Plano de Ataque: A História dos Voos de 11 de Setembro
Nós Temos “Aviões”
Depois de passar pela galley dianteira, onde as duas comissárias feridas, Bobbi Arestegui e Kay Martin, estão no chão, Mohamed Atta e Abdulaziz al Omari chegam ao cockpit do AAL11. Os irmãos Al Shehri já terminaram a chacina. Sangue esparramado por todos os lados: no painel de instrumentos, nos comandos, nos interruptores, nas poltronas e no console central.
Com os pescoços rasgados, o comandante John Ogonowski e seu copiloto Thomas McGuinness estão mortos, ou morrendo. Os seqüestradores retiram seus corpos, por sobre o console, e os lançam para trás do jump seat (banco de observação, dobrável, situado pouco atrás dos assentos de pilotagem).
Na primeira classe e na executiva, Satam al Suqami, que matou o israelense Daniel Lewin, afugenta os passageiros em direção à classe econômica, ameaçando-os com uma falsa bomba, um tubo com uma faixa alaranjada, e usando um spray para espalhar gás Mace de pimenta pelas filas de assentos da parte frontal da aeronave. Suqami protege o rosto com um lenço. Só depois de liberar bastante gás ele se reúne aos quatro companheiros na cabine de comando.
Atta já está sentado na poltrona da esquerda. No início, toma cuidado para não esbarrar em nada. Jamais pilotou um 767 antes, nem mesmo em simuladores. Mas conhece os detalhes da disposição interna do cockpit, estudados no site oficial da Boeing na Internet.
O piloto automático permanece ativado. Antes do ataque, o comandante Ogonowski, orientado pelo Centro Boston, programou a aeronave para subir até 35 mil pés. E é isso que está acontecendo. Nos dois horizontes artificiais, um em cada lado do painel, uma barra móvel branca, sobre fundo marrom (terra) e azul (céu), indica que o Boeing está subindo.
Atta apóia levemente a mão esquerda, trêmula e insegura, no manche. Este, obedecendo aos comandos do piloto automático, se move com suavidade para os lados, para a frente e para trás. Com o polegar esquerdo, o egípcio tateia um botão. Sabe do que se trata. No momento em que pressioná-lo, o Boeing 767 estará por sua conta e risco.
Mohamed Atta aperta o botão. Uma buzina de alarme soa estridentemente, mostrando que o sistema automático foi desativado. Mas basta apertar de novo que o alarme cessa. É isso que Atta faz. Aprendeu o procedimento durante suas aulas em escolas de aviação.
O 767 é uma aeronave projetada para voar automaticamente, não o potro selvagem que Atta acaba de libertar. Torna-se difícil manter as velocidades horizontal e vertical e, ao mesmo tempo, uma proa fixa. O Boeing ziguezagueia, corcoveia, enquanto o egípcio dá e tira potência, vendo o nariz correr, para a direita e para a esquerda, na linha do horizonte. Felizmente, para Atta, o vôo 11 não precisa ser suave. Basta fazê-lo chegar até a cidade de Nova York e lançá-lo ao encontro da Torre Norte do World Trade Center.
Aos poucos, de modo precário, o piloto-seqüestrador vai aprendendo. E começa a se preocupar com a navegação. Examina atentamente o solo lá embaixo.
Enquanto Atta procurava se entender com os comandos, o avião se desviou, de sua rota original, uns 45º para a direita. Deslocou-se até a volta abrupta do rio Hudson, em Hudson Falls, que o egípcio conhecia de seus estudos de cartas aeronáuticas. Agora basta fazer uma curva fechada, de 135º, para a esquerda, e seguir o leito do rio até o destino: ilha de Manhattan.
Antes de retornar para leste, Atta havia acionado um interruptor no console à sua direita, desligando o transponder.
Após ter perdido o canal de comunicação com o vôo 11, em Nashua o Centro Boston agora vê sumir de suas telas o sinal do transponder emitido pela aeronave. O controlador Pete Zalewski dá conta do fato ao seu supervisor. Zalewski suspeita de algum tipo de pane, não de um seqüestro.
