Plano de Ataque: A História dos Voos de 11 de Setembro
Nove Dias em Setembro
Roma, Itália, final de verão. Nada menos do que quinhentas pessoas, entre executivos e convidados da gigante de informática Oracle, participavam, nos primeiros dias de setembro de 2001, de uma convenção da empresa, misto de lazer e trabalho.
Um dos participantes era Todd Beamer, 32 anos, workaholic, bem-sucedido gerente de contas de clientes. Sua mulher, Lisa, da mesma idade, o acompanhava na viagem. Os dois filhos do casal, David, 3, e Andrew (Drew), 1 ano e meio, ficaram nos Estados Unidos, com a avó materna. Lisa estava grávida de cinco meses de uma menina.
O casal morava numa casa ampla e confortável na cidadezinha de Cranbury, de pouco mais de 2 mil habitantes, reduto de classe média alta no estado de Nova Jersey, distante apenas 60 quilômetros da ilha de Manhattan.
Louco por esportes, Todd era fã de Michael Jordan. No porão de sua casa, um mural, pintado por sua sogra, representava Jordan fazendo uma cesta. Anos antes, quando trabalhava na Wilson, também poderosa multinacional de materiais esportivos, Todd conhecera, de passagem, o astro do Chicago Bulls, numa visita de Jordan à sede da empresa.
Afeganistão. Depois de saber da data do ataque, Osama bin Laden reuniu o conselho da al-Qaeda. Só então deu os detalhes da Operação Aviões. A notícia não foi bem recebida por todos. Muitos conselheiros se preocuparam com a reação do Talibã. A essa altura dos acontecimentos, nem KSM nem Bin Laden faziam a menor idéia de que, nos Estados Unidos, Zacarias Moussaoui, o quinto piloto kamikaze, fora preso.
Minneapolis, estado de Minnesota. O FBI mantinha Moussaoui sob custódia. Sendo o bureau uma polícia judiciária, a prioridade dos agentes era obter provas, de modo estritamente legal, para levar o suspeito a uma corte. Por isso, o laptop do francês (com as informações sobre o complô) permanecia intocado. Sua inspeção exigia um mandado judicial.
Logo, os interrogadores de Moussaoui perceberam que ele era um fanático. Pior, um fanático que, sem ter brevê, tentara aprender a pilotar um Boeing 747. A informação subiu a escala de hierarquia do FBI. A CIA foi notificada.
No dia 23 de agosto, o diretor da agência, George Tenet, recebeu um briefing (relatório resumido) sobre o caso, intitulado Extremista islâmico aprende a voar. Pelo dossiê, ficou sabendo que Moussaoui pagara adiantado, e em dinheiro vivo, seu treinamento na Academia Pan Am e quisera fazer, no simulador, um vôo entre Londres e Nova York. Mas, sem os dados do laptop, a informação era uma ponta de fio solta, que não conduzia a nada, muito menos à al-Qaeda.
Desde a Resistência Francesa, na Segunda Guerra Mundial, os movimentos clandestinos têm como norma que seus integrantes se comuniquem, pessoalmente ou por telefone, a cada tantos dias e em determinadas horas. Quando um deles falta ao compromisso, é sinal de que foi preso. Neste caso, os outros se dispersam.
A Operação Aviões, com seu cada-um-por-si e Alá por todos, não adotava esse método. Assim, Mohamed Atta, na Costa Leste, e Ramzi Binalshibh, na Alemanha, custaram a dar por falta de Moussaoui. Só nos primeiros dias de setembro, Atta ligou para Hamburgo e falou sobre o assunto com Binalshibh. Este levou o caso a sério. Apressou-se em ligar para KSM.
— Estamos preocupados com o convidado do Oeste. Até hoje ele não deu notícias. — Binalshibh voltou a se referir a um pretenso casamento.
Em Karachi, KSM ficou em silêncio alguns segundos, digerindo a informação, antes de responder:
— Talvez a gente tenha de adiar a cerimônia. Vou falar com a família. Depois aviso.
