Plano de Ataque: A História dos Voos de 11 de Setembro

O Samaritano

Khaled Sheik Mohamed só se encontrou com Osama bin Laden em meados de 1996. Antes disso, KSM pediu demissão de seu emprego público no Qatar e viajou por diversos lugares do mundo. O encontro entre os dois veteranos mujahedins, que não se viam havia sete anos, foi em Tora Bora, um refúgio montanhoso afegão de Bin Laden, próximo a Islamabad e à fronteira com o Paquistão.

Durante o encontro, KSM expôs a idéia de lançar aviões comerciais, seqüestrados e pilotados por kamikases, contra prédios-símbolo dos Estados Unidos. Foi a primeira vez que Bin Laden ouviu falar no assunto.

 

Osama bin Laden é o 17º filho (de um total de 55) de Mohamed Awad bin Laden, um empreiteiro saudita, multibilionário, que se casou 22 vezes. Osama cursou a Universidade Rei Abdul Aziz, em Jedá, onde se interessou por estudos religiosos inspirados por sermões, gravados em fita, do palestino Abdullah Azzam.

Em 1978, um governo comunista tomou o poder no Afeganistão. Mas não conseguiu exercer domínio sobre a dividida sociedade tribal afegã, o que só veio a acontecer em dezembro do ano seguinte, quando o até então imbatível Exército Vermelho soviético invadiu o país.

Líderes religiosos locais convocaram uma jihad (guerra santa) contra os invasores. Esse movimento de resistência atraiu voluntários muçulmanos de vários lugares do mundo, muitos deles sauditas. Entre estes, o jovem Osama, então com 23 anos.

Magro, 1,96 metro, desengonçado, Bin Laden era um ótimo cavaleiro, além de corredor, alpinista e jogador de futebol. No Afeganistão, logo atraiu a atenção dos outros jihadistas, não tanto pela habilidade como combatente. O que diferenciava o jovem saudita era a simplicidade. Apesar de sua fortuna, usava calças largas e uma longa camisa camponesa de linho cru afegão. À noite, deitava-se num saco de dormir, ao ar livre, no chão áspero e pedregoso do deserto, como os demais guerrilheiros.

Em meio à neve do inverno, os homens dormiam amontoados, esquentando-se uns aos outros. Enfrentavam o calor abrasivo do verão. Bin Laden, tal como os outros, comia o que houvesse, se houvesse para comer.

Nada disso o impedia de praticar a caridade nos campos de refugiados e hospitais de campanha. Isso lhe valeu o apelido de Samaritano.

O Reino Saudita e os Estados Unidos forneciam secretamente centenas de milhões de dólares para os rebeldes afegãos. Essa ajuda, na forma de dinheiro, armas, munições, remédios e suprimentos, fluía através do Paquistão. Logo, as agências de notícia espalhavam pelo mundo inteiro imagens dos Davis mujahedins, nas montanhas afegãs, atacando, com mísseis Stinger, terra-ar, de fabricação americana, os helicópteros do Golias soviético.

Em 1987, unidades do Exército Vermelho encurralaram grupos guerrilheiros, nos quais se encontravam Bin Laden e KSM, nas colinas acidentadas do leste afegão. Durante várias semanas os rebeldes sofreram ataques pesados de artilharia e dos helicópteros soviéticos. Mas resistiram e romperam o cerco.

Quando, em abril de 1988, o governo soviético decidiu retirar suas tropas do Afeganistão, Osama bin Laden foi aclamado, no mundo árabe, como um dos principais heróis da vitória dos mujahedins. Transformaram-no em um herói romântico, numa espécie de Che Guevara islâmico. O “Samaritano” virou “Guerreiro Sagrado”. Surgiram imagens suas escalando trilhas rochosas afegãs, sorriso e olhar enigmáticos e inteligentes no rosto, empunhando um rádio portátil, fuzil Kalashnikov (ironicamente, soviético) às costas.

Aproveitando-se do prestígio, Bin Laden juntou-se ao seu mentor religioso, Abdullah Azzam. Juntos, abriram células da MAK, o “Escritório de Serviço”, em diversos países, para promover a jihad. No segundo semestre de 1988, a MAK tornou-se al-Qaeda. Um ano depois, com o assassinato de Azzam, Osama passou a liderar sozinho o movimento.

Osama bin Laden estava de volta à Arábia Saudita quando, em agosto de 1990, Saddam Hussein invadiu o Kuwait. Mais do que depressa, o guerreiro sagrado se pôs à disposição do governo de seu país, que se via ameaçado pelo exército de Saddam, oferecendo-se para convocar os mujahedins e, com eles, lutar contra os iraquianos. Mas, para sua grande decepção, a oferta foi recusada. A monarquia saudita preferiu juntar-se a uma coalizão especialmente montada pelo presidente George Bush (pai), dos Estados Unidos, para libertar o Kuwait.

