Plano de Ataque: A História dos Voos de 11 de Setembro
Epílogo
Duas horas depois que a turca Aysel Senguen recebeu o último telefonema de seu noivo, Ziad Jarrah, que ligou para ela do Terminal A do Aeroporto de Newark, a notícia de que uma das torres do World Trade Center, em Nova York, acabava de ser atingida por um avião começou a circular pelo hospital, na Alemanha, onde Aysel extraíra as amígdalas. Pacientes, médicos e enfermeiras se aglomeraram em frente a um aparelho de televisão.
Veio o ataque à segunda torre e, pouco mais tarde, anunciou-se o do Pentágono. Finalmente surgiu a informação de que o vôo 93 da United Airlines caíra na Pensilvânia.
Aysel não fazia a menor idéia de que Ziad estava envolvido nos episódios, muito menos, é claro, que pilotava um dos quatro aviões. Assustou-se com as notícias não mais do que as pessoas ao lado dela.
Nos Estados Unidos, o FBI levou poucas horas para identificar Ziad Jarrah como um dos seqüestradores do vôo 93 e apenas mais algumas para deduzir que ele era o piloto do jato. Suas fichas de vôo foram rapidamente recolhidas na escola de aviação em Venice, Flórida. Seus instrutores, ouvidos pelos agentes.
Poucos dias mais tarde, o passaporte de Jarrah foi encontrado em meio aos destroços da clareira em Shanksville. Embora o documento estivesse bastante queimado, três quartos da foto do jovem libanês foram recuperados intactos.
Na Alemanha, ao longo do dia 12, Aysel estranhou o fato de Ziad não ter ligado para ela. Se ele raramente ficava um dia sem fazer isso, quanto mais num momento como aquele. Tentou chamá-lo no celular e ouviu apenas a mensagem de desligado ou fora de área.
Só na quinta-feira ela recebeu a carta de despedida do noivo, escrita no dia 10, na qual ele dizia, entre outras coisas, que estaria no Paraíso no momento em que ela a lesse. O mundo de Aysel Senguen desmoronou.
Enquanto isso, o FBI, tendo descoberto que três dos quatro pilotos-seqüestradores haviam morado em Hamburgo, pediu auxílio à Polícia Federal Criminal alemã, BKA, cujos investigadores saíram em busca de cúmplices dos atentados. Aysel foi retirada de casa, por agentes da BKA, com a cabeça coberta por um pano, para que seu rosto não saísse nos jornais.
Depois de exaustivos interrogatórios, nos quais explicou seu relacionamento com Ziad e sua viagem aos Estados Unidos, Aysel Senguen foi inocentada de qualquer participação no 11 de setembro.
Em Beirute, no Líbano, Samir Jarrah, pai de Ziad, soube da morte do filho, no vôo 93, pela imprensa. Samir não se conformou com a versão oficial das investigações e jurou, tal como jura até hoje, que seu filho era inocente. Disse que nunca o ensinara a odiar ninguém.
Nos meses e anos que se seguiram, houve uma caçada humana, sem precedentes em intensidade e extensão geográfica, aos integrantes da al-Qaeda em geral e aos envolvidos nos atentados em particular.
O egípcio Mohamed Atef, chefe de operações militares da al-Qaeda, homem que dirigiu, nos campos de Kandahar, o treinamento dos 19 pilotos e comandos, foi morto no dia 14 de novembro de 2001, ao sul de Cabul, durante um bombardeio americano.
O iemenita Ramzi Binalshibh, um dos líderes da célula de Hamburgo, que só não participou dos ataques porque não obteve visto de entrada nos Estados Unidos, foi preso em Karachi, no dia do primeiro aniversário do 11 de setembro, após uma troca de tiros com a polícia paquistanesa.
Sem nenhuma formalidade jurídica, Binalshibh foi imediatamente entregue aos Estados Unidos, que o mantêm em local ignorado. O relatório oficial da Comissão de Investigações do Congresso americano registra 39 interrogatórios de Binalshibh, nos quais ele revela todos os detalhes de sua participação.
Abdul Hakim Murad, primeiro a ter a idéia de usar aviões como mísseis, e que fora preso e torturado nas Filipinas, já tinha sido transferido para os Estados Unidos em 12 de abril de 1995. Julgado e condenado à prisão perpétua, encontra-se na penitenciária de segurança máxima Supermax, em Florence, no estado do Colorado, a mesma na qual está Ramzi Yousef, O Químico, autor do atentado a bomba ao World Trade Center, em 1993.
