Plano de Ataque: A História dos Voos de 11 de Setembro
Sonho Impossível
Acompanhando o chefe Joseph Pfeifer, do 1º Batalhão do Corpo de Bombeiros de Nova York, o cinegrafista francês Jules Naudet foi uma das primeiras pessoas a entrar na Torre Norte, poucos minutos após o choque do AAL11 contra o topo do prédio. Depois da equipe precursora, comandada por Pfeifer, bombeiros de quase todas as guarnições da cidade haviam sido enviados para o World Trade Center. Naudet se manteve firme em meio ao caos do lobby do térreo, filmando cada detalhe da movimentação.
Quando, um minuto antes das dez da manhã, houve o primeiro desmoronamento, no saguão da Torre Norte todos ouviram, e sentiram, um grande estalo. Estalo que se transformou em um estrondo assustador, que veio descendo, aumentando de intensidade, se aproximando do chão de modo aterrorizante. Era impossível saber o que acontecia, muito menos que o estrondo vinha da torre ao lado. Uns pensavam em uma explosão; outros, que a própria Torre Norte estivesse desabando sobre suas cabeças.
Perto de Naudet, a maioria dos bombeiros e demais integrantes das equipes de socorro entrou em pânico. O medo marcava seus rostos. Muitos homens caíram de joelhos, resignando-se com o fim. Outros correram. Correram em círculos, para lugar nenhum. Uma nuvem de poeira e destroços veio do subsolo, através do vão das escadas rolantes. Interrompeu-se o fluxo de energia elétrica.
Por segundos, o saguão permaneceu totalmente às escuras. Mas logo as luzes de emergência se acenderam automaticamente. Foram mais alguns breves momentos de tênue claridade, seguidos de novas trevas, agora provocadas pela poeira e pela fumaça. E Jules Naudet continuou filmando as entranhas do Trade Center. Filmando a própria ausência de imagens. Soprava e limpava com as mãos a lente da câmera, tentando captar, ao menos, alguma sombra, algum espectro que ilustrasse a catástrofe ao redor.
10h04. A Torre Sul já desmoronou há cinco minutos. Um dos helicópteros da polícia, que sobrevoa o complexo do World Trade Center, informa que a parte externa dos andares mais altos da Torre Norte está ficando vermelha.
— Acho que a segunda torre também vai cair — adverte, com voz assustada, o piloto.
No 27º andar da Torre Norte, Abe Zelmanowitz e o bombeiro Rich Billy continuavam tomando conta do tetraplégico Ed Beyea quando a torre ao lado desabou. Dois oficiais da corporação, capitão William F. Burke e tenente Greg Hansson, que vinham descendo as escadas, uniram-se aos três.
Veio então, pelo rádio, diretamente do comando, a seguinte ordem:
— Atenção, todas as unidades em ação no World Trade Center.
Evacuem os prédios. Repito: Evacuem os prédios.
Burke não hesitou. Mandou Billy e Hansson descerem, pois o número de homens era ainda insuficiente para carregar, com agilidade e segurança, Beyea (o obeso Zelmanowitz não seria de nenhuma ajuda). Burke também percebeu que se Beyea fosse levado escada abaixo isso bloquearia o caminho de fuga dos bombeiros.
Ele mesmo, capitão Burke, não teve coragem de abandonar o homem indefeso. Abe Zelmanowitz também não quis deixar o amigo. Os dois decidiram permanecer ao lado de Beyea.
Chris Young, o mensageiro/bailarino, o Dom Quixote da Marsh & McLennan, preso em um dos elevadores da Torre Norte, tinha ouvido, 25 minutos antes, o estrondo da Torre Sul desmoronando. Sentiu os sintomas de um terremoto ao contrário, descendo em sua direção.
Young encolheu-se todo, estremeceu até os ossos, certo de que o prédio caía sobre si. Torceu apenas para que o fim fosse rápido e indolor. Quis morrer como um inseto esmagado sob a sola de um sapato.
Só que o terremoto passou ao largo, e ao lado. Aos poucos, seu rugido foi cessando. Sobreveio um silêncio sepulcral.
Young começou a cantarolar The Impossible Dream (O sonho impossível).
