Plano de Ataque: A História dos Voos de 11 de Setembro

O Bailarino da Torre Norte

Tal como aconteceu com seus colegas do AAL11, o comandante Victor Saracini, do vôo 175, e seu copiloto Michael Horrocks são abatidos, sem nenhuma chance de defesa, pelos suicidas da al-Qaeda Fayez Banihammad e Mohand al Shehri. Segundos depois, Marwan al Shehhi chega ao cockpit para assumir os controles do avião.

Os dois seqüestradores restantes, Ahmed al Ghamdi e Hamza al Ghamdi, executam o planejado. Exibem uma falsa bomba aos passageiros da primeira classe e da executiva, assim como aos comissários de bordo. Misturando palavras em árabe com uma algaravia que supõem ser inglês, e gesticulando muito, obrigam todos a se mover para a classe econômica.

 

Cento e dez quilômetros ao sul do UAL175, no Aeroporto Internacional de Newark, o vôo 93 da United Airlines, após ter se atrasado por mais de meia hora, decola para São Francisco. O comandante Jason Dahl e seu copiloto Leroy Homer não estão sabendo do seqüestro do AAL11, ocorrido há meia hora, muito menos têm razões para desconfiar de quatro passageiros, todos árabes — Ziad Jarrah e seus comandos —, sentados na primeira classe do Boeing, poucos metros atrás do cockpit.

Jarrah, por sinal, não pára de olhar para seu relógio, aflito com o atraso. Tudo foi planejado de modo que os ataques aconteçam simultaneamente. O Capitólio, seu alvo, poderá ter sido evacuado se o vôo 93 chegar lá muito depois de as Torres Gêmeas e o Pentágono terem sido atingidos.

Nos últimos tempos, Ziad Jarrah se preparou com critério e determinação. Além de seus treinamentos de pilotagem, ele estudou longamente, em seu apartamento na Flórida, uma foto ampliada do cockpit de um Boeing 757. Em Dania Beach, ao norte de Miami, ele teve, no mês de maio, aulas de lutas marciais com Bert Rodriguez, instrutor de agentes do FBI. E, para não ter problemas em sua navegação até o Capitólio, Jarrah se familiarizou com o funcionamento do aparelho de GPS que traz agora numa valise de mão.

Talvez Ziad Jarrah esteja pensando em sua noiva, a turca Aysel Senguen. Como ela receberá, na Alemanha, a notícia de sua morte? Que sentirá ao ler a carta que ele lhe enviou na véspera?

 

Próxima a Ziad Jarrah, sentada em um tamborete retrátil junto à porta dianteira da aeronave, a chefe de equipe do vôo 93, Debbie Welsh, fala pelo PA:

— Senhoras e senhores, daqui a pouco será iniciado o serviço de bordo. Depois, exibiremos um filme.

Sendo piloto, e dos mais meticulosos, o passageiro Donald Greene presta atenção ao vôo de subida do Boeing. Greene está indo para Lake Tahoe, na divisa da Califórnia com Nevada, para praticar mountain bike com três de seus 12 irmãos, meios-irmãos e irmãos por afinidade.

No vôo 175, após se entender com os controles do cockpit, Marwan al Shehhi faz um desvio para a esquerda, alterando em 45º a direção sul/sudoeste determinada pelo comandante Saracini. Logo depois, o 175 cruza a divisa dos estados de Nova York e Nova Jersey.

Quatrocentos e sessenta quilômetros a sudoeste do 175, o vôo 77 da American Airlines, com o mesmo destino, Los Angeles, atinge seu nível de cruzeiro: 35 mil pés (10.650 metros). As comissárias servem o café-da-manhã.

 

Alertados pela FAA sobre o provável seqüestro do AAL11, a Força Aérea começa a tomar as primeiras providências. Na Base Otis, em Massachusetts, dois caças F-15, Eagles, pilotados pelo major Nash e pelo tenente-coronel Duffy, estão preparados para decolagem e interceptação do vôo 11. O problema é que o oficial que os supervisiona não faz idéia da localização do jato de passageiros. Passa a pressionar o NEADS, em Rome, querendo informações.

— Preciso de um rumo. Preciso de um maldito rumo — agonia-se o oficial.

No entanto, como Mohamed Atta desligou o transponder do American 11, o NEADS não consegue localizá-lo apenas pelo sinal primário de radar. E os F-15 continuam aguardando, parados, no solo.

Nenhuma das autoridades militares envolvidas sabe que, do AAL11, as comissárias Amy Sweeney e Betty Ong continuam em contato permanente com funcionários da American Airlines.

8h44. Há 25 minutos, Betty Ong passa informações a respeito do vôo para Nydia Gonzalez, em Cary, na Carolina do Norte, que, por sua vez, mantém uma linha aberta com Craig Marquis, em Fort Worth, Texas.

