Plano de Ataque: A História dos Voos de 11 de Setembro

Bem-Vindos Aos Estados Unidos da América

BEM-VINDOS AOS ESTADOS UNIDOS

DA AMÉRICA

Quando chegaram à Califórnia, em janeiro de 2000, Nawaf al Hazmi e Khalid al Mihdhar pensavam em se estabelecer em Los Angeles, onde aprenderiam a falar inglês e a pilotar aviões. Mas acharam a cidade grande e confusa demais. Na mesquita Fahd, no subúrbio de Culver City, que conheceram nos primeiros dias, um devoto lhes sugeriu que fossem para San Diego, 180 quilômetros ao sul, onde vivia uma sólida e unida comunidade árabe. Eles gostaram da idéia.

Em San Diego, com a ajuda do Centro Islâmico, Hazmi e Mihdhar alugaram um apartamento, compraram um Toyota 88 e tiraram carteira de motorista. Abriram uma conta bancária, na qual depositaram 10 mil dólares que KSM lhes entregou no Paquistão. Matricularam-se num curso de inglês, onde o desenvolvimento dos dois revelou-se pífio. E, sem falar a língua, não era possível ter aulas de vôo.

Só em abril, três meses após a chegada à Califórnia, Hazmi teve a primeira lição de pilotagem, uma aula teórica, de uma hora, no National Air College. Não entendeu quase nada do que foi dito pelo professor. Mihdhar nem tentou freqüentar o curso, pois seu inglês era nulo. E não parecia interessado em aprender.

Em maio, Hazmi e Mihdhar visitaram o Aeroclube Sorbi, também em San Diego, onde descobriram um piloto que falava árabe. Se disseram interessados em pilotar jatos. E não gostaram de saber que o aprendizado começava com aviões pequenos, a hélice e a pistão.

— Queremos jatos — insistiu Nawaf al Hazmi. — Podemos pagar.

Hazmi e Mihdhar acabaram aceitando voar em monomotores. E o início foi péssimo. Eram muito inábeis. Mesmo com um instrutor ao lado, não conseguiam manter a proa, nem a altitude, muito menos as asas niveladas. No final de maio, desistiram de pilotar. Hazmi, vice-líder da linha avançada da Operação Aviões, se conformou com o papel de coadjuvante na missão.

 

Certo dia, Mihdhar chamou o companheiro para uma conversa. Disse que queria voltar para o Oriente Médio. Sua mulher encontrava-se no Iêmen e seu primeiro filho acabara de nascer.

No sábado 10 de junho, Khalid al Mihdhar, desertor da linha de frente, viajou para o Iêmen. Hazmi, desolado, voltou para San Diego, onde arranjou um emprego de frentista num posto de gasolina na cidade vizinha de La Mesa.

Em Karachi, ao saber da defecção de Mihdhar, Khaled Sheik Mohamed ficou furioso. Temeu que todo o projeto pudesse estar em perigo. KSM viajou ao encontro de Osama bin Laden, no Afeganistão, e tentou excluir, permanentemente, Mihdhar de qualquer participação na Operação Aviões. Mas, para sua perplexidade, Bin Laden não só desculpou a atitude do desertor, como se recusou a tirá-lo da equipe. Disse que, quando chegasse o momento do ataque, Mihdhar poderia voltar aos Estados Unidos e ser útil.

Osama bin Laden sempre fora tolerante com as faltas dos subordinados. Certa vez, no Sudão, Jamal Ahmed al Fadl, um dos tesoureiros da al-Qaeda, desviou 110 mil dólares dos fundos da organização. Ao descobrir o desfalque, Bin Laden exigiu apenas que o ladrão devolvesse o dinheiro. Só que Fadl não apenas ficou com a quantia roubada, como fugiu para os Estados Unidos, onde se tornou informante da CIA.

 

Agora, com a saída de Mihdhar, KSM só não desistiu de tudo porque, em alguns fronts, as coisas evoluíam bem. Marwan al Shehhi e Mohamed Atta já se encontravam nos Estados Unidos, contatando escolas de aviação, tendo visitado a Escola de Vôo Airman, em Norman, Oklahoma, e uma outra, em Nova Jersey.

Em julho, por coincidência, Atta e Shehhi foram para a mesma cidade escolhida por Ziad Jarrah para aprender a voar: Venice, na Flórida. Mas, além de morarem em bairros diferentes, enquanto Jarrah começou seu treinamento no FFTC (Centro de Treinamento de Vôo da Flórida), Atta e Shehhi se matricularam no Programa Acelerado de Pilotagem da Huffman Aviation.