“To dream the impossible dream…” (Sonhar o sonho impossível…)
10h26. Chris Young, o sonhador da Torre Norte, tenta, pela enésima vez, abrir a porta do elevador. Procura enfiar os dedos através da estreita fresta que separa as duas metades da porta. Só que, desta vez, para sua grande surpresa, consegue afastá-las sem nenhum esforço. A surpresa se transforma em perplexidade quando Young se defronta com o saguão esfumaçado, deserto e quase totalmente às escuras do térreo.
O elevador está menos de meio metro acima do nível do solo.
Durante todo aquele tempo, desde o choque do vôo 11 da American Airlines contra o Trade Center, que coincidiu com seu salto de balé, Chris Young esteve no térreo. Mais tarde, como a queda do prédio ao lado interrompeu o abastecimento de energia da Torre Norte, o sistema que impedia que as portas dos elevadores se abrissem fora dos andares foi desativado.
Young salta para o lobby, atravessa-o rapidamente e sai do prédio, passando para o pátio através de um rombo na vidraça. Começa a se afastar para longe, pela West Street, afundando os pés na poeira de cimento e desviando-se dos detritos, quando um bombeiro, que olha para cima, grita em sua direção:
— Corre, homem! Corre!
Chris Young é a última pessoa a escapar de um elevador das Torres Gêmeas. Exatamente às 10h28min25s, a Torre Norte desmorona. Tal como sua vizinha, cai de pé. Centenas de pessoas, que ainda permaneciam vivas no interior do prédio, a maioria encurralada acima da zona de impacto, morrem esmagadas, entre elas Abe Zelmanowitz, seu amigo Ed Beyea e o capitão Burke, dos Bombeiros, que os acompanha.
Jules Naudet, o cinegrafista, saiu do lobby da Torre Norte pouco antes de Chris Young, quando o chefe Joseph Pfeifer considerou insustentável a situação deles ali. O francês e o chefe, assim como diversos bombeiros, fugiram através de uma passarela coberta que dava passagem para o Six World Trade Center, um prédio baixo ao lado da torre. Enquanto caminhava em passadas largas, Jules manteve a câmera ao lado do corpo, colhendo imagens dos homens que iam à sua frente.
Logo depois, Naudet capta o estrondo crescente da Torre Norte desabando, assim como a nuvem de poeira que vem em sua direção. Escapa de morrer asfixiado por ela, ao se jogar debaixo de uma viatura do Corpo de Bombeiros. A câmera, sempre ligada, registra, com seu microfone, as batidas secas dos destroços que caem sobre o veículo. Até que não se ouve mais nada. E o francês capta o silêncio absoluto, quebrado apenas pelo assobio do vento, como se a ponta sul da ilha de Manhattan estivesse atravessando um inverno nuclear.
O documentário inicial de Naudet, cujo argumento era a história de um recruta que se transforma de rapaz em homem em poucas semanas, acaba sendo um documentário sobre si mesmo, um despretensioso jovem francês que envelhece dez anos em pouco mais de noventa minutos.
Se as Torres Gêmeas, em vez de caírem de pé, tivessem tombado para um dos lados, a tragédia teria tido proporções apocalípticas, tal como sonhou o paquistanês Ramzi Yousef, O Químico, que tentara derrubá-las com um carro-bomba em 1993.
Uma queda com efeito dominó teria arrastado, com o World Trade Center, boa parte dos arranha-céus do Distrito Financeiro do sul de Manhattan. Em lugar de sofrer um segundo Pearl Harbor, analogia feita por muitos na ocasião dos atentados, os americanos teriam testemunhado uma outra Hiroshima. O número de mortos poderia ter chegado a dezenas de milhares, não só nos prédios próximos ao WTC, como entre a multidão que se concentrava na ponta da ilha para ver o incêndio.
Mil e trezentos quilômetros ao sul da cidade de Nova York, a bordo do Força Aérea no 1, na rota entre Sarasota, Flórida, e a Base Aérea de Barksdale, na Lousiana, o presidente George W. Bush, depois de discutir o assunto com o vice Dick Cheney, ordenou a derrubada de aeronaves de passageiros que estivessem voando — sem autorização e acompanhamento dos órgãos de controle de vôo em terra — em direção a centros populosos dos Estados Unidos da América.