Poemas

Júlio Dinis · Capítulo 31 de 93

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Poemas

O Bom Reitor

Sabem a história triste

Do bom reitor?

Mísero, toda a vida

Levou com dor.

Fez quanto bem podia,

Mas... afinal

Morre, e na pobre campa

Nem um sinal.

Nem uma cruz ao menos

Se ergue no chão!

Geme-lhe só no túmulo A viração.

Vedes, além, na relva

Junto ao rosai,

Flores que há desfolhado

O vendaval?

Cobrem-lhe a lousa humilde;

A criação

Paga-lhe assim a dívida

De compaixão.

Pobres, que amava tanto,

Nunca, ao passar,

Choram, curvando a cara

Para rezar.

Nunca, ao romper do dia,

O lavrador

Pára e lamenta a sorte

Do bom reitor.

As criancinhas nuas

Que estremeceu,

Já nem sequer se lembram

Do nome seu.

No salgueiral vizinho,

Ao pôr do Sol,

Vai carpir-lhe saudades

O rouxinol.

Lágrimas... pobre campal

Ai, não as tem;

Só da manhã o orvalho

Rociá-la vem.

Da solitária Lua

A triste luz

Grava-lhe em vagas sombras,

Estranha cruz.

E ele repousa, dorme,

Vive no Céu.

Dorme, esquecido e humilde,

Como viveu.

Há nesta vida amarga Sortes assim:

Vive-se num martírio,

Morre-se enfim.

Sem que memória fique

Para contar Às gerações que passam,

Nosso penar.

Quem me escutar, se um dia

Ao prado for,

Ore pelo descanso

Do bom reitor.

Julho de 1864

INICIAÇÃO

Além, naquela avenida,

De plátanos e salgueiros,

Foi que nos teus beijos primeiros

Bebi a primeira vida.

Sob os copados verdores

Daquela frondosa rua,

Mal vistos da própria Lua,

Falávamos nós de amores.

Todos na nossa procura,

Nós a rirmos escondidos.

Oh! que instantes decorridos!

Oh! que rápida ventura!

«Vai», coseste-me ao partires,

Que estes beijos te deem vida.

Adeus, a infância é volvida!

Luta, e... se não sucumbires...»

E a voz faltava-te em meio;

E eu disse com modo brando:

«Se não sucumbir?...» Chorando

Apertaste-me ao teu seio.

«Volta; e a sentida promessa,

Que nos meus beijos entendeste,

Cumprida será». Disseste:

«Adeus. A luta começa.»

E começava! Ai, por vezes

Me tomou o desalento;

Porém aquele momento

Lembrava-me nos reveses.

Lutei. E ao voltar agora

Com as lembranças do passado,

Diz-me, anjo, se me é dado

Recordar-te ainda essa hora?

1885