Plano de Ataque: A História dos Voos de 11 de Setembro
11 de Setembro – 9H35
Entre os quatro pilotos seqüestradores que partiram esta manhã, em suas missões de martírio, de Boston, Washington e Newark, o saudita Hani Hanjour, de 29 anos, do AAL77, é o único que já era piloto antes de ser recrutado para a Operação Aviões. Por isso lhe cabe o alvo mais crítico. O complexo do Pentágono, com seus cinco anéis concêntricos, embora seja um dos maiores conjuntos de escritórios do mundo, com 365 mil metros quadrados de área construída e 23 mil funcionários, é difícil de ser atingido pelo lado. Trata-se de um prédio horizontal, espraiado e baixo. Tem apenas cinco andares.
Hanjour pretende chocar-se contra a fachada oeste. Resolveu fazer uma aproximação de 360º, uma longa curva, no sentido horário, sobre o anel periférico da cidade de Washington, metade dela já completada. Depois de cruzar o rio Potomac, na direção oeste-leste, no momento o AAL77 encontra-se no ponto mais a leste da curva, bem na vertical do Anacostia, afluente do rio. São 9h35. Seis minutos antes, já voando em baixa altitude (2.100 metros), o saudita desligou o piloto automático, que manteve ativado durante toda a navegação.
Dois meses antes da missão, Hanjour filmou, junto com um companheiro da al-Qaeda, Zacarias Moussaoui, os pontos mais destacáveis de Washington, inclusive a Casa Branca, o Capitólio, os monumentos importantes e, principalmente, seu alvo, o Pentágono. E fez diversos vôos de observação, em pequenos monomotores, ao redor da capital. Por isso, agora, conduz a longa curva descendente de aproximação sem hesitar um instante sequer, dominando cada detalhe do terreno abaixo. O dia claro e ensolarado facilita sua tarefa. Mas ele sabe que acertar a fachada do Pentágono na mosca vai ser difícil.
Na torre de aproximação do Aeroporto Internacional Dulles, 37 quilômetros a oeste do centro de Washington, a controladora de vôo Danielle O’Brien se mexe inquieta em sua cadeira. Procurando conter a aflição, ela acompanha, ao mesmo tempo, as imagens de um aparelho de TV, que mostram os dois incêndios no WTC, e sua tela de radar. Esta lhe permite monitorar os diversos vôos que chegam e saem do Dulles.
São 9h35min30s. O AAL77 está no través sul do Capitólio quando Danielle o detecta em sua tela. Mas, como o avião tem o transponder desligado, ela vê apenas blips esparsos de sinais primários de radar se movendo, em curva, sobre a capital, em alta velocidade. Danielle vira-se para Tom Howell, seu colega ao lado, e pergunta:
— Você está vendo esse avião?
— Oh, meu Deus — ele geme. — Está rápido demais. Parece… parece ir para a P-56 (área de exclusão aérea que engloba a Casa Branca e o Capitólio).
O mesmo acontece na torre de controle do Aeroporto Nacional Reagan, situado na margem oeste do Potomac, a menos de 2 quilômetros do Pentágono. No Reagan, a preocupação com o blip que se move sorrateiramente é tão grande que um supervisor acaba de comunicar, aos agentes do Serviço Secreto na Casa Branca, que uma aeronave não identificada está perigosamente próxima deles.
Quinhentos quilômetros a noroeste da capital do país, no Centro Cleveland, um controlador de vôo acompanha, não menos angustiado do que seus colegas de Washington, em sua tela e em sua escuta, a trajetória e os sons do vôo UAL93, Newark/São Francisco. Sete minutos antes, ele ouviu os pilotos gritando:
— Saiam daqui! Saiam daqui!
Pouco depois, os gritos se transformam em sons inequívocos de luta. Cleveland pergunta às outras aeronaves voando na área se elas também estão ouvindo. Vários pilotos respondem que sim. Isso indica forte probabilidade de um quarto seqüestro nesta manhã.
A probabilidade torna-se certeza quando, segundos antes das 9h32, do vôo 93 ouve-se a seguinte transmissão:
— Senhoras e senhores. Aqui é o comandante. Por favor, sentem-se e permaneçam sentados. Nós temos uma bomba. Então sentem-se.
Com certa dose de ingenuidade, Cleveland pede ao vôo UAL93 para repetir a mensagem. Como não podia deixar de ser, recebe o silêncio como resposta. Mais do que depressa, o controlador diz ao seu chefe que o vôo 93 pode ter uma bomba a bordo. O outro não perde tempo em repassar a informação para o centro de comando da FAA (Administração Federal de Aviação), em Herndon, na Virgínia. De lá, a notícia continua subindo os degraus da hierarquia.
