Plano de Ataque: A História dos Voos de 11 de Setembro

Torre Sul: Um Minuto para as Dez

TORRE SUL: UM MINUTO PARA AS

DEZ

São 9h57 da manhã de 11 de setembro. Já se passaram 54 minutos desde que a Torre Sul foi atingida pelo UAL175 e uma hora e 11 minutos desde o choque do AAL11 contra a Torre Norte. Mais de um bilhão de pessoas, nos cinco continentes, assistem ao incêndio pelas telas da TV. Embora todos saibam que o número de vítimas será horrendo, termo que seria usado mais tarde pelo prefeito de Nova York, Rudolph Giuliani, ninguém, ou quase ninguém, imagina que as torres possam cair.

Equipes de socorro continuam entrando nos dois prédios e multidões se aglomeram em Lower Manhattan, perigosamente próximas ao World Trade Center. Nenhuma das emissoras de rádio e televisão que transmitem a tragédia menciona a hipótese de um colapso das torres.

 

— Temos de esperar que as coisas se esclareçam, antes de regressarmos a Washington — a bordo do Força Aérea no 1, o chefe de gabinete Andrew Card é um dos que tentam mostrar a George Bush o risco que representa ir para a Casa Branca neste momento.

Enquanto isso, a aeronave presidencial, voando a 35 mil pés (10.600 metros), continua fazendo longos círculos, no sentido anti-horário, sobre o Aeroporto Sarasota/Bradenton, tangenciando, a oeste, a Baía de Sarasota e o Golfo do México e, a leste, os condados de Hardee e DeSoto. No cockpit, o coronel Mark Tillman, comandante do jumbo, aguarda, ansioso, a definição de um destino. Os jornalistas que viajam de carona, acompanhando a comitiva de Bush, são proibidos de telefonar para suas redações.

Depois de muita confabulação entre assessores do presidente e o pessoal do Serviço Secreto, decide-se ir para alguma base da Força Aérea, onde boa parte dos jornalistas e pessoas não essenciais possam desembarcar, e o Boeing ser reabastecido. Além disso, é preciso que Bush fale ao país sobre a tragédia que se desenrola na região Nordeste.

A escolha recai sobre a Base de Barksdale, em Louisiana, 1.200 quilômetros a noroeste, distância que sobe para 1.500, pois o coronel Tillman não quer seguir uma linha reta, o que implicaria sobrevoar águas internacionais no Golfo do México. Ele prefere adotar uma rota em forma de cunha, passando sobre Tallahassee e mantendo-se o tempo todo no espaço aéreo americano.

Mal o Força Aérea no 1 termina de executar suas curvas e inicia a jornada para Barksdale, dois caças se aproximam, um de cada lado, e passam a escoltá-lo. Se, por um lado, a segurança do presidente agora está melhor, seu sistema de comunicações funciona pessimamente. Bush não consegue falar com o secretário de Defesa, Donald Rumsfeld. E suas ligações com o vice-presidente Cheney, que continua no abrigo subterrâneo da Casa Branca, caem a todo instante.

A única fonte atualizada de informações a bordo do avião presidencial é a CNN. Todos, tripulantes, integrantes da comitiva, jornalistas e convidados, se debruçam sobre as telinhas para acompanhar as cenas do incêndio em Lower Manhattan.

 

Na Torre Sul do WTC, Ed Emery, diretor de Recursos Humanos do Fiduciary Trust, encontra-se no 97º andar, 14 acima do topo da zona de impacto. Ele vasculha os escritórios da empresa, em busca de sobreviventes.

O bombeiro voluntário e operador da Euro Brokers, Brian Clark, e Stanley Praimnath, cuja vida havia sido salva por Clark, acabam de sair da torre. Procuram se afastar rapidamente do prédio. Quando chegam à igreja da Trindade, quatro quarteirões a sudeste do Trade Center, dão uma parada para tomar fôlego. Voltam-se para ver o incêndio, lá em cima. Praimnath se ampara na grade da igreja e diz para Clark:

— As torres vão cair.

— Pelo amor de Deus, não diga uma coisa dessas. Ali só tem cortinas, carpetes, móveis, divisórias, esse tipo de…

Falta um minuto para as dez da manhã. Brian Clark não chega a terminar a frase.

