Plano de Ataque: A História dos Voos de 11 de Setembro

American 11, Está Me Ouvindo?

Os 19 homens da al-Qaeda, com suas facas e estiletes, já iludiram os sistemas de segurança de três dos maiores aeroportos da Costa Leste: Logan, Dulles e Newark. Doze dos terroristas tiveram seus nomes selecionados pelo CAPPS — controle automático de passageiros. As bagagens que despacharam foram retidas até que embarcassem. Agora, todos estão liberados, quietos em seus assentos, a bordo dos vôos 11, 175, 77 e 93.

Às 8h19, no Aeroporto Internacional Dulles, em Washington, o AAL77 inicia o pushback. No cockpit do Boeing 757, o comandante Charles F. Burlingame, 51 anos, e seu copiloto David Charlebois, 39, acompanham a operação. Lá atrás, os comissários (três mulheres e um homem) atendem os 58 passageiros, entre estes o piloto saudita Hani Hanjour, sentado na primeira fila da primeira classe, próximo à galley (cozinha de bordo) dianteira, onde a aeromoça Renee A. May, 39, dá início aos preparativos do café-da-manhã que será servido logo após a decolagem.

No aeroporto de Newark, o UAL93, um Boeing 757-222, prefixo N591UA, embora já com as portas fechadas, continua parado junto à ponte de embarque do portão 17 do Terminal A. O incêndio ocorrido na véspera obstruiu uma das pistas de taxiamento, congestionando as demais. O pushback do vôo 93 ainda não foi autorizado pela torre. Embora sem mencionar o incêndio, o comandante Jason Dahl fala aos passageiros sobre o contratempo.

— Senhoras e senhores, pedimos desculpas pelo atraso. Estamos aguardando permissão para taxiar até a cabeceira. Infelizmente, há outros vôos à nossa frente. — Dahl é um piloto experiente. Trabalha na United há mais de 17 anos.

Sandy Bradshaw, 38, uma das comissárias de serviço na classe econômica, adora seu trabalho. Ela e o marido, Phil, piloto da US Airways, gostam de viajar, de conhecer o mundo. Estão casados há 11 anos e têm dois filhos, uma menina de 3 anos e um bebê de 11 meses.

Uma das colegas de Sandy na econômica é CeeCee Lyles. Negra, 33, CeeCee é uma guerreira, tendo sido mãe solteira duas vezes, com filhos de pais diferentes. Jerome, o mais velho, tem agora 16. Jevon, 6. Antes de entrar para a United, no final de 2000, CeeCee foi, durante seis anos, detetive da polícia de Fort Myers, na Flórida, onde conheceu Lorne, também policial. Casaram-se em maio daquele ano. Lorne, que trouxe seus dois filhos para o casamento, continua na polícia.

O passageiro Jeremy Glick, campeão de judô, duro na queda, que já quebrou braços de oponentes em suas lutas, está com saudades de Emmy. Gostaria de tê-la no colo, como em todos os dias desde o nascimento da menina, dois meses antes.

Apesar da baixíssima taxa de ocupação do vôo 93 — 38 passageiros em 182 lugares — a primeira classe está bem cheia. Em seus 12 assentos, além dos quatro seqüestradores, estão Mark Rothenberg, que vai para Taiwan, numa poltrona de janela, Tom Burnett, de San Ramon, marido de Deena, e, à sua direita, do outro lado do corredor, Mark Bingham.

Bingham é muito conhecido em Castro Street, coração gay de São Francisco, talvez porque não faça o estereótipo do bairro. Um metro e 94 de altura, 90 quilos de peso, fã de heavy metal, o truculento beque do time de rúgbi do San Francisco Fog’s já sofreu, durante as partidas da equipe, fraturas e outras contusões sérias, que lhe deixaram diversas cicatrizes no corpo.

 

Enquanto o UAL93 continua parado junto ao terminal, em vez de descansar das poucas horas de sono e do vôo transatlântico da véspera, Todd Beamer trabalha no laptop. Em sua casa, 60 quilômetros a nordeste do aeroporto, Lisa, sua mulher, já se levantou. Desceu para o térreo, onde agora faz a lista do supermercado. Mas logo David e Drew surgem nas escadas. Ela troca as fraldas do menor e põe os dois para comer cereais com leite, sentados nos tamboretes do balcão da copa.

