Plano de Ataque: A História dos Voos de 11 de Setembro

Pela Tela da Tv

Para não errar seu alvo, a Torre Sul do World Trade Center, Marwan al Shehhi precisa fazer, nos segundos finais do vôo UAL175, uma curva fechada (de 45º) para a esquerda. A ponta da asa (baixa) desse lado se choca contra o 78º andar. O nariz do avião atinge a parte leste da fachada sul, na altura do 81º. A extremidade da asa direita (alta) alcança o 83º. Destroços do prédio, misturados aos do Boeing e a centenas de galões de combustível incandescente, saem pela fachada leste da torre, formando uma enorme bola de fogo e fumaça.

No momento da colisão, os elevadores se encontram apinhados de gente que, apesar das recomendações em contrário do pessoal da Segurança, foge do edifício, assustada com o incêndio devastador ao lado. Nos seis andares atingidos pelo segundo ataque, muitos morrem imediatamente, ou sofrem ferimentos graves. Alguns elevadores transformam-se em verdadeiros fornos, torrando seus ocupantes.

Stanley Praimnath, o executivo do Banco Fuji que, antes, desceu ao lobby do térreo e voltou para o 81º andar, é um dos poucos a sobreviver na zona de impacto ou logo acima dela. Outro é Ron di Francesco, que permaneceu na plataforma de operações da Euro Brokers aguardando a abertura dos mercados. Agora a fumaça é tão densa que Francesco precisa tatear as paredes e os móveis para conseguir se localizar.

Ao contrário da Torre Norte, onde o AAL11, ao bater, criou uma linha divisória, no 93º andar, entre a sobrevivência e a morte, o 175, por não ter acertado o centro do alvo, deixa uma passagem precária, através dos andares em chamas, na escadaria A, uma das três do prédio.

 

Em seu gabinete, na Casa Branca, o vice-presidente Dick Cheney vê, perplexo, um segundo jato chocar-se contra o World Trade Center. Tanto ele como os agentes do Serviço Secreto de plantão na residência presidencial chegam à conclusão óbvia de que não se trata de um acidente. Nem Cheney nem os agentes sabem que um terceiro avião, o vôo 77 da American Airlines, foi seqüestrado. Por isso, no início, ninguém pensa na hipótese de a cidade de Washington estar correndo perigo.

No Centro de Boston, em Nashua, a gravação da fala de Mohamed Atta, na qual o egípcio usa a expressão “Nós temos aviões”, está sendo ouvida pela enésima vez. Então alguém percebe o plural. E a idéia de um ataque múltiplo ganha força.

 

Melodie, mulher de Leroy Homer, copiloto do United Airlines 93, passou a maior parte da segunda-feira, dia 10, na cama, doente. E foi dormir cedo. Leroy ficou vendo televisão, atento a um eventual choro de Laurel, filha de 11 meses do casal, que dormia sozinha num dos quartos da casa.

Às 4h45 da manhã, o despertador soou. Melodie Homer mais tarde se recordaria vagamente de ter ouvido o alarme, assim como o barulho de Leroy tomando banho de chuveiro. Mas não iria se lembrar se ele lhe deu o habitual beijo de despedida.

Enquanto Melodie voltava a dormir, Leroy vestiu o uniforme de piloto da United: calça azul-escura, camisa branca, gravata azul e o paletó com dragonas de primeiro-oficial. Tirou da garagem seu Toyota 4-Runner, no qual fez o percurso de uma hora e 15 minutos, rumo nordeste, pela New Jersey Turnpike, até o Aeroporto Internacional de Newark.

Às 6h45, Leroy Homer se apresentou ao seu comandante, Jason Dahl, na sala de pilotos da United Airlines, no subsolo do Terminal A. Os dois fizeram o plano de vôo, viram os boletins meteorológicos da rota (céu limpo de costa a costa) e o manifesto de passageiros e de cargas. Conversaram, por telefone, com a sala de operações da United, em Chicago, onde discutiram, com o despachante de vôo Ed Ballinger, a quantidade de combustível nos tanques. O tempo de vôo até São Francisco foi estimado em cinco horas e dez minutos.

Completada a burocracia, os pilotos do vôo 93 foram para o andar de embarque, onde se dirigiram à loading bridge do portão 17. Depois do atraso no taxiamento, decolaram para São Francisco. Durante os primeiros 45 minutos de percurso, sem que Dahl e Homer fossem informados de nada, três aviões haviam sido seqüestrados e dois deles se chocado contra as Torres Gêmeas do WTC.