Revoltado com a permissão dada às tropas americanas de se basearem no solo sagrado saudita (onde ficam os santuários de Meca e Medina), Bin Laden passou a pregar abertamente a deposição da família real. Em resposta, o governo cassou seu passaporte.

A vitória, em tempo recorde, das tropas aliadas, não abalou o prestígio de Bin Laden. Entretanto, ele continuou proibido de sair do país. Até que, em abril de 1991, com a ajuda de um dissidente da família real, Osama obteve autorização para participar de um encontro islâmico no Paquistão. Depois do evento, em vez de voltar para casa, mudou-se para Cartum, no Sudão, onde o governo local lhe ofereceu refúgio e condições para lá estabelecer a sede da al-Qaeda e campos de treinamento militar. As quatro mulheres e os filhos de Bin Laden, além de grande número de seguidores, foram se reunir a ele em Cartum.

No início de 1992, a liderança da al-Qaeda emitiu uma fatwa (proclamação religiosa, supostamente com força de lei) convocando uma jihad contra a ocupação ocidental das terras islâmicas. Nesse mesmo ano, Bin Laden aprovou o plano do paquistanês Ramzi Yousef de explodir as Torres Gêmeas do World Trade Center.

O fracasso de Yousef, em 1993, não desanimou Osama. Ao contrário: agentes da al-Qaeda começaram a estudar alvos americanos ao redor do mundo. Em janeiro de 1994, o primeiro desses alvos foi escolhido: a embaixada dos Estados Unidos em Nairobi, capital do Quênia. Nesse mesmo ano, a Arábia Saudita cassou a cidadania de Bin Laden, transformando-o em um apátrida.

Dois anos depois, quando as autoridades sudanesas sofriam forte pressão americana para expulsar Bin Laden, este se antecipou e saiu do país. No dia 19 de maio de 1996, o líder da al-Qaeda retornou ao Afeganistão com sua família, seus guarda-costas e vários de seus camaradas veteranos mujahedins. Mudou-se para Jalalabad, onde esperou para ver qual dos grupos islâmicos afegãos que lutavam pelo poder no Afeganistão pós-soviético iria predominar.

 

Osama bin Laden gostou tanto da idéia exposta por Khaled Sheik Mohamed, de usar aviões como mísseis, que convidou o ex-camarada para se filiar à al-Qaeda. Mas, para sua surpresa, KSM recusou a oferta. Quis permanecer independente.

Em setembro de 1996, Jalalabad e depois Cabul foram tomadas pelos radicais do Talibã, grupo político-religioso, liderado pelo clérigo fanático Mulá Omar, que praticava um islamismo medieval. Bin Laden uniu-se ao vencedor. Enquanto isso, Khaled Sheik Mohamed fixava residência em Karachi, no Paquistão, 1.100 quilômetros a sudoeste de Islamabad.

No ano seguinte, Osama bin Laden e Khaled Sheik Mohamed se encontraram várias vezes. Embora sem se filiar à al-Qaeda, KSM ensinou os lugares-tenentes de Bin Laden a operar computadores e usar a Internet. Embora sem se comprometer com o projeto de KSM, Osama lhe deu um nome: Operação Aviões. Mas, naquele momento, o Samaritano se concentrava mais nos ataques a embaixadas americanas na África.

 

Enquanto Bin Laden estudava como golpear os Estados Unidos, os serviços americanos de inteligência também se preocupavam com ele. No final de 1997 e início de 1998, a Unidade Bin Laden (sim, sua importância já merecia isso) da CIA desenvolveu diversos planos para, através de tribos inimigas do Talibã, capturar ou matar o Samaritano. Essas operações chegaram a ser ensaiadas em campo aberto, mas nunca se materializaram.

 

Em fevereiro de 1998, a al-Qaeda tornou-se uma instituição mais forte ao fundir-se com a Jihad Islâmica Egípcia, do médico egípcio Ayman al Zawahiri. Este assumiu a vice-liderança da entidade. No mês seguinte, as equipes encarregadas de atacar as embaixadas na África foram agrupadas em Nairobi e na capital da Tanzânia, Dar es Salaam, onde a al-Qaeda mantinha uma operação de contrabando de diamantes.

Nessa mesma época, ao ser entrevistado pelo correspondente John Miller, da rede americana de televisão ABC, Osama Bin Laden declarou:

— Se a presente injustiça continuar, moveremos nossa batalha para o solo americano.

Faltavam três anos e quatro meses para o 11 de setembro.

 

No leste da África, a movimentação da al-Qaeda era frenética. A linha de frente dos ataques comprara os caminhões que seriam transformados em bombas. Nos primeiros dias de agosto, os últimos jihadistas, com exceção dos encarregados de dirigir os veículos até a frente das embaixadas, abandonaram Nairobi e Dar es Salaam.