Herndon telefona para o quartel-general da FAA, no número 800 da Independence Avenue, em Washington, onde o diretor em exercício é avisado da bomba e do seqüestro. E manda que alguém notifique a sede da United Airlines, em Chicago. Tal como Cleveland, o despachante de vôo Ed Ballinger, da United, responsável pelo vôo 93, tenta, sem sucesso, comunicar-se com o avião.
Em San Ramon, no outro lado do país, enquanto prepara o café-da-manhã das filhas, Deena Burnett mantém os olhos pregados na tela da CNN, que mostra os incêndios nas Torres Gêmeas. O telefone toca.
Deena sente enorme alívio ao ouvir a voz do marido Tom.
— Deena, sou eu.
— Tudo bem? — ela pergunta.
A resposta é uma ducha de água fria.
— Não, Deena, não está — Tom responde, falando de seu celular.
— Peguei um vôo mais cedo, o 93, da United. Tou… Bem… eu tava indo pra aí. Nós… nós fomos seqüestrados. Eles esfaquearam um passageiro e tomaram conta do avião. Agora estão dizendo que têm uma bomba. Eu quero que você ligue para as autoridades.
Enquanto ouve o marido, Deena, aterrorizada, sempre vendo as imagens da CNN, fica com medo de que Tom e o World Trade Center sejam partes da mesma história.
— Eu vou ter que desligar — ele interrompe os pensamentos da mulher.
Deena, que escuta o som das turbinas do UAL93 ao fundo da conversa, pensa em avisar o marido a respeito dos incêndios em Nova York, mas simplesmente não tem coragem. Nem tempo. O telefone emudece.
Minutos depois, Tom volta a chamá-la. Sua voz não é a de uma pessoa apavorada. Mas ele fala mais rápido do que o normal.
— Os seqüestradores — Tom Burnett informa — estão na cabine de comando. O passageiro que foi esfaqueado acaba de morrer.
Deena decide contar ao marido sobre as torres.
— Tom, outros vôos foram seqüestrados. Não foi só o seu. Está passando o tempo todo na TV. Eles… eles… — ela hesita — …eles jogaram dois aviões contra o World Trade Center, em Nova York.
— O quê? Aviões? Dois aviões? — Tom se assusta.
— É.
— Você está brincando — ele dá uma risadinha nervosa.
— Não, Tom. É verdade.
— São aviões comerciais?
— Acho que sim.
Tom Burnett leva alguns segundos para digerir a informação.
— Eu tenho que ir — ele diz, e volta a desligar.
No cockpit do UAL93, Ziad Jarrah, após se desentender algum tempo com os comandos, finalmente consegue controlar o avião. Acaba de fazer uma curva, tangenciando a margem sul do lago Eire. Dá início à sua navegação para Washington. Jarrah tem dificuldade em manter o vôo 93 nivelado. O Boeing sobe para 12.500 metros.
O AAL77 cruza o través sul da Casa Branca, passando a apenas sete quilômetros de distância. A não ser que o jato faça uma nova volta sobre a cidade de Washington, tudo indica que o Capitólio e a residência presidencial estejam salvos. Isso não impede que agentes do Serviço Secreto, alertados pelas torres dos aeroportos Reagan National e Dulles International a respeito da aeronave misteriosa, cheguem à sala do vice-presidente, Dick Cheney — que assiste à CNN, onde viu o UAL175 se chocar contra a Torre Sul do World Trade Center —, e praticamente o arranquem de sua cadeira. Cheney é levado às pressas para o abrigo subterrâneo.
Na Torre Sul, Stanley Praimnath, o executivo do Banco Fuji que desceu do 81º até o térreo, após a Torre Norte ser atingida, mas foi convencido por um segurança a voltar para seu escritório — no coração da zona de impacto —, sobrevive milagrosamente. Com diversas queimaduras, o corpo inchado, coberto de pó de cimento, ilhado por uma montanha de escombros, mas ainda vivo. Uma lasca do bordo de ataque da asa do Boeing está cravada na porta de sua sala. Praimnath olha para a lâmina de alumínio com espanto e incredulidade.
Sem conseguir sair dali por conta própria (a porta está bloqueada), Stanley Praimnath fica gritando por socorro, embora mal consiga respirar em meio à fumaça. Seus apelos são ouvidos por Brian Clark, da Euro Brokers, o bombeiro voluntário que não desceu após o impacto na outra torre justamente para ajudar na evacuação do prédio.