 

O comandante Jason Dahl, do UAL93, é apaixonadíssimo por sua mulher, Sandy, uma morena muito bonita, comissária de vôo da própria United. Eles moram em Denver, Colorado. A comemoração do aniversário de cinco anos de casamento, que acontecerá na sexta-feira, na prática já começou na véspera de seu vôo para a Costa Leste. Nesse dia, Jason a levou a uma agência de automóveis no Centro de Denver e lhe disse:

— Pode escolher o carro que você quiser.

Novas emoções a esperam. Na própria sexta, ela ganhará um piano de meia cauda e haverá um jantar surpresa com outros oito casais. No domingo, Sandy e Jason partirão para uma viagem de três dias a Londres.

 

Como o quartel-general da American Airlines, em Fort Worth, Texas, não consegue falar com o vôo 77, um dos diretores conclui, erradamente, que o avião que se chocou contra a Torre Sul do World Trade Center foi o próprio AAL77.

O controlador do Centro Indianápolis, encarregado do vôo, pensa diferente. Como o último sinal do transponder do American 77 ocorreu enquanto a aeronave se deslocava para oeste, ele perscruta o prolongamento da rota, nesse sentido, procurando um sinal primário de radar. Não encontrando nenhum blip, deduz que o avião caiu. Nada sabe a respeito dos outros dois seqüestros, nem dos ataques que acabaram de acontecer no WTC.

Indianápolis solicita ao Serviço de Busca e Salvamento da Base Aérea de Langley que procure o Boeing 757 provavelmente acidentado. Depois telefona para a Polícia Estadual da Virgínia do Oeste, querendo saber se eles receberam alguma notificação de queda de um jato comercial. A polícia interpreta a pergunta como sendo uma informação e a repassa adiante, como fato consumado. Isso, durante algum tempo, provoca alívio em Washington, onde os principais prédios públicos estão sendo evacuados.

Mas não em toda a Washington.

 

Em seu gabinete, no Departamento de Justiça, o procurador-geral Ted Olson conversou, ao telefone, com sua mulher, Barbara. Da cabine de passageiros do vôo 77, ela informou ao marido que o vôo foi seqüestrado por homens armados de canivetes e estiletes. Depois eles disseram, pelo sistema de som da aeronave, que estavam regressando a Washington, onde seriam feitas exigências às autoridades. Comissários e passageiros foram obrigados a ir para a parte de trás do avião.

Ted Olson, que via, à sua frente, na tela da CNN, as imagens das Torres Gêmeas em chamas, tinha consciência do risco que sua mulher corria. Criava coragem para dizer isso a ela, quando a ligação caiu.

Enquanto Barbara conversava com Ted, a comissária Renee May, que trabalhava na galley do AAL77 até o momento da invasão do cockpit, falou, através do celular, com sua mãe, Nancy, em Las Vegas. Contou os detalhes do seqüestro. Renee pediu à mãe que alertasse a American Airlines. Só então Fort Worth soube que o vôo 77 permanecia no ar. Não batera na Torre Sul, nem caíra na Virgínia do Oeste.

Por volta das 9h30, Barbara Olson consegue falar novamente com Ted. Ele relata o que acontece em Nova York.

Ela fica em silêncio por alguns segundos, enquanto absorve o impacto da notícia.

— Onde é que vocês estão? Dá pra ver pela janela? — Ted Olson pergunta à mulher.

— A gente está voando baixo, numa zona residencial — Barbara engole em seco. — Estou vendo algumas casas.

Nesse momento, o vôo 77 da American sobrevoa Fairfax City, na periferia de Washington, apenas 15 quilômetros ao sul de Great Falls, onde os Olson moram e onde tomaram café-da-manhã juntos duas horas e meia antes.

No cockpit do 757, o saudita Hani Hanjour dá início aos procedimentos de descida para iniciar sua grande volta, de quase 360º, antes de mergulhar sobre o Pentágono.

A ligação de Barbara com Ted volta a cair. E nunca mais será restabelecida.

 

Uma amiga telefona para Melodie Homer, em Marlton, contando a respeito das Torres Gêmeas. Imediatamente, Melodie liga a CNN.

— Dois aviões, com intervalo de 17 minutos, atingiram o World Trade Center — diz a voz, em off, de Carol Lin, uma das âncoras da emissora, enquanto a tela exibe imagens dos incêndios.

