Plano de Ataque: A História dos Voos de 11 de Setembro

A Maior Honra de um Muçulmano

A MAIOR HONRA DE UM

MUÇULMANO

 

Marwan al Shehhi, Mohamed Atta e Ziad Jarrah voaram para Karachi, ponto de partida da viagem por terra para os campos de treinamento do Afeganistão. Estavam certos de que a al-Qaeda iria prepará-los para lutar contra os russos, na luta de independência da Chechênia. Era esse o destino da maioria dos jihadistas no final de 1999.

Seguindo instruções recebidas, na Alemanha, do recrutador Abu Musab, Atta, Shehhi e Jarrah viajaram de ônibus de Karachi para a cidade paquistanesa de Quetta, 600 quilômetros ao norte, quase na fronteira afegã, onde eram esperados. Pernoitaram num abrigo da al-Qaeda, onde conheceram o saudita Nawaf al Hazmi, que fazia o percurso inverso. Voltava do complexo de campos de treinamento de Mattar, próximo a Kandahar, Afeganistão. Hazmi, selecionado pessoalmente por Osama bin Laden para a Operação Aviões, nada revelou aos três novatos sobre sua missão.

Quetta era um burburinho de raças, etnias, tribos, línguas e nacionalidades: árabes, bengalis, sudaneses, somalis, egípcios, sírios, líbios, berberes, uzbeques, cazaques e chechenos. Os homens em trânsito dormiam em abrigos e barracas.

Ramzi Binalshibh chegou à cidade na segunda quinzena de dezembro, procedente da Alemanha, via Karachi. Seus companheiros já haviam partido para o Afeganistão. Um grupo de guerrilheiros escoltou Binalshibh nos 200 quilômetros finais da viagem.

Ao chegar ao campo de Mattar, Binalshibh encontrou Atta e Jarrah. Ficou sabendo que os dois, assim como Marwan al Shehhi, tinham jurado lealdade a Osama bin Laden. A al-Qaeda tinha pressa. Depois de um curto período de treinamento, Shehhi deixara o Afeganistão, rumo a Karachi, onde foi ao encontro de Khaled Sheik Mohamed (KSM).

Binalshibh, que queria aderir logo à Base, não se decepcionou. Dias depois da chegada, foi recebido pelo próprio Bin Laden, que ficou satisfeito ao saber que o novo jihadista era fluente em inglês, além de estar habituado a viver no Ocidente. Sem maiores questionamentos, convocou Binalshibh para a Operação Aviões, não omitindo que se tratava de uma missão de martírio.

— A maior honra de um muçulmano é morrer lutando — Binalshibh não hesitou em responder.

Osama bin Laden gostou tanto do fervor de Binalshibh que não deu importância ao fato de ele ser iemenita, o que poderia inviabilizar sua entrada nos Estados Unidos. Binalshibh, por sinal, já tivera, em 1995, um pedido de visto americano recusado.

Shehhi, Atta e Jarrah também já sabiam que sua missão secreta terminaria em martírio. Isso lhes foi revelado por Mohamed Atef, chefe de operações militares da al-Qaeda. Se um deles teve medo, ou se ficou chocado com a revelação, guardou os sentimentos para si. Ainda não conheciam detalhes da missão. Apenas o nome, Operação Aviões, e o fato de que morreriam ao final.

A rotina no complexo de Mattar era extenuante. Além de exercícios físicos, os jihadistas tomavam lições de técnicas de combate, emboscadas, uso de granadas, minas terrestres e explosivos em geral. Aprendiam a viver clandestinamente, seguir pessoas sem ser detectados, mover-se na escuridão. Treinavam, com carneiros e camelos sendo usados como cobaias (e depois como refeição), cortar uma jugular com um só golpe de faca.

Além do preparo físico e militar, a al-Qaeda não descuidava da parte religiosa. Fora as cinco sessões diárias de preces, exigidas de todo e qualquer muçulmano, os novos jihadistas ouviam leituras de trechos do Corão, além de sermões de um ulemá (professor de lei islâmica).

Os recrutas eram constantemente estimulados com palavras de ordem: “sejam rápidos ao matar”; “vocês são guerreiros de Alá”; “se acha rem o inimigo muito forte, lembrem-se de que o Profeta enfrentou 10 mil”; “a vitória final será nossa”; “nos encontraremos no Paraíso”...

Ziad Jarrah foi um dos que se destacaram nos treinamentos. Mas Osama bin Laden decidiu que a liderança do grupo de ataque caberia ao egípcio Mohamed Atta.

Faltava um ano e nove meses para o 11 de setembro.

 

Bin Laden reuniu-se diversas vezes com o líder Atta, que se tornou o primeiro homem da linha de frente da Operação Aviões a saber que a missão consistia em lançar aviões comerciais contra prédios-símbolo nos Estados Unidos. O Samaritano mostrou a Atta uma relação de alvos: WTC, Pentágono, Casa Branca e Capitólio. Bin Laden disse também que o segundo em comando do grupo de mártires seria Nawaf al Hazmi, que Atta conhecera em Quetta semanas antes. Hazmi, que já deixara o país, logo tomou conhecimento de seu posto.