Mohamed Atta e Ziad Jarrah não se davam bem e raramente se encontravam. Desde Hamburgo, Atta não confiava no libanês. E este só aceitava formalmente, e de muito má vontade, a liderança do egípcio.

 

No final de julho, Atta e Shehhi fizeram seu primeiro vôo solo, o que aconteceu com Jarrah mais ou menos na mesma época. Por e-mail, e escrevendo em código, informaram a Ramzi Binalshibh, que se encarregou de transmitir a boa-nova a KSM.

Ao contrário de Shehhi e Atta, que não se relacionavam com os outros alunos de vôo, Ziad Jarrah, curtindo a vida ensolarada da Flórida, possuía um carro conversível e se dava bem com os de sua escola, inclusive seu instrutor, Arne Kruithof. Freqüentava festas e churrascos do grupo, nos quais não recusava uma cerveja. Nas aulas de pilotagem, Jarrah impressionava Kruithof por sua desenvoltura nos comandos.

Em agosto, Atta e Shehhi, no FFTC, e Jarrah, na Huffman, passaram nos exames prático e teórico de vôo e receberam seus brevês de piloto privado. Enquanto isso, na Califórnia, Nawaf al Hazmi continuava levando uma vida solitária, trabalhando no posto em La Mesa, quase não aprendendo inglês e sem exercer nenhuma atividade prática para a Operação Aviões.

 

Satisfeitos com o progresso dos pilotos kamikazes, Osama bin Laden e Mohamed Atef, no Afeganistão, e Khaled Sheik Mohamed, em Karachi, começaram a procurar os demais integrantes do grupo de ataque da Operação Aviões. A eles caberia controlar os passageiros e comissários de bordo, invadir as cabines e matar os pilotos.

A preferência era por solteiros e desempregados, entre 20 e 30 anos, de quatro a seis homens para cada seqüestro. Não era necessário que falassem inglês, nem que tivessem boa escolaridade. A idéia era recrutar principalmente sauditas, pois estes conseguiam vistos americanos facilmente.

Um dos primeiros selecionados foi Salem al Hazmi, irmão do vice-líder Nawaf e, como ele, nascido em Meca. Salem era a ovelha negra da família Hazmi. Além de não ser um muçulmano devoto, tomava bebidas alcoólicas, era brigão e sua ficha na polícia registrava pequenos furtos. Seu engajamento na operação suicida, sugerido por Nawaf, foi mais uma chantagem do que propriamente uma opção pessoal. Algo como:

“Você morre pela jihad, torna-se um mártir, herói da causa árabe e seus pecados serão

perdoados.”

Outros foram sendo escolhidos, muitos por indicações de clérigos muçulmanos. Ahmed al Nami, de 22 anos, e rosto inocente, recém operado dos olhos, foi recrutado durante o haji (peregrinação a Meca). Waleed al Shehri, filho do líder da tribo Al Shehri, servia de guarda no aeroporto de Kandahar ao ser convocado.

No final do verão, mais dois foram selecionados: Ahmed al Ghamdi e Saeed al Ghamdi, que não eram irmãos, mas pertenciam à mesma tribo, na remota e pobre província de Bahah, Arábia Saudita. Após aprovar cada candidato, Osama bin Laden pedia ao eleito que aceitasse a honra de morrer por Alá e que fizesse uma declaração, como mártir, filmada em vídeo.

O Samaritano acompanhava pessoalmente os treinamentos. Nem todos os voluntários, ou escolhidos, passavam pelos testes. Saeed al Baluchi e Qutaybah al Najdi, por exemplo, não revelaram, durante as simulações de combate, a coragem necessária para uma operação suicida. Outro, Zuhair al Thubaiti, tinha um temperamento muito explosivo. Os três foram descartados. A família de um dos candidatos, Mushabib al Hamlan, que até já obtivera o visto americano, descobriu seu envolvimento com a al-Qaeda e interveio, escondendo o rapaz e destruindo seu passaporte.

 

Em 7 de setembro de 2000, o Predador, pequeno avião americano de espionagem, não tripulado, sobrevoou pela primeira vez o Afeganistão. No dia 28 desse mesmo mês, a aeronave espiã captou imagens de Bin Laden, colhidas na Fazenda Tarnak, uma das bases da al-Qaeda, na periferia de Kandahar. Se o presidente Bill Clinton quisesse, poderia ter mandado assassinar Osama com mísseis. Conselhos, nesse sentido, não lhe faltaram, mas Clinton hesitou. O ataque poderia matar muitas pessoas inocentes, inclusive mulheres e crianças, e criar um sentimento de indignação no mundo árabe.

