Plano de Ataque: A História dos Voos de 11 de Setembro
Última Lembrança
Tentando fugir da tragédia que desabava sobre sua família, Deena Burnett prosseguiu em sua rotina doméstica. Preparou as três filhas para a escola, trocando suas roupas e penteando seus cabelos. Serviu-lhes o café-da-manhã. Tudo isso sem largar o telefone sem fio, como se desse elo dependesse a vida de Tom. Ligou para uma vizinha e pediu-lhe que levasse as meninas para o colégio.
A televisão da casa permaneceu ligada e noticiou a queda de um avião da United Airlines numa área rural do sul da Pensilvânia. Deena, sozinha na sala, chorou convulsivamente. Mas manteve o telefone nas mãos.
Logo após a primeira chamada de Tom, a bordo do vôo 93, mais de meia hora antes, Deena, a pedido dele, havia informado a polícia sobre o seqüestro do vôo 93. Em conseqüência desse aviso, às 7h20 da manhã (10h20 na Costa Leste), um policial se apresentou na casa dos Burnett.
— Infelizmente, tenho más notícias para a senhora — ele disse. E revelou que o quarto vôo que tinha caído era o United 93.
As forças de Deena desapareceram e ela quase desmaiou. Precisou ser amparada pelo policial.
Na tela da TV, apareciam agora as imagens da cratera aberta pelo Boeing na orla do bosque em Shanksville.
— Outro avião caiu, num local 80 milhas ao sul de Pittsburgh — confirmou o âncora Aaron Brown, da CNN.
Deena sabia que era impossível alguém ter sobrevivido àquilo. Mas não largou o telefone.
Só três horas mais tarde, quando a carga do aparelho se esgotou, ela viu nisso um sinal de que Tom estava morto.
Apesar da meticulosidade do trabalho das equipes de resgate, do empenho dos legistas e dos testes de DNA, nenhum fragmento do corpo de Tom Burnett pôde ser localizado na cratera. Na cerimônia fúnebre, realizada no final de setembro, não houve corpo nem caixão.
Só muitas horas após a queda do vôo 93, o policial Lorne Lyles, em Fort Myers, Flórida, ligou a secretária eletrônica e ouviu a fita com o primeiro telefonema de CeeCee.
— Eu espero ver seu rosto de novo — ela deixou gravado.
Com a morte de CeeCee Lyles, sua família se foi também. Os dois filhos que ela havia tido quando solteira foram morar cada um com seu pai. E os de Lorne, com a ex-mulher dele.
As seis pessoas da casa se reduziram a uma.
— Eu me sinto sozinho e desesperançado — Lorne costuma dizer. — Minha profissão é proteger as pessoas, mas nada pude fazer pela minha mulher.
Alice Hoglan se viu obrigada a encerrar as atividades da empresa de relações públicas do filho, Mark Bingham. Demitiu os empregados, desativou o escritório, vendeu os móveis e utensílios. Antes de levar os computadores, ligou um deles:
— Sejam bem-vindos ao grupo Bingham — surgiu o letreiro do protetor de tela.
Mark tornou-se um ícone da comunidade gay de São Francisco. Amigos fizeram um pequeno memorial, uma espécie de altar, em sua homenagem, nas proximidades de Castro Street. O modesto e despretensioso time amador de rúgbi do San Francisco Fog’s passou a ser conhecido nacionalmente.
Em Washington, Donn Marshall, que deixara os filhos na creche do Pentágono antes de seguir para seu escritório em Crystal City, encontrou as crianças ilesas, após o choque do AAL77 contra a fachada oeste do prédio. Mas Donn não achou sua mulher, Shelley, cuja sala ficava exatamente na zona de impacto do avião.
Donn procurou em todos os hospitais e nada. No necrotério, nada. Só na sexta-feira, dia 14 de setembro, o corpo de Shelley foi localizado em meio aos escombros da ala oeste.
Ron di Francesco não saiu da sala de operações da Euro Brokers no 84º andar da Torre Sul apenas para não perder a abertura dos mercados. Subiu em vez de descer, após o choque do UAL175. Esbarrou no acesso ao terraço fechado. Conseguiu, já na volta, atravessar a zona de impacto. Foi uma das últimas pessoas a sair da torre, sendo atingido na rua por uma bola de fogo, quando o prédio caiu. Só foi acordar seis dias depois, na UTI de um hospital.
Apesar de um corte profundo na cabeça e de queimaduras de terceiro grau, sofridas durante a travessia do incêndio, Ron di Francesco sobreviveu para narrar sua epopéia.