Melodie preocupa-se com o que possa estar acontecendo com o marido. Resolve ligar para a United Airlines. Tem de tentar várias vezes, pois as linhas da empresa encontram-se congestionadas e a ligação cai. Finalmente, consegue ser atendida por uma operadora. Identifica-se como mulher de Leroy Homer, primeiro-oficial do vôo 93. À frente de Melodie, na tela da TV Carol Lin dá mais explicações:

— Parece cada vez menos possível ter sido um acidente.

Na United Airlines, assim como nas demais empresas aéreas, há um sistema, conhecido por sua sigla, ACARS, através do qual é possível a troca de mensagens entre as aeronaves e as salas de operação no solo, via satélite. E é pelo ACARS que Melodie Homer quer saber se Leroy está bem. Fica aguardando um retorno da operadora.

Embora, neste instante, boa parte das aeronaves que sobrevoam os Estados Unidos já tenha sido informada dos atentados no World Trade Center, no vôo UAL93 o comandante Jason Dahl e seu copiloto Leroy Homer ainda não sabem de nada.

Apesar dos milhares de vôos comerciais que cruzam os céus dos Estados Unidos a qualquer instante do dia ou da noite, não há, neste 11 de setembro de 2001, nenhum procedimento através do qual todos os vôos comerciais tenham condições de receber, ao mesmo tempo, ou com diferença de poucos minutos, um comunicado, uma notificação qualquer. Aliás, não há uma rotina estabelecida pela qual a FAA, a Força Aérea, o comando das Forças Armadas, a Casa Branca, o FBI, a CIA e o Serviço Secreto possam trocar informações urgentes e simultâneas. Os órgãos, assim como as empresas aéreas e os centros de controle de vôo, são estanques, egocêntricos. Ninguém fala com ninguém.

Nesta manhã, o único elo entre todos são as telas da TV, principalmente a da CNN. Através das emissoras, desde o presidente George W. Bush, em seu convescote escolar na Flórida, até Sophia Addo, negra, pobre, 36 anos, faxineira do Windows on the World, condenada à morte no 107º andar da Torre Norte, sabem o que está acontecendo.

Na cabine de comando do UAL93, há milhares de dólares em equipamentos de vôo de última geração: navegador inercial a laser, radar meteorológico, três sistemas de piloto automático, detector de colisão, computadores, rádios os mais diversos e sofisticados e muitos outros. Mas nenhum deles seria melhor do que um mísero aparelho preto-e-branco de TV, por meio do qual o comandante e o copiloto pudessem tomar conhecimento dos ataques na Costa Leste.

Os três seqüestros aconteceram, respectivamente, há 65, 36 e 25 minutos, os choques contra as torres há 31 e 15 minutos, e o UAL93 prossegue mansamente em sua rota para São Francisco.

 

Chicago, 9h19 da manhã. Sala de operações da United Airlines.

Ed Ballinger, despachante operacional, tem, neste momento, sob sua responsabilidade, 16 vôos da empresa. Preocupado com o que está acontecendo, antes de enviar o recado de Melodie para Leroy ele resolve, por conta própria, informar seus pilotos sobre o risco de uma invasão do cockpit. Mas não tem como enviar 16 comunicados simultâneos. Seu sistema não permite. É preciso digitá-los um a um.

Preciosos minutos se passam até que a mensagem de Ballinger chega à cabine de comando do vôo 93. Surge numa tela do console central, logo atrás dos manetes. Os pilotos podem passá-la para o papel, numa pequena impressora, e quase sempre o fazem, pois um comunicado apaga da tela o anterior. Homer comanda a impressão, lê o papelote e, imediatamente, o passa para Dahl.

“Ed Ballinger — 9h21 — Beware of cockpit invasion. Two a/c hit World Trade Center” (Cuidado com invasão do cockpit. Duas aeronaves atingiram o World Trade Center).

Pasmo, Jason Dahl quer uma confirmação. Digita, ele mesmo, com a mão direita, no teclado logo abaixo da tela, de volta para o despachante:

“Ed, confirm last msg, plz — Jason” (Ed, confirme última mensagem, por favor, Jason).

Entra então, na tela do UAL93, a pergunta de Melodie:

“Ed Ballinger — 9h22 — Leroy. Wife called. Are you okay? Please respond ” (Leroy. Sua mulher ligou. Você está bem? Por favor, responda).

 

Leroy Homer não teve tempo de responder.

© Keystone

Cobertas de poeira, feridas, em pânico — assim ficaram as pessoas que tentavam se salvar, nas ruas próximas ao World Trade Center.