Plano de Ataque: A História dos Voos de 11 de Setembro
Ziad e Aysel
Ziad Jarrah nasceu em 11 de maio de 1975 em Mazraa, subúrbio de classe média alta de Beirute, capital do Líbano, habitado, em sua maior parte, por muçulmanos sunitas. Sua família era composta de comerciantes e funcionários públicos. Nesse mesmo ano, teve início a Guerra Civil Libanesa, que iria acompanhar Ziad até os 15 anos de idade.
Apesar do conflito, que dividiu o país e devastou Beirute, Samir Jarrah, pai de Ziad, manteve o filho relativamente afastado dos perigos. Muçulmano pouco praticante, e sem grandes convicções religiosas, Samir matriculou Ziad numa escola católica, o Collège de La Sagesse, que admitia muçulmanos (sunitas, xiitas e druzos). O convívio pacífico entre integrantes de diversas seitas e religiões fazia parte do projeto educativo do colégio, onde os alunos, além do árabe, eram alfabetizados em francês, língua da elite cultural libanesa.
Jarrah teve infância e adolescência normais. Cinco anos após o fim da Guerra Civil, ele, já aos 20, era um rapaz popular em Beirute. Freqüentava as melhores praias, as discotecas e os bares da moda. Passeava de moto pela orla do Mediterrâneo. Praticava natação e mergulho. Nos fins de tarde, reunia-se com amigos e amigas, todos em trajes ocidentais, para beber cerveja nos cafés dos bulevares, com mesas nas calçadas, tal como os de Paris. Às vezes, jogavam gamão.
Nas festas, Ziad não saía das pistas de dança. Era popular entre as garotas e não lhe faltavam namoradas. Pacífico, boa-praça, jamais se envolvia em brigas ou discussões. Não dava motivos de aborrecimento para Samir, homem extremamente liberal para os padrões muçulmanos. Tanto era assim que suas filhas, irmãs de Ziad, se vestiam como se estivessem em qualquer cidade do Ocidente: roupas decotadas, blusas sem mangas. Nem as irmãs, nem a mãe de Ziad cobriam a cabeça com véus. E gostavam de pintar os cabelos.
Jovens têm sonhos, e Ziad Jarrah não era diferente. Pretendia ser piloto. Desde pequeno, seu quarto era povoado de fotos e miniaturas de aviões. Mas seus pais não queriam que o único filho homem exercesse uma profissão que julgavam perigosa. E se recusaram a apoiar, e bancar, a idéia, embora aceitassem pagar os estudos de Ziad na Europa, desde que não fosse em uma escola de vôo. Ele então optou por engenharia espacial. Assim, ao menos, manteria o vínculo com a aviação.
O jovem Ziad, que desembarcou no aeroporto de Frankfurt no primeiro trimestre de 1996, acompanhado de seu primo Salim, era um candidato improvável a se tornar um extremista islâmico.
Em abril, Ziad e Salim se matricularam em um colégio de Greifswald, cidade costeira do Báltico, 230 quilômetros a nordeste de Hamburgo. O curso que freqüentaram preparava alunos, ensinando-lhes alemão, para entrar na universidade. Em Greifswald, Ziad continuou o mesmo. Ia a festas, bebia cerveja. Seus lábios finos e sinuosos, as extremidades voltadas para cima, mantinham um sorriso permanente. Os óculos, de armação moderna, lhe davam o aspecto de um intelectual.
Aspecto, fisionomia, hábitos, intenções, tudo isso pouco lhe valeu. O aliciamento religioso de Ziad Jarrah começou lá mesmo, em Greifswald. O primeiro a abordá-lo foi um pregador chamado Abu Mohamed.
Mohamed logo iniciou um processo de catequese. Disse a Ziad Jarrah que ele deveria ser descendente de Obeidah Ibn al Jarrah, um dos primeiros seguidores do Profeta e libertador de Jerusalém.
Não adiantou muito Ziad Jarrah desconversar, dizer a Mohamed que freqüentara uma escola católica, que só era muçulmano no papel etc. etc. O pregador insistiu em que ele deveria fazer as orações diárias e obedecer aos preceitos do Corão. Caso contrário, ficaria só, em meio aos infiéis.
No início, Ziad Jarrah conseguiu escapar ao assédio. Talvez porque não tivesse ficado só. Dividia um apartamento com Salim, que arranjara emprego em uma pizzaria e cujo interesse era integrar-se à sociedade alemã. Além disso, Ziad conheceu, no final de 1996, Aysel Senguen, uma bonita filha de imigrantes turcos, de malares salientes, e hábitos e pensamentos ocidentalizados. Ela se preparava para estudar odontologia.
Ziad e Aysel tornaram-se namorados. Apaixonados. Embora continuasse morando com Salim, Ziad dormia a maior parte das noites no apartamento de Aysel.
Apesar de tudo, as coisas começaram a mudar para Ziad, do mesmo modo que aconteceu, em Hamburgo, com Mohamed Atta. Os fundamentalistas mantiveram um cerco implacável ao jovem libanês.
Depois do 11 de setembro, uma equipe da rede de televisão CNN foi procurar, em Beirute, o Collège de la Sagesse. E, lá, o padre católico Antoine Assaf, diretor do estabelecimento, deu sua versão para a mudança de comportamento do ex-aluno.
