Plano de Ataque: A História dos Voos de 11 de Setembro
Na Contramão
O edifício do Pentágono, sede do Departamento de Defesa dos Estados Unidos, foi construído durante a Segunda Guerra Mundial. A idéia, na ocasião, era transformá-lo, após a guerra, num depósito de arquivos. As vigas e a estrutura foram projetadas para agüentar o peso da papelada. Veio então a Guerra Fria e o Pentágono continuou sendo o comando das Forças Armadas.
Meio século depois, em abril de 1995, um atentado terrorista destruiu um prédio público federal na cidade de Oklahoma, matando 168 pessoas. Em meio à comoção nacional que se seguiu, o governo resolveu reforçar alguns de seus principais edifícios, inclusive o Pentágono. Neste, paredes foram substituídas por outras ainda mais sólidas e vidros à prova de balas, instalados nas janelas. As obras se iniciaram em 2000.
No dia do ataque da al-Qaeda, só a ala oeste do prédio está concluída. E apenas começa a ser ocupada. Quando, às 9h37min46s, o AAL77 se choca justamente contra esse lado, pouca gente encontra-se ali, não a população de quase 5 mil funcionários de tempos normais.
A estrutura reforçada apara só em parte a massa das quase 100 toneladas do 757 se chocando contra o prédio a 850 km/h. Enquanto se desintegra, o Boeing destrói três dos cinco anéis do edifício. Cinqüenta colunas são derrubadas em um percurso de 50 metros.
O secretário de Defesa, Donald Rumsfeld, está em seu gabinete, no lado oposto ao do impacto. Há 45 minutos, Rumsfeld assiste, pela TV, aos incêndios nas Torres Gêmeas, em Nova York. Em sua sala, o choque do AAL77 provoca apenas uma leve vibração.
Na Agência de Inteligência, no Crystal Office, quase ao lado do Pentágono, Donn Marshall logo fica sabendo que um avião bateu no prédio onde se encontram sua mulher, Shelley, e seus dois filhos pequenos. Ele corre para lá, feito um desesperado. No caminho, ao atravessar, a pé, a rodovia 395, pulando sobre os guard-rails, Marshall pode ver uma coluna de fumaça erguendo-se da ala oeste do edifício. Tem um péssimo pressentimento.
Trezentos e vinte quilômetros a nordeste, e 34 minutos antes, no lobby do térreo da Torre Norte do World Trade Center, onde as escadas despejavam a massa de gente que vinha lá de cima, o cineasta francês Jules Naudet, que continuou filmando os acontecimentos ao seu redor, ouviu o estrondo do UAL175 se chocando contra a torre ao lado. A vibração aos seus pés foi como a de um terremoto.
Naudet filmou os bombeiros correndo para junto das vidraças do saguão, todos querendo ver o que estava acontecendo. O francês manteve seu padrão profissional: braço firme, olho fixo no visor da câmera. E foi através dele que viu um dilúvio de destroços despencando dos céus.
Na Torre Sul, após o choque do vôo 175, muita gente tenta subir para o terraço. Mas encontra as portas trancadas. Finalmente, chega um agente de segurança para abri-las com um cartão magnético. Só que a explosão danificou o sistema. O cartão se revela inútil e a passagem permanece bloqueada. Se tivesse sido aberta, de nada adiantaria. Lá em cima, os pilotos dos helicópteros da polícia não conseguem enxergar o topo do prédio, por causa da fumaça, muito menos pousar nele para resgatar sobreviventes.
O bombeiro voluntário e operador de mercado da Euro Brokers Brian Clark havia salvado o executivo do Banco Fuji, Stanley Praimnath. Este, depois de ter ido até o térreo e regressado para o 81º, de onde viu o jato da United se aproximar do prédio, ficara preso nos escombros após a explosão. Agora os dois descem pelas escadas.
Clark tem consigo uma lanterna, que está sendo de grande utilidade. As luzes da escadaria A, por onde descem, estão apagadas. Uma gosma escorregadia, formada por fragmentos do reboco de gesso das paredes misturados à água que cai dos sprinklers, cobre os degraus.
Aos trancos e barrancos, Clark e Praimnath, após cruzarem a base da zona de impacto, chegam ao 74º andar, onde há ar fresco e as luzes funcionam. Eles continuam descendo. A cada andar que atingem, o tráfego de pessoas é mais intenso.
Bem acima deles, Ron di Francesco, também da Euro Brokers, que já poderia estar na rua há muito tempo, não fosse sua obsessão em esperar a abertura dos mercados, numa segunda decisão infeliz é um dos que sobe em vez de procurar caminho através dos andares em chamas.
Só ao chegar ao 91º andar Francesco fica sabendo que não há acesso ao terraço. Precisa fazer um enorme esforço mental para controlar o pânico. Dá meia-volta e começa a descer. Felizmente, também se encontra na escadaria A, a única que dá passagem. É uma jornada tenebrosa, em meio à fumaça, ao calor e à escuridão.
Depois de muita luta, Ron di Francesco chega ao saguão intermediário do 78º andar, atingido pela ponta baixa da asa do UAL175. Há várias pessoas deitadas no chão, tentando respirar melhor. Francesco descansa um pouco, também deitado, mas logo retoma a jornada. Às vezes cai, às vezes escorrega degraus abaixo. Mas não pára de descer.