No campo de treinamento, atenções especiais passaram a ser dadas a Atta, Binalshibh e Jarrah. Os instrutores concentraram-se nos escolhidos.

Muitos exercícios eram noturnos. O ar puro, límpido e gelado do deserto estimulava os homens. Vistos de longe, correndo em passadas ritmadas, rastejando sob arame farpado, superando obstáculos de concreto, empunhando seus Kalashnikovs, enquanto gritavam slogans militares e religiosos, não eram muito diferentes dos marines (fuzileiros navais) americanos treinando e cantando em Camp Pendleton, na Califórnia. Ou, recuando no tempo, das tropas de elite da SS nazista, durante a Segunda Guerra Mundial.

O princípio era o mesmo: estímulo, envolvimento emocional, perda da individualidade, obediência cega, camaradagem, lealdade.

Numa daquelas noites, Ziad Jarrah foi convocado a prestar seu juramento de sangue.

— Juro que aceito o martírio. Quero morrer por Alá — ele proclamou, solene.

Impossível saber se foram os cânticos, se foram as preces, se foram os sermões, se foram as influências da célula de Hamburgo. Ou se foi apenas o encanto mágico da noite estrelada do deserto afegão, onde o céu sempre parece estar mais perto da Terra. O certo é que, naquele instante, o caminho do descontraído estudante de Beirute e Greifswald tornou-se uma viagem sem retorno. Em meio aos beijos e abraços dos companheiros, Ziad Jarrah, ex-noivo de Aysel Senguen, talvez não tenha percebido que acabara de ser atropelado pelo destino.

 

Após várias semanas de treinamento militar, os escolhidos viajaram para Karachi. Lá, iniciaram um curso, de 15 dias, ministrado pelo próprio Khaled Sheik Mohamed (KSM), numa casa alugada pela al-Qaeda, pela qual Nawaf al Hazmi e seu compatriota Khalid al Mihdhar haviam passado. Embora só Atta conhecesse os detalhes da missão, os outros, a essa altura, já sabiam que ela ocorreria nos Estados Unidos e envolveria seqüestros de aviões comerciais.

KSM usou sua experiência de três anos na Carolina do Norte para instruir os homens da Operação Aviões sobre como proceder nos Estados Unidos, como comer, onde morar, como conviver com os kaffirs (infiéis) sem levantar suspeitas. Como fazer reservas em hotéis, alugar carros e apartamentos, comprar passagens aéreas pela Internet. Como criar códigos, e usá-los, em conversas telefônicas.

Em suas palestras, KSM mostrou o comportamento dos tripulantes durante os vôos. Explicou que os pilotos saíam da cabine de comando para ir ao banheiro, e que os comissários de bordo iam lá na frente servir-lhes as refeições. “Nessas ocasiões”, ele dizia, “a porta da cabine fica destrancada”. KSM exibiu fitas de vídeo, com ficções de Hollywood sobre seqüestros aéreos. As cenas com personagens femininos foram cortadas. Durante as sessões, KSM parava e voltava as fitas, comentando as falhas de segurança a bordo dos aviões.

Só ao final do curso ele explicou a Binalshibh e Jarrah que eles teriam de aprender a pilotar, em escolas de aviação. Ziad Jarrah descobriu então que seu sonho de ser aviador seria realizado, embora não exatamente como o garotinho de subúrbio de Beirute planejara.

 

Enquanto, em Karachi, KSM terminava de dar seu curso, a dupla precursora da Operação Aviões, Nawaf al Hazmi e Khalid al Mihdhar, encontrava-se em Kuala Lumpur, na Malásia, preparando-se para viajar para os Estados Unidos.

Na chegada ao aeroporto de Kuala Lumpur, Mihdhar teve seu passaporte xerocado pela polícia malaia, em cujos computadores o nome do saudita constava de uma lista de suspeitos de atividades terroristas. A cópia foi enviada, por fax, para o quartel-general da CIA, em Langley, na Virgínia. Lá, o fax recebeu o carimbo “nenhuma ação requerida” e foi sepultado em um arquivo.

 

Na manhã de sábado dia 15 de janeiro de 2000, Nawaf al Hazmi e Khalid al Mihdhar desembarcaram no Aeroporto Internacional de Los Angeles. Embora seus passaportes contivessem diversas adulterações, neles os vistos americanos de entrada eram autênticos. Foram concedidos, em Jedá, em abril de 1999.

A missão de Hazmi e Mihdhar não podia ser mais objetiva: aprender inglês, entrar para escolas de aviação e tornar-se piloto no menor tempo possível.

Faltava um ano, sete meses e 26 dias para o 11 de setembro. A ponta de lança da Operação Aviões acabava de ser espetada no território dos Estados Unidos, como o primeiro marco de posse da al-Qaeda.

TRAJETÓRIA DO VÔO AAL77

1. Aeroporto Dulles – Washington DC, decolagem às 8h20 2. Seqüestro do avião, entre 8h51 e 8h54

3. Rota normal de vôo para Los Angeles

4. Hani Hanjour tenta se entender com os comandos

5. Hanjour programa o piloto automático para seguir para Washington

6. A localização da aeronave pelos centros de controle é impedida, com o transponder desligado

7. Choque contra a fachada oeste do Pentágono, às 9h37min46s