Plano de Ataque: A História dos Voos de 11 de Setembro
Segunda-Feira, Véspera do Ataque
SEGUNDA-FEIRA, VÉSPERA DO
ATAQUE
Embora fosse um empresário bem-sucedido, Mark Bingham, 31 anos, vinha perdendo o entusiasmo por seu negócio, o Grupo Bingham de relações públicas. Sua prioridade tornou-se curtir a vida. Agora passava mais tempo em seu apartamento de Nova York do que no de São Francisco, onde funcionava a sede da empresa.
Mesmo o rúgbi, uma de suas grandes paixões, vinha sendo deixado de lado. Pois o Fog’s, time amador no qual jogava na defesa, formado quase só por gays, também ficava em São Francisco. Mark Bingham, por sinal, era gay assumidíssimo. Sua mãe, Alice Hoglan, ex-comissária de bordo da United Airlines, que o criara sozinha, aprovava, sem maiores reservas, a opção sexual do filho.
Mark encontrava-se em Nova York desde 1º de setembro. Com sua ausência, pequenos problemas se acumularam no escritório. Agora, ele precisava retornar à Califórnia, para resolvê-los. Por isso, fez reserva num vôo que sairia cedinho de Newark na terça-feira, dia 11. Como queria aproveitar bem suas últimas horas na Costa Leste, combinou um encontro com um amigo, Matt Hall.
Depois de cruzar o Atlântico, o gerente de contas da Oracle, Todd Beamer, e sua mulher, Lisa, vindos da convenção em Roma, pousaram em Newark no meio da tarde. Pegaram o carro no estacionamento do aeroporto e viajaram ao encontro da mãe de Lisa, que, por sua vez, veio em direção a eles, com as crianças. No meio do caminho, os dois carros se interceptaram numa área de piquenique ao lado da rodovia. David e Drew foram passados do carro da avó para o dos pais. Estes seguiram para Cranbury. No dia seguinte, Todd teria de voltar a Newark, de onde sairia o vôo 93 para São Francisco.
Conhecida em todo o país, e mais ainda nas altas rodas do poder em Washington, Barbara Olson, 45, era uma mulher conservadora e influente. Casada com o procurador-geral dos Estados Unidos, Ted Olson, ela era advogada, autora de vários livros e comentarista política da TV. Entre os seus maiores desafetos estavam o ex-presidente Bill Clinton e sua mulher, Hillary, temas prediletos de suas críticas contundentes.
Barbara tinha um compromisso, em Los Angeles, na terça-feira, 11 de setembro. Planejou ir para lá num vôo do dia 10. Mas mudou de idéia. Dia 11 era o aniversário de Ted e ela queria estar com ele, ao menos no café-da-manhã. Remarcou seu bilhete para o vôo 77, da American Airlines, que sairia do aeroporto Dulles às 8h12 de terça.
Se Todd Beamer tivesse embarcado na segunda, como planejara no início, enfrentaria contratempos. O aeroporto de Newark passava por obras de expansão. Logo após os Beamer terem chegado da Itália, irrompeu um incêndio num dos canteiros de serviço. Uma pista de taxiamento (taxiway) foi interditada e vários vôos transferidos para o Kennedy.
A mudança de aeroporto foi justamente a razão pela qual Jeremy Glick, o faixa preta de judô, adiou seu vôo de segunda para terça. Ele se hospedava na casa dos sogros, nas montanhas Catskill, 150 quilômetros ao norte de Nova York, com sua mulher, Lyz, e Emmy, a filhinha de dois meses do casal. Ao saber da alteração, Jeremy decidiu remarcar sua reserva para o vôo 93, de terça-feira, cuja decolagem a United Airlines garantia para Newark.
Glick era gerente de vendas da Vividence Corp, empresa especializada em ensinar técnicos a aproveitar melhor a Internet. Mas, após a chegada de Emmy, ele relegara o trabalho a segundo plano. A ida a São Francisco era sua primeira viagem de negócios desde o início do verão. A própria Lyz insistira com o marido para que ele voltasse à sua rotina normal:
— Pare de se preocupar com Emmy. Deixa que eu cuido dela.
Além de fanático religioso, o saudita Abdulaziz al Omari era um homem de pavio curto. Não raro, se metia em confusões que poderiam ser evitadas. Por isso, Mohamed Atta o selecionou para passar, com ele, a noite de 10 para 11, em Portland, no Maine. De lá, na madrugada de terça, eles partiriam num vôo regional para o Logan, ponto de partida do AAL11. Com Omari sob vigilância, o líder dos kamikazes se sentia mais tranqüilo.
No início da tarde de segunda, Atta deixou o hotel em Newton, onde havia se hospedado durante uma noite com Marwan al Shehhi. Dirigindo um Nissan azul e prata da locadora Álamo, o egípcio buscou Omari no Milner Hotel. Os dois pegaram a interestadual 95 e seguiram, rumo norte, para Portland, a 160 quilômetros de distância.
