Plano de Ataque: A História dos Voos de 11 de Setembro
Mayday!, Mayday!
“Escolha a presa mais fraca, na hora de atacar”, ensinou inúmeras vezes Khaled Sheik Mohamed aos jihadistas da Operação Aviões, durante as sessões de treinamento em Karachi.
Desde o taxiamento, no aeroporto de Newark, há 45 minutos, Ziad Jarrah e seus comandos, Saeed al Ghamdi, Ahmad al Haznawi e Ahmed al Nami, estão observando os três passageiros que compartilham, com eles, a primeira classe do vôo 93.
O processo seletivo é óbvio. Optam pelo mais velho. Trata-se de Mark Rothenberg, o empresário que viaja a negócios para Taiwan, via São Francisco. Virando-se discretamente para os lados e para trás, Jarrah o aponta, com um sinal quase imperceptível de queixo, aos seus homens. Os outros dois passageiros da primeira classe são o corpulento jogador de rúgbi, Mark Bingham, e Tom Burnett, também alto e forte, ambos na última fila, tendo a separá-los apenas o corredor central.
“Comece o golpe na parte superior do pescoço, sob as orelhas. Depois desça com a faca. Corte a laringe e as cordas vocais, para o animal não gritar”, explica o manual da al-Qaeda.
Resta, a Jarrah e seus homens, aguardar que a porta do cockpit seja aberta. As duas coisas devem ser simultâneas: esfaqueamento do passageiro e, valendo-se do terror paralisante que se implantará, invasão da cabine.
Mas o tempo vai passando e nada da porta abrir. De vez em quando, Ziad Jarrah dá uma espiada disfarçada em seu GPS portátil e constata o afastamento do vôo, no sentido oeste, cada vez mais para longe do seu alvo, as casas do Capitólio, em Washington.
É provável que Jarrah, a esta altura, acredite que os outros seqüestros já devam ter acontecido e que as autoridades logo tomarão providências. Por isso, decide atacar de qualquer modo.
Obedecendo ao seu sinal, um dos comandos põe uma faixa vermelha na testa, levanta-se, mete-se entre duas filas de poltronas e ataca Mark Rothenberg, sentado a uma das janelas. O empresário não tem tempo nem de esboçar um gesto de defesa.
— Ahhhh — o grito nasce morto em sua garganta.
Tom Burnett, Mark Bingham e a chefe de equipe do UAL93, Debbie Welsh, que acode ao ouvir o gemido, olham, petrificados, para o homem de faixa na testa e estilete na mão. O cérebro das pessoas demora a processar fatos totalmente inesperados, e com as três testemunhas da barbárie não se passa de outro modo. Perplexidade total à visão do passageiro tombando para a frente, em seus estertores, golfando sangue pelo talho no pescoço, pela boca e pelo nariz.
Enquanto isso, outro comando, também usando um pano vermelho acima dos olhos, e até então despercebido, se aproxima de Debbie, empunhando um canivete, e a força a abrir a porta do cockpit. Bingham e Burnett continuam atordoados, sem ação.
Apesar da mensagem de alerta, enviada pelo despachante Ed Ballinger, e recebida pouco antes pelo comandante Jason Dahl e pelo primeiro-oficial Leroy Homer, estes levam um susto tremendo quando dois homens irrompem no cockpit, empurrando a chefe de equipe.
São 9h28 da manhã.
— Mayday! Saiam daqui! Saiam daqui! Mayday! — os gritos dos pilotos, para os seqüestradores e para o mundo exterior, são captados pelos minúsculos microfones fixados nas pontas das hastes junto às suas bocas. E ouvidos, com clareza, pelo Centro de Cleveland, em cuja área de ação o UAL93 voa neste momento.
“Mayday”, além de ser um pedido convencional de socorro, é um ato de reflexo condicionado. Muitos aviadores pronunciam a palavra segundos antes de morrer. E mesmo sabendo que vão morrer. “Mayday” é lugar-comum, clichê, no acervo de fitas de gravação de caixas-pretas do NTSB (Comitê Nacional de Segurança no Transporte). “Mayday”, tal como “Meu Deus”, “Não”, “Merda”, “Cristo”, “Maldito”, não raro soa como um lamento angustiado de despedida.
A palavra mayday vem do francês “Venez m’aider” (Venha me ajudar), mais tarde simplificado para “M’aidez” (Me ajude) e depois toscamente anglicizado para mayday.
— O vôo 93, o que está acontecendo com ele? — pergunta, assustado, um controlador do Centro Cleveland para outro.
Pilotos de diversas aeronaves voando próximas do UAL93 também ouvem os gritos de “Mayday” e “Saiam daqui” às 9h28 da manhã.
O United 93 encontra-se no leste de Ohio, voando a 35 mil pés (10.600 metros) de altura. Nos primeiros 11 segundos, a aeronave cai 200 metros. A descida, que fica clara no sinal do transponder, é imediatamente percebida por Stacey Taylor, uma controladora de Cleveland.
Tudo que se fala na cabine do comando do UAL93 é captado por outros dois microfones, alimentadores do CVR (gravador de vozes da cabine), parte integrante da caixa-preta, em meio a gritos em árabe e em inglês e a sons de luta, luta essa que é a última ação dos pilotos e que dura não mais do que alguns segundos. Pois logo Dahl e Homer têm suas gargantas cortadas, assim como a chefe de equipe Debbie Welsh.
As palavras de Debbie ficam gravadas na caixa-preta.
— Não, não, por favor. Não me machuque — ela pede.
— Cale a boca — um dos seqüestradores responde, em inglês com sotaque árabe.
