Plano de Ataque: A História dos Voos de 11 de Setembro
Não Temos Outra Escolha
O CVR (gravador de vozes) do vôo 93 da United Airlines foi recuperado em meio aos destroços do Boeing, contendo tudo que foi falado, em árabe e em inglês, na cabine de comando e em suas proximidades, na meia hora que antecedeu a queda.
O FDR (gravador dos parâmetros de vôo) do UAL93, também resgatado, revelou todos os procedimentos adotados pelos pilotos do avião (primeiro, os da United, depois, o libanês Ziad Jarrah) até o instante final. Este aconteceu quatro minutos depois do colapso da Torre Sul do WTC e 25 minutos antes do esfacelamento da Torre Norte.
Durante os momentos de agonia, entre o seqüestro e o desfecho do vôo 93, diversos passageiros e pelo menos duas das comissárias de bordo conversaram com familiares e amigos, ou deixaram mensagens gravadas em secretárias eletrônicas. Portanto, apesar da ausência de sobreviventes, foi possível reconstituir quase tudo que aconteceu a bordo da aeronave.
Os próprios mortos relataram a tragédia.
Às 9h40, três dos quatro alvos da Operação Aviões já tinham sido atingidos com sucesso. Faltava apenas Ziad Jarrah chegar a Washington e lançar o vôo 93 sobre o prédio do Capitólio, sede, desde o início do século XIX, do Poder Legislativo dos Estados Unidos.
Em sua primeira ligação, para a mulher, Deena, em San Ramon, Califórnia, Tom Burnett revelou a ela que o vôo fora seqüestrado. Na segunda chamada, coube a Deena contar a Tom a respeito dos ataques às Torres Gêmeas. Nesse momento, ele teve consciência de que a missão dos seqüestradores do vôo 93 era suicida.
Após avisar, aos colegas passageiros, e às comissárias de bordo, a respeito do World Trade Center, e discutir com eles a situação, Tom ligou para Deena pela terceira vez:
— Nós vamos atacar os seqüestradores — ele disse, com a respiração descompassada. — Quem sabe a gente consegue tomar o avião de volta.
Em seus tempos de aeromoça, Deena Burnett sempre fora instruída a não reagir em casos de seqüestros. Por isso, não gostou nem um pouco da idéia do marido.
— Por favor, Tom, não faça isso — ela pediu. — Fica quieto, parado. Senta num canto qualquer. Não chame atenção sobre você.
— Não, Deena. Você não está entendendo. Se eles vão derrubar o avião, nós temos que fazer alguma coisa.
Deena não concordou nem discordou do argumento.
— Eu amo você, Tom — foram suas únicas palavras.
— Eu também — ele disse, antes de desligar.
Como os quatro seqüestradores se concentravam lá na frente — três no interior da cabine de pilotagem, e o quarto, no corredor ao lado da galley dianteira, vigiando, de longe, os passageiros através da cortina divisória das classes, entreaberta —, na parte dos fundos da econômica podia-se conspirar à vontade.
Seria impossível desencadear um ataque-surpresa, como o que sofreram. No momento em que atingissem a primeira classe e avançassem pelo corredor estreito em direção à cabine, os terroristas os enfrentariam. Se a tal bomba fosse mesmo uma bomba (a maioria dos reféns não acreditava nessa hipótese), morreriam todos. Como também morreriam se nada fizessem. Portanto, não se tratava de uma escolha das mais difíceis.
O importante era definir uma estratégia de combate. Como eram muitos (jovens, fortes, lutadores, esportistas), contra apenas quatro, armados de estiletes, canivetes e pequenas facas, mesmo que um ou dois ficassem feridos, ou até morressem, na retomada do avião, se não houvesse uma bomba a bordo as chances de sucesso do grupo eram bem razoáveis.
Além dos seqüestradores e reféns do UAL93, no tabuleiro de xadrez daquela manhã na Costa Leste outras peças eram importantes: dezenas de caças da Força Aérea que agora se encontravam no ar, armados de mísseis. Mas nenhum dos pilotos de combate recebera ainda instruções para abater um avião de passageiros.
