Poemas

Júlio Dinis · Capítulo 9 de 93

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Poemas

Culto Secreto

Ouve, lânguida virgem das cidades,

A paixão que me inspiraste.

Curvada, como a flor em vaso de ouro,

Tu, bela, me encantaste.

Eu vi-te assim pendida; a estrela de alva

Ao surgir do oriente

Não nos envia mais saudosos raios

Do seu leito fulgente.

A viração da tarde, mais amena

No bosque, não murmura;

A alva açucena, que o vergel enfeita, Não tem a cor mais pura.

Eu vi-te, e desde então sempre nos meus sonhos Surges, e magoada

Pareces ver as vagas desta vida

Na margem debruçada.

Vejo-te então ainda, e pensativa,

Os lábios entreabertos,

Murmurando em sentida linguagem

Pensamentos incertos.

Vejo-te ainda, as lágrimas ferventes

Dos olhos rebentando,

E, ao correrem nas faces, indiscretas,

Segredos revelando.

Que segredo é o teu, lânguida virgem,

Ideal dos meus amores?

Que imaginas nos sonhos dessas noites

Tão cheias de fulgores?

Que mistério procuras no ocidente

Ao desmaiar do dia?

Ou que visão esperas, quando a aurora

Com rosas se anuncia?

Que oculto sentimento reprimido

Te faz ansiar o seio?

Que íntima dor, que pensamento acerbo? Que indefinido enleio?

Olha, se o coração te pede amores,

Virgem, não chores, canta,

Para ti é que são as flores da vida

E a luz que nos encanta.

Tu, sim, podes amar; nas sacras aras

Dessa chama inquieta,

Ateia o sacro fogo com que inflamas

O coração do poeta.

Tu sim, podes amar; mas eu... se ao ver-te Interrogo o futuro,

Uma voz me murmura: «Adora, mártir,

Adora, e morre obscuro».

ENFIM!

Enfim! enfim! encontrei-te.

Luz há tanto suspirada!

Raiaste, aurora fadada

De um longo dia de amor!

Resplandece,

Sol brilhante

Da primavera da vida!

Surge, surge, estrela querida,

Que tão grato é teu fulgor!

Se soubesses como ansioso

Aguardava este momento,

Que há tanto no pensamento Me aprazia em conceber!

Se soubesses, minha esperança,

Que anelar ardente e incerto

Na aridez deste deserto

Me fazia esperar e crer!

Ai, bem-vinda, mensageira

De uma indizível ventura!

A uma vida de amargura,

Ridente imagem, põe fim!

Para longe esta tristeza,

Vejo enfim formosos dias!

Oh! dá-me, dá-me alegrias,

Que me cansa a vida assim!

Qual a terra desflorida Pelas mãos do Inverno agreste,

Que de gelos a reveste,

E lhe afrouxa a luz do Sol;

Cinge as vestes de verdura,

Toda de amor palpitante,

Qual virgem junto do amante

Da Primavera ao arrebol;

Tal minha alma envolta em trevas

De um passado de incerteza,

Rasga o seu véu de tristeza,

Ao ver-te surgir, amor!

E num hino de alegria

Saúda a risonha aurora,

Que deslumbrante a namora

Com fatídico fulgor,

Bela flor, fragrante rosa

Nos agros campos da vida,

Entre as outras escondida,

Como pudeste florir!

Como os vendavais furiosos

Das tempestades humanas,

Em suas fúrias insanas

Te não puderam ferir?

Foi condão do Céu por certo,

Foi talvez aura celeste

Que, ao nasceres, recebeste

E em ti se difundiu;

E, forte, desceste ao mundo,

Brilhando de luz divina;

Essa luz que me fascina,

Que nas trevas me sorriu!

Também, tu, bela, aspiravas

A um futuro vago ainda?

Também uma dita infinda

Te pedia o coração?

Ai, conta-me os teus segredos,

Os teus sonhos, teus anelos,

Conta-me, quero sabê-los:

Os teus sentimentos meus são.

 

Diz-me se naquele instante,

Em que te vi meiga e bela,

Quando tu, formosa estrela, Te elevaste no meu céu,

Uma voz misteriosa,

Prendendo-te em doce enleio,

Segredar-te ao ouvido veio:

«Ama! teu dia nasceu!»

Diz-me, se ao viver inquieto

Por não sei que oculta chama

Não sucede, quando se ama,

Uma existência de paz?

Se no horizonte sombrio,

Novo astro fulgurando,

Longínquas praias mostrando,

Venturas ver-te não faz?

Conta-me a vida passada Antes do mágico instante

Em que te vi radiante

Meiga visão a sorrir.

Diz-me os teus jogos da infância

As lágrimas que verteste,

As penas que padeceste,

Sem eu as poder sentir.

Tu choravas! quando longe

Eu de ti, talvez sorria!

Tu choravas! e eu podia

Tão indiferente viver!

Oh! não! mística influência,

Que dois entes num só liga,

Embora longe, os obriga

Um com outro a padecer.

E é esse, esse o segredo

Da tristeza indefinida,

Que em certas horas da vida

Nos oprime o coração;

Esse o segredo das lágrimas,

Que de olhos virgíneos correm,

E dos suspiros que morrem

Nas asas da viração

Mas deixemos o passado,

Suas penas, suas dores,

Deixemos auras melhores

Nos manda o porvir de além,

Qual no meio do oceano,

Após longínqua viagem, Ao nauta fragrante aragem

Da Pátria falar-lhe vem.

Em que mago encantamento

Esta dita a alma me embebe!

Só quem o sente o concebe;

Não se exprime este prazer!

Bem hajas, cândida virgem!

Bem hajas tu, que no seio

De aspirações todo cheio,

O amor fizeste nascer!

Adeus pois, passado triste,

Longas horas de amargura;

Adeus, paz da sepultura,

Sem encantos para mim;

Adeus sofrimentos vagos,

Adeus, febris pensamentos;

Esperam-me outros momentos,

Que o amor surgiu enfim.

Acorda pois, ó minha alma,

Chegou enfim a tua festa;

E qual se adorna a floresta

Da manhã ao grato alvor,

Veste também tuas galas,

O teu mais florido manto

E leva um sentido canto

Ao sol da vida, ao amor!

Julho de 1859.

Nota do Autor. — Em vez de — enfim — antes lhe devera chamar — rebate falso. A ser mais de que um sonho, não passou de um desejo. Não se deve portanto tirar ilações arrojadas porque seriam falsas.