Ed Emery está na contramão do fluxo. Os ocupantes da Torre Sul descem para fugir. Ele sobe para salvar. Não é bombeiro, nem mesmo voluntário, mas, como diretor de Recursos Humanos do Fiduciary Trust, sente-se na obrigação de ir atrás de seus recursos humanos, para guiá-los na descida. Não é uma tarefa simples. Os escritórios da empresa começam sete andares acima da zona de impacto e Emery precisa achar uma brecha para atravessá-la. Subindo.
Além de chefe de um dos batalhões do Corpo de Bombeiros, Orio Joseph Palmer é corredor de maratona. Seu preparo físico é lendário na corporação. Ele agora sobe as escadas da Torre Sul, pulando de dois em dois degraus, com 40 quilos de equipamentos nas costas. Seu colega Tom Kelly, aquele que, em 18 anos de serviço, jamais foi promovido, e que gosta bem mais de algumas rodadas de cerveja do que de uma sessão de ginástica, o levou de elevador do térreo até o 40º, de onde Palmer partiu escada acima.
O World Trade Center é importante na vida de Kelly, particularmente o 40º andar. Em 1971, quando era soldador na construção da Torre Sul, certa noite ele levou sua garota, Kitty, num elevador de obra, para conhecer seu local de trabalho. Como o topo da torre, nesse dia, era o 40º andar, foi de lá que Kitty viu a paisagem de Manhattan iluminada.
Tom e Kitty agora são casados. Têm dois filhos. Ele se tornou bombeiro, mas continuou na construção civil. Hoje o soldador está de volta ao 40º andar.
Logo após o segundo choque contra as Torres Gêmeas, o Centro Nova York, em Ronkonkoma, declara um “ATC Zero”. Isso significa que nenhuma aeronave pode mais atravessar o espaço aéreo coberto pelo Centro, assim como não pode decolar dos aeroportos nessa área, nem aterrissar neles. É uma interdição de 44 mil quilômetros quadrados, na região de maior tráfego aéreo do planeta.
Pouco mais tarde, com intervalo de cinco minutos entre um e outro, os quartéis-generais da American e da United Airlines cancelam a partida de todos os seus vôos, que seriam várias centenas só nas próximas horas.
Finalmente, o Centro de Comando da FAA, em Herndon, na Virgínia, proíbe todas as decolagens no país, inclusive de pequenas aeronaves e helicópteros. Resolve também determinar que os mais de 4.500 aviões que estão, nesse momento, voando sobre o território americano, aterrissem no aeroporto mais próximo. Os que se aproximam dos Estados Unidos vindos do exterior devem voltar para suas origens ou, na impossibilidade disso, se dirigir ao México, Canadá, países da América Central ou Caribe.
Pilotos de todo o mundo que estão terminando a travessia do Atlântico ou do Pacífico, ou chegando da Europa e da Ásia através do Pólo Norte, já com pouco combustível nos tanques, são obrigados a pedir autorização de pouso em aeroportos, na prática alienígenas, com os quais não têm familiaridade e cujo tráfego de descida já está congestionado.
Desde que um piloto chamado Silas Christofferson transportou passageiros em seu pequeno hidroavião, entre as cidades de São Francisco e Oakland, na Califórnia, em 1913, é a primeira vez, em 88 anos de aviação comercial americana, que os céus dos Estados Unidos são interditados para aeronaves de passageiros.
No aeroporto Midway, em Chicago, Ellen Mariani, que voa para Los Angeles, separada do marido Louis, para assistir ao casamento da filha, é uma das pessoas retidas no solo, onde seu vôo foi surpreendido, durante a escala prevista, pela proibição de decolagem.
Ellen aguarda pacientemente o prosseguimento da viagem. Ainda não sabe que Louis, de quem se despediu quatro horas antes, no Logan, em Boston, morreu no choque do United 175 contra o World Trade Center.
Na Torre Norte do WTC, ninguém aparece para socorrer Chris Young, o bailarino/mensageiro, preso sozinho num dos elevadores. Young agora tem certeza de que algo mais sério está acontecendo. Que não foi seu pulo de Dom Quixote que provocou o incidente. Ouve o ruído de mãos socando uma parede.
— Alô!, alô! — Chris Young descobre que, num elevador próximo, outras pessoas estão presas.
— Nós somos sete aqui — diz uma delas. — Não sabemos o que aconteceu.
— Eu estou sozinho — revela Young. — No início eu... eu achei...
Não. Na... nada — ele gagueja. — Como é que a gente... como é que a gente vai sair daqui?
TRAJETÓRIA DO VÔO UAL93
1. Aeroporto de Newark – Nova Jersey, decolagem às 8h43
2. O despachante Ed Ballinger, da United, alerta o UAL 93 sobre o risco de seqüestro, às 9h21
3. Seqüestro do avião
4. Ziad Jarrah assume o comando
5. Rota que o avião faria para Los Angeles, se não tivesse sido seqüestrado
6. Jarrah programa nova rota no piloto automático
7. O piloto seqüestrador fala ao microfone, pensando estar se dirigindo aos passageiros
8. Luta na cabine
9. Queda em Shanksville
10. Rota que os seqüestradores teriam seguido para o Capitólio
11. Edifício do Capitólio