Mais uma vez, a comissária Sandy Bradshaw conversava com o marido Phil, piloto da US Air, em Greensboro, Carolina do Norte. Informava-o sobre os planos de ataque aos seqüestradores:
— Estou aqui na galley, fervendo água. Pra usar contra eles. Você tem alguma sugestão?
Phil tentava esconder sua angústia. Aquilo tudo lhe parecia muito amador.
— Água fervendo? Ótimo — ele respondeu, sem firmeza na voz.
— Mas, Sandy, quem é que vai pilotar o avião depois que vocês…
Ela o interrompeu:
— Tem dois caras aqui que…
É óbvio que simplesmente matar, ou pôr fora de combate, os quatro seqüestradores de nada serviria aos passageiros e comissários sobreviventes se não houvesse alguém a bordo que pilotasse e pousasse a aeronave.
Tudo indica que esse processo seletivo tenha ocorrido assim que os reféns pensaram na hipótese de reagir. E, no contexto de um raciocínio lógico, a escolha só pode ter recaído em Donald Greene e Andy Garcia.
Greene, 52, além de ser fabricante de instrumental de aviação (incluindo equipamentos do Boeing 757), pilotava desde os 14 anos de idade e possuía um brevê comercial. Garcia, dez anos mais velho, também era piloto (licença tirada em 1992) e fora controlador de tráfego aéreo.
Juntos, recebendo pelo rádio instruções de um comandante de 757 e, quem sabe, escoltados por outro avião, teriam boas chances de aterrissar em alguma pista grande. O combustível do vôo 93 dava para mais cinco ou seis horas de vôo. A manobra de pouso poderia ser ensaiada, mesmo bem acima do nível do solo, várias vezes.
Nada disso seria possível se, antes, não tomassem posse da aeronave.
Depois de discutirem diversas hipóteses, resolveram que o trolley (carrinho de bebidas e de refeições) seria usado como aríete. Serviria para abrir a porta da cabine de comando e também como escudo contra as facas dos seqüestradores.
Enquanto o ataque era decidido, diversos reféns falavam com suas famílias.
Usando o celular de Lauren Grandcolas, Liz Wainio, do Discovery Channel, terminava de conversar com sua madrasta, Esther, em Baltimore.
— Mãe, eles vão atacar a cabine.
Esther não respondeu. Limitou-se a soluçar.
— Estou deixando meu corpo e indo embora — Liz se resignou.
Tom Burnett ligou para Deena pela quarta e última vez.
— Estamos decidindo como agir, pra tomar o avião.
Deena engoliu em seco.
— Eu amo você — era só o que ela conseguia dizer.
— Está chegando a hora, querida. Vou ter que desligar.
Enquanto falava com sua mulher, Lyz, na casa dos pais dela, o gerente de vendas e lutador de judô Jeremy Glick ora se mostrava otimista, ora parecia certo de que iria morrer.
— O cara que está com a bomba é pequeno. Não é páreo pra mim.
— Jeremy forçou um sorriso.
— Com cer… Com certeza... querido — cada sílaba era difícil para Lyz Glick.
— Se eu não conseguir sair daqui — ele disse —, quero que você me prometa que a Emmy — filha de dois meses do casal — um dia vai saber o quanto eu a amei e... e o quanto eu amo você.
— Claro, meu amor, claro, mas... — Lyz não concluiu a frase.
— Sabe, você ainda é a minha namorada do colégio. Não era pra minha vida acabar desse jeito.
De repente, a voz de Jeremy mostrou-se confiante. Lyz percebeu que havia outras pessoas ao lado do marido.
— Tudo bem — ele concluiu. — Nós vamos pegá-los. Fique aí na linha. Eu volto logo.
Em vez de responder, Lyz passou o telefone para seu pai, Richard Makely, e correu para o banheiro.
O executivo da Oracle, Todd Beamer, continuou conversando com Lisa Jefferson, supervisora da Verizon, empresa concessionária do airphone.
