Poemas
Capítulo I
NO ALTAR DA PÁTRIA
(Ao meu amigo João Marques Nogueira Uma)
I
Tinge do oriente as serras
O matutino alvor;
E do clarim das guerras
Se ouve o mortal clangor.
— «Ai, grata paz dos lares,
Adeus, força é partir.
Ó sombra dos pomares!
Ó rosas a florir!
«As hostes reunidas
Chamam-me a combater,
Ai, longas avenidas,
Tornar-vos-ei a ver?
«Adeus, loucos amores!
Adeus, beijos febris,
Adeus, mudos verdores,
Que em sombras os encobris.»
— «Ó mãe, dá-me uma espada
Oiço da Pátria a voz!»
— «Ei-la. É imaculada,
Era a dos teus avós!»
— «Pura a trarei, voltando...
Se não morrer ali.»
— «Vai! disse a mãe, chorando,
Eu rezarei por ti.»
— «Filho, meu filho, espera!
Não me ouve já. Partiu!»
E o ardor que a sustivera
De todo se extinguiu.
II
No campo já se escuta
Das alas o marchar.
Que agigantada luta
Além se vai travar?
Dá-se o sinal! Furiosas Partem as legiões;
Encontram-se raivosas
Bramem como os leões.
Ai, que tinir de espadas!
Que estrépito fatal!
Que vozes angustiadas
Se escutam no arraial!
O sangue rutilante
Inunda e tinge o chão;
Aos ais do agonizante
Responde a imprecação.
Em pé, os combatentes,
Perdidos os corcéis, Cingem-se quais serpentes
Em pérfidos anéis.
A luta é braço a braço,
A golpes de punhais;
Se caem de cansaço,
Não se levantam mais.
A luta é peito a peito,
Terrível e cruel!
Às cãs não há respeito,
À dor não há quartel!
III
Findou! Tranquilo é tudo...
Já tudo emudeceu.
O campo é triste e mudo;
É triste e escuro o céu!
A custa de mil vidas
Salvou-se a Pátria enfim!
Mas porque são sentidas
As vozes do clarim?
As hostes vitoriosas
Porque tão tristes vêm?
Ai, que ânsias dolorosas
Sentia a pobre mãe!
Passa a primeira fila...
Mísera, que o não vês!...
Outra, outra mais. Vacila...
Cresce-lhe a palidez!
Olha-as uma por uma,
E a última passou;
E delas em nenhuma
Inquieta o filho achou!
E o céu mais se escurece;
O campo é envolto em pó;
E a triste permanece
Absorta, muda e só!
IV
Que solidão de morte!
Que erma a planície jaz!
Dorme no campo o forte,
Sono de glória e paz.
Dorme a valente raça
De intrépidos heróis!
Cegos, ao sol que passa
Saúdam novos sóis.
Que sepulcral figura
Se adianta além subtil;
Tão cheio de amargura
O gesto e o olhar febril!
À ensanguentada arena
Os passos seus conduz;
Raiou sobre esta cena
Da Lua a tarda luz.
Súbito em desvario
Solta um sentido ai,
Junto a um cadáver frio
Desfeita em choro cai.
«És tu! és tu? ai, filho!
Ai, como te encontrei!
Como estão já sem brilho
Os olhos que eu beijei!
«Vai, sombra idolatrada,
À tua Pátria, aos Céus!»
Cinge-lhe ao peito a espada;
Morre ao dizer-lhe: «Adeus!»