Sexta-feira, 7 de agosto de 1988. As duas explosões ocorreram com intervalo de quatro minutos: 10h35 em Nairobi; 10h39 em Dar es Salaam, 700 quilômetros a sudeste. Foram mortos 212 africanos e 12 cidadãos dos Estados Unidos. Eram 5h35 da manhã em Washington quando o assessor de Segurança Nacional Sandy Berger acordou o presidente Clinton, na Casa Branca, dando conta dos atentados.

As primeiras investigações apontaram para a al-Qaeda, que, por sinal, não fez nenhum esforço para esconder sua participação. A luta velada de Bill Clinton contra Bin Laden tornou-se uma guerra aberta. Mísseis disparados de navios americanos, estacionados no Golfo Pérsico, destruíram o campo de treinamento Khowst, no Afeganistão. O ataque não fez uma vítima sequer entre a liderança da al-Qaeda, que, antecipando-se à retaliação, fugiu a tempo.

Os Estados Unidos atacaram também o laboratório farmacêutico de al Shifa, em Cartum, onde, supostamente (hipótese que se revelaria incorreta), armas químicas eram fabricadas.

Cerca de trinta pessoas foram mortas nos dois contra-ataques.

 

No início de 1999, KSM se filiou formalmente à al-Qaeda. Mais do que depressa, Osama bin Laden deu sinal verde para a Operação Aviões. Esta agora contava com um elenco abundante de jihadistas, além de suporte logístico e financeiro.

Durante a primavera, Bin Laden passou a cuidar pessoalmente do projeto. Convocou, ao complexo de Matar, próximo à cidade de Kandahar, Khaled Sheik Mohamed e o chefe de operações militares da al-Qaeda, o egípcio Mohamed Atef. Discutiram alvos em potencial. Bin Laden não escondeu sua preferência pela Casa Branca e pelo Pentágono. KSM, pelo World Trade Center. O Capitólio foi uma escolha unânime.

Cada vez mais entusiasmado com a idéia, mas com pouco senso prático, Osama começou a selecionar os pilotos suicidas. Os dois primeiros, Khalid al Mihdhar e Nawaf al Hazmi, não conheciam a Europa Ocidental, muito menos os Estados Unidos. E nada entendiam de aviões. Eram apenas guerrilheiros, veteranos jihadistas da Bósnia, Chechênia e do próprio Afeganistão. Mas Bin Laden considerava de grande simbolismo o fato de ambos terem nascido na cidade sagrada de Meca.

Mihdhar e Hazmi foram designados para o acampamento de Mes Aynak, que a al-Qaeda acabara de instalar numa antiga mina de cobre russa, nas proximidades de Cabul. Lá, o treinamento era rigoroso: preparação física, lutas marciais, manuseio de armas brancas, revólveres, rifles de assalto, metralhadoras e lançadores de mísseis, tiro ao alvo de cima de motocicletas e combates noturnos. Os aspirantes a mártires recebiam comida de primeira e outras regalias. Mas nada aprenderam sobre aviões, não estudaram inglês e muito menos receberam lições sobre a vida e os costumes do Ocidente.

No verão, dois outros homens foram selecionados por Bin Laden: Tawfiq bin Attash e Abu Bara al Yemeni. Mas KSM vetou os nomes. Por serem iemenitas, dificilmente obteriam visto de entrada nos Estados Unidos. Seria perda de tempo treiná-los. Fora o fato de que Bin Attash não tinha uma das pernas, arrancada na explosão de uma mina terrestre no campo da al-Qaeda.

 

Durante todo o segundo semestre de 1999, o treinamento prosseguiu. Mas os homens à disposição da al-Qaeda, embora dispostos a morrer pela jihad, não apresentavam os requisitos mínimos necessários para aprender a pilotar aviões e, por conseguinte, lançá-los contra alvos nos Estados Unidos.

Na segunda quinzena de dezembro, os ventos finalmente sopraram a favor de Khaled Sheik Mohamed, que já começava a desanimar devido à ausência de pessoal qualificado. Nessa ocasião, chegaram a Kandahar quatro aspirantes a jihadistas, todos com nível universitário, todos morando em Hamburgo, na Alemanha. Entre eles, um muçulmano, muito devoto, que conhecia quase de cor o texto do Corão.

O que mais impressionou Khaled Sheik Mohamed foi o fato de que o recruta, além da Alemanha, conhecia a França e a Holanda, falava fluentemente alemão e inglês e vestia, com desembaraço, roupas ocidentais.

Marwan al Shehhi, 21 anos, filho de um pregador, era natural de Ras al Khaimah, nos Emirados Árabes Unidos.

 

TRAJETÓRIA DO VÔO UAL175

1. Aeroporto Logan, Boston: decolagem às 8h14 2. Seqüestro do avião, entre 8h42 e 8h46

3. Rota que o avião deveria seguir rumo a Los Angeles

4. O seqüestrador desliga o transponder, cortando a comunicação com o centro de controle

5. Início do curso para poder atingir o WTC vindo do sul

6. Choque contra a Torre Sul do WTC, às 9h03min11s