 

Na Flórida, os preparativos do grupo de elite prosseguiam. Atta, Shehhi e Jarrah voavam exaustivamente, agora em pequenos bimotores. Recursos não lhes faltavam. Em três meses, gastaram mais de 100 mil dólares em aulas de vôo, pagando tudo em dinheiro.

Ziad telefonava para Aysel todos os dias, não raro mais de uma vez. Além de falar com ela de seu apartamento, ele adquiriu um celular. Ligava da praia, do campo de pouso, de todos os lugares. Trocavam seguidos e-mails. Jarrah também falava com Binalshibh, em Hamburgo, dando conta de seus progressos.

— Estou voando um Beechcraft — certo dia ele disse, entusiasmado, como se iniciasse uma carreira promissora.

Querendo apressar seu treinamento, Atta e Shehhi se transferiram para a Jones Aviation, em Sarasota, 32 quilômetros ao norte de Venice. A experiência não deu certo. Ao contrário do que supunham, na nova escola o sistema de ensino era mais lento. Além disso, os dois árabes estranharam os instrutores. Foram reprovados num exame de IFR (vôo por instrumentos) e decidiram regressar a Venice e à Huffman. Foi uma decisão acertada para eles. Em novembro, foram habilitados na mesma prova, tornando-se pilotos comerciais.

Em San Diego, após ter desistido de aprender a voar, Nawaf al Hazmi abandonou também as aulas de inglês. Pensou em se casar, para fugir à solidão (KSM aprovou a idéia), mas não conseguiu uma esposa na comunidade muçulmana local. No posto de gasolina em La Mesa, disse a um colega árabe que iria se tornar famoso.

No início de outubro de 2000, Ziad Jarrah não resistiu às saudades de Aysel Senguen. Sem pedir permissão a Mohamed Atta, muito menos à liderança da al-Qaeda, viajou para a Alemanha, onde parou apenas para buscar a noiva. Os dois viajaram em lua-de-mel para Paris. Ziad voltou à Flórida no dia 29.

 

Se a liderança da al-Qaeda ainda era meio restritiva com os candidatos a mártir, os consulados americanos na Arábia Saudita revelavam-se uma porta aberta para a entrada dos kamikazes. Aprovavam, sem maiores restrições, cada comando da Operação Aviões. Ahmed al Ghamdi obteve seu visto em 3 de setembro. Saeed al Ghamdi, no dia seguinte. Hamza al Ghamdi, em 17 de outubro. Mohand al Shehri, seis dias depois. Waleed al Shehri e seu irmão Wail (professor de educação física de 32 anos), no dia 24. Ahmad al Haznawi, que acabara de fazer 20 anos, em 12 de novembro. Majed Moqed, um jovem estudante de Direito, da cidade saudita de Annakhil, no dia 20. Satam al Suqami, de 24, logo depois. Todos com passaportes adulterados, repletos de carimbos falsos de entrada em Cingapura, Malásia, Turquia, Egito e outros países aliados dos Estados Unidos.

Cada comando, tão logo obtinha o visto, seguia para Karachi, onde recebia, diretamente das mãos de Khaled Sheik Mohamed, um prêmio de 2 mil dólares. KSM ensinava ao eleito palavras básicas de inglês e explicava o funcionamento dos aviões comerciais. O mais importante, eles já haviam aprendido nos campos da al-Qaeda, no Afeganistão: matar rapidamente com uma faca.

 

Em Venice, Mohamed Atta e Marwan al Shehhi começaram a pilotar grandes jatos em simuladores profissionais. O mesmo fazia Ziad Jarrah, embora em local diferente. Com a chegada de Hani Hanjour, em dezembro, eram quatro os pilotos habilitados no front.

Hanjour foi treinar em sua velha conhecida Arizona Aviation. Nawaf al Hazmi, que pediu demissão de seu emprego no posto de gasolina, sentiu-se útil em acompanhá-lo. Zacarias Moussaoui, o quinto piloto kamikaze, chegou aos Estados Unidos procedente de Londres.

Vieram então os feriados de Natal e Ano Novo. Jarrah, dessa vez com autorização de Binalshibh, voltou a sair dos Estados Unidos. Foi a Beirute, visitar a família. No caminho passou pela Alemanha, para ver Aysel. Embora a data do ataque ainda não tivesse sido fixada, tudo levava a crer que se tratava da última passagem de ano do jovem libanês.

© Reuter

Os 19 seqüestradores que participaram da Operação Aviões