Poemas

Júlio Dinis · Capítulo 88 de 93

Páginas do PDF

Poemas

A noite era de Inverno, húmida, escura…

ORAÇÃO DO REITOR

A noite era de Inverno, húmida, escura e fria. Soprava nos pinhais furiosa a ventania,

Imitando o bramir de um tormentoso mar.

Os sinos do mosteiro ouviam-se vibrar.

E, contudo, ninguém subira ao campanário. A alameda do adro e o morro do Calvário, Onde se ergue imponente o sacro emblema — a Cruz — Rasgando o negro véu, enchiam-se de luz Quando do céu pesado o raio fuzilava:

Luz sinistra, fatal, como de ardente lava.

A aldeia repousava em plácido dormir;

Sono que não perturba esta ânsia do porvir Que à vida nos consome, aos filhos das cidades;

Este sonhar sem fim, estas vagas saudades Sempre, sempre a fugir de um fantasiado bem Que à nossa cabeceira acalentar-nos vem. A aldeia repousava. As cinzas da lareira

Onde há pouco ainda ardia a paternal fogueira Cujo grato calor as horas do serão

Ajudara a passar, frias, extintas são.

Porém na residência um homem ainda vela, Pois que uma frouxa luz, através da janela, Parece estar dizendo ao povo que adormece: — «Dorme, que o teu pastor de velar não se esquece!»

O pároco velava. As venerandas cãs

Pendentes sobre um livro. Em orações cristãs Iam-se, muita vez, assim, noites inteiras... As contas do rosário eram-lhe companheiras.

Julgava-se ele então, o bondoso reitor,

Mais próximo do Céu, mais junto do Senhor! E, Moisés do seu povo, ouvindo mais de perto A palavra da lei que, no árido deserto,

O devia guiar por grandes provações,

Sentia então mais fé nas suas orações!

A estância humilde e nua do velho cenobita Parece receber misteriosa visita

Sempre que, como agora, embevecido e só, Lê, de David, um salmo, um lamento de Job. Páginas imortais dos Santos Evangelhos! Pois houve quem o viu, caindo de joelhos, Erguer, cheio de ardor, os olhos para o Céu, Como se, descerrando o impenetrável véu, Que, aos olhos dos mortais, cobre o mistério augusto, Lho deixasse encarar sem turbação nem custo.

Vivera a fazer bem. Envelhecera assim.

Eram-lhe distrações as flores do jardim,

O ensino da infância, a esmola aos indigentes E o salutar conselho aos jovens e imprudentes. Logo pela manhã, mal sentia o arrebol,

Ia-se para o monte, a ver nascer o Sol,

E voltava a almoçar mais leve do que fora, Que a esmola o acompanhava e é grande gastadora. Não sabia, o bom velho, há muito resistir... Cedia-lhe sorrindo... Abençoado sorrir!

Sempre sóbrio e frugal. O santo sacerdote, Quisera, muita vez, entesourar um dote

Para as filhas de Deus, órfãs de pai e mãe! Socorria a chorar! Pois chorava também,

Sempre que chorar via, ou de prazer ou pena. Em tudo refletia aquela alma serena, Como lago tranquilo, ao tombar do escarcéu, As nuvens reproduz que perpassam no céu... Com que amor acolhia alguma alma perdida Que o vinha procurar, um dia, arrependida! Com que sentida fé lhe falava da Cruz,

Prometendo o perdão em nome de Jesus!

Quando à missa do dia, ao povo que o escutava, Com voz trêmula já, da religião falava,

Na prática singela havia tal unção

Que vinham gravar-se fundas, no coração, As palavras de amor, de paz, de tolerância.

E o povo procurava ouvi-lo com instância.

Ora naquela noite, que parecia sem fim, Com fé ardente e pura, o velho orava assim:

«Senhor! Que, generoso,

Todas as aves nutres,

Os pérfidos abutres

E os brandos rouxinóis!

Que juntas nos espaços,

Às nuvens das procelas,

Os raios das estrelas,

A luz de imensos sóis!

«Que à borda dos abismos

Fazes brotar a planta;

Da flor que nos encanta

A áspide fatal;

E a plácida corrente Tornas, num simples gesto,

Em vórtice fremente,

E a brisa em vendaval!

«Senhor! quem pode, ousado,

Sondar os teus mistérios?

Sombras dos cemitérios,

Acaso o podereis?

Mas nós, cegos ainda,

Na sombra intensa, espessa,

Curvemos a cabeça

A tuas santas leis!

«Por isso, se no mundo,

Olharmos, surpreendidos,

Os bons aos maus unidos, Unido o mal ao bem...

Que os lábios se não manchem

Na imprecação maldita!

É lei que está escrita

Em letras de ouro, além...

«Além, por essa abóbada,

Alta, sublime, imensa,

Onde a alma do que pensa

Se perde a meditar...

Abramos, pois, os braços

A todos igualmente.

A Deus, a Deus somente,

Compete esse extremar.»

uma canção que o interrompe:

«Pobre flor que, nos campos nascida,

Entre moitas de humildes violetas,

Tão saudosa no campo vegetas,

Sem um raio de fúlgido sol!

Pobre flor, solitária, ignorada,

Só a estrela do céu te namora,

Só te beija o rocio da aurora

E te fala o subtil rouxinol!

«Ai, se um dia escutares, atenta,

Essa voz, ó violeta da aldeia,

Essa voz que embriaga, que enleia,

Qual suave harmonia do Céu,

Nova luz se fará na tua alma"...

E, chamando-te à vida os sentidos Te abrirá os países floridos

Que ainda envolve um tenuíssimo véu.»

A canção cessou e o velho reitor segue com a prece:

«Senhor! Bendito sejas

Na tua majestade!

Por toda a imensidade

O teu nome escrito jaz!...

E tu, soberba humana,

Lembra-te que és poeira...

E, na hora derradeira,

A sê-lo voltarás...»