— Eu não quero morrer. Eu não quero morrer — implora Debbie.
— Não, por favor.
Na cabine de primeira classe, Tom Burnett e Mark Bingham, que haviam tentado socorrer Rothenberg — este acaba morrendo nos braços de Burnett —, são forçados, por um terceiro comando, que surge lá de trás e os ameaça com uma falsa bomba (uma caixa vermelha), a recuar para a econômica. A cortina entre as duas classes é fechada pelo seqüestrador.
Lá nos fundos, uma das comissárias, a ex-policial CeeCee Lyles, tenta controlar a inquietação que começa a tomar conta dos passageiros à medida que a notícia do seqüestro se espalha.
— Por favor, todo mundo sentado. Não soltem os cintos de segurança. — CeeCee sabe muito bem que, em situações como aquela, é importante obedecer às ordens dos seqüestradores, atender suas exigências e evitar o pânico entre os reféns.
— Deixa que eu vou ver o que está acontecendo — ela se oferece, tentando mostrar-se o mais calma possível.
CeeCee Lyles vai até a cortina e abre uma fresta para enxergar a cabine de primeira classe, mas é obrigada a recuar sob ameaça do homem da “bomba”.
Só depois que tudo se acalma Ziad Jarrah se manifesta. Levanta-se de sua poltrona na primeira fila e vai para a cabine de comando. Pouco depois, os corpos de Jason Dahl, Leroy Homer e Debbie Welsh são lançados, feito sacos de batata, para o corredor junto ao toalete e à galley dianteira.
Às 9h32, após se entender com alguns controles e nivelar o avião, Ziad Jarrah tenta falar aos passageiros. Mas comete o mesmo erro de Mohamed Atta, do AAL11. Em vez de acionar o botão do sistema de comunicação interna, aperta outro. Sua mensagem é transmitida para o mundo exterior e ouvida pelo Centro Cleveland.
— Senhoras e senhores, aqui é o comandante. Por favor, sentem-se e mantenham-se sentados. Temos uma bomba a bordo. Então sentem-se.
A exemplo do procedimento de Hani Hanjour no AAL77, Jarrah está usando o piloto automático para desviar o avião de sua rota e iniciar a navegação para Washington. Neste momento, o UAL93, que sobrevoa a cidade de Cleveland — tendo o lago Erie e a fronteira canadense à sua direita —, inicia uma longa curva, de 135º, para a esquerda. Minutos depois segue, no rumo 130, para seu novo destino, 450 quilômetros e meia hora a leste.
Como o transponder do United 93 permanece ligado, Cleveland acompanha a curva. E, embora não ouça com clareza a mensagem do seqüestrador, supostamente dirigida aos passageiros, o Centro pede que ele a repita.
— Centro Cleveland chamando. Não estamos entendendo você. Fale de novo, devagar.
Sempre supondo que se dirige aos passageiros, e ignorando (ou não ouvindo) Cleveland, Ziad Jarrah prossegue:
— Aqui é o comandante. Quero que todos permaneçam sentados. Temos uma bomba a bordo e estamos voltando ao aeroporto, onde faremos nossas exigências. Fiquem quietos.
Enquanto as notícias, da bomba e do seqüestro, vão galgando os degraus da hierarquia e da burocracia oficiais, o UAL93 começa a subir. Ergue-se a 40.700 pés (12.400 metros), altitude próxima do teto máximo de um Boeing 757. Cleveland, que cuida agora de afastar os aviões das proximidades, vê, claramente, que o vôo 93 se dirige a Washington, onde o AAL77 acaba de se chocar contra o Pentágono.
Na capital, é grande a movimentação. A Casa Branca, o Capitólio e os principais prédios públicos estão sendo esvaziados. O Centro de Comando da FAA, em Herndon, Virgínia, quer saber se há caças da Força Aérea voando para interceptar e, se necessário, abater o vôo 93. Todos sabem que, para isso ser feito, para se derrubar um avião civil, comercial, cheio de passageiros inocentes, será necessária uma ordem do presidente Bush.
Há 29 minutos, Bush sabe que o World Trade Center sofreu um ataque terrorista. Mas, durante todo esse tempo, ele permanece, em estado de estupor, ruminando o evento, na Escola Emma E. Booker, em Sarasota, Flórida. Só às 9h36 a comitiva presidencial segue para o Aeroporto Internacional de Sarasota/Bradenton, distante apenas 4 quilômetros.
Pouco antes de subir a bordo do Força Aérea no 1, Bush fica sabendo que um terceiro avião se chocou contra o Pentágono. Ninguém lhe pergunta a respeito de abater vôos comerciais. E três deles já se chocaram contra alvos no solo, matando milhares de pessoas.
Com a demora presidencial em reagir aos acontecimentos, tudo indica que o quarto ataque da al-Qaeda de Osama bin Laden, agora contra o prédio do Capitólio, conduzido pelo libanês Ziad Jarrah e seus comandos, dará certo. Só que, na cabine da classe econômica do United 93, depois que Tom Burnett conversa por duas vezes com sua mulher, Deena, em San Ramon, na Califórnia, começa a nascer um motim, embrião que irá mudar em parte a história do 11 de setembro.
Agora, como em qualquer guerra, haverá dois lados em combate. E não apenas um algoz e um animal prostrado na pedra do sacrifício.
Acima, da esquerda para a direita, três membros da tripulação do vôo 93: o comandante Jason Dahl, a chefe de equipe Debbie Welsh e a comissária CeeCee Lyles.
Abaixo, os passageiros Liz Wainio, Mark Rothenberg e Donald Green.