Das mais de 2.500 pessoas que morreram nas Torres Gêmeas, pouquíssimos fragmentos de corpos puderam ser localizados. E nem sinal das caixas-pretas dos vôos AAL11 e UAL175. O grau de destruição foi tão grande que as equipes de resgate não encontraram mesas, cadeiras, teclados de computador, telefones. O máximo que se conseguiu recuperar foram objetos pequenos, tais como uma tampa plástica de caneta calcinada ou um clipe entortado.
O World Trade Center transformou-se em pó.
Ellen Mariani, que se separara do marido Louis Neil Mariani em Boston, para reencontrá-lo em Los Angeles — pois haviam adquirido bilhetes em vôos diferentes (ele no UAL175) —, passou a noite do dia 11 de setembro em Chicago. E as noites seguintes também. O Ground Stop (cancelamento e paralisação de todos os vôos) a reteve no aeroporto Midway.
Para agravar a angústia de Ellen, o dinheiro, os talões de cheques e os cartões de crédito do casal ficaram com o marido, que desapareceu na Torre Sul do WTC.
Como não conhecia ninguém em Chicago, Ellen foi dormir numa casa mórmon de caridade, onde chorou, sozinha, a perda do marido.
Meses mais tarde, num grande acordo homologado pela Justiça, cada família das vítimas do 11 de setembro teve direito a uma indenização, paga pelo governo, no valor de 2 milhões de dólares. Ellen Mariani recusou-se a assiná-lo. Processou a United Airlines, o presidente George W. Bush, o vice Dick Cheney, a assessora de Segurança Nacional Condoleezza Rice e várias outras autoridades. Motivo: negligência ao permitir o embarque, nos quatro vôos, de terroristas cujos nomes constavam das listas de suspeitos (watchlist), além de portarem estiletes, canivetes e facas.
Ao longo desse processo, que ainda não foi julgado, Ellen Mariani tornou-se uma celebridade. Existem, no momento, 314 mil sites na Internet sobre ela e sua causa.
Após a tragédia do vôo UAL93, Lisa Beamer, mulher de Todd Beamer, executivo da Oracle, viveu um segundo drama que se acrescentou ao da perda do marido. Ao longo da semana, começaram a surgir na mídia diversas histórias sobre passageiros e tripulantes que, do interior do vôo 93, ligaram para seus parentes e amigos, nos 35 minutos que separaram o seqüestro da queda.
Essas reportagens davam conta de atitudes heróicas, de homens e mulheres que enfrentaram os terroristas. Mas nada surgiu sobre Todd.
Lisa Beamer começou a se indagar:
“Se outros telefonaram para casa, por que será que Todd, uma pessoa que passava o tempo todo falando ao celular, não fez isso? Por que não ligou para mim?”
“Talvez ele tivesse sido um dos primeiros a morrer, por ocasião do ataque dos terroristas”, era uma explicação razoável.
Lisa Beamer, já sem um corpo para sepultar, não tinha, como tantos outros parentes das vítimas, uma lembrança dos últimos momentos do marido. Não saberia jamais o que ele fizera, nem o que havia deixado de fazer. Os 35 minutos finais de Todd Beamer seriam uma incógnita eterna, enterrada nas profundezas da cratera de um bosque da Pensilvânia.
Só na sexta-feira, dia 14 de setembro, o mistério foi esclarecido. Através do Serviço de Relações Públicas da United Airlines, Lisa ficou sabendo que o FBI guardava um relatório, com o resumo de uma conversa, de 18 minutos, travada entre Todd e Lisa Jefferson, uma supervisora da Verizon Airphone.
Na manhã de sábado, dia 15, Lisa Beamer telefonou para Lisa Jefferson. Descobriu então que o marido não ligara para casa para não assustá-la, soube da recitação compartilhada do Salmo 23 e das últimas palavras de Todd, “Let’s Roll”, que se tornariam o símbolo da resistência a bordo do vôo 93.
A conversa de Todd com Lisa Jefferson não foi a última lembrança deixada pelo workaholic da Oracle, fã de Michael Jordan. Isso ficou por conta de Morgan Kay Beamer, 3 quilos e 180 gramas, nascida no dia 9 de janeiro de 2002, exatamente 120 dias após a morte do pai.
À esquerda: na foto dos arquivos do FBI, vê-se o passaporte calcinado de Ziad Jarrah, recuperado dos destroços do UAL93, com seu rosto e nome bem visíveis.
À direita: Khaled Sheik Mohamed, o KSM, planejador dos ataques do 11 de setembro, logo após sua prisão, em 2003.