Plano de Ataque: A História dos Voos de 11 de Setembro

Almoço em Tariq Road

 

Peritos do FBI não tiveram dificuldade em localizar, separar e identificar os fragmentos da van-bomba que explodira na garagem do World Trade Center. Pelo número do chassi, chegaram ao nome da locadora Ryder, onde foram informados de que a van fora alugada por um palestino chamado Mohamed Salameh. Este, na véspera do atentado, comunicou o furto do veículo.

Salameh permaneceu em Nova York. Continuou cobrando da Ryder a devolução dos 400 dólares. Desconfiado, o FBI passou a vigiá-lo. E considerou seus movimentos suspeitos. No dia 4 de março, com um mandado judicial, agentes o detiveram para averiguações.

Submetido a interrogatório, Mohamed Salameh se contradisse várias vezes. Foi então indiciado. Seguindo seus passos anteriores a 26 de fevereiro, o FBI chegou ao depósito em Nova Jersey e aos nomes dos outros três envolvidos diretamente na explosão. O cidadão americano Nidal Ayyad, que adquirira os componentes dos explosivos, também foi preso.

O FBI descobriu que o exilado político Ramzi Yousef não era iraquiano, e sim paquistanês, tendo voado para Karachi na noite do atentado. Investigações o apontaram como cabeça do grupo.

Mahmoud Abouhalima, que também saíra do país, foi localizado, no Cairo, pela polícia egípcia, e extraditado para os Estados Unidos.

As prisões de Salameh, Abouhalima e Ayyad conduziram o FBI à mesquita Al Faruk, no Brooklyn. Em junho de 1993, Omar Abdel Rahman, o Sheik Cego, foi preso e acusado de participação no complô do World Trade Center.

Restava localizar o paradeiro de Ramzi Yousef e capturá-lo.

Enquanto isso, de volta ao Paquistão, O Químico continuou com a idéia fixa de desferir novo golpe contra os Estados Unidos. Mas, antes, teve de se proteger. Sabendo que os tentáculos do FBI eram longos, mesmo estando em seu país procurou se esconder em meio a islâmicos radicais. Seus riscos aumentaram quando, em julho de 1994, o Departamento de Estado americano fez distribuir, por todo o Paquistão, 37 mil caixas de fósforos com o nome e a foto de Yousef e dizeres oferecendo recompensa de 2 milhões de dólares por informações que levassem à sua captura.

Abdul Murad, o amigo de infância de Yousef que sugerira o ataque ao World Trade Center, acabava de voltar de uma temporada nos Estados Unidos. Lá, aprendera a pilotar aviões em escolas de vôo do Texas, da Carolina do Norte e do estado de Nova York.

Em agosto de 1994, Yousef e Murad alugaram um depósito na cidade de Lahore, nordeste do Paquistão. A idéia de Yousef era ensinar o amigo a “fazer chocolate”, que é como O Químico se referia ao preparo de bombas.

— No ano passado, eu errei nos cálculos — admitiu Yousef. — Mas o erro não vai se repetir. Garanto.

— E se a gente, em vez de usar explosivos, transformasse um avião em míssil? — os olhos de Abdul Murad brilharam quando a idéia lhe surgiu.

— Em míssil? — Yousef não entendeu.

— É, míssil, bomba voadora. É só lançar o avião contra um prédio, com um kamikaze nos comandos. Eu mesmo, que sei pilotar, posso fazer isso.

Ramzi Yousef não poderia ter ficado mais impressionado.

— Acho que ninguém pensou nessa hipótese — disse O Químico.

— Nem meu tio Khaled.

Faltavam sete anos e um mês para o 11 de setembro.

 

Algumas semanas mais tarde, Ramzi Yousef e Abdul Murad se debruçavam sobre uma travessa fumegante de nihari (iguaria apimentada de carne, uma das especialidades do Paquistão), numa saleta privativa de um restaurante da Tariq Road, um bulevar largo e arborizado no centro de Karachi. Apesar das caixas de fósforos que circulavam pela cidade, ali Yousef corria um risco pequeno. Além da proteção das divisórias da sala reservada, o dono e os garçons do estabelecimento eram de confiança. E O Químico entrara pela porta da cozinha, nos fundos.

Acompanhando os dois amigos à mesa encontrava-se o lendário Khaled Sheik Mohamed (KSM), tio de Yousef, herói mujahedin da luta contra os soviéticos no Afeganistão. KSM agora se alternava entre um emprego de funcionário público do Qatar e a militância no terrorismo islâmico em diversos países.

— Isso mesmo — disse Ramzi —, aviões comerciais sendo lançados contra alvos em cidades americanas, com pilotos suicidas.