Seiscentos e trinta quilômetros a sudoeste de Nashua, outro vôo da American Airlines, o AAL77, um Boeing 757, tendo a bordo seis tripulantes e 58 passageiros, entre estes o saudita Hani Hanjour e seus quatro companheiros, decolou, há um minuto, da pista 30 do Aeroporto Internacional Dulles, com o mesmo destino do AAL11: Los Angeles. Em procedimento de subida, o vôo 77 segue para oeste, sobrevoando a Virgínia.
Às 8h20, a torre de controle do Dulles ordena ao AAL77:
— American 77, vire à esquerda e siga o rumo dois sete zero.
— Dois sete zero, American 77 — confirma o copiloto David Charlebois.
Subindo para 11 mil pés, o AAL77 começa a se afastar da cidade de Washington, onde o destino lhe marcou um encontro sinistro, dali a uma hora e 17 minutos, no complexo do Pentágono, com centenas de pessoas, entre elas a família Marshall: pai, em Crystal City, mãe, na ala oeste, e dois filhos, na creche.
Solucionado seu problema de navegação e, mais ou menos, o de pilotagem, Mohamed Atta resolve se comunicar com “seus” passageiros. Só que, em vez de apertar o botão do PA (passenger addresser) no microfone, ele se confunde e aperta outro.
— Nós temos alguns aviões — diz. — Fiquem quietos e tudo estará bem.
A fala de Atta, que se trai e usa “aviões”, é enviada para fora, ouvida e gravada pelo Centro Boston. As aeronaves que se encontram na área também a escutam. Mas ninguém percebe o plural.
São 8h34. Atta continua:
— Ninguém se mova, por favor. Estamos voltando para o aeroporto. Não tentem fazer movimentos estúpidos.
Agora Boston já sabe, ou suspeita fortemente, que o AAL11 foi seqüestrado. A informação é passada para o quartel-general da FAA, em Washington. Este, por sua vez, informa o NEADS (Centro de Defesa Aérea do Nordeste).
Como não podia deixar de ser, o esfaqueamento de duas aeromoças e do israelense (ninguém sabe nada sobre os pilotos) aterroriza os passageiros e comissários do vôo 11, agora acuados nas últimas filas da classe econômica.
Quatro ou cinco minutos após o ataque, a comissária Betty Ong, fazendo das tripas coração, e usando um airphone, entra em contato com o Centro de Reservas da Região Sudeste, da American Airlines, localizado na cidade de Cary, na Carolina do Norte. Betty é atendida por uma funcionária, Vanessa Minter, que passa a chamada para um colega, Winston Sadler. Este aciona um gravador.
— Meu nome é Betty Ong — a aeromoça procura fazer um resumo rápido do que está acontecendo. — Sou a número 3 na econômica. O cockpit não está respondendo. Alguém foi esfaqueado na executiva. Jogaram gás Mace. É impossível respirar lá. Não sei, acho que estamos sendo seqüestrados.
O burocrata pede calmamente:
— Você pode descrever a pessoa… essa que foi atacada na executiva?
— Estou sentada bem mais atrás — Betty esclarece, conseguindo manter o sangue-frio. — Uma colega foi ver o que aconteceu. Ela está voltando. Espere um pouco.
Depois de alguns segundos, Betty Ong retoma a ligação: — Nossa número 1 foi esfaqueada. A chefe de equipe também. Ninguém sabe quem fez isso. E não dá pra ir lá pra frente, por causa do gás.
Percebendo a gravidade do fato, Sadler transfere a chamada para sua supervisora, Nydia Gonzalez. Esta liga para Craig Marquis, responsável de serviço no Centro de Operações da American Airlines em Fort Worth, Texas. Nydia passa a falar com Betty e Marquis ao mesmo tempo. Este, por sua vez, pede a um despachante da American para tentar um contato com o cockpit do AAL11, tentativa que se revela inútil.
Enquanto Betty Ong fala com a supervisora Gonzalez, sua colega da econômica Amy Sweeney passa as mesmas informações para Michael Woodward, do Serviço de Vôo da American Airlines, no aeroporto Logan, em Boston.