Contando as oito escadarias das duas Torres Gêmeas, apenas uma, a escada A da Torre Sul, na quina noroeste do prédio, continua dando passagem através dos incêndios. Brian Clark desce justamente por ela quando encontra Praimnath, preso. Consegue libertá-lo, puxando-o pelas axilas, por cima dos escombros. Partem escada abaixo.
Ron di Francesco, colega de Clark no 84º andar, aquele que não quis abandonar seu posto de trabalho para não perder a abertura dos mercados, opta por subir para o terraço. Na explosão da bomba na garagem, em 1993, muita gente havia sido resgatada de lá, por helicópteros. Ron di Francesco vai até o 91º andar, onde fica sabendo que as portas de acesso ao topo do prédio encontram-se trancadas. Sem outra alternativa, ele começa a descer. Está oito andares acima da zona de impacto.
Falta uma semana para Tom Kelly, bombeiro de Nova York nascido e criado no Brooklyn, completar 51 anos. Embora sirva na corporação desde 1983, sempre no quartel de South Street, Kelly não conseguiu subir nenhum degrau na escala de promoções. Talvez porque não goste muito de fazer exercícios físicos. Ou talvez porque adore uma cerveja. O certo é que ele precisa reforçar o salário magro com um segundo emprego, como operário de construção civil, onde é soldador.
Kelly está na Torre Sul desde as 9h10. Não sendo dos mais capazes de subir dezenas de lances de escada com enorme peso nas costas, consegue fazer funcionar um dos elevadores. Passa a operá-lo entre o saguão do térreo e o 40º andar, descendo com sobreviventes, muitos deles feridos, e subindo com colegas bombeiros.
9h36min15s. Nos centros e nas torres de controle, os operadores vêem o sinal primário de radar fazendo a longa curva na tela. Segue agora em direção ao Potomac. Na sede da FAA, teme-se que outro vôo, o 93 da United, quarto a ser seqüestrado, também esteja indo para a capital do país.
No UAL93, Tom Burnett revela aos demais passageiros e às aeromoças o que ouviu de sua mulher, Deena, sobre o World Trade Center. Isso dispara outros telefonemas. A comissária Sandy Bradshaw, de 38 anos, liga de seu celular para o marido, Phil Bradshaw, veterano piloto da US Airways, que se encontra na casa deles, na cidade de Greensboro, Carolina do Norte. Ela diz que os seqüestradores devem ser muçulmanos e estão armados de pequenas facas. Jeremy Glick, 31, usa o celular para dizer à mulher, Lyz, que os terroristas têm uma caixa vermelha, que alegam ser uma bomba, são muito violentos, parecem ser iranianos e estão com bandanas vermelhas na testa. Ameaçam explodir o avião.
Em Sarasota, na Flórida, o presidente George W. Bush participa de uma sessão de leitura com os alunos da escola primária Emma E. Booker. Há meia hora, ele tem conhecimento de que dois aviões se chocaram contra o World Trade Center.
Só agora, após ter cumprido parcialmente o compromisso com as crianças, as limusines da comitiva deixam a escola. Bush segue para o aeroporto local. Lá, o avião presidencial (Força Aérea no 1) o aguarda, pronto para decolar. Ainda não se sabe para onde.
9h36min30s. O AAL77 cruza o Potomac pela segunda vez, agora no sentido leste-oeste. Hani Hanjour inclina o corpo para a frente e torce o pescoço para poder ver, à direita, um pouco atrás, o Pentágono. Não quer perdê-lo de vista. Precisa fazer a aproximação correta para não errar o alvo.
Há quase uma hora, Mike Jacobs está preso com a moça no elevador parado no nível do saguão do térreo da Torre Norte do World Trade Center. Não perceberam quando o AAL11 se chocou contra seu prédio, muito menos quando o UAL175 bateu na torre ao lado. Para Jacobs, o problema continua se resumindo ao seu elevador. Mas desiste de pedir socorro pelo interfone e de apertar o botão de emergência, já que ninguém o atende.
De repente, sem que os dois façam nada, a porta do elevador se abre. Mais do que depressa, eles saem da cabine. Jacobs dá de cara com um bombeiro. Abre a boca para protestar, por ter sido ignorado, mas não emite um som. Porque se vê em meio a um cenário caótico. Bombeiros, policiais e paramédicos espalham-se pelo lobby. Pessoas cobertas de poeira, os rostos enegrecidos pela fumaça, desembocam das escadas. Há fumaça e fuligem por todos os lados.