 

Khaled Sheik Mohamed nasceu no Kuwait, em 1965, filho de um clérigo muçulmano natural do Baluquistão, província remota, pobre e desértica do Paquistão. Aos 19 anos, KSM foi estudar nos Estados Unidos, primeiro no Chowan College, escola batista localizada em Murfreesboro, Carolina do Norte, para um semestre de aperfeiçoamento de inglês.

Dos 650 alunos do Chowan, um décimo vinha do Oriente Médio. Eram chamados, pejorativamente, pelos colegas ocidentais, de Abbie Dahbies, numa correlação com o Emirado de Abu Dabi.

Boa parte dos muçulmanos vivia num edifício de tijolo aparente, o Peter Hall, às margens do Lago Vann. Faziam suas orações num dormitório no quinto andar do prédio. Tal como se estivessem numa mesquita, deixavam os sapatos no corredor do lado de fora.

Alguns estudantes americanos simplesmente não resistiam a um trote. E, por mais de uma vez, os sapatos dos árabes foram parar no lago. Certa ocasião, as brincadeiras de mau gosto se agravaram. Um barril com lixo e água, misturados, foi posto, em diagonal, apoiado na porta do dormitório. Quando, após as orações, a porta foi aberta, uma onda de imundícies inundou a “mesquita”.

É difícil avaliar quanto isso tudo — os alunos muçulmanos eram também obrigados a assistir aos serviços religiosos cristãos do colégio — afetou Khaled Sheik Mohamed, gerando ódio contra os americanos. O certo é que KSM, bom estudante, completou o semestre de inglês e transferiu-se para a Universidade Agrícola e Técnica da Carolina do Norte, em Greensboro. Mais conhecida como A&T, a instituição era freqüentada principalmente por negros americanos. Mas também havia brancos, hispânicos e muitos africanos e asiáticos, inclusive árabes.

Se houve incidentes, ou discriminação digna de nota, na A&T, isso não ficou registrado. Mesmo porque, naquela instituição, era grande a mistura racial. Mas cada grupo vivia em seu canto. Os americanos, por exemplo, gostavam de jogar futebol e beber cerveja. Os árabes, também de futebol (mas do soccer) e de, às sextas-feiras, sangrar carneiros — comprados em fazendas próximas — à moda muçulmana e servi-los em jantares de vinte ou trinta estudantes.

Em dezembro de 1986, três anos após ter chegado aos Estados Unidos, Khaled Sheik Mohamed formou-se em Engenharia Técnica. Regressou ao Oriente e viajou, pela primeira vez, ao Paquistão, terra de seus pais e sua de coração. Seu irmão Zahid, que morava no país, o apresentou a heróis da guerra afegã.

KSM apaixonou-se pela causa dos mujahedins e tornou-se um deles. Foi para o Afeganistão, receber treinamento militar no acampamento Sada. Depois seguiu para o front, onde conheceu Osama bin Laden. Os dois participaram da luta contra o Exército Vermelho. Lutaram, e venceram. Em abril de 1988, as tropas soviéticas começaram a se retirar do país.

 

Durante o almoço em Tariq Road, KSM ouviu atento as propostas de Ramzi Yousef e de Abdul Murad.

— Um avião, carregado de combustível, pode ser lançado contra a sede da CIA, na Virgínia — disse Murad.

— Ou contra o World Trade Center — acrescentou Yousef, que continuava com o fiasco do ano anterior entalado na garganta.

“Ou contra uma usina nuclear”, “ou contra a Casa Branca”, as idéias se sucederam.

— Mas, e os pilotos? — KSM perguntou a Murad. — Se não conseguirmos pilotos — prosseguiu —, não poderemos lançar os jatos contra os alvos.

— Há muitas escolas de aviação nos Estados Unidos. Elas aceitam qualquer um. É só pagar. Eu mesmo freqüentei várias.

 

Naquele mesmo ano de 1994, KSM e Ramzi Yousef viajaram para Manila, capital das Filipinas. Sem descartar a idéia mais ambiciosa, de usar aviões como mísseis, pensaram noutras hipóteses. Uma delas, não muito menos megalômana, e que viria a ser conhecida como Complô Aéreo de Manila, era explodir, quase simultaneamente, 12 jumbos americanos sobre o Pacífico.

Em Manila, Yousef e seu tio dividiram um apartamento. Compraram produtos químicos e componentes de bombas-relógio. Estudaram horários de aviões e rotas do Pacífico. Em experimentos para valer, Ramzi Yousef testou um timer digital, de sua invenção, detonando uma bomba deixada num cinema e outra despachada em um vôo Manila–Tóquio, da Philippine Airlines. A explosão não derrubou a aeronave, mas matou um passageiro e provocou, além do pânico, um pouso de emergência em Okinawa.

