Plano de Ataque: A História dos Voos de 11 de Setembro

Encontro em Finsbury Park

No dia 30 de janeiro de 2000, Ziad Jarrah voou de Karachi para a Alemanha. Após ficar alguns dias em Hamburgo, Jarrah foi à procura de Aysel Senguen, que não sabia da viagem dele ao Afeganistão. Os dois não se falavam havia três meses. Aysel não tinha a menor idéia do paradeiro do noivo, ou melhor, do ex-noivo.

Jarrah chegou ao apartamento da moça e tocou a campainha. Ao abrir a porta, Aysel viu, em vez do Ziad barbudo e enraivecido da última vez, um novo homem. De barba raspada, ele trazia às mãos um buquê de flores e um embrulho de presente.

Ela não se deixou seduzir pelas aparências.

— Vai embora, some daqui — bateu-lhe a porta na cara.

Ziad tentou uma segunda vez, uma terceira, uma quarta. Pediu, implorou. Disse que só desejava conversar. Os vizinhos de prédio já se sentiam incomodados com a campainha quando ela resolveu abrir.

— Eu quero pedir desculpas, explicar o que aconteceu — mais do que depressa, ele entrou no apartamento.

— Onde é que você estava durante todo esse tempo? — Aysel não escondeu sua revolta. Seu tio — ela elevou o volume da voz — ligou pra cá. Seu primo também. Seus pais telefonaram do Líbano. Eles estão desesperados. Você é um irresponsável.

Jarrah não se alterou:

— Eu vou falar com cada um deles, hoje ou amanhã. Quis ver você primeiro. Não fiz nada de errado, Aysel. Juro.

— Onde é que você estava?

— Isso eu não posso contar. Nem pra você, nem pra eles. Seria uma traição a outras pessoas. Só posso dizer que precisei cumprir um compromisso de honra. Agora, acabou tudo.

Ela ia protestar, mas ele a impediu, com um gesto de mão.

— Vê se entende, Aysel — Jarrah prosseguiu. — Acabou tudo. Eu amo você. O que aconteceu, aconteceu. Não vamos falar no passado. Daqui por diante, faço o que você me pedir. Nós vamos nos casar, ter filhos. Prometo que a gente vai ser feliz. Eu vou ser piloto.

— Piloto? Que novidade é essa? — Aysel lançou-lhe um olhar de desconfiança.

— É, piloto. Você sabe que eu sempre gostei de aviões. Vou tirar o brevê.

Aysel olhou demoradamente para Ziad, tentando decifrar os olhos dele.

Quinze minutos mais tarde, rolavam ferozmente na cama.

 

Mohamed Atta e Ramzi Binalshibh chegaram à Alemanha algumas semanas depois de Ziad Jarrah. Em março, Marwan al Shehhi, também de barba raspada, se uniu ao grupo. Levava uma vantagem sobre os companheiros: em seu passaporte constava um visto de entrada nos Estados Unidos, obtido nos Emirados.

Cumprindo determinações de KSM, Atta, Binalshibh, Al Shehhi e Jarrah passaram a se vestir, se arrumar e se comportar como ocidentais. Afastaram-se do convívio de extremistas, inclusive de Mohamed Haydar Zammar, mesmo sendo ele o pregador que primeiro lhes inspirara a jihad. Também pararam de freqüentar a mesquita Quds. Passavam horas e horas em cibercafés, freqüentando sites de escolas de aviação.

Logo Aysel Senguen se convenceu de que o noivo era novamente o alegre jovem libanês pelo qual fora conquistada quatro anos antes. Ziad falava, cada vez mais entusiasmado, sobre sua pretensão de se tornar um piloto de linhas aéreas.

O grupo de frente da Operação Aviões tentou algumas escolas de vôo européias, mas descobriu que eram caras e de difícil acesso. KSM já previra isso. Na Holanda, o diretor de uma delas recomendou a Ramzi Binalshibh que fosse para os Estados Unidos:

— O tempo de treinamento é menor — ele explicou. — É tudo mais fácil. Na América, em poucos meses qualquer um tira um brevê de piloto.

Ziad Jarrah também achava melhor ir logo para os Estados Unidos. O difícil era explicar isso a Aysel.

— Serão só alguns meses — ele, enfim, tomou coragem. — Entrei em contato com uma escola de pilotagem na Flórida. Logo estarei de volta. E você poderá me visitar lá.

— E quem é que está pagando por tudo isso?

— Sabe de uma coisa, Aysel? Você faz perguntas demais. Seu problema é não confiar em mim. Nos Estados Unidos, os cursos de vôo são muito mais baratos. Essa é uma das razões pelas quais estou indo.

Além disso, você sabe tão bem quanto eu, preciso me livrar de algumas pessoas. Aqueles caras de Hamburgo não largam do meu pé.

 

Até então, só Marwan al Shehhi possuía visto americano. O segundo a tentar foi Ramzi Binalshibh. Mohamed Atta (que aprendeu a falsificar e adulterar documentos, com a equipe de KSM, em Karachi) excluiu, do passaporte de Binalshibh, os registros de passagem pelo Paquistão. Apesar disso, o iemenita teve sua pretensão barrada no consulado dos Estados Unidos em Hamburgo.

Mohamed Atta e Ziad Jarrah conseguiram seus vistos sem problemas. Em vez de adulteração, Atta e Jarrah usaram o recurso de alegar perda de seus passaportes para obter documentos novos, sem os registros indesejáveis: Paquistão e Afeganistão.