 

Em Boston, o vôo UAL175, cuja hora marcada de decolagem é a mesma do vôo 93, está taxiando para a cabeceira da pista 14 do Logan. Sentado em sua poltrona na classe econômica, o passageiro Louis Mariani não se sente nem um pouco à vontade. Definitivamente, voar não é a sua praia. Tem medo.

Talvez tivesse sido melhor pegar o mesmo vôo de Ellen, mesmo pagando um pouco mais. Naquele momento, ela voa para Chicago, escala de seu vôo para Los Angeles. Louis não vê a hora de encontrá-la novamente.

Embora os pontos de partida (Boston) e de destino (Los Angeles) do UAL175 sejam os mesmos do vôo AAL11, que decolou 15 minutos antes, a torre do Logan envia o 175 para a pista 14. Isso tem como vantagem um percurso de taxiamento menor (do Terminal C até a cabeceira da 14), mas como inconveniente o fato de que o vôo da United decolará em sentido quase oposto ao da rota para Los Angeles.

Exatamente às 8h14 da manhã, as rodas do UAL175 descolam da pista 14. O trem de pouso é recolhido, enquanto a aeronave, subindo num ângulo de 15º, inicia uma curva de 180º para a direita, sobre a Baía de Massachusetts. Depois, sempre ganhando altura, passa pelo través sul de Castle Island e entra no continente sobre South Boston.

 

O American Airlines 11 está 100 quilômetros a oeste de Boston, bem no centro geográfico do estado de Massachusetts. Em sua poltrona na classe executiva, às costas do israelense Daniel Lewin, e duas filas atrás do líder Mohamed Atta, o jovem saudita Satam al Suqami, moreno quase negro, cabelos curtos, pega sua valise debaixo da poltrona e a põe no colo. Abre-a, apalpa o interior até achar um estilete, embrulhado num lenço de papel. Desliza dois dos segmentos de lâmina para fora do invólucro de plástico da arma. Fecha a maleta, mas a mantém no colo.

Logo após a decolagem, uma das comissárias fecha a cortina divisória entre a primeira classe e a executiva. Com isso, Mohamed Atta perde contato visual com os irmãos Waleed e Wail al Shehri, sentados lá na frente. Como fez diversos vôos de observação, entre as costas Leste e Oeste americanas, Atta já esperava o procedimento.

 

Sem ter a menor razão para suspeitar da teia sinistra armada ao seu redor, é possível que Paige FarleyHackel, passageira do AAL11, esteja neste momento pensando em sua amiga Ruth Magdaline McCourt, que viaja com a filha Juliana (afilhada de Paige) a bordo do UAL175. As três deverão se reencontrar, dali a algumas horas, em Los Angeles.

8h10. No Centro Boston, em Nashua, New Hampshire, Peter Zalewski, controlador encarregado do vôo 11, dá instruções à aeronave:

— American 11, suba e mantenha nível 290 (29.000 pés ou 8.800 metros).

— Positivo, nível dois nove zero, American 11 — acusa Thomas McGuinness, copiloto do AAL11.

— American 11, observe tráfico às duas horas, distância 20 milhas, voando para sudoeste. É um MD80. — Para facilitar a localização do outro avião pelos pilotos do vôo 11, Zalewski se vale da posição do marcador de um relógio imaginário, procedimento inventado pela RAF durante a Segunda Guerra Mundial. Duas horas significa que o MD80 está um pouco à direita (uns 20º) do nariz do 767.

McGuinness e seu comandante, John Ogonowski, olham na direção indicada pelo Centro. Vêem uma pequena flecha prateada, brilhando ao sol e deixando atrás de si uma esteira dupla de condensação.

— American 11, positivo — acusa McGuinness.

— Vire 20º à direita — ordena o controlador Zalewski, para não correr o menor risco de haver uma rota de colisão entre as duas aeronaves.

— Vinte graus à direita — McGuinness responde, enquanto Ogonowski inicia a curva.

— American 11, suba e mantenha nível 350 — instrui Zalewski.

— Subir e manter 350 — a resposta do copiloto é mecânica.

É também sua última mensagem.

— American 11, Boston. — Depois de alguns minutos de silêncio, Peter Zalewski volta a chamar o vôo 11. — American 11, Boston

— Zalewski repete.