— Bom trabalho, Betty — Nydia procura incentivar a comissária.

Mas o AAL11 já mergulha sobre Manhattan. Betty Ong se limita a dizer:

— Reze por nós. Reze por nós. — Depois silencia.

Nydia Gonzalez se assusta.

— Betty, o que está acontecendo? Fale comigo, Betty. Você ainda está aí?

Nydia volta a falar com Marquis.

— Acho que nós a perdemos.

 

Cerca de 17 mil pessoas estão no complexo do World Trade Center quando, às 8h46min40s, o vôo 11 da American Airlines, pilotado por Mohamed Atta, se choca, a 790 km/h, contra a Torre Norte, atingindo-a diretamente desde o 93º até o 99º andar.

Minutos depois, as linhas telefônicas do Serviço de Emergência 911 encontram-se inundadas com pedidos de socorro. A maioria das pessoas que ligam ouve uma mensagem automática, informando que todos os circuitos estão ocupados. E os poucos que são atendidos se deparam com operadores que nada sabem do que aconteceu nas torres.

Cada um dá uma instrução diferente.

— Fique onde está!

— Abandone o prédio!

— Quebre a janela, para entrar ar fresco!

— Não quebre a janela, para não entrar fumaça.

Milhares de litros de combustível de aviação (um tipo de querosene conhecido como jet fuel), em chamas, descem pelos poços dos elevadores. O fogo explode portas, se expande por corredores e saguões. As três escadas se tornam intransitáveis do 92º andar para cima. Sem contar as pessoas que morreram instantaneamente na zona de impacto, outras centenas não sobreviverão ao calor, ao fogo e à fumaça.

Logo, para terror da multidão que começa a se reunir nas ruas de Lower Manhattan, muita gente, acuada pelo fogo, começa a pular dos andares do topo.

— Merda! Meu Deus! Não! — cada um lamenta, pragueja ou chora à sua maneira. Muitos correm para longe. Outros tantos, para perto.

Lá em cima, setecentos dos mil funcionários da empresa financeira Cantor Fitzgerald, que ocupa do 101º ao 105º andar da torre, estão em suas salas. No 106º e 107º, o restaurante panorâmico Windows on the World, além de seus 73 empregados, acolhe mais de cem clientes, alguns, freqüentadores habituais, outros, participando de encontros de negócios no café-da-manhã.

Tanto na financeira quanto no restaurante, ninguém sobreviverá.

 

Dois minutos após o choque do AAL11 contra a Torre Norte, o AAL77, 100 quilômetros a leste de Charleston, na Virgínia do Oeste, em sua rota para Los Angeles, se comunica com o Centro de Controle de Indianápolis. O copiloto David Charlebois pede para mudar o nível de cruzeiro.

Esta será sua última chamada.

Às 8h56min53s, Indianápolis tenta falar com o vôo 77, para um aviso de rotina, mas não recebe resposta.

— American 77, aqui Indianápolis, você está na escuta? — São 8h57min12s.

Nada.

— American 77, aqui Indianápolis. Você está na escuta? —

8h57min28s.

Nada.

O AAL77 torna-se o terceiro vôo a ser seqüestrado. A bordo do Boeing 757, Charlebois e o comandante Charles Burlingame têm o mesmo destino dos pilotos do AAL11 e UAL175.

 

Em Ronkonkoma, os controladores do Centro Nova York continuam, sem sucesso, tentando estabelecer contato com o UAL175, que parou de enviar sinais do transponder.

Às 8h44, o piloto do vôo 583 da United Airlines, voando do Reagan National, em Washington, para Denver, Colorado, havia informado a um controlador ter recebido um sinal de ELT (transmissor de localização de emergência) do vôo 175. Um minuto mais tarde, outra aeronave reportou a mesma coisa.

— Pegamos aquele ELT. Muito fraco, mas pegamos.

Tudo indica que os sinais foram pedidos de socorro dos pilotos do 175, antes de serem mortos.

O paradeiro do UAL175 só é descoberto, pelos blips primários, por um controlador de torre de um dos aeroportos de Nova York, quando sobrevoa a costa de Nova Jersey, já se aproximando do estuário do rio Hudson.

 

Numa das poltronas da classe econômica do 175, Peter Hanson, falando ao telefone com seu pai, em Easton, Connecticut, narra tudo que acontece a bordo, desde o momento do seqüestro. Outro passageiro, Brian Sweeney, 38, de Barnstable, Massachusetts, primeiro deixa recado na secretária eletrônica da mulher e depois fala pessoalmente com sua mãe, dizendo as mesmas coisas. Um mecânico do Centro de Manutenção da United Airlines, em São Francisco, recebe uma mensagem de uma comissária, cujo nome ele não entende, do UAL175. Ela diz que os pilotos tinham sido mortos e uma colega aeromoça, esfaqueada.