 

Percebendo que dificilmente Binalshibh conseguiria uma permissão americana de entrada, KSM procurou um substituto. Eis que foi agradavelmente surpreendido, nos campos da al-Qaeda, por um jihadista saudita: Hani Hanjour. Este, além de já ter morado nos Estados Unidos, e de ser fluente em inglês, era piloto formado.

Em 1990, com apenas 17 anos, Hani Hanjour foi para o Afeganistão lutar contra os soviéticos. Mal chegou ao país, o Exército Vermelho bateu em retirada. Então o jovem seguidor foi servir numa ONG islâmica de ajuda humanitária.

Um ano depois, Hanjour mudou-se para os Estados Unidos. Foi estudar inglês na Universidade do Arizona. Mais tarde, na segunda metade da década de 1990, voltou à América, agora para aprender a voar. Freqüentou escolas de vôo na Flórida, Califórnia e Arizona. Em três meses, obteve um brevê de piloto privado.

Durante suas duas temporadas americanas, Hanjour não se integrou à sociedade local. Passava a maior parte de suas horas de folga nas mesquitas, onde conheceu diversos extremistas. Como ex-mujahedin, era ouvido e respeitado.

Em abril de 1999, após quase dois anos de treinamento na Arizona Aviation, em Mesa, nas proximidades de Phoenix, Hani Hanjour recebeu sua licença de piloto comercial. Regressou à Arábia Saudita mas, para sua grande frustração, não conseguiu emprego como aviador. Acabou trabalhando na fazenda de cultivo de limões e tâmaras de sua família.

Hani Hanjour não nascera para lidar com adubos, plantio, colheita, irrigação. Na primavera de 2000, ele voltou ao Afeganistão, agora para treinar no campo de al Faruq, da al-Qaeda. Foi então descoberto por Mohamed Atef, que logo deu conta do precioso achado a Osama bin Laden e KSM.

Tal como aconteceu com Atta, Binalshibh, Al Shehhi e Jarrah, Hanjour, envolvido pelo clima de fanatismo e fervor religioso do campo, jurou bayat (fidelidade) a Osama bin Laden e se ofereceu como mártir. Logo seguiu para Karachi, onde recebeu instruções de Khaled Sheik Mohamed, aprendendo, entre outras coisas, um sistema de linguagem em código. Mas KSM não precisou instruir Hanjour sobre a vida na América. Ambos tinham o mesmo tempo de experiência.

Enquanto isso, Ramzi Binalshibh voltou a ter um pedido de visto recusado. Seu ódio aos Estados Unidos aumentou. E não se conformou em exercê-lo à distância. Pensou em casar-se com uma cidadã americana, para poder entrar no país. Através de um site promotor de casamentos, correspondeu-se com uma mulher na Califórnia. Mohamed Atta descobriu e vetou a idéia, que poderia pôr em risco a Operação Aviões. Binalshibh fez uma última tentativa. Viajou para sua terra natal, o Iêmen. Foi ao consulado. Nova recusa.

De volta à Alemanha, Binalshibh não teve outra alternativa senão a de atuar no papel de intermediário entre a linha de frente do ataque, comandada por Mohamed Atta, e a liderança da al-Qaeda, nos campos do Afeganistão e em Karachi.

 

No outono de 2000, um muçulmano francês de origem marroquina chamado Zacarias Moussaoui, também candidato à jihad, foi enviado por Khaled Sheik Mohamed à Malásia para aprender a pilotar. Mas não se adaptou às escolas de vôo locais. KSM então lhe determinou que fosse ter lições nos Estados Unidos. Sendo Moussaoui cidadão francês, não houve problemas de obtenção de visto americano.

A viagem de Moussaoui de Kuala Lumpur para a América se fez em duas etapas. Ele passou algumas semanas em Londres. Ramzi Binalshibh saiu de Hamburgo especialmente para conhecê-lo e passar instruções. O encontro dos dois aconteceu na mesquita de Finsbury Park, ao norte da cidade. Binalshibh informou a Moussaoui que o matriculara na Escola de Vôo Airman, em Oklahoma.

Alguns dias depois, Zacarias Moussaoui viajou para os Estados Unidos.

 

O torniquete da al-Qaeda foi apertando. Cada kamikaze chegava de um lugar diferente. Na terça-feira, 30 de maio de 2000, Marwan al Shehhi desembarcou em Newark, procedente de Bruxelas. Foi para um hotel de Nova York, onde aguardou Mohamed Atta. Este, dentro da mesma estratégia de despistar, viajou de ônibus de Hamburgo para Praga, na República Tcheca. De lá, voou para os Estados Unidos, onde aterrissou, também em Newark, no sábado, 3 de junho. No guichê da Imigração, Atta exibiu seu visto de turista, com múltiplas entradas. Recebeu autorização de permanência de seis meses no país.

Ziad Jarrah, que avisou, por telefone, aos seus pais, no Líbano, que iria aprender a voar nos Estados Unidos, chegou só no final do mês. Em Newark, ele pegou um vôo doméstico para a Flórida, onde se matriculou na FFTC, escola de vôo na cidade de Venice, na Costa Oeste do estado.

Como já era piloto, Hani Hanjour só chegou aos Estados Unidos no início de dezembro. Desembarcou no Aeroporto Internacional de Los Angeles, procedente de Dubai, via Paris e Cincinatti. Nawaf al Hazmi, que já morava em San Diego havia quase um ano, foi recebê-lo. Hazmi era um exemplo claro de que um piloto suicida não se faz apenas com determinação e dinheiro para custear as aulas de vôo. É preciso um mínimo de aptidão, o que definitivamente não era o seu caso.