8h27. Cary, na Carolina do Norte, Fort Worth, no Texas, o Logan, em Boston, o quartel-general da FAA, em Washington, o Centro Boston, em Nashua, além de diversas aeronaves em vôo sobre a região Nordeste já sabem do seqüestro do AAL11. Mas ninguém se lembra de enviar um alerta geral para todas as companhias aéreas e para os diversos centros e torres de controle espalhados pelo país, uma vez que a hipótese de múltiplo seqüestro não é cogitada.
E, no entanto, a bordo do UAL175 (cruzando a ponta noroeste do estado de Connecticut) e do AAL77 (que se aproxima da Virgínia do Oeste) dez kamikazes da al-Qaeda estão prontos para entrar em ação. Um quarto vôo, o UAL93, com Ziad Jarrah e seus três comandos sentados na primeira classe, após 27 minutos de atraso inicia o pushback no Aeroporto Internacional de Newark.
Na classe econômica do vôo 93, o piloto privado e ex-controlador de tráfego aéreo Andy Garcia está voltando de uma viagem de negócios. Ele agora é dono de uma empresa de representações. Uma de suas filhas, Kelly, é apaixonada por aviação, tal como o pai. Antes, eles costumavam passear em aeroportos, para ver os jatos decolando e pousando. E é isso que Garcia vê da janela do UAL93.
Os dias de férias na Europa de Liz Wainio, também sentada na econômica, ficaram para trás. Ela agora segue para a reunião de trabalho do Discovery Channel, em São Francisco.
Ao lado de Liz, está Lauren Grandcolas, grávida de três meses, que conseguiu pegar um vôo mais cedo para casa. Ela trabalha no setor de venda de anúncios da revista Good Housekeeping.
Enquanto no vôo 11 Mohamed Atta desce o rio Hudson, os funcionários da American Airlines, Nydia Gonzales, na Carolina do Norte, e Craig Marquis, no Texas, já descobriram os nomes, inconfundivelmente árabes, dos cinco seqüestradores. Isso graças à comissária Betty Ong, que, após examinar o manifesto (lista de passageiros indicando o assento de cada um) de bordo, lhes passou os números das poltronas ocupadas por eles antes do ataque.
Marquis se apressa em informar o FBI. Mas a medida não surte efeito prático algum, pois não ocorre a ninguém verificar nomes árabes em outros vôos daquela manhã. E vários desses nomes estão na lista de suspeitos (watchlist) do CAPPS (sistema computadorizado de vigilância de passageiros).
Como o American 11 já fez seu retorno para o litoral, e o 175, que decolou do Logan 15 minutos depois, prossegue no rumo oeste, as duas aeronaves agora se encontram próximas, uma da outra, no leste do estado de Nova York. Suas rotas atuais são perpendiculares e convergentes. O UAL175 acaba de atingir seu nível de cruzeiro: 31 mil pés (9.500 metros).
Tal como aconteceu no AAL11, no vôo 175 apenas dois dos terroristas, Fayez Banihammad e Mohand al Shehri, viajam na primeira classe. Marwan al Shehhi, que irá pilotar o avião, e seu companheiro Hamza al Ghamdi estão em assentos da frente na executiva. Ahmad al Haznawi, sentado na poltrona 9D, também na executiva, cobre a retaguarda. Enquanto os comissários de bordo servem o café-da-manhã, Al Shehhi deve estar exultante ao ver que, lá fora, o tempo continua magnífico. Sabe que seus dois companheiros, na primeira, aguardam apenas que a porta do cockpit seja aberta para iniciar o ataque.
Na ilha de Manhattan, o tetraplégico Ed Beyea chega ao World Trade Center. Sua assistente, Irma Fuller, o recebe na saída da estação de Fulton Street, do metrô. Assim como faz todos os dias, Irma leva Beyea até o 27º andar da Torre Norte.