 

Ao contrário da maioria dos arranha-céus, mantidos de pé por colunas centrais de concreto, as Torres Gêmeas do World Trade Center são sustentadas por sua estrutura externa, forjada em aço de 14 polegadas. Essa estrutura não fora projetada para resistir àquela fornalha.

O aço começa a se expandir, a se estufar para fora. Os vidros são comprimidos em seus caixilhos e explodem, em meio a estampidos que ecoam e ricocheteiam nos prédios próximos. O fogaréu, até então restrito ao interior dos andares, encontra oxigênio do lado de fora e se liberta em enormes bolas de fogo.

Em poucos segundos, para assombro de Clark, de Praimnath, da multidão aglomerada no sul da ilha, no Promenade de Brooklyn Heights, no Parque Battery, em Staten Island e nas barrancas de Nova Jersey e dos telespectadores do mundo inteiro, a Torre Sul cai. Cai na vertical, como numa implosão controlada, talvez um dos mais espetaculares desabamentos da História.

Na descida, os andares se achatam, como uma sanfona se fechando. Um a um, os escritórios da Torre Sul do World Trade Center se esfarinham ao encontro do solo rochoso de Manhattan. Uma nuvem de poeira, fumaça, cinzas, fuligem, pó de cimento, partículas de destroços e detritos os mais diversos, que se desdobra em gigantescos cogumelos horizontais, se espalha por todos os lados. Invade as ruas do setor financeiro, dobra esquinas, entra nos vãos das portas, alcança e engole as pessoas que correm, apavoradas.

 

Nos últimos 72 minutos, Ron di Francesco, operador da Euro Brokers, localizada no 84º andar da Torre Sul, viveu mais emoções do que em toda a sua vida. Permaneceu na mesa de trabalho, para não perder a abertura do mercado. Quando a asa direita do segundo avião se chocou contra o andar logo abaixo do seu, Di Francesco tentou subir para o terraço. Foi obrigado a fazer meia-volta. Depois atravessou, pela escadaria A, os seis andares da zona de impacto, sofrendo, no trajeto, ferimentos e queimaduras. Mesmo assim, desceu mais 77 andares até o lobby do térreo.

Quando chegou à rua, após fugir pelos corredores do subsolo, Di Francesco ouviu um estrondo. Olhou para trás. Uma bola de fogo, que caía dos céus, veio em sua direção.

 

O maratonista e chefe de batalhão do Corpo de Bombeiros Orio Palmer morreu enquanto tentava, num esforço tão inútil quanto heróico, apagar o incêndio no 79º andar da Torre Sul. Estava acompanhado de um companheiro, também chefe, Marshall Ron Bucca. As últimas palavras pronunciadas por Palmer, através de seu rádio portátil, foram de ingênuo otimismo:

— Chefe Palmer falando. Temos dois bolsões de fogo isolados aqui.

Acho que podemos extingui-los. Mandem reforços, rápido.

 

Ed Emery, dos Recursos Humanos do Fiduciary Trust, morreu 18 andares acima de Palmer. Antes da torre cair, Emery pôde falar, pelo telefone, com sua mulher, Elizabeth, em Clifton, Nova Jersey. Enquanto conversava com o marido, ela ouviu uma voz ao fundo da ligação:

— Onde estão as escadas? Onde estão as escadas?

O telefone emudeceu no exato momento em que Elizabeth via, na tela da TV, a torre de onde Ed falava com ela desmoronar feito um castelo de areia.

 

O bombeiro e operário de construção civil Tom Kelly, que jamais foi promovido na corporação, morreu esmagado no elevador que operava na Torre Sul. A bravura de Kelly, subindo e descendo, entre o lobby e o 40º, os andares de um edifício em chamas, apesar do medo que sentia, salvou grande quantidade de pessoas, inclusive vários colegas.

Seu último comunicado, seis minutos antes do colapso da torre, foi feito pelo interfone do elevador.

— Estou preso no poço. Repito: preso no poço. Vou forçar a porta e tentar esburacar a parede, para sair daqui.

© Reuters

Seqüência da queda da Torre Norte, apenas 29 minutos depois do desabamento da Torre Sul, no que parecia uma implosão controlada.