Os telefonemas de Hanson, de Sweeney e da comissária anônima registram para os órgãos de investigação, e para a história do 11 de setembro, os acontecimentos do vôo United 175.

 

Os dois F-15 da Força Aérea por fim decolam da Base Otis. Sua missão, interceptar o vôo 11, é impossível. Este já se chocou contra a Torre Norte do WTC. Sem saber para onde ir, os caças se dirigem à região costeira de Long Island, onde ficarão de sobreaviso.

 

Embora o AAL11 já tenha se desintegrado, o UAL175 desaparecido das telas de radar e jatos da Força Aérea decolado para fazer interceptações, o presidente Bush chega à Escola Emma Booker, em Sarasota, Flórida, sabendo apenas, pelo telefone da limusine, que um pequeno bimotor se chocou contra uma das torres do WTC.

O presidente não perde tempo em dar seu palpite.

— Deve ter sido um erro do piloto.

Só às 8h56, tendo já iniciado a sessão de leitura com as crianças, Bush recebe, num recado cochichado em seu ouvido pelo chefe de gabinete Andrew Card, a informação correta sobre o avião comercial que atingiu a torre.

Neste mesmo instante, os centros de controle de vôo da FAA sofrem mais um revés. Do cockpit do vôo AAL77, Hani Hanjour desliga o transponder, reduzindo o sinal do avião ao blip difícil de ser identificado.

 

9h00. Fort Worth, Texas. Quartel-general da American Airlines.

Um dos diretores executivos determina que todos os aviões da empresa, na região Nordeste, que ainda não decolaram, permaneçam no solo.

Aos poucos vai se formando a idéia de que os Estados Unidos possam estar sendo atacados por algum grupo terrorista. E ninguém faz a menor idéia do número de aeronaves envolvidas. Três, cinco, vinte, ninguém sabe.

Em seu gabinete na Casa Branca, o vice-presidente Dick Cheney senta-se para uma reunião quando um dos seus assessores entra rápido na sala e lhe diz para ligar a TV. A CNN transmite as primeiras imagens do incêndio. Uma coluna de fumaça negra sai do buraco aberto pelo AAL11 na Torre Norte.

— Por que diabos um avião vai bater logo no World Trade Center? — pragueja Cheney, ao ver, na tela do aparelho, o rombo na fachada do prédio.

No 27º andar da Torre Norte, assim que sentiu o escritório estremecer com o choque do vôo 11, e escutou as pessoas falando de uma explosão nos andares do topo, Abe Zelmanowitz lembrou-se de Ed Beyea, seu amigo tetraplégico, colega de empresa e de andar. Correu até ele. Encontrou-o em sua mesa, aturdido, ainda conectado aos equipamentos de digitação. Removeu os apetrechos.

— Calma — diz Abe. — Está tudo bem. Eu vou ficar com você até chegarem as equipes de socorro.

O próprio Abe, diabético, com 130 quilos de peso e sérios problemas renais, terá pouca utilidade na descida. Talvez precise de ajuda também.

Irma Fuller, assistente de Ed, desce correndo da lanchonete do 43º andar, onde tomava o café-da-manhã. No 27º, ela já encontra os dois amigos juntos. E é dispensada por eles.

— Desce lá embaixo e pede ajuda — diz Abe. — Explica a eles como está a situação aqui.

Serão necessários no mínimo uns quatro homens para levar Ed escadas abaixo. E terão de se afastar um pouco das escadas a cada andar, para não atrapalhar o trânsito de bombeiros subindo e sobreviventes descendo.

Abe Zelmanowitz liga para um irmão, Jack, que está em casa vendo o incêndio pela TV. Só então fica sabendo que um avião bateu acima deles. Logo depois, Ed, usando o celular de Abe, liga para sua mãe em Bath, no norte do estado de Nova York.

— Está tudo bem, mamãe. O Abe está aqui comigo — ele procura tranqüilizá-la.

 

Chris Young, o mensageiro da Marsh & McLennan que quer ser artista, desceu do 99º andar da Torre Norte para o saguão intermediário do 78º. Lá, pegou outro elevador para o térreo, onde estava quase chegando.

Pela primeira vez, desde que começou a trabalhar no Trade Center, Young se viu sozinho dentro de um dos enormes elevadores. Decidiu ensaiar alguns passos de dança. Enquanto cantava sua música favorita, I, Don Quixote, do musical Man of la Mancha, deu um salto de bailarino. Queria ver se, anulando o deslocamento, para baixo, do elevador, conseguia eliminar a gravidade e flutuar no ar, como numa nave espacial.

