Poemas
O Bom Reitor
Sabem a história triste
Do bom reitor?
Mísero, toda a vida
Levou com dor.
Fez quanto bem podia,
Mas... afinal
Morre, e na pobre campa
Nem um sinal.
Nem uma cruz ao menos
Se ergue no chão!
Geme-lhe só no túmulo A viração.
Vedes, além, na relva
Junto ao rosai,
Flores que há desfolhado
O vendaval?
Cobrem-lhe a lousa humilde;
A criação
Paga-lhe assim a dívida
De compaixão.
Pobres, que amava tanto,
Nunca, ao passar,
Choram, curvando a cara
Para rezar.
Nunca, ao romper do dia,
O lavrador
Pára e lamenta a sorte
Do bom reitor.
As criancinhas nuas
Que estremeceu,
Já nem sequer se lembram
Do nome seu.
No salgueiral vizinho,
Ao pôr do Sol,
Vai carpir-lhe saudades
O rouxinol.
Lágrimas... pobre campal
Ai, não as tem;
Só da manhã o orvalho
Rociá-la vem.
Da solitária Lua
A triste luz
Grava-lhe em vagas sombras,
Estranha cruz.
E ele repousa, dorme,
Vive no Céu.
Dorme, esquecido e humilde,
Como viveu.
Há nesta vida amarga Sortes assim:
Vive-se num martírio,
Morre-se enfim.
Sem que memória fique
Para contar Às gerações que passam,
Nosso penar.
Quem me escutar, se um dia
Ao prado for,
Ore pelo descanso
Do bom reitor.
Julho de 1864
INICIAÇÃO
Além, naquela avenida,
De plátanos e salgueiros,
Foi que nos teus beijos primeiros
Bebi a primeira vida.
Sob os copados verdores
Daquela frondosa rua,
Mal vistos da própria Lua,
Falávamos nós de amores.
Todos na nossa procura,
Nós a rirmos escondidos.
Oh! que instantes decorridos!
Oh! que rápida ventura!
«Vai», coseste-me ao partires,
Que estes beijos te deem vida.
Adeus, a infância é volvida!
Luta, e... se não sucumbires...»
E a voz faltava-te em meio;
E eu disse com modo brando:
«Se não sucumbir?...» Chorando
Apertaste-me ao teu seio.
«Volta; e a sentida promessa,
Que nos meus beijos entendeste,
Cumprida será». Disseste:
«Adeus. A luta começa.»
E começava! Ai, por vezes
Me tomou o desalento;
Porém aquele momento
Lembrava-me nos reveses.
Lutei. E ao voltar agora
Com as lembranças do passado,
Diz-me, anjo, se me é dado
Recordar-te ainda essa hora?
1885