— Eu e outros passageiros vamos invadir o cockpit — informou ele. — Caso a gente falhe… caso a gente falhe, quero que você ligue para minha mulher. O nome dela é Lisa. Lisa Beamer. Nós moramos em Cranbury, Nova Jersey.
A supervisora, que até então dera apenas seu sobrenome, Jefferson, respondeu:
— Meu nome também é Lisa. Veja, Todd, posso fazer a conexão com sua casa agora. Poderá falar diretamente com sua mulher.
A tentação de falar com Lisa foi forte e Todd Beamer permaneceu indeciso por alguns instantes.
— Não — disse finalmente. — Não. Ela está grávida de cinco meses. Além disso, está sozinha com nossos filhos pequenos. Não, obrigado. Só quero que você me prometa que irá telefonar para Lisa e dizer a ela o quanto a amo e o quanto amo os meninos. É só isso que eu peço.
Depois de fazer a promessa, Lisa Jefferson ficou em silêncio. Alguém na sala de operações da Verizon disse que um terceiro avião acabara de se chocar contra o Pentágono.
— Lisa, Lisa, você ainda está aí?
— Estou — a supervisora respondeu. — Não irei a lugar nenhum. Estarei aqui enquanto você estiver na linha.
Desde sua viagem a Roma, na semana anterior, Todd Beamer lia um best-seller de suspense, do autor Tom Clancy. Muito religioso, seu marcador de página era um cartão com o Salmo 23. Todd pegou o livro na pasta, puxou o marcador e disse para Lisa Jefferson:
— Eu sei que não sairei vivo dessa. Você se importaria de recitar um salmo comigo?
— Claro que não, Todd.
Ele começou:
— “O Senhor é meu pastor, nada me faltará.”
— “O Senhor é meu pastor, nada me faltará.” — Lisa repetiu.
— “Deitar-me faz em verdes pastos, guia-me mansamente a águas tranqüilas.”
— “Deitar-me…”
Tal como dissera, Jeremy Glick deixou a linha aberta. Seu sogro, Richard Makely, ficou na escuta, ouvindo uma mistura de vozes nervosas e ruído de passadas rápidas. Richard disse para a mulher, JoAnne:
— Eles estão fazendo alguma coisa.
Surgiram então uns gritos, ao fundo da ligação. Depois, mais silêncio, seguido de mais gritos.
Na 10ª fila da classe econômica, Beamer continuou recitando o Salmo 23 com Lisa Jefferson:
— “Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte, não temeria mal algum, porque Tu estás comigo; a tua vara e o teu cajado me consolam.”
Enquanto balbuciava o salmo, Lisa percebeu as vozes de outros passageiros, ao fundo, também rezando. Até que Todd Beamer parou de recitar e disse para alguém que passava:
— Vocês estão prontos? Então vamos nessa (Let’s roll).
Jamais se saberá exatamente quem lutou contra os terroristas. Mas pode-se supor que Jeremy Glick, campeão de judô e praticante de luta livre, Tom Burnett (que disse a Deena que iria participar do ataque), Mark Bingham, jogador de rúgbi, Todd Beamer, Richard Guadagno, que freqüentava cursos de defesa pessoal do FBI, Louis Nacke, levantador de pesos, CeeCee Lyles, ex-policial, Sandy Bradshaw, que fervera água na galley, e Linda Gronlund, faixa marrom de caratê, tenham participado da luta.
É igualmente sensato deduzir que Donald Green e Andy Garcia ficaram de fora, para não correr nenhum tipo de risco, já que eram os únicos com alguma aptidão para pilotar o jato.
Às 9h45, o UAL93 sobrevoava um trecho sinuoso do Monongahela, um dos poucos rios grandes dos Estados Unidos que correm para o norte. Por volta dessa hora, os dois microfones do CVR, as pessoas na escuta das linhas telefônicas abertas com a aeronave e os controladores de vôo passaram a captar uma miscelânea de vozes em inglês e árabe, misturadas ao zumbido estridente e irregular das turbinas e às pancadas do trolley na porta do cockpit.
Foram preces, lamentos, súplicas, impropérios, gemidos de desespero e mensagens de despedida dos passageiros, tripulantes e seqüestradores do vôo 93.