Nenhuma resposta.

— American 11, Boston. American 11, Boston.

Nada.

— American 11, está me ouvindo? American 11, está me ouvindo?

São 8h14min23s. Zalewski tenta se manter calmo.

— American Airlines vôo 11, Boston.

8h14min33s.

— American um, um, está me ouvindo?

Zalewski verifica se não é sua transmissão que está com problemas.

— Algum outro American na freqüência, como você me ouve?

A resposta não se faz esperar.

— Alto e claro. Alto e claro. — São dois os que atendem ao chamado do Centro.

Zalewski conclui que, se há problemas, estes são com o vôo 11.

— American 11, está me ouvindo? — O controlador faz nova tentativa.

 

Um minuto e meio antes, no vôo 11, a porta do cockpit fora aberta, para que o café-da-manhã pudesse ser servido aos pilotos. Waleed e Wail al Shehri, que só esperavam por isso, puseram bandanas vermelhas na testa e se levantaram de suas poltronas na primeira fila, estiletes nas mãos. Atacaram as comissárias da primeira classe, Bobbi Arestegui e Kay Martin.

Tal como aprenderam, matando camelos e carneiros nos campos da al-Qaeda no Afeganistão, e ouvindo palestras de Khaled Sheik Mohamed (KSM) em Karachi, os irmãos Shehri sabiam exatamente o que fazer.

Os estiletes deslizaram pelos pescoços das moças.

“Golpeie acima, na parte alta, sob as orelhas”, dizia o manual da al-Qaeda. “Cause o mínimo de dor ao animal, durante o sacrifício.”

 

Mesmo que fossem treinados para reagir a um ataque ao cockpit (o que não é o caso), as chances do comandante Ogonowski e de seu copiloto McGuinness de enfrentar, com êxito, homens armados de facas são quase nulas. Irônica ou tragicamente, na cabine há armas mais poderosas do que as dos atacantes: um machado (para quebrar o párabrisa e as janelas em caso de acidente) e um extintor de incêndio que lança gás a 100 graus negativos.

Entalados em seus casulos, com a alavanca do manche e os pedais à frente, a lateral da cabine num dos lados, o console de botões e interruptores do outro, manietados pelos cintos de segurança, até para uma simples ida ao banheiro os pilotos precisam fazer algum contorcionismo, esgueirando as pernas por uma fresta, entre a poltrona e o console, de um palmo de largura. Quanto mais soltar os cintos, erguer-se, virar-se e lutar com invasores.

Ogonowski e McGuinness revelam-se presas ainda mais fáceis do que as comissárias. Os estiletes são passados em seus pescoços, de trás para a frente, começando por baixo dos ouvidos, rompendo tecidos e vasos, cortando a laringe, a traquéia e rasgando as cordas vocais.

 

Em sua poltrona na classe executiva, do outro lado da cortina, Mohamed Atta não precisa ver as moças esguichando sangue, nem escutar seu gorgolejo de agonia, para saber que o ataque está começando.

Basta ouvir os gritos de pânico vindos lá da frente.

Atta levanta-se, com calma, para assumir o comando do Boeing.

Só que, na fila atrás dele, ocupando a poltrona de corredor da ala esquerda, o israelense Daniel Lewin ergue-se também.

 

Com sua longa experiência em contraterrorismo, no Exército de Israel, provavelmente Lewin teria sido páreo para Atta. Se tivesse posto o egípcio fora de combate, o AAL11, mesmo que nunca chegasse a aterrissar em um aeroporto, também jamais chegaria à Torre Norte do World Trade Center. Pois, após a morte de Ogonowski e McGuinness, só Mohamed Atta poderia pilotar o Boeing.

Daniel Lewin só não contou com Satam al Suqami, que o atacou pelas costas e rasgou seu pescoço com um estilete, liquidando-o.

TRAJETÓRIA DO VÔO AAL11

1. Aeroporto Logan, Boston, decolagem às 7h59 2. Seqüestro do avião, entre 8h13 e 8h14

3. Rota que deveria ser seguida para chegar a Los Angeles

4. Mohamed Atta desliga o transponder, impedindo a localização exata da aeronave pelos centros de controle

5. Início do vôo para Nova York, em Hudson Falls, às 8h20

6. Choque contra a Torre Norte do WTC, às 8h46min40s