Já na mesa de trabalho de Ed, Irma ajusta, na cabeça do colega, um dispositivo que permite a ele digitar, com uma vareta presa em uma haste curva fixada na testa, o teclado do computador. O telefone ao lado da mesa aceita comandos de voz para completar as ligações.
Além da imobilidade, Ed Beyea sofre de dores o tempo todo, aliviadas com sedativos.
Depois de ajeitar Beyea, e de lhe passar um copo d’água e o primeiro comprimido do dia, Irma sobe para a lanchonete do 43º andar.
Patricia Massari, que também trabalha na Torre Norte, só que 71 andares acima de Beyea, também desembarca em Fulton Street. No subsolo do WTC, ela compra, numa drugstore (misto de lanchonete e farmácia), um lanche, para comer no escritório, e um kit de teste de gravidez. Patricia sobe para a Marsh & McLennan, empresa onde é analista financeira.
O sonho de Chris Young, 33 anos, é ser cantor e ator. Mas, enquanto não consegue deslanchar uma carreira no showbiz, ele se conforma em trabalhar, como mensageiro, na mesma Marsh & McLennan, só que um andar acima de Patricia. Ele acaba de chegar ao escritório, trazendo uma apresentação de Power Point. Aguarda que testem o material, antes de descer para executar outra tarefa.
Um pouco antes das 8h30, Joseph Pfeifer, chefe do 1º Batalhão do Corpo de Bombeiros de Nova York, sai do quartel, acompanhando alguns de seus homens que irão verificar um possível vazamento de gás em um bueiro. O cinegrafista francês Jules Naudet vai junto com o chefe, para filmar o serviço.
Mil e quinhentos quilômetros a sudoeste de Manhattan, em Sarasota, Flórida, a comitiva de George W. Bush deixa o Colony Beach Resort em direção à Escola Elementar Emma E. Booker, onde o presidente vai dar a aula sobre leitura.
Bush, assim como as principais autoridades do país, não faz a menor idéia de que um Boeing 767 da American Airlines foi seqüestrado em seu vôo de Boston para Los Angeles, tendo alguns de seus ocupantes sido esfaqueados pelos seqüestradores.
8h36. A bordo do vôo 11, Mohamed Atta deve ter cometido alguma barbeiragem, pois as comissárias Amy Sweeney, falando com Boston, e Betty Ong, com a Carolina do Norte, informam, apavoradas, que o avião deu uma queda brusca de asa. E agora perde altura rapidamente.
Neste momento, o AAL11 entra no espaço aéreo controlado pelo Centro de Controle de Vôo (ARTCC) de Nova York, em Ronkonkoma, Long Island. Os movimentos súbitos e não convencionais do 767 permitem que os controladores John Hartling e Dave Bottoglia identifiquem o blip primário do avião em suas telas de radar. Mas Hartling continua sem acreditar em seqüestro.
— Isso não acontece mais neste país — ele afirma, convicto, ao colega.
8h37. Em Nashua, o Centro Boston, que também vê o blip se movendo erraticamente, quer ter certeza de que se trata do AAL11. Resolve apelar para outra aeronave. E escolhe justamente o vôo 175, da United, que se encontra próximo da movimentação suspeita.
— Vocês, por acaso — pergunta Nashua —, estão vendo um 767 da American? Perdemos contato com ele há 17 minutos. Mas temos um sinal primário de radar, 45º à direita de vocês, a uns 15 quilômetros.
No cockpit do 175, Saracini e Horrocks olham na direção indicada e vêem o avião.
— Ele está a uns 28, 29 mil pés. Vem na direção sul. Vai cruzar por baixo da gente — informa Horrocks.
— Afastem-se dele, afastem-se dele — Boston instrui de bate-pronto.
Não ocorre a Boston, muito menos aos pilotos do UAL175, que este poderá sofrer o mesmo destino do vôo 11. Isso por muito pouco tempo. A porta do cockpit se abre e surgem dois estranhos, bandanas vermelhas na testa, armados de pequenas facas.
Corbis / Stock Photos©
Para perplexidade das pessoas que assistiam ao incêndio na Torre Norte, um segundo avião se aproxima do World Trade Center.