Mais do que depressa, KSM informou a Bin Laden. Este minimizou o fato. Preferiu obedecer aos seus instintos. Manteve a data da Operação Aviões. E prosseguiu em sua estratégia de ação, cujo primeiro passo era mandar assassinar Ahmed Shah Massoud, líder da Aliança do Norte, afegã. Isso precisava ocorrer antes de 11 de setembro e era um agrado ao Mulá Omar, do Talibã, de quem Massoud era o grande inimigo e a maior ameaça.
Confirmado o dia do ataque, Binalshibh se apressou em sair de Hamburgo. Na primeira semana de setembro, partiu para o Paquistão. De lá, passou a manter contato diário, por telefone e e-mail, com Mohamed Atta.
Nos Estados Unidos, os seqüestradores começaram a se concentrar nas cidades de partida de cada vôo. Nawaf al Hazmi, Hani Hanjour e os outros três designados para o AAL77 se moveram de Nova Jersey para Laurel, Maryland, a vinte minutos do aeroporto Dulles, de Washington, de onde o vôo 77 iria decolar. Na sexta-feira, 7 de setembro, Atta passou pela cidade para ver o grupo.
Nessa mesma sexta, os comandos do vôo 93 saíram de sua base na Flórida e foram para o luxuoso Hotel Marriott, ao lado dos três terminais de passageiros do aeroporto de Newark. Ficaram em quartos separados, aguardando, ansiosos, a chegada de seu piloto, Ziad Jarrah. Este, dirigindo um carro alugado, registrou-se no hotel na madrugada de domingo, dia 9, e se reuniu aos seus homens.
Marwan al Shehhi e os oito seqüestradores encarregados dos vôos AAL11 e UAL175 esperavam Mohamed Atta em dois hotéis da periferia de Boston. Embora tivesse proibido os kamikazes de se despedirem de suas famílias, Atta telefonou para seu pai, no Cairo. Ligou também para Binalshibh, que acabara de chegar ao Afeganistão. Pediu-lhe que desse lembranças a KSM e que, após os ataques, enviasse mensagens de despedida às famílias dos militantes que morreriam nos atentados.
As 19 passagens aéreas já haviam sido compradas, pela Internet, a maioria de primeira classe. Julgando que tantos árabes embarcando ao mesmo tempo, em apenas dois vôos, e no mesmo aeroporto, o Logan, de Boston, pudessem chamar a atenção do pessoal de segurança, Atta decidiu despistar. Em seu bilhete, e no de Abdulaziz al Omari, o ponto de partida da viagem era Portland, no Maine, para onde seguiriam de carro na véspera do dia D. Na madrugada do dia 11, iriam pegar um vôo regional da Colgan Air, de Portland para Boston, onde fariam conexão, numa sala de trânsito, com o vôo AAL11, da American Airlines, com destino a Los Angeles.
No domingo 9 de setembro, Ahmed Massoud, da Aliança do Norte, iniciou uma entrevista a uma equipe belga de televisão, agendada dois dias antes. O repórter e o cinegrafista, fluentes em árabe, se disseram de origem marroquina. Na verdade, eram suicidas. Levavam explosivos escondidos no equipamento. Assim que Massoud começou a falar, eles detonaram a bomba. Morreram quatro pessoas: Massoud, os dois falsos jornalistas e mais um homem da cúpula da Aliança.
Nesse mesmo domingo, antevéspera dos ataques, Mohamed Atta chegou ao hotel, em Newton, na Grande Boston, onde seu amigo Marwan al Shehhi se hospedava. Nas visitas às quatro equipes, Atta distribuíra um bracelete de ouro para cada homem. Deu o último a Shehhi. As jóias eram um presente de Binalshibh, que as entregara a Atta durante o encontro na Espanha. A idéia era a de que todos parecessem sauditas ricos na hora do embarque.
Um bracelete de diamantes — comprado numa joalheria da Ponte Vecchio, em Florença, onde passaram um dia — foi o presente que Todd Beamer deu a Lisa na semana de lua-de-mel italiana.
No domingo, em Roma, eles visitaram o Coliseu. À noite houve o jantar de gala, black tie, de encerramento da convenção. Na segunda, os Beamer voltariam para casa. Na terça-feira, dia 11, Todd teria uma reunião de trabalho, na Califórnia, com executivos da Sony. De início, pensou em desembarcar em Newark e pegar imediatamente um vôo noturno para São Francisco, mas mudou de idéia. Decidiu passar uma noite em Cranbury com as crianças. Por isso fez reserva no vôo 93, da United Airlines, de Newark para São Francisco, marcado para as oito da manhã de terça.