— Nos ajude, por favor — disse alguém.
— Nós não temos outra escolha — disse outro.
— Estamos caindo — a comissária CeeCee contou para o marido, o policial Lorne Lyles, que finalmente atendeu o telefone da casa, em Fort Myers.
— O ataque vai começar — Sandy Bradshaw, colega de CeeCee, avisou Phil.
— Pegue o machado! Eles vão ficar com medo — ordenou uma voz, em árabe.
— No cockpit! — o CVR registrou, em inglês.
— Segure a porta! — em árabe.
Os dois idiomas se alternavam, se misturavam, se sobrepunham.
— Vamos pegá-los! (Let’s get them.) Allahu Akbar! (Alá é o maior.)
— Corte o oxigênio! Bloqueie a porta! Vamos terminar? Ainda não! Agora, empurra! Alá é o mais gracioso! — tudo em árabe.
— Me dá! Estou ferido! Junta tudo! Levanta, levanta! Para o cockpit! Senão a gente morre — tudo em inglês.
A caixa-preta registrou também o barulho de pancadas fortes, de coisas se quebrando, de gritos de medo, gritos de incentivo, gritos de intimidação, gritos de luta pela vida, gritos de luta pela morte.
Se o CVR registrou as vozes das pessoas, o FDR registrou o comportamento da aeronave. Após Ziad Jarrah ter desligado o piloto automático, o vôo 93 mergulhou, se aproximando perigosamente de Mach 1 (velocidade do som), subiu, quase estolando (perdendo a sustentação), inclinou as asas fortemente para um lado, depois para o outro.
Jarrah fez tudo para desequilibrar os atacantes.
Nenhum dos lados venceu a batalha. Ziad Jarrah e seus três homens não conseguiram ir para Washington. Os passageiros e as comissárias não se apossaram dos comandos do UAL93.
Pelo FDR ficou claro que, a partir das 10h00min08s, o United 93 não fez outra coisa a não ser mergulhar, sobre uma região agrícola da Pensilvânia, fazendo curvas violentas para um lado e para o outro e chegando a voar de dorso (de cabeça para baixo). Vendo que não conseguiriam sustentar a luta por muito tempo, os seqüestradores decidiram derrubar o vôo 93.
Nos últimos minutos do vôo, Andy Garcia telefonou, pelo celular, para sua mulher, em Portola Valley, na Califórnia. Mas Andy só conseguiu dizer o nome dela:
— Dorothy…
A ligação caiu.
Às 10h02min03s, o CVR registrou um dos seqüestradores gritando, em árabe, para Ziad Jarrah:
— Joga no chão! Joga no chão!
Vieram então, mais uma vez, os indefectíveis “Allahu Akbar”, nove vezes em seguida. E, ao som deles, exatamente às 10h03min11s o vôo 93 da United Airlines, que saíra do Aeroporto Internacional de Newark uma hora e vinte minutos antes, espatifou-se, a 930 km/h, na orla de um bosque em Shanksville, Pensilvânia, a 20 minutos de vôo do Capitólio, abrindo, entre as árvores, uma cratera de 20 metros de profundidade.
Na hora da queda, as últimas filas de poltronas da cabine da classe econômica já estavam quase vazias. Mas diversas linhas de celulares e do airphone permaneceram abertas para o mundo lá fora até o segundo final. Em Oakbrook, Illinois, Lisa Jefferson, supervisora da Verizon Airphone, atenta a qualquer ruído, simplesmente não ouvia mais nada.
Nas montanhas Catskill, estado de Nova York, Richard Makely, pai de Lyz e sogro de Jeremy Glick, escutou, antes do silêncio abissal, gritos que lhe lembraram pessoas em uma montanha-russa. Sem coragem de desligar o telefone, ele o passou para sua mulher, JoAnne.
Lyz voltava do banheiro, onde estivera vomitando. Ele simplesmente abraçou a filha.
— Acha que ele está morto? — ela perguntou.
Richard Makely limitou-se a apertar o abraço.