Contando os seis do World Trade Center, Ramzi Yousef, O Químico, o homem da foto nas caixas de fósforos, já era responsável por sete mortes.

No dia 6 de janeiro de 1995, KSM viajou para o Qatar, e Ramzi Yousef e Abdul Murad instalaram-se num apartamento no Bulevar Presidente Quirino, em Manila. A cozinha do imóvel foi transformada em laboratório de experimentos com explosivos.

Ramzi Yousef misturava ingredientes na bancada da pia, quando aconteceu uma reação química inesperada. Uma fumaça tóxica inundou o apartamento e eles foram obrigados a fugir dali. Sucedeu-se uma explosão.

Murad e Yousef refugiaram-se num karaoke próximo. Yousef então se lembrou de haver deixado, no apartamento, seu laptop, cujo HD continha vários planos terroristas, entre eles um de assassinar o papa João Paulo II. Mandou o companheiro ir até lá, pegar o aparelho. A polícia, chamada por vizinhos alarmados com a explosão, prendeu Murad. E se apoderou do laptop e dos ingredientes químico-explosivos de Ramzi Yousef. Este, que viu, de longe, a ação policial, fugiu para o aeroporto. Comprou uma passagem para Cingapura e deixou o país. Submetido a interrogatórios num quartel da Polícia Nacional filipina, Abdul Murad foi moído impiedosamente.

Após 67 dias, ele cedeu. Revelou os esquemas terroristas de Yousef, contou sobre o complô para matar João Paulo II, falou sobre a idéia de explodir 12 jumbos sobre o Pacífico. Finalmente, disse que ele mesmo, Murad, sugerira o uso de aviões, como mísseis, para atingir edifícios símbolo em território americano.

O coronel filipino Rodolfo Mendoza enviou um relatório para o FBI, repassando as informações colhidas de Abdul Murad.

Faltavam seis anos e sete meses para o 11 de setembro.

 

Primeira semana de fevereiro de 1995. Ramzi Yousef, vindo de Cingapura, e Khaled Sheik Mohamed, recém-chegado do Qatar, se hospedavam num hotel de Islamabad, o Su-Casa Guest House, onde se reuniam por horas a fio. KSM, cada vez mais entusiasmado com a idéia de lançar aviões contra alvos americanos, só lamentava a dificuldade de se conseguir homens aptos a pilotar os jatos. Abdul Murad, o único com a qualificação e disposição necessárias, permanecia preso.

Sete meses já haviam se passado desde a distribuição das caixas de fósforos. Então o FBI foi contatado por um homem que Ramzi Yousef tentara recrutar, e que agora buscava os 2 milhões de dólares de recompensa. Segundo revelou o informante, Yousef encontrava-se no Su-Casa, no número 31 da rua 20, em Islamabad. De acordo com o denunciante, Yousef tinha queimadura de ácido nos dedos.

Terça-feira, 7 de fevereiro. Yousef cochilava em sua cama quando quatro homens (dois agentes do Serviço de Segurança Diplomático dos Estados Unidos e dois da Inteligência paquistanesa) irromperam no aposento. O Químico não teve nem tempo de se levantar. Foi agarrado pelos policiais que, além de conferir seu rosto, constataram as marcas nos dedos.

Noutro quarto, a poucos metros de distância, KSM não percebeu a movimentação. Muito menos foi incomodado pelos agentes, que não sabiam de sua presença no hotel, nem procuravam o kuwaitiano.

Sem nenhuma formalidade, ou procedimento legal, Ramzi Yousef, mesmo sendo cidadão paquistanês, foi trasladado secretamente para o aeroporto. Um jato especialmente fretado pelo FBI o levou direto de Islamabad para Nova York, onde um helicóptero o conduziu a uma prisão federal próxima. É provável que, do interior da aeronave, O Químico tenha visto a silhueta das Torres Gêmeas, de pé, majestosas.

O delator de Ramzi Yousef, cujo nome, por razões óbvias, foi mantido em segredo pelo governo americano, recebeu, do programa Rewards for Justice (Recompensas pela Justiça), do Departamento de Estado, o prêmio de 2 milhões de dólares.

Abdul Murad, autor da idéia de usar aviões como armas, estava preso nas Filipinas. Ramzi Yousef, detido em Nova York. Na ausência de seus dois principais conspiradores, Khaled Sheik Mohamed resolveu submeter o plano a Osama bin Laden.

 

© Polaris

Osama bin Laden, multimilionário saudita, dedicou sua vida à jihad. Na foto, acompanhado de um dos seus filhos, em algum de seus esconderijos no Afeganistão.