Dois mil e duzentos quilômetros a sudoeste de Portland, o presidente George W. Bush, após passar o dia com amigos e líderes políticos da Flórida, iria dormir no Colony Beach Resort, hotel de luxo construído em meio a um local de natureza exuberante, uma ilha de coral no Golfo do México, em Sarasota. Seu compromisso para a manhã seguinte seria dar uma aula, sobre a importância da leitura, na escola primária Emma E. Booker, próxima do hotel. Depois da aula, a agenda oficial previa a volta de Bush a Washington.
San Diego, Califórnia. Após ter recebido, dias antes, um telefonema de Nawaf al Hazmi, Mohdar Abdullah, frentista do posto de gasolina onde Hazmi trabalhara no ano anterior, deu com a língua nos dentes. Espalhou, em seu círculo de amigos, que algo importante iria acontecer.
Na segunda-feira correram rumores pela comunidade muçulmana local. Falou-se à boca miúda que iria haver um ataque dentro dos Estados Unidos. Alguns poucos aguardavam com entusiasmo o golpe contra os infiéis. A maioria, preocupada, temia que uma retaliação americana lhes custasse os empregos. Mas ninguém avisou à polícia.
Em Newark, Ziad Jarrah pôs a carta para Aysel no correio, junto com alguns objetos pessoais. Se algum tipo de imprevisto acontecesse, e o desfecho da Operação Aviões fosse adiado, ela, ao receber o pacote, poderia deduzir que um ataque fora planejado.
Mas, até aquele momento, Aysel Senguen não tinha motivos para desconfiar de nada. Cinco fusos horários a leste do noivo, internada em um hospital alemão, ela dormia profundamente, ajudada por um sedativo. Fora operada das amígdalas naquela segunda-feira e iria passar a noite no hospital.
Jarrah e seus três companheiros jantaram no Priscilla’s, restaurante italiano do próprio Hotel Marriott. Quem porventura viu, à mesa, Ahmed al Nami, com seu rosto inocente de menino, Saeed al Ghamdi, nariz arrebitado e orelhas de gnomo, Ahmad al Haznawi, bigodinho preto, cicatriz no alto da testa e fisionomia sinistra, e Ziad Jarrah, com seu par de óculos de armação fina e aparência de intelectual, não teve como adivinhar que aquele grupo de jovens, fazendo silenciosamente sua última refeição, se preparava, talvez sem ter plena consciência disso, para pôr fim a uma era e inaugurar outra.
No quartel do 1º Batalhão do Corpo de Bombeiros, em Lower Manhattan, os irmãos Naudet, que rodavam o documentário sobre o novato Tony Benetatos, foram desafiados a fazer o jantar dos homens de plantão.
Gedeon e Jules optaram por assar um pernil de cordeiro. Sendo eles franceses, os bombeiros se sentaram à mesa cheios de expectativas. Mas os Naudet eram cineastas, e não chefs. O prato saiu intragável.
Do outro lado do Hudson, em Nova Jersey, o empresário e jogador de rúgbi Mark Bingham se divertiu a valer na casa de seu amigo Matt Hall. Parecia ter esquecido que iria pegar um vôo muito cedo, de Newark para São Francisco. Bingham bebeu todas, já com saudades de suas férias nova-iorquinas.
Hospedados no Comfort Inn, em South Portland, na margem sul do rio Fore, Mohamed Atta e Abdulaziz al Omari puderam ver a noite magnífica, com a lua em quarto minguante e nenhuma nuvem no céu.
Os dois saíram para dar uma volta. Sacaram dinheiro num caixa eletrônico — onde uma câmera de segurança registrou a imagem de Omari, com Atta ao fundo —, compraram artigos de toalete numa loja do Wal Mart e jantaram no Pizza Hut.
De volta ao hotel, Atta e Omari nem tentaram dormir nas poucas horas que os separavam da saída para o Portland International Jetport. Sabiam que isso seria impossível naquela noite absolutamente extraordinária. Depois de encher a banheira, Atta deitou-se na água morna e iniciou o ritual de purificação dos mártires. Perfumou-se. Raspou os excessos de pêlo do corpo.
Em dois hotéis da Grande Boston, os outros oito jihadistas que iriam embarcar no aeroporto Logan também fizeram sua mentalização para o ataque.
“Visualize a batalha antes de entrar nela”, dizia o manual da al-Qaeda.
A Operação Aviões, imaginada por Abdul Murad e Ramzi Yousef, dirigida por Khaled Sheik Mohamed, sob liderança de Osama bin Laden, o Samaritano, vencera inúmeros obstáculos, muitos deles conseqüentes de trapalhadas de seus próprios integrantes. Restava a parte mais difícil e importante: o ataque.
Naquela noite de 10 para 11 de setembro de 2001, milhares de pessoas foram dormir na Costa Leste americana sem ter a menor noção de que, no dia seguinte, um holocausto iria atingi-las. Enquanto isso, os 19 predadores da al-Qaeda aguardavam, de olhos abertos, o momento de cumprir seu destino.
Uma câmera de vigilância do aeroporto de Portland registrou a passagem de Mohamed Atta, antes de embarcar no vôo da American Air Lines.