— Não foi no Líbano que Jarrah abraçou o fundamentalismo. E sim na Europa que ele sentiu necessidade de pertencer a um grupo fechado, restrito. Em minha opinião, trata-se de um péssimo sinal. Alguém, que nem mesmo é praticante religioso, chega à Alemanha e se deixa seduzir pela jihad. Isso revela que algo muito sério acontece no Ocidente.
Em seu livro Quem Matou Daniel Pearl?, a respeito de um jornalista do Wall Street Journal decapitado no Paquistão quatro meses após o 11 de setembro, o filósofo francês Bernard-Henri Lévy deu sua versão:
“... Os inimigos do Ocidente são produtos do Ocidente. Esses jihadistas fervorosos são formados em escolas progressistas e eruditas.
... E o terrorismo é um filho bastardo de uma cópula demoníaca entre o Islã e a Europa.”
Anthony Giddens, diretor da reverenciada London School of Economics, lamentou, em 27 de janeiro de 2002, que sua escola tivesse transformado três de seus melhores estudantes em dirigentes da al-Qaeda, entre eles o paquistanês Omar Sheikh, que mandou decapitar Daniel Pearl.
Teorias à parte, o certo é que Ziad Jarrah, que morava com o liberal Salim, e namorava a descontraída Aysel, aos poucos foi se tornando religioso e começou a viver de acordo com vários preceitos do Corão. Em conversa com companheiros islâmicos, se mostrava arrependido de sua vida anterior. Numa viagem a Hamburgo, visitou a Mesquita Quds, onde foi apresentado a diversos seguidores.
— Meu desejo é ser um mártir — ele chegou a declarar, num momento de empolgação.
Nada disso impediu que, cada vez mais apaixonado, continuasse a namorar e a dormir com Aysel, embora isso lhe tenha provocado um imenso conflito. Uma profunda inquietação que acabou sobrando para ela.
As cenas de ciúme de Ziad Jarrah tornaram-se freqüentes. Ele se aborrecia quando ela tomava a iniciativa de fazer sexo.
— Quem deve fazer isso é o homem. É o que diz o Hadith — Ziad a repreendia.
— Quem é que diz isso?
— O Hadith.
— Ah, o livro… sei.
Após o aprendizado de alemão, Ziad Jarrah se transferiu para Hamburgo. Foi estudar engenharia espacial na Universidade de Ciências Aplicadas. A galinha se mudou para perto das raposas. E da Mesquita Quds. No dia da chegada, Ramzi Binalshibh foi recebê-lo na estação ferroviária.
Os catequistas não perderam tempo. Pouco depois, na mesquita, em meio a um grupo de seguidores, Binalshibh cobrou de Jarrah uma posição:
— E aí, você já se decidiu?
— Já. Estou pronto para a jihad.
Binalshibh e Marwan al Shehhi abriram um sorriso de triunfo. Mohamed Atta, que não fazia fé na determinação de Jarrah, olhou para o libanês com desconfiança.
Quase todos os fins de semana, Ziad, que deixara a barba crescer, viajava até Greifswald. Continuou dormindo com Aysel, mas a criticava por não ser mais religiosa. Reclamava de seu modo provocante de se comportar e de se vestir. Não perdia uma oportunidade para falar da jihad. Mas não teve coragem de levar a namorada para conhecer os amigos de Hamburgo.
— Não vai dar certo, Aysel. Não vai. Eles são muçulmanos fervorosos. Vão ficar encabulados na sua presença. A não ser que a gente se case.
Aysel Senguen foi pega de surpresa.
— Isso é uma proposta? — ela se dividiu entre a alegria de ficar com quem amava e o medo de se prender a um fundamentalista.
— Sim. Case comigo.
— E a jihad?
— Eu desisto da jihad — o rosto de Ziad Jarrah não demonstrou a menor convicção.
Os dois agora se consideravam noivos. O que não impedia Ziad de criticar Aysel, o tempo todo, por fumar, por beber vinho e cerveja. E, aos poucos, ele foi se afastando de seu primo Salim, que abrira uma pizzaria em Greifswald. O rompimento definitivo se deu quando Salim perguntou, à queima-roupa, em tom de zombaria, a Ziad:
— Você sabia que os muçulmanos devotos não dormem com suas namoradas, com suas noivas, ou seja lá o que Aysel é de você? Alguns só são apresentados a elas no dia do casamento. Você tem que decidir o que vai ser.
— Logo você saberá — Jarrah abriu uma fisionomia de mistério, antes de sair batendo a porta.
Em Hamburgo, Ziad Jarrah se reunia diariamente com os outros devotos, na Mesquita Quds ou no apartamento da Marienstrasse, 54. Costumavam assistir a fitas de vídeo sobre a jihad.
Em 1999, Ziad se ofereceu, ao pregador Mohamed Haydar Zammar, para lutar contra os russos, na Chechênia. Ramzi Binalshibh, Mohamed Atta e Marwan al Shehhi também estavam loucos para ir. Justamente nessa ocasião, conheceram Abu Musab, o recrutador da al-Qaeda, que convocou os quatro para a luta sagrada em nome do Islã.
Jarrah sabia que a possibilidade de Aysel aceitar a entrada dele na jihad era nula. Por isso decidiu romper o noivado. Numa visita a ela, aproveitou a oportunidade de uma das sucessivas discussões entre os dois para dizer:
— Sabe de uma coisa? Eu não quero mais saber de você.
E foi embora.
Algumas semanas depois, ao partir para o Afeganistão, em busca da jihad, Ziad nem se deu ao trabalho de telefonar para Aysel, informando-a sobre sua viagem. Simplesmente desapareceu de circulação.