Liz Wainio, 27 anos, não só era gerente-geral das lojas do Discovery Channel em Nova York e Nova Jersey, mas também a vendedora de maior produtividade nas mais de trezentas lojas da empresa espalhadas pelos Estados Unidos.
Embora não conhecesse os Beamer, a vida de Liz tinha, nesse momento, vários pontos em comum com a do casal. Ela também viajava pela Europa, também estivera em Florença (para o casamento de uma amiga), também morava numa cidade pequena de Nova Jersey: Watchung, a 30 quilômetros de Cranbury.
De Florença, Liz seguiu para Paris, onde visitou outra amiga.
No mesmo domingo em que Todd e Lisa Beamer compareceram ao jantar da Oracle, Liz Wainio desembarcou em Newark. Fim de férias. Na terça, 11 de setembro, tal como Todd Beamer, Liz viajaria no vôo UAL93 para São Francisco.
Já passava da meia-noite de domingo para segunda. Em seu quarto no Hotel Marriott, Ziad Jarrah, designado por Mohamed Atta para o vôo 93, telefonou para sua casa, no Líbano, onde já era dia claro. Conversou com seu pai, Samir, e confirmou presença em um casamento da família, marcado para o dia 22, em Beirute.
— Até comprei um terno — Jarrah mentiu com desfaçatez.
— Eu e sua mãe já resolvemos — Samir respondeu, satisfeito. — Quando você se casar com Aysel, ganhará de presente um Mercedes novinho.
Após desligar, Jarrah deitou-se na cama. Leu, pela enésima vez, o manual de operações da al-Qaeda. Sem o mínimo sono, levantou-se, foi até a escrivaninha, sentou-se e começou a escrever, em alemão, sua última carta para Aysel.
Antes de mais nada, quero que você tenha certeza de que a amo de todo coração. Você não deve duvidar desse meu amor. Eu a amo, e vou amá-la para sempre. Não quero que fique triste. Estarei vivo em algum lugar no qual você não poderá me ver, nem me ouvir, mas eu a verei e saberei como está. Há sempre a hora de cada um tomar posse de seu destino. É culpa minha se lhe dei tantas esperanças sobre casamento, crianças, família e muitas outras coisas.
Eu sou aquilo que você sempre desejou mas, infelizmente, você terá de esperar mais um pouco até que possamos ficar juntos novamente. Não estou fugindo de você; apenas fazendo o que esperam de mim. Quero que você se sinta orgulhosa, porque o que farei será uma honra. Você verá o resultado e todos ficarão felizes.
Quero que seja forte, como sei que consegue ser. Faça aquilo que deve fazer. Mantenha a cabeça erguida, como os vencedores. Lembre-se sempre de quem você é.
Nós teremos uma vida eterna maravilhosa, sem problemas ou tristezas. Viveremos em palácios de ouro e prata. Enquanto esse dia não chegar, você não ficará só. Alá estará com você e com os seus pais. Quando precisar de alguma coisa, pergunte a Ele. Ele ouve e sabe o que está dentro de você.
Nosso Profeta (que as bênçãos de Alá caiam sobre ele) disse: “Aquele que não tem uma mulher é um pobre homem e aquela que não tem um homem é uma pobre mulher.” Ainda virei para pegá-la mas, se você quiser se casar com outro, não tenha medo, vá em frente. Entretanto, como você sabe, não gosto de todos os homens.
Pense naquilo que você é e veja quem a merece.
Estou pegando você nos meus braços, beijando suas mãos e sua cabeça. Agradeço-lhe e, ao mesmo tempo, peço-lhe desculpas pelos difíceis cinco anos nos quais você ficou comigo. Sua paciência será recompensada, se for a vontade de Alá.
Sou seu príncipe e irei até você.
Adeus.
O homem de sua vida.
Ziad Jarrah,
10/9/2001
Al Omari e Atta, captados por uma câmera de segurança em South Portland, ao sacar dinheiro num caixa eletrônico, na véspera dos ataques.