Imagine-se alguém que, no cubículo do toalete de um trem de passageiros em alta velocidade, após usar o vaso sanitário, puxe a alavanca de descarga. Nesse exato momento, lá na frente, na locomotiva, o maquinista enxerga um obstáculo na linha e aciona os freios de emergência. O trem sai arrastando as rodas pelos trilhos, trepidando em meio a um ruído ensurdecedor. A pessoa no toalete choca-se contra a parede, assustadíssima, certa de que puxou a alavanca errada e que seu gesto causou algum tipo de acidente.

Foi o que aconteceu com Chris Young. No instante em que seus pés bateram no piso do elevador, descendo do passe de balé, o American Airlines 11 chocou-se contra a torre, num ponto mais de 90 andares acima. O elevador deu um tranco e parou. Uma das luminárias despencou do teto. As luzes do painel piscaram. Young achou que tinha sido culpa sua.

Agora, o mensageiro/bailarino já está preso há 15 minutos. Tenta forçar as portas, mas não consegue abri-las. Às 9h01, ele consegue falar, pelo interfone, com um funcionário da Segurança. O homem promete que a ajuda vai chegar. Young nada fala sobre ter dado um salto. Nem o outro, sobre o avião que bateu no topo do prédio.

 

Um subdiretor administrativo da Torre Sul informa, pelo sistema de alto-falantes, que o incidente se restringe à Torre Norte. Aconselha as pessoas que estão abandonando seus escritórios a voltar para eles.

O operador de mercado e bombeiro voluntário Brian Clark nem pensa em descer. Ele está na Euro Brokers, 84º andar. Sua preocupação é acalmar os colegas.

Seis andares abaixo de Clark, Ed Emery, chefe do setor de Recursos Humanos do Fiduciary Trust, também está mais interessado nos outros do que em si próprio. Tendo descido do 97º para o lobby intermediário do 78º, de onde partem os expressos para o térreo, ele ajuda a multidão de pessoas que quer descer a se acomodar nos elevadores. A voz nos alto-falantes continua insistindo em que o incêndio é na torre ao lado.

Emery decide pelos indecisos:

— É melhor descer. Desce, desce.

Mas ele mesmo resolve subir, para ver se há mais gente nas salas da Fiduciary. Está preocupado principalmente com uma colega, Alayne Gentul, que acompanha um grupo de visitantes da Califórnia no 90º andar, onde a empresa tem parte de seus escritórios.

Também na Euro Brokers, Ron di Francesco mantém apenas um rabo de olho no movimento ao seu redor. Está interessado é na abertura dos mercados.

 

O mundo começa a saber da tragédia às 8h48, um minuto e vinte segundos após o choque do vôo 11 contra a Torre Norte. Nesse instante, a CNN leva ao ar seu primeiro boletim, dando a tragédia como notícia não confirmada.

São 5h48, em San Ramon, Califórnia. Deena Burnett está acordando. 8h48, em Cranbury, Nova Jersey. Lisa Beamer termina sua lista de supermercado. Mesmo horário nas montanhas Catskill. Lyz Glick cuida da filhinha Emmy. São 9h48 em São Paulo, 14h48 em Londres, 15h48 em Paris, 17h48 em Moscou. São 19h48 no Paquistão e Afeganistão. Num destes dois países, Osama bin Laden, escondido, aguarda, ansioso, o desfecho dos ataques à Cabeça da Serpente.

Em todo o planeta, as pessoas começam a telefonar para parentes e amigos.

— Liga a TV. Um avião bateu no World Trade Center.

A notícia se espalha pelos 24 fusos horários. Um telespectador em Pequim, onde são quase 10 horas da noite, sabe mais sobre a tragédia do que Ron di Francesco que, no 84º andar da Torre Sul, aguarda os mercados abrirem. Mas mesmo o homem de Pequim, assim como a maioria das centenas de milhões de pessoas que assistem ao incêndio, não entende quando outro avião se aproxima das Torres Gêmeas.

Um novo jato comercial, ali, simplesmente não faz sentido. Está totalmente fora do contexto. Muita gente pensa que se trata de uma recuperação de imagens do choque do AAL11 contra a Torre Norte, mesmo vendo, na tela, esta torre já em chamas. Outros, inclusive os narradores da TV, acham que se trata de uma ilusão, de um delírio ótico. As imagens televisionadas mostram o avião chegando, mas ninguém tem coragem de explicar, ou mesmo a capacidade de entender, do que se trata.

Pois bem, o delírio ótico se aproxima, em curva. Bate na Torre Sul, atingindo-a na extremidade leste da face sul.

A bordo do vôo 175, da United Airlines, a empresária Ruth Magdaline McCourt e sua filha Juliana, ao se esmagarem contra o Trade Center, voltam a se reunir, tal como Ruth combinara, com a amiga Paige FarleyHackel, madrinha de Juliana. Paige morrera ali mesmo, 17 minutos antes, em meio às ferragens do AAL11 pulverizadas no encontro com as 170 mil toneladas da Torre Norte.