Poemas

Júlio Dinis · Capítulo 37 de 93

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Poemas

Capítulo I

NO ALTAR DA PÁTRIA

(Ao meu amigo João Marques Nogueira Uma)

I

Tinge do oriente as serras

O matutino alvor;

E do clarim das guerras

Se ouve o mortal clangor.

— «Ai, grata paz dos lares,

Adeus, força é partir.

Ó sombra dos pomares!

Ó rosas a florir!

«As hostes reunidas

Chamam-me a combater,

Ai, longas avenidas,

Tornar-vos-ei a ver?

«Adeus, loucos amores!

Adeus, beijos febris,

Adeus, mudos verdores,

Que em sombras os encobris.»

— «Ó mãe, dá-me uma espada

Oiço da Pátria a voz!»

— «Ei-la. É imaculada,

Era a dos teus avós!»

— «Pura a trarei, voltando...

Se não morrer ali.»

— «Vai! disse a mãe, chorando,

Eu rezarei por ti.»

— «Filho, meu filho, espera!

Não me ouve já. Partiu!»

E o ardor que a sustivera

De todo se extinguiu.

II

No campo já se escuta

Das alas o marchar.

Que agigantada luta

Além se vai travar?

Dá-se o sinal! Furiosas Partem as legiões;

Encontram-se raivosas

Bramem como os leões.

Ai, que tinir de espadas!

Que estrépito fatal!

Que vozes angustiadas

Se escutam no arraial!

O sangue rutilante

Inunda e tinge o chão;

Aos ais do agonizante

Responde a imprecação.

Em pé, os combatentes,

Perdidos os corcéis, Cingem-se quais serpentes

Em pérfidos anéis.

A luta é braço a braço,

A golpes de punhais;

Se caem de cansaço,

Não se levantam mais.

A luta é peito a peito,

Terrível e cruel!

Às cãs não há respeito,

À dor não há quartel!

III

Findou! Tranquilo é tudo...

Já tudo emudeceu.

O campo é triste e mudo;

É triste e escuro o céu!

A custa de mil vidas

Salvou-se a Pátria enfim!

Mas porque são sentidas

As vozes do clarim?

As hostes vitoriosas

Porque tão tristes vêm?

Ai, que ânsias dolorosas

Sentia a pobre mãe!

Passa a primeira fila...

Mísera, que o não vês!...

Outra, outra mais. Vacila...

Cresce-lhe a palidez!

Olha-as uma por uma,

E a última passou;

E delas em nenhuma

Inquieta o filho achou!

E o céu mais se escurece;

O campo é envolto em pó;

E a triste permanece

Absorta, muda e só!

IV

Que solidão de morte!

Que erma a planície jaz!

Dorme no campo o forte,

Sono de glória e paz.

Dorme a valente raça

De intrépidos heróis!

Cegos, ao sol que passa

Saúdam novos sóis.

Que sepulcral figura

Se adianta além subtil;

Tão cheio de amargura

O gesto e o olhar febril!

À ensanguentada arena

Os passos seus conduz;

Raiou sobre esta cena

Da Lua a tarda luz.

Súbito em desvario

Solta um sentido ai,

Junto a um cadáver frio

Desfeita em choro cai.

«És tu! és tu? ai, filho!

Ai, como te encontrei!

Como estão já sem brilho

Os olhos que eu beijei!

«Vai, sombra idolatrada,

À tua Pátria, aos Céus!»

Cinge-lhe ao peito a espada;

Morre ao dizer-lhe: «Adeus!»