça fez uma curva de 180º, reduziu a velocidade para níveis subsônicos e iniciou uma perseguição direta. Toda a movimentação foi acompanhada por um controlador de vôo do Centro Boston, em Nashua, New Hampshire.

A única razão pela qual o UAL93 não foi abatido pela Força Aérea foi a ausência de ordens expressas nesse sentido, que só poderiam ser dadas pelo presidente George W. Bush. Isso só veio a acontecer às 10h05, dois minutos após a queda do Boeing.

 

Mesmo que seus passageiros e comissárias não tivessem tomado a iniciativa de atacar os seqüestradores, que optaram por derrubar o avião, o vôo 93 jamais alcançaria o Capitólio. Com a ordem de Bush, o jato da United teria sido derrubado ao se aproximar de Washington. Além do F-16 que o perseguia, dezenas de caças da Base Aérea de Andrews patrulhavam os céus da cidade, agora com instruções claras e expressas de derrubar aviões comerciais em atitude de ataque.

O atraso na decolagem em Newark salvou o prédio do Congresso. Ficaram faltando 125 milhas (200 quilômetros) para Ziad Jarrah, que seriam cobertas em vinte minutos. Para sorte de Bush, e da Força Aérea, não foi necessário derrubar um avião civil americano com pessoas inocentes a bordo. Mas, se isso tivesse acontecido, o número de mortes do 11 de setembro não teria sido menor, uma vez que o choque do UAL93 contra o bosque não fez vítimas no solo.

 

A queda do vôo 93 da United Airlines foi testemunhada por diversas pessoas. Todas foram unânimes em declarar que o avião não expelia fumaça em seu mergulho final. Portanto, nenhum míssil o atingiu. Isso, mais tarde, seria confirmado pela leitura da caixa-preta (CVR e FDR), recuperada das profundezas da cratera aberta no bosque.

Terry Butler, uma dessas testemunhas, é um homem de aparência exótica, semelhante a essas figuras folclóricas que percorrem as estradas, em grupos, pilotando motos Harley-Davidson. Muito forte, cabelos ligeiramente grisalhos, usa brincos e camiseta sem mangas. Em seu braço cabeludo há uma enorme tatuagem.

Butler, na verdade, é um solitário. Trabalha, por conta própria, num depósito de carros usados, um desmanche em Stoystown, 10 quilômetros ao norte de Shanksville. Os fatos daquela manhã trágica não eram de sua conta. Enquanto tudo acontecia, sua cabeça estava mergulhada no interior do capô de um carro, onde suas mãos, sujas de graxa, trabalhavam no motor.

Mas, se Terry Butler não quis saber do 11 de setembro, o 11 de setembro foi até ele. De dentro do capô, ele ouviu o ruído estridente das turbinas do UAL93. Saiu da toca e virou-se a tempo de olhar para o sul e ver o avião mergulhando e desaparecendo no bosque, em meio a um estrondo.

 

Outra pessoa que viu a queda foi um homem chamado Ron Buxton. Às 10h02 da manhã, ele tomou o maior susto de sua vida. Buxton passava uma camada de tinta branca num tanque de produtos químicos, na parte externa da fábrica onde trabalhava, na área rural do condado de Somerset, quando o vôo 93 passou, rugindo, e voando de dorso, a poucos metros de sua cabeça.

Depois de recuperar sua atitude normal de vôo, o 757 subiu reto. Mas logo voltou a descer, embicado em direção ao solo. Foi cair no bosque, um pouco adiante. Após o estrondo da explosão, Buxton viu erguer-se, do local, uma coluna de fumaça.

 

Em San Ramon, Califórnia, Deena Burnett, sempre segurando o telefone sem fio, aguardava, agoniada, o quinto telefonema do marido Tom.

À esquerda: o passageiro do vôo 93 Todd Beamer pronunciou as palavras que se tornaram o símbolo da resistência do UAL93: “Let’s roll.”

À direita: o executivo Tom Burnett conseguiu conversar com sua mulher, Deena Burnett, quatro vezes durante o seqüestro.