Omar Abdel Rahman, o Sheik Cego, também cumpre pena de prisão perpétua numa penitenciária americana.
O franco-marroquino Zacarias Moussaoui — que seria o quinto piloto do 11 de setembro se não tivesse sido preso, em Minnesota, pelo FBI, menos de um mês antes dos atentados — foi destaque na mídia mundial pouco antes do fechamento dos originais deste livro, em 2006.
Moussaoui foi condenado, por um júri reunido em Alexandria, Virgínia, a passar o resto de sua vida em uma solitária, sentença que também será cumprida na prisão federal Supermax, no Colorado. Durante o julgamento de Moussaoui, a transcrição do CVR (caixa-preta) do vôo 93 tornou-se pública.
Khaled Sheik Mohamed, o lendário KSM, foi localizado na noite do dia 1º de março de 2003, numa operação conjunta da CIA e da polícia secreta paquistanesa. Os agentes o surpreenderam, dormindo, em uma casa na cidade de Rawalpindi, ao sul de Islamabad, e o levaram para uma base militar americana no Afeganistão. A foto de um Khaled Sheik Mohamed gordo, descabelado e suarento foi amplamente divulgada na ocasião.
Do Afeganistão, KSM foi primeiro conduzido para uma prisão na Jordânia, depois para local não revelado. tornou-se o maior colaborador das investigações sobre o complô do 11 de setembro. No texto do relatório oficial constam 72 menções a respostas dadas por KSM em interrogatórios conduzidos pela CIA.
Segundo o advogado John Sifton, pesquisador da organização Human Rights Watch, de defesa dos direitos humanos, as confissões e informações de Khaled Sheik Mohamed foram obtidas sob tortura, principalmente o suplício de afogamento, conhecido como waterboarding, que não deixa marcas exteriores. Afoga, ressuscita, afoga, ressuscita, afoga…
Após o 11 de setembro, Osama bin Laden tornou-se o Inimigo Público no 1 dos Estados Unidos da América. Mas, até agora, não foi encontrado, nem vivo nem morto, ao contrário do que proclamavam os cartazes do Velho Oeste citados pelo presidente George W. Bush em um dos seus pronunciamentos pela TV.
Na tarde daquela terça-feira que mudou a História, Osama bin Laden encontrou-se, em um esconderijo afegão, com um homem chamado Shaykh. A cena foi filmada e exibida, meses depois, pela emissora de televisão Al-Jazeera, do Qatar.
— Eles atingiram em cheio o World Trade Center — o normalmente contido Bin Laden não escondia sua satisfação.
— Alá seja louvado — disse Shaykh.
— Em nosso cenário mais otimista, calculamos destruir os escritórios em quatro andares das torres — confessou o Samaritano.
— Alá seja louvado — repetiu Shaykh.
Na terça-feira de 11 de setembro de 2001, o presidente George W. Bush só regressou a Washington no final da tarde. Antes disso, percorreu, de modo errático, boa parte do país. Por indicação de seus assessores militares, e do pessoal do Serviço Secreto, Bush, depois de sair de Sarasota, Flórida, para Barksdale, na Lousiana, onde ficou pouco tempo, voou para a Base Aérea de Offutt, no estado de Nebraska, cujas instalações subterrâneas foram criadas, durante o período da Guerra Fria com a União Soviética, para o presidente dos Estados Unidos resistir a um ataque nuclear.
Bush desembarcou em Offutt pouco antes das três da tarde. Foi levado para uma construção de tijolos que, vista pelo exterior, parece um antigo banheiro de fazenda: três paredes, sem janelas, com aproximadamente dois metros e meio de largura cada uma; na quarta, uma portinhola de aço. Bush entrou por ela, que imediatamente foi fechada, pelo lado de fora, por um soldado. Este se afastou para longe. No interior da “casinha”, Bush desceu, por uma escada, para o bunker atômico.
Enquanto uma nova era, que alguns chamam de guerra de civilizações, se inaugurava, os dois homens mais poderosos deste relato se protegiam em esconderijos, temerosos um do outro, separados por 10 mil quilômetros e 11 fusos horários.