O bombeiro lhes indica uma passarela, pela qual podem passar para o edifício do World Financial Center. Mike Jacobs e a moça começam a atravessá-la. Vêem então uma mancha avermelhada no vidro. Jacobs só percebe que são vísceras e sangue humano quando sua companheira desmaia ao seu lado.
9h37. O AAL77 está no ponto mais ocidental de sua longa curva. Hani Hanjour prepara-se para se alinhar com a fachada oeste do Pentágono. Tem à sua frente, à esquerda, o Cemitério Nacional de Arlington.
No andar térreo da Torre Norte do WTC, onde o chefe do 1º Batalhão de Bombeiros, Joseph Pfeifer, comanda os trabalhos de resgate, o cinegrafista francês Jules Naudet continua filmando, em meio à fumaça e à poeira, a movimentação dos bombeiros e das pessoas que surgem no saguão, vindas das escadas. Os gritos e lamentos de medo e pânico não param. Mas crescem de intensidade cada vez que se ouve, no pátio ao lado, o ruído seco, surdo e forte de mais um corpo que explode contra o chão, vindo do topo.
Vinte e sete andares acima de Naudet, dois amigos, Abe Zelmanowitz e Ed Beyea, funcionários da empresa seguradora de saúde Empire Blue Cross and Blue Shield, encontram-se no patamar das escadas, acompanhando o fluxo contínuo de pessoas que descem. Estão ali há 38 minutos.
O escritório da Blue Cross fica 66 andares abaixo da base da zona de impacto. Zelmanowitz poderia descer, mas não o faz por causa do amigo e colega de trabalho Beyea, tetraplégico. Serão precisos muitos braços fortes para levá-lo escada abaixo, mesmo sendo só 27 lances de escada. Além da paralisia, Beyea tem problemas ósseos. Já sofrera fraturas ao ser manipulado.
Finalmente, surge um bombeiro, que sobe as escadas. Ele pergunta a Zelmanowitz:
— Por que você não desce? Logo chegará uma equipe de resgate para levar seu amigo.
— Só vou quando ele também puder ir — Abe Zelmanowitz não hesita.
Há um outro problema sério: se Ed Beyea começar a descer, haverá um gargalo nas escadas.
No Departamento de Defesa, Shelley e Donn Marshall chegaram a seus respectivos escritórios, ela no Pentágono, ele em Crystal City. Os filhos pequenos do casal, Drake e Chandler, estão na creche do complexo. Shelley e Donn não fazem a menor idéia de que uma ameaça mortal encontra-se a pouco mais de um quilômetro de distância, projetando-se em direção a eles.
Em sua cela de prisão no Colorado, o paquistanês Ramzi Yousef, exultante, mal se dá ao luxo de piscar. Na pequena tela de televisão preto-e-branco, ele não quer perder um detalhe do incêndio nas torres. Nas suas torres.
— Allahu Akbar!, Allahu Akbar!, Allahu Akbar! — Yousef deve ter comemorado.
— Acho que o topo da Torre Norte vai explodir — surge uma testemunha na tela.
9h37min30s. O AAL77 está sobre o cemitério. Entre o avião e o Pentágono há apenas o bulevar Washington. Hani Hanjour concentra-se no ângulo de descida. Sabe que, se entrar baixo, vai bater no gramado antes do prédio. Se entrar alto, poderá errar a fachada, resvalar no teto, como uma pedra lisa quicando na água, e se fragmentar, em milhões de pedaços que se espalharão pelos arredores da estrada 110, pelo elevado da 395 e pelo Potomac.
O mergulho final para o choque terá de ser feito com precisão cirúrgica. Hanjour avança os manetes de aceleração. A mão esquerda permanece firme no manche. Ele dá uma olhada no maquímetro, indicador de velocidade em relação à do som: 0,71 (aproximadamente 850 km/h). O AAL77 passa raspando pelas placas verdes de sinalização do bulevar Washington, derruba três semáforos e segue como um bólido para o alvo.
Nos últimos segundos, Hani Hanjour percebe que fechou muito a curva e vai errar o prédio. Então corrige a trajetória, com um golpe brusco no manche, para a esquerda. A asa e o motor desse lado se chocam contra o gramado. Mas o nariz, a fuselagem e a asa direita mergulham na fachada, atingindo-a exatamente no andar térreo, onde fica o escritório de Shelley Marshall.
Terceiro atentado. Terceira vitória da al-Qaeda.
Falta apenas o complemento da missão de Ziad Jarrah, a bordo do vôo 93.